Resumption
68 Capitulo 68
Notas iniciais
Pov – Benjamin
Fico no colo do meu pai, olho a menina mamando e penso que gosto um pouco dela. Meu pai faz carinho no meu cabelo e agora que ele está com a gente eu não fico mais com muito medo.
─Que tal me contar como foi que ajudou a sua irmã a nascer?
─A gente viu os zumbis quando vinha da escola, ficamos no quarto fechados, minha mãe sabe matar zumbis.
─Se sabe. – Olho para Clarie e depois para a lança ainda suja de sangue encostada na porta do quarto.
─Ela deitou no chão e peguei um lençol, fiquei esperando, lembrei de tudo que a doutora disse, ainda bem que perguntei todas aquelas coisas para ela. Tinha zumbis e pensei que eles entrariam. Ela começou a sair e depois eu segurei e entreguei ela para minha mãe. A gente cortou o cordão.
─Fez tudo isso? – Meu pai me olha bem feliz.
─Fiz, não faço mais coisas feias, só coisas boas, e não xinguei ninguém, mesmo nervoso, e depois eu fui ficar no armário, não queria, mas minha mãe pensou que ia morrer e morder a gente.
─Sinto muito não estar aqui para cuidar das coisas Ben, obrigada por fazer isso.
─Tudo bem pai. Não vai mais lá fora. Não é? Minha mãe e a menininha precisam de você.
─Como é isso de colocar um nome na sua irmãzinha e chama-la de menininha? – Eu sorrio.
─Mel. É bonito, acho que ela vai gostar de mim.
─Vai amar você. Já ama muito, ajudou ela.
─Daryl, coloca ela no bercinho. – Minha mãe pede e meu pai me solta e pega a Mel, ela está dormindo e ele beija a cabeça dela antes de colocar no berço bem pertinho da minha mãe. – Estamos seguros? – Ela pergunta e meu pai senta pertinho dela.
─Aqui dentro sim. Estamos ilhados Clarie, mas dentro de casa tudo está bem.
─Preciso desesperadamente dormir um pouco. – Ela diz e fico com dó da minha mãe, ela nem descansou ainda.
─Estou aqui. Dorme eu vou preparar algo para comermos, trazer água para o quarto, umas coisas importantes. Não vou sair de dentro de casa e o Ben fica aqui.
─É tão bom ter você aqui amor. Já vai anoitecer, eu sei que tem que ir lá fora, mas não hoje, por favor.
Meu pai beija minha mãe, ele adora ficar de namoro com ela. Depois ele ajuda ela a deitar e se arrumar no travesseiro, cobre minha mãe e ela dorme na hora.
─Qualquer coisa você me chama tudo bem? Olha sua irmãzinha e a mamãe?
─Eu sei fazer isso, até já pego ela no colo e tudo.
Meu pai mexe no meu cabelo e desce, fico olhando para cara da bebê.
Ela se mexe e reclama, faz um barulhinho e acho que ela vai chorar coitada, minha mãe está dormindo e eu já sei pegar ela no colo, é melhor ela ficar no colo.
Pego ela devagar, seguro a cabeça para não soltar do pescoço eu acho. Minha mãe que falou que tem que segurar a cabeça. Me sento bem direito com ela no colo, ela não gosta muito de ficar de olho aberto.
─Pronto, vamos ficar aqui. Sou seu irmão, Benjamin, mas eu vou deixar você me chamar de Ben. Quando as pessoas gostam de mim elas me chamam só de Ben. Por isso que você chama só Mel, para todas as pessoas gostarem de você. Eu fui bem esperto nisso.
Ela começa a dormir, acho que ela não quer ficar no berço, acho que ela quer ficar no meu colo, ela deve estar com medo dos zumbis.
─Meu pai não vai mais deixar eles entrarem não. Você tem um monte de cabelo em? Minha mãe já vai querer cortar. Se você quiser pode deixar igual o meu e do meu pai, só no tamanho, que o seu é escuro que nem o da minha mãe.
Acho que ela vai querer ter cabelo bem comprido como o da minha mãe. Menina gosta. A Judy está ficando de cabelo comprido.
─Eu vou falar para o Carl não trazer a Judy aqui por enquanto, se não eles não vão ficar muito com você.
A doutora acerto direitinho como as crianças nascem e acertou que é sem dente, ela não tem nenhum, depois acho que cresce, que nem ela. Não lembro de quando eu era bem assim pequeno. Será que ela vai lembrar?
─Acho que vai lembrar que eu que te ajudei. – Olho para minha mãe, ela está de olho fechado e deve estar dormindo. – Minha mãe está dormindo, ela está cansada, ela é sua mãe também, e eu sou seu irmão, meu pai e minha mãe que disseram.
Ela só fica dormindo no meu colo. Melhor que o berço eu acho. Ela nem chora.
─Oi. – Meu pai entra no quarto, fica olhando para mim da porta e não sei se está bravo.
─Achei que ela queria chorar.
─Que bom que não deixou. Sua mãe precisa dormir um pouco. Trouxe comida para você. – Ele tem um prato na mão, agora pensando bem até que eu estou com fome.
─Como que eu faço com ela? – Não consigo comer e segurar a Mel.
─Que problema, acho que posso segura-la um pouco. O que acha?
─Pode ser. Você sabe que tem que segurar a cabeça se não ela se solta? – Meu pai faz uma cara engraçada.
─Nossa! A cabeça solta? – Ele pega Mel dos meus braços. Senta do meu lado e começo a comer. Ele fica olhando bem para ela. – Acho que ela parece com a Clarie. Não acha Ben?
─É. – Falamos bem baixinho. Ele sorri, meu pai não é de ficar de risinho, mas ele ri para ela. Não fico triste, quando ele fica de risinho para Judy eu fico um pouco. Ela geme e se meche toda no colo dele. – Acho que ela vai chorar. Vou comer rápido. – Me apresso, acho que ela prefere meu colo mesmo.
─Não precisa comer correndo, se ela chorar eu balanço ela um pouquinho.
─Eu como rápido mesmo. – Ele ri. Não achei engraçado. Olhamos os dois para minha mãe dormindo. – Ela está boa pai?
─Sim.
─Não vai morrer?
─Não. A sua mãe e a sua irmã estão seguras.
─E os zumbis? Estão lá fora? Já está de noite.
─Eles estão Ben, não sei até quando, mas estamos aqui, não vamos fazer barulho. Amanhã você fica com a sua mãe e vou ver como as coisas estão.
─Tenho medo de você ir lá fora e nunca mais voltar. – Não quero chorar, mas tenho medo de ficar sozinho de novo, dos zumbis, de tudo.
─Vou tomar muito cuidado Ben. Acontece que essa é nossa casa, nossa cidade, precisa ficar limpa e segura. Não quer ir lá fora com a sua irmã? Voltar para a escola?
─Não quero mais ir na escola. Quase que os zumbis pegam a gente, minha mãe mandou eu ficar pertinho dela e a gente foi andando e eles vinham vindo e parecia que a gente está indo para eles. Eu não lembrava mais como eles são.
─Queria que esquecesse deles, mas não pode Ben. Nunca.
─A Mel vai assustar se um dia encontrar com aquelas caras feiosas.
─A Mel vai aprender assim como você. – Faço que sim. Termino de comer. Coloco o prato na cômoda.
─Posso deixar aqui pai? Não quero ir lá em baixo sozinho.
─Claro. Está com sono?
─Não. Quer que eu seguro ela? – Meu pai olha para Mel.
─Ela precisa ficar um pouco no berço, e você precisa dormir. Eu preciso que fique bem descanado para me ajudar.
─Você vai ficar aqui?
─A noite toda.
Olho para ela e aceno, depois me deito perto da minha mãe e meu pai fica com ela no colo, andando pelo quarto, nem põe no berço.
Pov – Clarie
Adormeço no meio da conversa de Benjamin com a irmã. Fico preocupada com ele segurando a pequena, mas ele foi o primeiro a tê-la nos braços. Não é como se fosse incapaz.
Acordo ouvindo seu resmungo, desperto quando Daryl tirava ela do berço apressado. Me sento e meu corpo reclama um pouco. Depois de toda a tenção era o mínimo.
─Ela deve estar com fome. – Ele me entrega Mel. Beija sua cabecinha e se senta perto de mim. ─Dorme um pouco amor. Fico de ouvidos atentos.
─Dormir com a cidade cercada de zumbis? Não consigo. Dei uma volta pela casa. Nenhum nas portas ou janelas, mas não quero que ela chore. Se começarem a forçar Ben vai se apavorar.
─Quantos acha que tem dentro de Alexandria?
─Não sei dizer. Sempre parecem tantos. Cinquenta. Cem. Muitos de qualquer modo. Olhei pela janela, estão daquele jeito estranho que ficam. Meio catatônicos. Uns apenas parados, outros em movimento só caminhando de modo lento e constante. Contei doze deles. Mas isso não significa que não tenha alguma porta sendo forçada por eles em uma das casas. Se um começa os outros todos... – Daryl se cala quando meus olhos encaram os seus e ele sente minha tensão. – Não pensa nisso, deve fazer mal a ela mamar com você tão tensa.
─Quanto tempo dormi?
─Umas três horas. Dei comida para ele. Trouxe para você. Temos um bom estoque. O bastante para mais de uma semana aqui.
─Acha que vamos precisar de todo esse tempo?
─Não sei, apenas quero que não se preocupe com isso.
Olho para Benjamin adormecido ao meu lado. Meu pequeno herói que adora salvar garotinhas. Salvou Judith e quase morreu por isso e agora a irmã.
─Ele está apaixonado por ela. Dormi com ele conversando com ela.
─Sabe que tem que segurar a cabeça dela se não se solta?
Daryl diz acariciando os cabelos da filha sorrimos. Podia ser um momento mais feliz.
─Sei. Disse para ele tomar cuidado com a cabecinha e segurar sempre, ele tirou suas próprias conclusões. – Daryl toca meu rosto. – Sabe por que ela se chama Mel. Só Mel?
─Por que? – Ele me pergunta sem conseguir olhar muito para mim encantado demais com nosso bebê.
─As pessoas que gostam dele o chamam de Ben. Só Ben. Então ela se chama só Mel, assim todo mundo vai gostar dela.
─Belo raciocínio. Quase não consigo ficar com ela, Benjamin está convicto que é o único capaz de cuidar dela.
─Tive tanto medo do ciúme e ele está tão feliz com a irmã. Cuidadoso.
─Isso é bom. Não ter que lidar com a fúria dele nesse momento é um alivio.
Mel adormece, fico com minha criança em meus braços, tão linda, perfeita, uma luz no meio das trevas. Só quero que essa luz se espalhe e traga sorte e segurança.
─O que vai acontecer Daryl?
─Os que não conseguiram entrar vão se dispersar com o tempo. Seguir outro caminho. Os que estão aqui dentro vão cair um por um. Podemos limpar. Já fizemos isso. Limpamos uma prisão cheia deles, poucos de nós, com facas apenas.
─Sei que conseguem. Apenas é difícil estar aqui dentro enquanto imagino você enfrentando eles.
─Quando amanhecer vou até a casa da Deanna, lá estão quase todos, se conseguir trago a doutora aqui.
─Não quero que se arrisque ou arrisque ela. Estou bem. Ela está. Só preciso de mais um dia e vou ficar ótima.
─Está abatida. Queria ter certeza.
─Estou abatida por que dei à luz há algumas horas. No meio de uma confusão.
─Eu sei. Fiz o que pude para chegar, quando entrei e estava de olhos fechados.
Sinto sua dor. Ela é visível, na hora não me dei conta, estava assustada demais, mas agora posso imaginar o quanto sofreu. Faço um carinho em seu rosto.
─Amo você. Precisa me prometer que lá fora não vai correr riscos.
─Não vou.
─Daryl, nunca precisei tanto de você como agora. – Olho para Mel e depois para Benjamin. – Nós precisamos.
─Estou aqui. Não vamos perder. – Ele me beija. Não um leve tocar de lábios. Um beijo, cheio de saudade e amor. Me acalma e energiza.
─Coloca ela de volta no berço, quando Ben acordar vai dar um jeito de ficar com ela no colo.
─Parece que não será muito fácil termos acesso a ela. – Ele pega a filha e seu olhar é de pura devoção. Depois de coloca-la na cama ele vai até a janela. Olha por uma fresta da cortina. Volta para perto de mim. – Dorme mais um pouco. Precisa estar bem desperta pela manhã ou não posso cuidar das coisas lá fora.
─Fica um pouco aqui comigo. – Me afasto para mais perto de Ben e ele se deita ao meu lado. Me abraço a ele e me sinto segura. Adormeço. Acordo três horas depois com ele me trazendo Mel mais uma vez para mamar. Troco a fralda e alimento minha filha. Amanhecia e quando ela volta para o berço não durmo mais.
Fico nos braços de Daryl, os dois silenciosos, dá para ouvir, mesmo baixo, alguns gemidos e penso como estão todos. Se não tem em alguma dessas casas uma criança dentro de um guarda-roupas. Se não perdemos ninguém.
─Tenho que ir. – Meu coração acelera na mesma hora. Fico pálida com a notícia. Meus olhos marejam. Daryl vai lá fora e não posso impedi-lo por que é o certo a ser feito, porque alguém tem que fazer e ele carrega o mundo nas costas. ─Por favor Clarie. Não faz assim.
─Desculpe. – As lágrimas rolam. – Eu quero ser forte. Eu sei que precisa.
─Sempre disse que esse era o lugar, que isso era um recomeço e estou lutando por isso.
─Entendo. – Me sento quando ele se afasta de mim. – Preciso ir ao banheiro. Quero andar um momento e ver se fico bem o bastante caso precise.
─Vou estar o tempo todo de olho em vocês. Se sentir perigo corro para casa.
Afirmo. Consigo andar muito melhor do que pensei. Tomo um banho rápido. Coloco roupas confortáveis. Prendo os cabelos. Ando pelo quarto e me sinto bem.
─Acho que posso até descer.
─Melhor não. Vou buscar água. Algo para comerem e ficam aqui com a porta fechada e evitando barulhos.
Ele desce. Benjamin acorda. Senta assustado.
─Cadê meu pai? – Ele corre para perto do berço.
─Na cozinha.
─Ela chorou?
─Não. Se comportou muito bem.
─Você sarou?
─Estou ótima.
─Eles foram embora?
─Não. Estão lá fora ainda. Mas seu pai vai cuidar de tudo.
Daryl sobe as escadas com tudo que precisamos por umas horas. Coloca na cômoda comida, água. Um rifle e minha lança. A pistola já está lá. Meu coração se aperta.
─Os corpos que estavam aqui dentro estão empilhados na porta dos fundos. Assim encobrem o cheiro e afastam os zumbis. A porta da frente está trancada e com o sofá na frente eu vou usar os fundos para entrar e sair. Fiquem no quarto.
Ele abraça Benjamin que está assustado. Assim como eu não quer ficar sem o pai. Depois beija a cabeça de Mel no berço. Faz um carinho em seu rosto e olha um momento para ela.
─Amo vocês, vou voltar, mas preciso deixar tudo aqui seguro, preciso saber dos outros. Maggie, Hershel, Judy.
─Eu sei. Vamos ficar bem. Se puder voltar volte para me tranquilizar. Não faça nada arriscado. Esperamos o tempo que for preciso.
Ele me beija. Meus olhos já marejados gravam seus traços. As lagrimas escorrem quando ele pega a besta e lança um último olhar antes de passar pela porta e fecha-la atrás de si.
─Vamos ficar seguros. Estou aqui.
─Eu sei mãe. Quer que eu seguro a Mel?
─Vou cola-la na cama e fica com ela enquanto eu... – Eu não faço nada além de esperar. Coloco ela na cama com o irmão, beijo os dois e vou até a janela. Eles estão lá. Bem menos do que esperava. Minha casa fica mais distante e acho que possivelmente eles estão perto do portão, onde o cheiro e o barulho dos vivos é maior.
─Não fica aí mãe, eu fico com medo. – Me afasto da janela e caminho para cama.
─Come uma fatia de pão e toma um pouco do leite. – Preciso fazer o mesmo. Não tenho apetite. Mas preciso alimentar meu bebê e por isso tenho que estar forte. Benjamin não me escuta, não me vê também. No momento ele está vidrado na irmã.
─Ela abriu os olhos. Meu pai acha que ela parece você.
─Ainda é muito cedo para saber. Agora come um pouco Ben. Precisa proteger sua irmã. Como vai fazer isso todo fraquinho?
Ele se afasta a contragosto, mas se serve de pão e leite. Me sento na cama e fico ali, imóvel, olhando para meus filhos e pensando em Daryl lá fora. Nos perigos que corre.
Esperar é como um castigo, não saber, ficar aqui, presa num quarto com duas crianças indefesas, mas sei que para ele é ainda pior, correr riscos, enfrentar o perigo e ainda carregar o medo de não ter certeza se estamos bem e seguros. Quero os dias bons de volta, as ruas limpas de Alexandria. A segurança de poder sonhar.
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