Resumption

65 Capitulo 65


Notas iniciais
Olá pessoas lindas. Minha net vai e vem e amanhã já vou para casa e acho que as coisas voltam ao normal. Esse vai ser especial para ALLENA PENDRAGON que deixou uma recomendação muito carinhosa. OBRIGADA!!! Adorei! Me senti orgulhosa de ter construido uma história que tenha te agradado. Sua linda!!! Espero que goste do capitulo. BEIJOSSSSSSSSS

Pov – Rick

─Droga Rick! Perdemos a hora! – Mich se ergue da cama me assustando. ─Carl deve estar dando o café para Judy, como vou sair daqui agora?

─Pela porta, depois de tomarmos café com eles? – Pergunto me sentando na cama e assistindo sua pressa em se vestir.

─E explicar que passei a noite aqui? – Ela pega a espada e coloca nas costas. Respiro fundo, fico de pé e começo a me vestir. Ela olha pela janela e penso se pretende sair por ali e chamar atenção de toda a comunidade. O que seria aí sim um escândalo.

─Já passou da hora.

─Mas não pode ser primeiro uma conversa com o Carl e depois eu saio do seu quarto?

─Você está brincando comigo? – Pergunto me sentindo como se os papéis estivessem invertidos.

─Não. Que ideia. Sou eu Rick.

─Parece. É o Carl, ele ama você, mais do que qualquer outra pessoa. É tudo que ele quer. Além disso cresceu. Não vai se chocar. Eu não quero mais agir na clandestinidade como se estivesse fazendo algo errado.

─Olha para sua mão esquerda. Tem certeza que quer assumir isso? A aliança ainda está aí. – Olho para minha mão e só então me dou conta disso. Quando tento responder a ela a porta bate e escuto seus passos escada abaixo e a porta da sala bater logo depois.

─Que grande estúpido Rick Grimes. – Encontro Carl dando maçã amassada para Judy sentada na cadeirinha sobre a mesa. Beijo a testa dela. Depois aperto o ombro dele e me sirvo de um café.

─Brigaram? – Carl me pergunta e olho para ele meio surpreso. – Eu sei que estão juntos, faz tempo inclusive.

─Ela tem medo de ter problemas com você. Você é mais importante para ela que eu.

─Que bom. Sozinha não Judy, vai ficar toda suja! – Ele afasta a mão da irmã que pretende pegar a colher. Oferece o ursinho a ela. – Mich não vai voltar?

─Claro que vai. – Me sento em sua frente. Balanço a mão esquerda para ele. – Basta que eu tire isso.

─Quer tirar? – Ele me pergunta servindo mais para a irmã.

─Se importa se eu tirar?

─Não está no meu dedo. Acho que não diz nada sobre mim. Isso é sobre você e minha mãe.

─Pensei que podia te magoar, quem sabe tem medo que eu a esqueça.

─É a minha mãe. Mãe da Judy, não tem como esquecer isso, mas acho que se gosta da Mich e se não gosta mais da minha mãe como antes, devia tirar e guardar. Quem sabe para Judy?

─Fica bem com isso? Por que se não ficar...

─Pai acho que você e a Mich ficam me usando como desculpa. Eu amo a Mich, queria ensinar a Judy a chama-la de mãe por que ela precisa de uma. Queria saber que ela está aqui quando preciso, não estou atrapalhando e faz parecer que sim.

Ele tem razão. Usamos as crianças para encobrir o nosso medo.

─Quando foi que ficou tão maduro?

─Culpa da Amber.

─Como estão as coisas com vocês?

─Andando. As vezes bem rápido.

─Rápido? – Me preocupo.

─Sim, não aconteceu, mas pode. E não estou seguro sobre isso. – Nem eu, estou apavorado. Vou tirar a aliança correr atrás de Mich e mandar ela vir ter essa conversa com ele. – Não estou seguro, mas também não estou apavorado como você.

─É que... já temos mais bebês do que sonhei para o apocalipse Carl. Judy, Hershel e o da Clarie no próximo mês. Se algo der errado...

─Pai, eu vou tomar cuidado. Pretendo, se souber como. Podemos ir para a parte que me arruma o que preciso e me manda usar com responsabilidade e depois fingimos que essa conversa nunca aconteceu?

─Podemos esperar eu trazer Michonne de volta para ter uma conversa honesta com você sobre isso? – Imploro e ele ri. Acabo rindo também. Não tem como um pai não ficar um pouco orgulhoso com isso. Me lembro de carrega-lo pela floresta em direção a fazenda de Hershel desesperado para salvar-lhe a vida. De todas as promessas que fiz naquele dia. Do quanto implorei e desejei a existência de Deus.

─É sério pai.

─Sei que é. Na verdade eu penso se não é cedo.

─O mundo está mais perto do fim que do começo, então não sei o que é cedo.

─Nós estamos lutando para esse lugar ser forte o bastante, para dar um futuro a vocês. Amber e a mãe já conversaram sobre isso?

─Ainda não. Preferi conversar com você primeiro.

─Tudo bem, só me dá um tempo, quero pensar um pouco sobre isso e talvez eu e Denise...

─Você não teria coragem de conversar com ela sobre a minha vida como se isso fosse uma decisão de vocês?

─Certo. Ideia ruim. Queria uma posição por aqui. Um trabalho. Que tal isso primeiro?

─Ótimo. Aceito o acordo. Um trabalho e depois voltamos a esse assunto.

Uma boa saída. Ele vai passar menos tempo grudado na namorada e quem sabe enxergue que ainda é cedo. Toco seu ombro.

─Vou lá fora trabalhar nos muros. Te vejo mais tarde.

─Está certo.

Beijo mais uma vez a cabeça de Judy e deixo a casa. Michonne caminha com Daryl e paro na frente dos dois sem saber muito como agir com ela.

─Vão trabalhar nos muros hoje?

─Sim. Deixei a Clarie na Maggie. Depois ela pega o Ben na escola e vai para casa. Acho que tudo bem por enquanto.

─E eu faço o que quiser. – Michonne diz e eu e Daryl olhamos para ela.

─Eu sei disso. Nunca disse o contrário. – Coloco a mão na cintura e me lembro da aliança ainda no dedo. Abaixo a mão.

─Nem pode. Tomo minhas decisões.

─Vocês querem um minuto. Eu posso sair. Não acho que esse jogo me diga respeito. – Daryl se manifesta meio perdido.

─Não precisa. Estamos indo. – Ela sai caminhando na frente e Daryl me olha sem entender.

─Te vejo no portão. – Ele diz apressando o passo para alcança-la.

Fico parado e perdido. Carl e Michonne tiraram o dia para me deixar maluco. Começo a caminhar e Morgan me chama. Agora sim o dia fica perfeito. Há muito que estamos nos estranhando. Ele parece ter se juntado a Deanna e metade de Alexandria para tornar minha vida difícil.

─Sim Morgan.

─Tobin e Scott vão também. – Ele me avisa. – E Francine.

─Por mim. Pode mandar quem você quiser. Problema de vocês, mas não pense que não entendo o que é isso.

─O que é isso? – Ele me pergunta.

─Quer mandar os homens de confiança de Deanna. Como se eles pudessem me parar, como se eu estivesse fora de controle.

─E está.

─Por que quero manter esse lugar a todo custo? Por que sei como as coisas caem quando menos se espera? Temos crianças aqui.

─Suas mãos de ferro só apavoram as pessoas e cria desentendimentos.

─Esses muros não são nada e sabe disso.

─Eles se acostumaram a viver de modo tranquilo. É difícil para todos. Vocês andam por aí carregando armas pesadas. Agindo como se ainda estivessem nas ruas. Não estão.

─Só por que seu bastão parece menos assustador não quer dizer que esteja agindo diferente. Não te vejo sem ele. Sabe que tudo pode cair.

─Acho que o problema é que vocês não podem mais viver na civilização. Acho que se acostumaram a viver como...

─Bichos? Animais raivosos? Morgan. Não é nosso primeiro encontro, sei quem você é. Sei como chegou aqui. Não foi com esse discurso hippie. Foi esmagando cabeças.

─Deixei aquele cara para trás. Vim te encontrar por que achei que era o mesmo Rick de sempre.

─Você sabe que aquele Rick não estaria vivo. Eu tive que me adaptar e essas pessoas também precisam ou não vão sobreviver e não vou deixar que levem minha família para a morte.

─Eles chegaram primeiro. – Me canso da conversa. Tenho muito a fazer. Meus olhos encaram fundo os dele.

─Comande uma rebelião ou me deixe fazer meu trabalho.

Deixo Morgan parado e sigo para o portão. É o começo da manhã, mas parece o fim do dia de tão esgotado que já me sinto.

Ao menos eu sei com quem posso contar se uma rebelião começar. Mich. Daryl, Glenn, Maggie, Carol. Abe e Rosita. Eugene apesar de ele ser um tanto inútil. Talvez Aaron e Eric, eles não são tolos e sabem que no fundo eu estou certo. Provavelmente a doutora sua filha e Spencer. É um bom número.

─Vamos buscar umas folhas de aço na construção do velho shopping. São as últimas e dá para terminar nosso trabalho no lado norte de Alexandria. É onde tudo é mais perigoso. Sai na estrada e é bem plano de fácil acesso.

Abe me avisa. Afirmo e pegamos o caminhão. Glenn e Maggie ficaram e podem cuidar das coisas enquanto estamos fora.

Nos sentamos no baú. Mich na ponta oposta à minha e tudo bem. Deixo a conversa para a volta. Quando estivermos sozinhos.

O caminhão para assim que chegamos. Esperamos Abe dar um soco na lataria avisando que está tudo bem e descemos. Não é o melhor lugar do mundo para se estar. Gosto de respirar ar puro quando saímos.

─Não tem mais do que cinco folhas de aço aqui. – Comento com Abe assim que olho em volta.

─Mas temos uma boa quantidade de madeira para reforçar o que temos lá. E vamos levar tudo que der. Tenho umas ideias boas para segurança.

─Você é quem sabe.

─Francine, sobe no caminhão e vigia! – Abe diz em tom autoritário. Ela obedece e se posiciona no teto do caminhão enquanto começamos a recolher as coisas.

Trabalhamos rápido em equipe. Mich fica com sua espada atravessando com a lâmina tudo que se aproxima de nós e eles sempre se aproximam.

O caminhão fica cheio em duas horas, mais que isso é problema. Temos que ir por que o barulho e o cheiro chamam zumbis e cedo ou tarde acabamos ficando cercados.

─Melhor a gente ir. – Aviso olhando o caminhão cheio de coisas pesadas e secando a testa de suor. A droga da umidade da Geórgia.

─Abraham! – Francine se deita no teto do caminhão, seu sussurro me preocupa. Nos juntamos olhando para cima. Seu rosto pálido não deixa dúvidas que temos problemas. – Uma horda seguindo pela estrada em direção a Alexandria. Se não mudarem o curso não vai ter como segurar os muros.

Pulo no caminhão e subo correndo para tentar enxergar. Francine me passa o binóculo. Estamos no alto e posso ver a estrada depois de uma linha de arvores. O comboio dos mortos toma uma longa faixa da estrada.

─Vamos. – Salto rápido e Francine me segue. – Temos que ir e precisamos chegar primeiro. Deixar o caminhão protegendo o portão e colocar todos para dentro de suas casas.

Entramos no baú. Abe fecha a porta e sinto a tenção em todos. Como alguém ainda pode achar que não é prioridade preparar aquele lugar? Sentimos o caminhão acelerar uma, duas, três vezes e sei por pura intuição que estamos atolados no chão de terra que seria a fundação do shopping.

Com todo peso e a pressa o caminhão atolou. Daryl pega a besta um rifle e corre para a porta.

─Daryl. – Eu o chamo quando ele abria a porta para dar de cara com Abe.

─Atolou! – Abe avisa quando Daryl salta.

─Daryl! – Eu o chamo mais uma vez.

─Clarie vai ter um bebê! Acha que vou ficar aqui para desatolar o caminhão? Para o inferno com essa merda!

Michonne puxa sua espada, trocamos um olhar e ela começa a caminhar pouco atrás de Daryl. Eles estão certos, podemos cortar pela floresta e chegar antes da horda.

─Abe...

─Vai Rick. Desatolo essa merda e enfio na porra do portão, se der esmago um quilo deles no caminho.

Afirmo e começo a correr. Entro pela floresta já perdido de Daryl e Mich. Só corro o máximo que posso e tento não perder tempo com os zumbis pelo caminho.

Sei que Mich e Daryl estão fazendo o mesmo. Que as pessoas em Alexandria vão estar desprevenidas quando eles chegarem e que precisamos de silencio e armas. O peito dói de tanto correr. Escorrego na terra úmida, rolo alguns metros, nada importa quando me ponho de pé todo arranhado e volto a correr.

Um zumbi surge por detrás de uma árvore. Agarra minha camisa e acerto sua cabeça com o facão. O sangue espirra para todos os lados e de novo estou eu sujo de sangue e isso nunca vai parar porque o mundo acabou e você precisa lutar se quiser ter direito de sobreviver.

São duas horas de corrida frenética. Quando me aproximo de Alexandria sinto que eles estão perto. Ainda posso vê-los por entre as árvores chegando aos portões.

─Abram! – Grito e logo alguém puxa o portão de ferro e passo para o lado de dentro e sei pela tranquilidade que Daryl e Mich ainda não chegaram. – Para suas casas! Zumbis. Armas e silencio.

As poucas pessoas que passavam se apavoram. Vamos ficar cercados e o lado norte que ainda não foi protegido ficará vulnerável se já não estiver.

─Carol! – Ela afirma e começa a correr, avisar e faço o mesmo.

Pov – Benjamin

As crianças começam a sair para casa, só eu que ainda tenho que esperar pelo meu pai ou minha mãe e vou falar com eles se posso ir embora sozinho.

Minha mãe vira uma rua e me acena. Eu corro para ela. Ela anda muito devagar agora por que tem uma barrigona.

Ela me abraça e faz carinho no meu cabelo.

─Você que veio?

─Daryl está lá fora. Vamos caminhando juntos. – Ela segura minha mão. Eu gosto, mas acho que os meninos não ficam mais andando segurando na mão das mães e fico querendo ver se algum deles está me vendo. – Gostou da aula?

─Foi legal. – Conto a ela que segura a lança com a outra mão. Quando ela caminha o vestido balança e vejo a pistola presa na perna, mesmo gravida ela usa a lança e a pistola toda vez que sai se não meu pai fica bravo.

─Está com fome? – Ela pergunta quando a gente vira na nossa rua e aperto sua mão quando vejo zumbis vindo de todos os lados.

─Mãe! – Digo baixinho, o modo como ela aperta minha mãe mostra que viu.

─Não sai de perto de mim. Não faz barulho. Dá tempo de chegar em casa.

Eu obedeço. Tremo tanto que parece que nem vou conseguir andar, meu coração fica rápido e a mão dela fria. Não queria chorar, mas não consigo.

─Mãe! ─ Chegamos na porta uns passos antes deles. Minha mãe empurra um deles e enfia a lança em sua cabeça e nunca tinha visto ela fazendo isso.

─Vamos para dentro. – Quando a gente entrava quatro deles começavam a tentar subir as escadas e tinha me esquecido um pouco da cara deles, do cheiro e do barulho que fazem. – Sobe Ben. – Ela me pede entrando na frente com a lança em uma mão e a pistola na outra. Empurro a porta, mas a mão de um zumbi impede que ela feche e eles vão entrar eu sei disso e tremo mais ainda quando subimos as escadas.

Entro no meu quarto e ela me segue. Está pálida e com cara de quem está como eu, com muito medo.

─Eles vão entrar! – Falo com a voz estranha por que estou com muito medo.

─Me ajuda filho. – Ela pede empurrando a cômoda e depois o guarda roupa pequeno que tenho. Temos que fazer muita força por que é pesado, mas agora eles não podem entrar por que tem muito peso na porta. – Isso. Conseguimos.

Ela fica com a mão na barriga segurando na porta do guarda-roupa. Fecha os olhos e parece muito branca.

─Mãe! – Eu a abraço, não penso em nada. Só abraço ela.

─Vamos ficar quietinhos, logo o papai chega. Estamos seguros. – Ela me diz enquanto ouvimos alguma correria e gemidos de zumbis. – Estamos bem fechados Ben, não tenha medo.

Ela me afasta e vai até a janela, olha para baixo e quando se volta está parecendo um papel. Segura de novo a barriga.

─Tem muitos?

─Não vai na janela. Tudo bem? Seu pai vai chegar. Quando tudo ficar bem é o primeiro lugar que ele vem. Junto com os outros. Estamos bem. – Ela se dobra e acho que está com dor. Não consigo parar de chorar.

─Estou com medo. Você está com dor? – Ela me olha.

─Não. Aí! ─Seu gemido sai sem que ela consiga segurar e ela aperta a boca e de novo se dobra. –Me ajuda Ben, preciso deitar.

─Vem mãe. A minha cama é boa.

─No chão, precisa ser no chão. – Não entendo, mas a ajudo e ela se deita. Pego o travesseiro e coloco atrás da sua cabeça. – A pistola, pega a pistola e traz para mim.

Obedeço mais uma vez, entrego a ela a pistola que estava jogada na cama e ela segura minha mão apertado. A respiração parece cansada. Escuto os arranhões na porta. Minhas lagrimas ficam rolando e nem seco mais.

─Mãe, você vai morrer?

─Não meu amorzinho. Estou bem. É só que fiquei nervosa e com o esforço de empurrar os móveis doeu um pouquinho, já vai passar.

─Eu não quero que morra. – Cada vez que sente dor ela aperta firme minha mão e fico cada vez mais assustado.

─Ben. Escuta, amo você. Muito. Eu e seu pai. É a coisa mais importante que eu tenho. Acredita? – Ela chora e eu choro também. Sua mão agora bem gelada faz carinho no meu rosto. – Quando encontramos você. Aquele dia. Quando saímos daqui. Seu pai me pediu para escolher a direção. Eu escolhi e pareceu tão certo. Eu tinha tanta certeza. Depois eu entendi. Foi certo porque me levou até você. Meu filho.

─Mãe! – Eu me deito a seu lado e ela me abraça.

─Queria que tivesse vindo da minha barriga como seu irmãozinho. – Ela faz carinho na barriga.

─Não faz mal mãe.

─Eu sei, é a mesma coisa. Gosto igual. – Ela beija minha testa. Aperta os olhos e a boca quando a dor vem e acho que o bebê vai nascer. Sua testa está toda molhada.

─Vai nascer? Mãe você vai morrer? – Choro muito. Com medo de ficar sem ela. Abraço forte minha mãe, ela é boa comigo, me desculpa sempre, cuida de mim, meu pai não está aqui, não sei o que fazer.

─Ben. Ali na sua gaveta de escola. Pega a tesoura de cortar papel. – A voz dela sai de um jeito difícil por que parece que ela não consegue respirar direito. Obedeço bem rápido. Entrego para ela. – Amo tanto você. É tão lindo. Tão especial, faz eu e o seu pai tão felizes.

─Mãe não me deixa. – Toco seu rosto.

─Não vou filho, agora presta atenção. Se lembra das coisas que a doutora te ensinou?

Afirmo chorando, eu lembro de tudo, como o bebê sai e de cortar o cordão que não sei o nome.

─Que bom. É forte e muito espero. – Ela beija minha mão presa a dela. Os zumbis arranhando a porta e nós dois falando bem baixinho. Meu pai está demorando tanto. Ainda não tem tiros lá fora. Por que não estão matando eles?

─Meu pai está demorando.

─Ele precisa deixar tudo seguro para nós, o seu pai sabe que estamos fechados aqui e que vamos ficar bem. Todo mundo vai. Agora eu preciso de ajuda. Pode me ajudar? Pode ajudar seu irmãozinho?

─Posso mãe.

─Nosso bebê vai nascer Ben, ele não quer mais esperar. Me ajuda?

─Não consigo mãe. Não consigo!

─Claro que consegue. Puxa seu lençol lá na sua cama, só precisa segurar ele. Ele vai sair e ampara seu irmão. Por isso estamos no chão, para não ter perigo dele cair. Então me entrega ele. – A dor volta e ela para de falar um pouco. Segura a barriga. – Ben. Eu vou cortar o cordão e vamos ficar os três quietinhos esperando o seu pai.

─Eu faço. – Pego o lençol como ela pediu. – Pronto, eu faço mãe. Eu ajudo.

─Se eu não conseguir. Desculpe filho, amo tanto você. Desculpe pedir isso. Se eu desmaiar, fechar os olhos. Tem que pegar seu irmãozinho e se fechar no guarda-roupa. Se lembra que funcionou uma vez? Ficou quietinho num guarda-roupa e eu e seu pai achamos você? – Eu faço que sim tremendo de medo da lembrança. ─ Não pode me deixar machucar vocês. Promete.

─Prometo mãe! – Choro tanto que nem sei se consigo segurar o bebê.

─Vai ajudar o papai a cuidar dele? – Afirmo quando ela me abraça. – E amar seu irmãozinho?

─Vou mãe.

─Tem que dizer ao seu pai que estou muito feliz. Que é o dia mais feliz da minha vida. Não esquece?

─Juro!

Ela ergue o vestido. Corta a calcinha com a tesoura. Geme bem forte e faz sinal para me posicionar e faço o que me pede. Seguro o lençol perto dela. Ela tem uma dor tão forte que quase senta e então eu vejo a cabecinha do bebê saindo e seguro com o lençol e ela fica gemendo e ele vai saindo e depois fica um monte de sangue e ele na minha mão e vejo o cordão.

Minha mãe volta para o travesseiro. Está chorando. O bebê também. Eu levo ele para perto dela.

─Obrigada meu filho. – Ela abraça o bebê. Beija sua cabeça cheia de sangue. Depois afasta o lençol. – Uma menininha Ben. Uma irmãzinha. Shiu. Shiu! – Os arranhões na porta ficam mais fortes quando a bebê chora. Tenho medo de trazer mais zumbis.

─Não vai morrer não é mãe? – Não quero perder minha mãe, não quero me trancar em nenhum lugar.

─Estou bem. Me ajuda com o cordão umbilical? – Ela mede e procuro nas coisas um fio para amarrar como a doutora disse. Acho um fio pequeno de tecido do lençol, amarro e ela corta. – Que lindo! Meus dois bebês.

Ela vai limpando o rostinho do bebê com o lençol, a menina quer chorar e minha mãe se arruma um pouco. Me lembro do boneco e corro para buscar.

─Aqui bebê. Seu brinquedo, não chora! – Minha mãe chora muito e coloca o boneco perto dela, depois limpa a boca da menininha e coloca ela para mamar. – Eu que trouxe para ela, estava guardando.

─O primeiro presente. Vem ficar pertinho de mim e da sua irmãzinha. Ela é sua Ben. Se algo acontecer comigo protege ela.

Eu fico agarrado a minha mãe e olhando a menininha mamar, ela é bonitinha e tão pequenininha. Eu ajudei ela a chegar. Acho que ela vai gostar de mim.

Minha mãe segura a bebê com uma mão enquanto ela mama e com a outra me abraça e faz carinho, sua mão vai ficando quente e acho que ela não vai morrer.

─Você é um herói. – Ela sussurra e beija de novo minha testa. ─Obrigada filho, seu pai vai ficar muito orgulhoso.

Só fico ali, olhando a garotinha e pensando nas coisas. Com medo do meu pai nunca chegar, da gente nunca sair desse quarto e sinto meu coração doer, eu não quero que ela morra, pensei que ela ia matar minha mãe, mas ela não fez isso. Ela segura o bracinho do boneco enquanto mama e fico pensando em como que ela vai se chamar.

─Meu pai demora mãe? – Ela nega. Os zumbis ainda estão na porta arranhando, gemendo e tentando entrar, o quarto tem cheiro de sangue e acho que é isso que faz eles quererem a gente. – Por que não estão atirando?

─Os tiros atraem mais os zumbis, deve estar todo mundo como a gente. Bem quietinhos.

─Quero meu pai. Ele nem sabe que já tem bebê.

─Claro que sabe. – Ela ainda está chorando, com o rosto bem branco. – Ele tem você. O bebê dele. Meu garotinho lindo que salvou sua irmãzinha.

Afirmo. Acho que ela continua gostando muito de mim, só fica me fazendo carinho, até com a menina no colo. Olho para o rosto do bebê. Tem um monte de sangue e sujeira nela que já está secando e vai grudar coitadinha. Eu acho que ela é minha irmã mesmo.

Notas finais
Gostaram? Comentem.