Resumption
56 Capitulo 56
Notas iniciais
Pov – Daryl
Assisto Benjamin caminhar para dentro da sala de aula e me volto em direção a enfermaria.
A doutora está lá e me olha tensa. Estranho, olho em volta para ter certeza que não estou me intrometendo em nada. Ela está sozinha.
─Vim tirar os pontos doutora. Posso voltar mais tarde se preferir.
─Não. Bobagem. Senta aqui. – Ela pega uma tesoura pequena e vem até mim. Tiro a camisa. Ela olha o ombro. – Muito bom. É só um minuto. Clarie está bem?
─Sim. Ficou em casa. Deixei o Benjamin na escola e vim. Nem sei como ela não veio correndo atrás de mim.
─Clarie é muito especial. Vocês dois podem vencer isso de apocalipse com certeza.
─Todos podemos. – Digo meio confuso.
─Pronto! – Ela me sorri. Fico de pé e ela olha o outro corte. – Esse deve deixar uma cicatriz. Mas já está recuperado.
─Quem não tem uma cicatriz ou outra depois do fim?
─Não é o fim Daryl. Concentre-se nisso. ─ Afirmo quando ela termina e me olha sorrindo. – Está livre de mim.
─Obrigado Doutora. Eu já vou.
─Bom dia. De um beijo em Clarie por mim. – Aceno caminhando em direção a porta. Paro na varanda encarando o dia frio. Arrumo a besta nas costas, vamos descobrir o que Clarie me esconde. Rick me para.
─Não sabe como é bom te ver por aí com a besta nas costas.
─Sair daquela casa é mesmo muito bom. Apesar de todo o cuidado não nasci para ficar preso.
─Como está tudo por lá?
─Bem. Clarie está com algum problema que não quer me contar, vou agora mesmo descobrir.
─Daryl cuidado. Você sabe que ela ama você. Segura esse seu instinto suicida e não briga.
─Isso é diferente. Esse medo não tenho mais. O que quer que seja não nos afeta desse modo. Não vou dar uma de kamikaze hoje.
─Ótimo. Vou procurar o Morgan. Tem visto ele?
─Foi me ver outro dia. Depois não o vi mais. O que foi?
─Não tenho certeza. Definitivamente ele não gosta dos nossos métodos. Assim como Deanna não gosta.
─Estou meio fora das coisas. Eu sei disso. Vou estar mais presente Rick. Prometo. E a Carol. Quase não a vejo mais.
─Uma senhora muito simpática que assa tortas e cookies. Inacreditável.
─Não se deixa usar por ela Rick.
─Minha mente se abriu mais. Depois dos lobos tudo ficou mais evidente para mim. Está mais claro os interesses de cada um aqui. Já sei quem é quem.
─Bom! – Toco seu ombro. – Vou indo. Quero acabar logo com isso. Disse a Clarie que deixaria o Ben na escola e voltaria para ficar com ela. Meu objetivo é aproveitar que estamos sozinhos para conversar.
─Boa sorte e sabe que estou por aí caso precise. – Ele toca meu ombro. Afirmo e sigo meu caminho. Vou perguntar e espero ouvir a verdade. Se não. Vou insistir sem ser grosseiro. Ela vai confiar em mim. Tenho certeza que seja o que for podemos resolver juntos e se for aquele Spencer de novo eu apenas mato aquele infeliz.
Abro a porta e ela se põe de pé. Os olhos assustados. Fecho a porta num lento e interminável movimento. Como se depois disso as coisas fossem se complicar e estivesse atrasando as coisas.
Depois encosto a besta na parede. O tempo todo mantenho seu olhar em busca de respostas e me obrigo a não tirar conclusões. Vou ouvir e depois falar.
─Está bem? – Pergunto me mantendo distante e dando espaço para ela dizer o que quer que seja.
─Estava aqui me decidindo se entro em pânico e deixo para você ser forte, mas então como acho que você vai entrar em pânico decidi que eu devo ser forte.
─Algo errado? É sobre o Ben? – Começo a me preocupar. A palavra pânico é bem séria. Resta saber se foi bem empregada ou um exagero.
─É sobre o Ben. Sobre nós e nossa família. – Os olhos marejam. Os dedos são torcidos e ela está confusa e com a voz embargada. Longe de mim e eu dela porque não sei o que se passa e o que estamos prestes a enfrentar. – Sobre como esses muros eram insignificantes e o quanto eu os quero seguros agora. Do medo que estou sentindo de tudo que nos cerca e ao mesmo tempo da esperança sem fim que tenho de reconstruir. Tem gente lá fora. Comunidades como essa. Com um mundo de sobreviventes. As coisas podem ficar bem. Eu sei. As pessoas não morrem mais como antes. Já reparou nisso? – Ela seca lagrimas, mas elas logo voltam a correr e suas palavras não me dão a menor pista de onde estamos indo.
─Estamos mais fortes e conscientes agora.
─Sim Daryl. Estamos. Um zumbi antes, quando tudo começou, causava um estrago. Hoje meia dúzia de facas podem conter até uma horda.
─Não se engane Clarie. Eles ainda são assassinos frenéticos.
─Eu sei. Acontece que podemos vence-los. Podemos recomeçar. Estamos fazendo isso aqui e tem um monte de gente fazendo o mesmo por aí. Aposto que temos cientistas trabalhando, mesmo que de modo precário.
─Clarie...
─Não é o fim. Claro que é perigoso. Mas não é o fim. É o recomeço e recomeços precisam de pessoas. Eu menti ontem. Não sou boa nisso. Você sabe. Já quase coloquei tudo a perder por uma mentira e então não quero prolongar com essa.
Ela chora ao falar. A proximidade da verdade me assusta e fico olhando para ela e pedindo para não estar perdendo Clarie, porque não suporto essa ideia.
─Eu já tinha pensado que podia acontecer. Fingi que não. Joguei esse pensamento para um canto obscuro do cérebro por puro medo. Mas então Maggie ficou gravida e a coisa voltou a me atormentar. – O que Maggie grávida pode ter a ver com isso? – Ontem. A panela. Ela não caiu eu tive uma tontura. Tudo ficou urgente e não podia mais ignorar isso. Não fui ver Maggie ou Eric. Ele estava comigo. Mas menti. Eu fui a procura de Denise.
─A doutora Loyd? – É claro que sim. Nem sei porque pergunto. Só sei que um medo palpável começa a se formar em minha mente.
─Ela confirmou. Estou gravida. Podemos dar um mundo a ele. Eu sei que sim.
É como um soco na boca do estômago. É como um tapa violento no rosto. Como cair em um buraco sem fim rumo a ruina. Como o surgimento do primeiro zumbi e o choque de vê-lo caminhar para mim.
─Gravida? Um mundo? – Sinto o tal pânico me dominar. Sinto raiva de mim e de não ter cuidado dela. De ter permitido e mesmo colocado Clarie nisso. –Não temos um mundo! – Grito. Não com ela realmente. É apenas o desespero me dominando por inteiro.
─Podemos construir um! – Ela me diz em toda sua inocência.
─Não sabe o que está dizendo! – Imagens saltam aos meus olhos, vindas das memórias tenebrosas que o apocalipse me fez registrar. – Não viu quando Maggie saiu das tumbas encharcada de sangue trazendo aquele bebê sem mãe. Não estava lá para ver uma parte do Rick morrer diante dos nossos olhos. Não estava com Carl quando ele acertou a própria mãe depois de Maggie abrir a barriga dela ainda viva!
Ando de um lado para outro. Não consigo refrear meus impulsos, meu medo de perde-la, de ficar sozinho com Benjamin. Com um bebê sem mãe.
– O que vimos tantas vezes. Berços ensanguentados. Um pé do sapato de Luke ou Molly no meio de um monte de tripas. A raiva que alguns sentiam quando Judith chorava no meio da noite e tínhamos que levantar acampamento para não chamar zumbis.
─Não é mais assim. – Ela soluça.
─É assim. Só parece que não. O maldito inverno nas ruas com Lori gravida. A fome. O frio. Corujas. Latas de ração para cães. Limpamos aquela maldita prisão para dar uma chance a ela de ter o bebê em segurança e ela acabou devorada nas tumbas!
Minha cabeça ferve. É minha culpa. Não cuidei de Clarie. Eu a estou matando.
─Caçar fórmula dia e noite. Fazer a segurança, alguém sempre de olho, indefesos. Preciso de ar. Preciso pensar... – Toco a maçaneta da porta.
─Não se atreva a sair daqui! A tratar meu filho como um fardo! Não se atreva a rejeitar seu filho! – Ela grita comigo. As palavras cravam em mim de modo definitivo. Não estou fazendo isso. Não posso fazer isso. Eu sei o que é ser um fardo. Eu sei o que a rejeição faz e eu não faço isso.
Um filho. A teoria vai para o espaço quando finalmente eu compreendo a verdade. Eu vou ter um filho. Uma vida criada por mim e Clarie que cresce dentro dela e acabo de rejeitar feito o monstro que fez o mesmo comigo.
Solto a maçaneta. Uma dor corta meu peito numa culpa dolorida que me desmonta de uma vez por todas e me sento no chão encostado na porta. Um filho. Um filho que acabo de desprezar e culpar e é tanta dor e medo de perder o que nem mesmo me pertence ainda. E é tanto que guardei e esmaguei e agora se rompe que cubro o rosto e me entrego como nunca fiz antes. Choro.
Clarie vem como um bichinho assustado se enrolar em mim em busca de abrigo seguro. Ao mesmo tempo é a força que faz o mundo girar a despeito do caos a nos cercar.
Eu a aperto junto a mim. Não consigo falar por que estou sendo engolido por lagrimas de toda uma vida. Mas a mantenho comigo. Me protejo na certeza do seu amor e me sinto acolhido e cuidado. Como nunca antes.
Os dois chorando juntos e aos poucos a angustia vai sumindo e primeiro vem um vazio silencioso. Depois o vazio deixa espaço para sentimentos. Ainda um tanto confusos, um pouco de tudo que nem sabia existir. Amor por alguém que nunca coloquei os olhos, esperança, medo. Vergonha de ter agido feito um canalha ainda que por uns poucos minutos. Tristeza por ter arrancado dela um pouco da esperança que a fortalece.
─Estou aqui meu amor. Podemos fazer isso. – Sua voz ainda é embargada. Mas não tem mais a nota do desespero.
─Desculpe. – Peço a ela ainda envolvendo Clarie em meus braços.
─Está tudo bem.
─Não está. As coisas que disse.
─Eu sei que viveu o inferno de um modo completamente diferente do meu. Que passou muito tempo entre os mortos. Entendo isso.
─Mesmo assim não podia ter vomitado tudo isso sem pensar em você.
─Eu sei que só pensou em mim. Que tem medo de me perder. Não sou Lori.
A ideia me assusta e a aperto mais.
─É a imagem que tenho. As coisas que gravei na mente. Eu vim até aqui pela Judith e o Carl. Desde o começo. Todos os passos que dei foi por eles. Para ajudar o Rick. Tive sorte de encontrar você no meio do caminho.
─Sei disso. Isso é prova que pode conseguir.
─O Benjamin. Quando a gente encontrou ele. Quando bati os olhos naquele garoto magrinho e ferido. Por dentro e por fora eu achei que podia dar uma chance para ele. Não estava querendo ser o pai dele.
─Mas é.
─Sou. Não estava em meus planos. Eu cresci sem pai e achei que teto e comida eram o bastante para ele.
─Agora ama o Ben. Pode amar nosso bebê também. – Meu coração dói.
─Entendeu errado Clarie. Eu amo essa criança. – Faço com que me olhe. Ela tem que entender e sentir que estou sendo honesto para que ele sinta isso.
─Tenho medo de... – Ela se cala. Os olhos voltam a marejar.
─Não podemos guardar nada. Não vamos esconder nada um do outro. Vamos colocar tudo para fora.
─Tenho medo de algo me acontecer e não ser capaz de amar nosso filho. De culpa-lo.
─Posso amar qualquer parte de você. – A dor de poder perde-la é quase física. – Vai ficar segura. Alexandria vai ficar segura para nossa família. Vou trabalhar para isso.
Ela sorri, me faz um carinho no rosto. Me beija. Começo a sentir as coisas mais coloridas. Porque não podemos ter uma boa vida aqui. Com Benjamin e o bebê?
Porque tem que dar errado? Talvez os tempos difíceis tenham mesmo acabado e seja o recomeço como ela tanto diz.
─Amo você! – Ela me diz antes de se encostar em meu peito. Os dois no chão.
─Como foi com a doutora?
─Ela me encheu de esperança. Disse que está pronta até para um parto Cesariana.
─Que bom que não me contou isso ontem na frente do Benjamin.
─Sabia que não seria fácil. Que não vai ser. Queria estar no mundo de antes. Não estamos. Queria ter me protegido. Não fiz.
─Não importa. Não fica pensando, nem dizendo essas coisas. Não quero que essa vida que cresce aí sinta qualquer coisa que se pareça com o que senti toda minha vida.
─É meu bebê. Amo cada pedacinho dele. Vou me cuidar e ele vira saudável e vamos construir esse lugar de um modo sólido que vai deixa-lo seguro até que seja adulto e possa se defender.
─Vamos fazer exatamente isso. – Ela suspira. Se arruma em meus braços. – Alguma recomendação especial?
─A doutora disse que você tem que me amar muito. Me beijar toda hora. Ficar o tempo todo aqui comigo. Que tem que dizer que me ama de manhã logo quando abrir os olhos. E depois disso ficar repetindo até eu adormecer todos os dias.
─A Doutora disse isso? – Sorrio. Nem acredito que consigo sorrir.
─Não. Mas devia ter dito.
─Ela sabe que não será preciso. Vou cuidar de tudo. De um modo meio obsessivo eu acho. No momento quero correr o muro em busca de alguma falha.
─Hoje não. Disse que voltaria só para ficar comigo. Tirou os pontos? – Ela se afasta e mostro a ela. – Ficou bom.
─Achei a doutora tão enigmática. Agora entendo o porquê.
─Pedi segredo. Não sabia como dizer a você.
─Faço tudo errado e ainda me acho no direito de gritar. Sabe que não estava gritando com você?
─Sei. Estava gritando com o universo. Entendo isso. Estava com medo de ouvir e simplesmente não aguentar e sair e nunca mais voltar.
─Não era isso que eu estava fazendo quando tentei sair. Só queria fugir da verdade um momento e voltaria. Nunca te deixaria. Não consigo. Você é tudo que tenho.
─E você é tudo que tenho também. – Beijo Clarie.
─Vem. Vamos sair desse chão gelado. – Ficamos de pé e eu a levo para o sofá. Nos sentamos abraçados. – E se tiver uma outra tontura como aquela na escada por exemplo?
─Vou ser cuidadosa Daryl.
─Eu vou ficar de olho também. Desculpe. – Me aproximo mais dela. Afundo o nariz em seu pescoço. Nunca mais vou parar de me desculpar.
─Não fica se culpando. Vamos nos encher de bons sentimentos. Por favor Daryl. – Sinto a angustia de novo em suas palavras e afirmo. Me afasto para olhar para ela. Toco seu rosto. Acaricio com a ponta dos dedos. Analiso sua expressão. Procuro algum sinal e só vejo mesmo os olhos brilhantes além da conta.
─O que foi? – Ela sorri iluminando minha vida.
─Estou procurando algum sinal diferente. Está linda como sempre e com olhos brilhantes.
─Não vou ficar linda muito tempo.
─Vai. Não que isso importe. – Suspiro. Minha mente avança alguns meses e as imagens me afligem mais do que animam. Vou ter que lidar com isso de modo a proteger Clarie. Não quero deixa-la preocupada.
─Daryl. Como vamos contar ao Ben? – Isso é outro grande problema. Não acho que ele vá ficar feliz com a notícia.
─Ama o Ben?
─Claro. Tanto quanto nosso bebê. – Ela toca a barriga e o gesto me causa um baque.
─Eu também amo. Vamos ter que estar prontos. Não será fácil para ele.
─Acha? Queria que ele ficasse feliz.
─Benjamin vai ter medo. De algo te acontecer. Do bebê roubar seu lugar.
─Acha que ele pode voltar a ficar revoltado? – Ela se assusta.
─Vamos lidar com isso.
─Pelo tom acha. – Ela se encolhe e me abraça mais. – Acha que é melhor esperar mais um pouco para contar?
─Não. Vamos contar hoje. Lidar logo com isso e todo o resto que surgir. E ser pacientes com ele.
Ela seca uma lagrima. Depois outras vem e não sei bem o que provocou isso.
─Clarie... O que foi?
─Se não está em pânico fico a vontade para ficar eu em pânico e não quero que o Ben sofra. Ele nem está totalmente adaptado. Ainda se esforça tanto para gostarmos dele. É agora tão doce. A ideia dele tendo uma crise me magoa.
─A gente vai dar um jeito dele entender seu lugar. Temos que ficar de olhos abertos e ouvidos atentos porque ele não diz claramente. Ele rodeia e tem aquele jeito confuso de mostrar como se sente.
─Você conta? Não consigo. Já tive minha cota e ainda tenho que contar a Maggie e o Morgan.
─Morgan adora você e vai te encher de esperança. Maggie não tem nem o direito de ficar preocupada.
Eu já estava com medo por ela e Glenn, agora estou no mesmo barco que eles e a conversa de umas semanas atrás com Glenn agora talvez tenha retorno.
─Foi com o Eric procurar a doutora?
─Sim. Se não fosse ele ao meu lado tinha desmoronado lá mesmo.
─E ainda se sente no direito de ter ciúme dele comigo? Eu que devia ficar com ciúme. Vou falar com o Aaron sobre isso. Vocês dois grudados o tempo todo!
Ela gosta disso. Sorri de um jeito meigo. Toda delicadinha. Minha perfeitinha.
─Ele é como um irmão! Não é comigo que ele fica todo preocupado. Vamos alimentar Daryl Dixon!
─Me provoca que conto para ele.
─Fofoqueiro! – As lagrimas se foram mais uma vez. Um longo suspiro parece afasta-las de uma vez.
─Desculpa. Não registra o que eu fiz. – Meu coração dói toda vez que lembro.
─Chega de pedir desculpas. – Ela diz séria. – Vamos recomeçar. Entende o que significa?
─Sim senhora! – Digo antes de dar um beijo em seus lábios. – Não vou mais pedir desculpas. Eu amo você Clarie. Eu vou cuidar de você. Como prometi um dia. Vou manter você perto. Nada pode tocar você. Não vou perder você.
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