Resumption
54 Capitulo 54
Notas iniciais
Pov – Daryl
Escuto a correria de Ben subindo as escadas logo cedo e simplesmente odeio estar aqui nessa maldita cama. Ele entra no quarto e sobe na cama. Toca minha testa. Isso de algum jeito me acalma um pouco como acalmava ele quando estava no mesmo lugar que estou agora.
─Minha mãe está indo me levar na escola. Não queria ir, mas ela mandou.
─Eu fico bem até voltar.
─E se tiver febre?
─Clarie olha e avisa a doutora.
─Queria ficar aqui igual ontem que cuidei de tudo.
─Quando voltar continua a cuidar de tudo. Não quero que fique preocupado Ben. Não estou morrendo, só vou ficar deitado hoje. Amanhã tudo volta ao normal.
─Posso colocar sua besta aqui do seu lado enquanto minha mãe me leva na escola? – Como isso é estranho. Toda essa preocupação me causa coisas confusas que mal compreendo. Afirmo.
─Uma ótima ideia, pequeno duende. Você é muito inteligente. Cuidado. – Ele ergue a besta e coloca sobre a cama. Mede minha febre mais uma vez. Ou acha que está fazendo isso. Depois sorri.
─Nadinha de novo. Agora eu tenho que ir. Tchau pai.
─Tchau.
─Minha mãe disse que não demora.
─Tenho certeza disso. – Ele desce correndo.
─Não corre Ben. – Clarie reclama lá de baixo e sorrio. Adoro isso, as pequenas coisas que nos tornam uma família.
Escuto a porta bater e fecho os olhos. Ficar sozinho é irritante. Odeio isso. Ao mesmo tempo que odeio prender Clarie a esse quarto. Não quero ser um estorvo para ninguém, nunca mais quero me sentir assim. Como me sentia na infância. Um fardo pesado demais.
Prefiro me virar. Já estive ferrado outras vezes e não incomodei ninguém. Também não tinha ninguém muito preocupado com isso. Agora Clarie e Benjamin parecem se sentir tão feridos quanto eu e isso é absurdamente confuso para mim.
Não sei lidar com isso. Me dá medo. Não quero me render a isso e depois perder. Descobrir que não passo de uma obrigação. Não foi fácil parar de me importar. De esperar por isso. Agora que consegui tudo muda e não tenho ideia de como dizer a eles para não chegar tão perto.
Posso cuidar deles. Amar. Proteger e não preciso de nada em troca, se não, saber que estão aqui comigo. Sei cuidar. Não sabia até o fim do mundo. Mas quando ele acabou eu aprendi com as pessoas que me cercavam e precisavam de mim.
Cuido delas e isso é tudo. Está ótimo. Claro que quero ser importante e já entendi que sou para eles. Só não quero lidar com essa pressão no peito, esse conforto todo de ter alguém me cuidando e sempre presente.
Como Clarie é presente e preocupada. Atenciosa e linda. O jeito como faz tudo parecer certo e bom. Me assusta mais do que os mortos-vivos. Muito mais do que quando descobri que não podia ficar sem ela.
Meu amor por ela é totalmente explicável e possível. Ela é toda perfeitinha. O dela por mim é que é incompreensível e apavorante. Principalmente esse amor cuidadoso e constante.
A porta lá em baixo se abre e sei que está de volta com toda sua necessidade de me deixar confortável. Escuto seus passos na escada e me sento. Tiro a besta da cama e seguro o curativo do abdômen para ficar de pé. Dói feito o diabo. Uma maldição estar assim quebrado.
─Voltei! – Ela surge no quarto. – Onde vai?
─Tomar banho. Está limpinha e perfumada. Não se atreva! – Ela ri do meu medo de tê-la sob o chuveiro. Se Clarie soubesse o que me causa não se divertiria tanto como agora.
─Fico vestida. Vou só te ajudar. Prometo. – Isso parece ainda mais constrangedor.
─Aí vai parecer que sou um inútil dependente! É pior ainda.
─Isso é bem chato de ouvir. Não se preocupe, se algo me acontecer e precisar de ajuda vou me lembrar de pedir a outra pessoa. – Ela me diz realmente triste. – Dá para ver que se odeia tanto ser ajudado é porque deve gostar menos ainda de ajudar.
─Você sabe que não é assim. – Não gosto de magoar Clarie.
─Tínhamos um acordo, cuida de mim se me deixar cuidar de você. Se não pode cumprir sua parte, não cumpro a minha também. – Com os olhos mais tristes que já vi ela se vira para sair e não tem nada pior que assistir Clarie me dando as costas e caminhando para longe.
─Clarie... – Ela para, não se vira para mim, só fica imóvel decidindo se valho a pena ou não. – Pode pegar uma muda de roupa para mim? – É bem difícil fazer isso.
Me deixar ser cuidado como um inútil. Já fui bem inútil por um longo tempo e isso é muito ruim. Ela se volta. Uma lagrima escorre, mas tem um leve sorriso e isso já compensa um pouco.
─Eu não preciso. – Deixo claro. – Mas quero que me ajude no banho.
─Será que antes disso pode me beijar? Um beijo mesmo. É que não temos feito isso desde que voltamos daquela droga toda lá fora.
Isso foi há dois dias. Sorrio. Clarie está certa. Não faço mesmo isso desde que chegamos. Dou um passo para ela. Minha garota se adianta e caminha bem mais rápido que eu. Eu a envolvo pela cintura.
─É bem difícil só beijar você. Por que é toda perfeitinha e sempre quero mais.
─Que bom. Porque eu também, mas não vamos além dos beijos! – Ela adverte apressada.
─Infelizmente concordo, não gosto disso, mas não tenho escolha. – Seus olhos prendem os meus naquela espécie de feitiço que ela joga em mim e me domina. O mundo para pôr um momento e meus lábios tomam os dela e me dou conta de como senti falta disso. Ela se cola a mim, passa os braços por meus ombros. Mergulha os dedos em meus cabelos e me sinto como no começo de tudo, quando não resistia a ela e simplesmente beijava Clarie para logo depois achar tudo confuso e errado. Dessa vez não é errado.
Nos afastamos para respirar. Ela acaricia meu rosto com um sorriso delicado. Tão inteiramente minha. Eu a amo. Não tem volta.
─Amo você Clarie. Por inteiro.
─Te amo assim também. Todo você. Até essa sua relutância. – Afirmo. É bom que ame, essa parte de mim é sempre a primeira a saltar aos olhos alheios.
─Vem me ajudar a tomar banho e trocar esses malditos curativos. – Seguro sua mão, ela sorri. Tento andar, mas ela trava e me faz olhar para ela. Os olhos brilham feito diamantes lapidados.
─Eu gosto de fazer isso. Poderia fazer por qualquer pessoa é claro. Mas quando é você me faz feliz e especial. Nos torna mais íntimos que quando estamos ali. – Ela aponta a cama e concordo. Beijo Clarie mais uma vez e vamos para o banheiro.
─Como foi com o Benjamin? – Pergunto querendo pensar em qualquer coisa que não seja os dedos delicados de Clarie me ajudando a me despir para nada além de um banho.
─Febre mãe. Não esquece de ver a febre. Era tudo que ele tinha para me dizer por todo o caminho. Ah! E também tinha um, me chama se meu pai precisar de alguma coisa. É só me buscar mais cedo na escola.
─Você bem que podia busca-lo um pouquinho mais cedo para ele se sentir importante. – Eu peço e ela sorri ligando o chuveiro. – Que foi?
─É um pai tão carinhoso e perfeito para ele. Daryl acho que você também é todo perfeitinho! – Ela brinca.
─Nem vem com essas delicadezas! – Resmungo em baixo do chuveiro. Ela sai de perto. Ótimo. Todo mundo cede um pouco e sobrevivemos até que eu fique inteiro de novo.
Enquanto tomo banho ela arruma curativos sobre a pia do banheiro. Também pendura uma muda de roupa para mim ao lado da pia e me estende uma toalha quando acabo. Visto a calça e paro de pé na frente do espelho da pia. Ela senta no vaso para fazer o curativo no abdômen.
─Parece tão melhor, se cura rápido. Isso é bom.
─Wolverine. – Brinco quando ela fechava com gaze.
─Uhm! Quer me mostrar suas garras?
─Clarie... – Ela ri do meu choque.
─Não resisti amor. Era piada pronta. – Clarie fica de pé. Me rouba um beijo antes de se voltar para o pequeno ferimento no ombro. Esse até que não dói muito.
─Salvou minha vida. Essa bala era para estar no meu cérebro. – Me lembro dela atacando o maldito com sua lança.
─Não. – Clarie diz com naturalidade. Pegando uma gaze para tampar o local. – Era para o meu cérebro. Me empurrou para longe antes disso.
─Salvamos um ao outro. Somos bons juntos. – Decido o empasse.
─Feito! – Ela diz colocando um pequeno pedaço de esparadrapo sobre o local. – Quer que faça sua barba? – Clarie pergunta tocando meu queixo com dedos delicados.
─Não. Deixe ela aí. – Nossos olhos se encontram.
─Essa parte de você que não confia nesse lugar e não aceita as mudanças me dá medo as vezes. – Olho para ela. Essa mulher me conhece. – Medo de ser a maior parte de você.
─Metade. – Respondo.
─A barba, o cabelo. Está sempre pronto para voltar lá para fora. Sempre tem metade de você ainda mergulhado no caos do apocalipse.
─Se me render e depois cair eu não aguento me erguer depois. Pareço forte, mas não sou. Ao contrário disso. Sou fraco e quebrado de muitos modos. Me armei contra isso e decidi não esquecer como as coisas são e nem me dobrar a calmaria.
─Vem. – Ela me puxa delicada e caminho de volta para cama. Prendo a respiração para me sentar. Depois me encosto nos travesseiros e ela vem para meus braços. – Acha que tudo isso vai cair?
─Tudo isso é só conto de fadas. A verdade está além desses muros. No gruir dos mortos. Na fome sem fim que os faz caminhar dia e noite. No ódio e desespero dos vivos que estão além desses muros.
─Fico com o conto de fadas então. Com a ignorância. Me faz ter coragem e esperança. Sem isso volto a ser a garota que um dia cruzou seu caminho.
─Entendo isso. Queria ser assim. Como o Rick por exemplo. Meia hora aqui e estava pronto para acreditar num futuro. Você demorou mais. Quando achei que te veria toda vestida de dama da sociedade me pediu para ensina-la a ser forte.
─Ensinou. Agora posso ter tudo. Lutar e enfrentar as coisas lá fora quando for preciso e ser feliz aqui dentro com você e o Benjamin.
─Eu sei. Estou tentando. Acontece que o caos é quem eu sou. Me sinto confortável nele. Aqui, sendo cuidado como um garotinho indefeso eu apenas fico confuso.
─Eu sei que odeia o garotinho indefeso. Não conheço quase nada sobre ele, mas sei que ele já viveu aí dentro e tem medo dele dar as caras.
─Eu tinha um amigo quando era garoto. Um menino que estudava comigo e morava perto. Acontece que eu era má influência era o que todos diziam. Eu era um Dixon. Um maldito Dixon e por isso um problema. Os pais dele não queriam que ele andasse comigo.
─As pessoas sempre com um olhar superficial. – Ela diz enquanto brinca com meus dedos e me escuta atenta.
─Eu era mesmo um problema. Estar comigo era estar encrencado. O fato é que ele gostava de andar com o mau elemento. O pai dele as vezes nos encontrava juntos e ele apanhava. Apanhava mesmo, de ficar com marcas e eu tinha inveja dele. Inveja até das surras, elas pareciam fazer sentido. Ele apanhava porque o pai dele queria o melhor para ele. Um futuro e eu não tinha futuro.
─Daryl...
─Essa era minha cabeça de menino. Eu apanhava, mas por um simples motivo. Eles se divertiam com isso. Ninguém se importava com o que eu fazia. Onde ia ou com quem me misturava. Era a tortura pela tortura. Meus pais teriam sido boas aquisições para esses lobos.
─Sempre foi assim?
─A humilhação era pior que a violência. – Como é difícil voltar aquele lugar. Como machuca olhar para aquilo. Como quero apagar de uma vez da minha vida. – O sangue Dixon é podre.
─Não diz isso! – Ela me envolve. Beija meu peito e a trago para mais perto. Senti-la assim me ajuda a ficar firme e me abrir de uma vez.
─Minha mãe era uma bêbada, morreu queimada na própria cama e nem consegui chorar por ela. Merle sempre foi um traste, tinha um jeito duro e fingia me ensinar a ser como ele e sobreviver, mas no fundo era só um reflexo do meu pai e sua maldade. Ele gostava de me fazer sentir pequeno tanto quanto meu pai.
─Mas não é. Daryl você é grande. Deixou tudo aquilo para trás.
─Já ouvi isso antes. Não é fácil acreditar. O passado fica ecoando na minha memória. Uma cicatriz para cada lágrima que derramar. Nunca vai ser um homem. Burro. Estúpido. Rato. Quer comer vá caçar. – Ela seca uma lágrima. – Foi uma droga de um inferno. Nem notei quando o apocalipse começou. Pensei, mas que merda. Não foi sempre assim?
─Quando acabou?
─Quando me dei conta que estava mais alto e mais forte que ele. Quando finalmente me levantei e reagi. Então ele virou o ratinho. Se encolheu como o covarde que sempre foi. Um dia morreu e acabou.
─Ficou sozinho?
─Mais ou menos. Merle ia e vinha. Quando estava com ele eu era um traste. Pode acreditar. Só vivia cercado da escória. Então ele sumia e eu tentava. Me arrumava num emprego. Concertar motos. Construção. Não nasci para roubar. Nem me drogar. Não suporto perder o controle sobre mim. Sobre minha mente. Quando isso acontece os monstros todos ganham força e não aguento.
─Isso foi bom então.
─Clarie. Eu era um rato indefeso até descobrir que revidar e mostrar minha raiva me deixavam a salvo. Foi assim com meu pai e então eu me concentrei em ser assim e foi o apocalipse. As pessoas que hoje chamo de família que acalmaram isso em mim. Você, o Ben. Se tivesse te encontrado antes do fim talvez como é toda perfeitinha eu tivesse tomado jeito.
─Queria que tivesse acontecido. Queria saber como seria ter uma vida com você num mundo sem os mortos.
─Como era você? Não conta muito.
─Uma boa infância. Uma mãe carinhosa e preocupada. Um pai sumido que nunca deixou de mandar a pensão. Depois quando a doença dela se agravou eu já era adulta. Trabalhava. Cuidava dela. Tudo piorou muito. Meu pai morrer de algo natural no fim da minha adolescência. Ficamos eu e minha mãe.
─E então a droga do dinheiro piorou tudo. Essa é a única coisa boa no fim do mundo. Dinheiro não serve para nada afinal.
─Minha mãe parou de trabalhar. Começamos a viver do meu salário e num momento eu tive que decidir o que pagar. Ela precisava de remédios e boa alimentação então parei de pagar o aluguel. Quando ela foi internada para operar eu estava no fundo do poço. O dono da casa tinha me dado uma semana para deixar o imóvel. Ela nem sonhava com isso.
─O que pretendia fazer? Se o mundo não tivesse acabado?
─Me suicidar! – Ela tenta brincar. Ri de modo amargo. – Não aprendi a ser forte como você Daryl. Eu perdi meu emprego um dia antes de internar minha mãe. Ela nem sonhava com isso. Não tínhamos dinheiro e nem casa. Eu pensava em arrumar um quarto de pensão em uma cidade pequena. Tentar arrumar um emprego qualquer. E sustentar minha mãe. Na verdade eu não tinha planos. Tudo que tinha era medo. Juntei todo dinheiro que consegui para os gastos com exames e a cirurgia. De qualquer modo o médico não tinha me dado muitas esperanças eu acabaria sozinha de um jeito ou de outro.
─Os mortos não trouxeram nenhuma novidade para nenhum de nós dois. – Eu constato e ela afirma. Depois se senta e me olha nos olhos.
─Daryl. Deixa o menino assustado ir embora. Deixa o passado ficar lá e vamos só viver esse momento de calmaria. Não foge mais dos meus cuidados. Você não é um fardo. É junto com o Ben, a única coisa que me faz feliz nessa vida.
─Estou fazendo isso. Falar um pouco do passado ajuda. Mostra quem eu sou. Ficar nessa cama me obriga a encarar isso e acho que agora assim como você e o Ben eu também estou tentando.
Ela afirma com um sorriso. Volta para meus braços. Eu a beijo longamente mais uma vez.
─Estou orgulhosa de você. E lisonjeada de dividir tudo isso comigo.
─Só podia ser com você. Mas a barba e o cabelo ficam. Isso ainda não quero...
─Eu sei. Mas não quer dizer que vou desistir. – Ela me beija de leve. – Estou feliz. Vou buscar o Ben na escola. Dizer que estamos precisando dele aqui.
─Vai ser bom. Ele dá largos passos, mas ainda tem muito caminho pela frente.
─Vou lá amor. Não sai daí.
─Quem me dera. – Ela sorri como uma menina. Salta da cama, não sabia que ouvir sobre mim era assim tão importante para ela. Estava na porta quando volta para me beijar. Depois corre pela escada. – Não corre na escada! – Grito só para provoca-la como ela sempre faz com Benjamin. Os passos se acalmam na mesma hora.
─Desculpa amor. Sou mais obediente que o Ben. – Ela grita de volta e me deixa rindo quando a porta bate um instante depois. Não demora e escuto os passos de Benjamin correndo escada acima.
─Cheguei pai. Minha mãe foi me buscar mais cedo. Disse que precisa de mim para ajudar você. – Sua mão vem para minha testa e começo a achar que é como quando precisava de carinho e não sabia como pedir. Talvez agora ele queira dar carinho e não saiba como.
─Que bom que chegou. Estou com febre?
─Não. Está muito normal.
─Ótimo. Então pega ali um gole de água para mim. Por favor. – É bom de ver o sorriso grande que se forma. Parece que hoje é meu dia de fazê-los felizes. O jeito é admitir que preciso de ajuda. E quando não precisar fingir que preciso.
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