Resumption
44 Capitulo 44
Notas iniciais
Pov – Daryl
Não queria fazer Clarie chorar, ela levou um susto grande, precisa de mim para acalma-la e só faço ter uma crise nervosa. Mas a ideia dela em perigo enquanto estou aqui, apenas não fazendo nada me deixa angustiado.
─Desculpe Clarie, não quis ficar bravo, só estou nervoso, me deu um susto enorme.
─Eu sei também me assustei. – Ela soluça em meus braços.
─Tenho medo de te perder, e tenho muito mais medo de isso acontecer sem nem ao menos eu ter tentado. Não posso conviver com a ideia de não ter você. – Ela se encolhe mais em meus braços. Soluça e eu a envolvo. – Não sei mesmo como lidar com tudo isso, eu tinha me decido a viver sozinho até o dia que simplesmente eu não conseguisse mais e então acabava. Acontece que chegou e ocupou espaço muito rápido então se estamos juntos eu preciso de segurança.
─Não posso garantir isso, posso tentar como fiz hoje, mas é só o que posso fazer.
─Foi forte, admiro o quanto cresceu e se desenvolveu, como ficou corajosa. Agora temos o Ben e isso é gigantesco para mim. Muito mais do que posso lidar.
Ela se afasta um pouco de mim para me olhar, o rosto coberto por suas lagrimas, a pele arrepiada de frio ainda enrolada em uma toalha.
─Não culpa ele, promete, eu sei que devia ficar e cuidar dele, que o Ben....
─Ei, está maluca? Eu o quis muito mais do que você, claro que não culpo ele. E por falar nele está lá em baixo assustado.
─Estou bem, vou me vestir e vamos descer. – Ela tenta sorrir, mas o sorriso é fraco. Eu a abraço ainda mais, ela se encosta em mim. – Pensei em você e no nosso filho, agora que ele aprendeu a dizer pai e mãe, não queria perde-lo.
─Não vai, você, eu e Ben não vamos mais perder. Se lembra? – Ela afirma. – Toda perfeitinha. Foi uma boa troca, não acha? Seu coração pela minha coragem?
─Sim, mas gastei tudo hoje, agora vou precisar de mais.
─Vai ter mais. Sempre que for preciso. O homem de lata aqui providencia, basta que mantenha meu coração batendo e sem você ele para.
─Daryl você sabe que essas coisas que diz são lindas e me deixam com o coração batendo forte e as pernas bambas?
Me afasto, por esse caminho Benjamin vai passar muito tempo lá em baixo sozinho.
─Assunto perigoso, se arruma e espero você lá em baixo, não vamos esquecer o Ben.
─Não quero mais acordar sem você, quando forem fugir da cama no meio da noite me convidem. – Ela me pede com aquela carinha doce de Clarie e meu coração bate acelerado, dou um beijo leve em seus lábios e fujo dela.
Na sala Benjamin chorava encolhido no sofá. Que manhã confusa eu penso me aproximando dele.
─O que foi pequeno Duende?
─Você ficou comigo e não cuidou da Clarie, a culpa é minha e acho que vai brigar comigo. Não quero que me machuque, mas também não quero que me mande embora.
─Hoje estamos bem exagerados! Todos nós, acho que estamos fazendo muito drama. – Se posso envolver Clarie em meus braços e acalma-la posso fazer o mesmo pelo meu garotinho e eu o puxo para o meu colo. – Nunca, por nenhum motivo vou machucar você Ben. Te contei o que acontecia comigo e sei como é.
─Você sabe. – Ele se esconde em meus braços, soluça, me abraça. Que sorte a dele, ninguém nunca fez isso por mim, sou sempre eu a cuidar das pessoas.
─Nunca vou mandar você ir embora também.
─É melhor mesmo, eu já me acostumei aqui, e não vou mais fazer coisas feias, nem nada.
─Se fizer também não vai embora.
─Isso não é um pouco burro? Só um pouco, deixar eu ficar até se eu ficar fazendo coisas feias e xingando.
─Acho que pais são um pouco burros! – Penso em Rick e no tanto que já aturou das crises do Carl e acho que é isso, somos mesmo um pouco burros.
─Agora é assim? Vocês dois sempre grudados e eu jogada e esquecida.
Clarie surge na sala vestida e com os cabelos presos, um sorriso que tenta esconder sua tristeza. Benjamin sorri quando a vê, ela caminha para junto de nós.
─Oi mãe. – Clarie enche os olhos de lágrimas. Benjamin me olha preocupado.
─Ela se acostuma. – Ele afirma.
─A gente vai ter aula hoje Ben, chega de férias, está melhor.
─Acha que eu já sei igual os meninos que vão na escola? – Ben questiona e ela sorri, agora um sorriso verdadeiro. Beija o rosto de Benjamin ainda no meu colo, acaricia seu rosto e afasta seus cabelos.
─Acho que está pronto, deve saber até mais que alguns meninos.
─E se eu for na aula com eles? Acha que vão rir de mim? Agora eu tenho pai e posso contar para ele se rirem de mim.
Clarie me olha, é bem possível que eu fizesse qualquer coisa para defende-lo. Ela me alerta, depois sorri.
─Ninguém vai rir de você. Mas amanhã falamos disso, hoje vai ficar comigo.
─E eu vou trabalhar lá fora um pouco. Onde estava Clarie? Com quem?
─No grupo do Abe. Ele correu, mas chegou depois que já tinha matado o zumbi.
─Mãe. – Ele começa, olha para Clarie a espera de lagrimas, prendo o riso, quando ela se mantem firme ele decide continuar. – Matou um zumbi? Como foi?
─Foi como sempre é Ben, eu só fiz o que era preciso.
─Vou deixar vocês. Está bem? – Pergunto investigando seus olhos, ela sorri, afirma com um movimento de cabeça, Ben passa do meu colo para o dela e pego minha besta, sinto necessidade de olhar o corpo do monstro que desejou me tirar Clarie.
Os dois ficam me olhando sair. Na rua eu respiro fundo, caminho em direção ao local onde Abe e alguns homens trabalham.
─Ela está bem? – Abe me pergunta, afirmo olhando o ambiente, a casa semi queimada. Do lado de fora um corpo estendido. Olho para aquela coisa estirada ao chão. – Foi isso aí. – Ele confirma sabendo que é isso que quero saber.
Encaro aquela coisa no chão, devia ser um humano, antes do mundo acabar era apenas isso, agora é uma peça da guerra que o inferno e o paraíso travam, o inferno ganha de lavada. O pescoço está aberto, tem uma abertura que vai até a mandíbula.
─Ela foi impressionante, acabou com ele com as mãos, vi pouca gente capaz disso, fez um bom trabalho com ela.
─Eu sei, mesmo assim, se acontecer de estarem num mesmo grupo sem mim, Abe eu realmente preciso que cuide dela.
─Te entendo, sei como é. Quer dizer, vou ser honesto, não sei, não com Rosita, as vezes acho que ela viveria muito bem sem mim.
Estranho o desabafo, nem sei bem como lidar com aquilo e apenas afirmo. Depois encaro a bagunça a minha volta e junto com ele começo a trabalhar, carro os escombros de um lado para outro, me irrito ao pensar que Clarie estava aqui fazendo esse trabalho pesado.
─ A Clarie está legal? Mais calma? – Spencer me pergunta surgindo ao meu lado, não gosto dele, simplesmente não gosto.
─Ótima! – Aviso começando a me afastar.
─Depois passo lá para vê-la. – Eu devia ignorar aquilo, tratar como algo normal, seria se Rick me dissesse que vai mais tarde ver Clarie, ou Glenn, Aaron, Eric, Morgan, talvez qualquer um, menos aquele cara, me viro e olho para ele.
─Eu disse que ela está ótima, então não precisa ir até lá para vê-la.
─Entendi. – Ele se mantem firme, sinto um certo desafio e não gosto disso.
─Que bom. Te mantem respirando.
Continuo meu trabalho, se antes já estava tenso agora me sinto de péssimo humor, me sento encostado numa parede para descansar um pouco, caço um cigarro nos bolsos.
─Corri quando vi que ela subiu com o Abe, mas quando cheguei ela já tinha se virado. – Glenn se senta ao meu lado.
─Ela está bem.
─Nem contei para a Maggie, não quis preocupa-la, mas pensei que vamos ter que ser bem cuidadosos agora, não pensamos que podia ter zumbis nas casas queimadas.
─Verdade, deixar passar essa, se tivesse lembrado teria impedido Clarie de vir.
─É difícil segura-las. – Glenn reclama. Suspira. Se encosta ao meu lado, passa a mão pelos cabelos. – Maggie está grávida.
─Já soube.
─Fui meio que o último a saber. Nem sei o que pensar. Queria muito dizer que estou feliz, mas estou com medo demais para sentir qualquer outra coisa.
─Desculpe Glenn, não sou o cara que vai te tranquilizar.
─Por isso estou aqui, não vai bater no meu ombro e dizer que vamos ficar bem como todo mundo.
─Não posso, sinto muito. Achei que seria diferente. Não é, já vimos isso, toda hora a vida nos prega peças mostrando que não está, nem vai ficar tudo bem.
─A gente está junto nessa desde a pedreira. Antes mesmo do Rick. E passamos muita coisa.
─Verdade. Um longo caminho. Eu, você, Carl e Carol. Antes de todos os outros.
─Só o que sobrou daquelas pessoas que se enfiaram naquele lugar em busca de esperança. Eu correndo até Atlanta, você caçando.
─A gente dava um jeito, mais do que os outros.
─Muito mais. Daryl, desde que o Rick chegou no grupo e a Lori anunciou que estava grávida, bom eu sempre vejo o que faz por Judy e pelo Carl. Sempre se arriscando por eles, apoiando o Rick por eles. Dando espaço para ele ser pai.
─É o que fazemos Glenn, você faz o mesmo.
─Não eu não faço. Tem coisas que fiz que me arrependo, deixei o Rick em busca de um tal de bem maior. Larguei o Rick com os filhos naquela igreja e fui tentar a sorte em DC, fico tentando fingir que estava fazendo a coisa certa, mas é mentira, eu estava só dando um tempo.
─Onde quer chegar Glenn, isso ficou para trás, passou.
─Você estava caçando a Beth, juntando nossa família e eu estava dando adeus a ela. Ainda carrego em mim o peso do certo e errado, mas não tem mais tempo para isso.
─Não, o certo é ficarmos vivos e pronto.
─Vi o Noah morrer, vi um monte de gente morrer, se acontecer comigo, se acontecer com a Maggie, pode junto com o Rick, cuidar do meu filho como cuida da Judy e do Carl?
─Vou cuidar dele como cuido do Benjamin, que agora é meu filho. – Dou uma última longa tragada no cigarro. Atiro para longe. – Agora chega desse papo, já choramos por todas essas perdas. Vamos trabalhar.
Estendo a mão a ele o colocando de pé, nos encaramos. Seu olhar é solene.
─Obrigado. – Ele diz e então voltamos ao trabalho. Só temos até a noite cair, depois só amanhã. Estamos operando em racionamento até tudo voltar a ficar bem.
Não vejo a hora da noite cair e poder voltar para Clarie, dormir com ela nos meus braços com a certeza que tudo está bem. Acordar e como todos os dias caça-la na cama e me enrolar nela para esquecer que a droga do mundo que nem era grande coisa acabou.
Pov – Amber
─Onde vai Amber? – Minha mãe me pergunta quando dou uns passos em direção a porta.
─Está em casa? Achei que estava na enfermaria.
─Felizmente não tem ninguém lá, as coisas estão bem.
─Tão bem que dá medo.- Respondo com uma mão na maçaneta.
─Está gostando daqui? – Ok, minha mãe quer conversar, desisto da maçaneta e me sento com ela.
─Por enquanto parece bom. Não sei até quando.
─Nem eu, mas combinamos nós duas de viver apenas o hoje, então hoje está tudo bem.
─Sim. Hoje está tudo bem. – Depois de tantos lugares, de tantas perdas, de recomeçar e recomeçar decidimos apenas viver um dia de cada vez, se dá para comer. Ótimo, se temos onde dormir, melhor ainda, mas se é para correr, então corremos e isso nos deixou menos amargas que a maioria das pessoas que nos cercam.
─Gosta do Carl? – Sabia, chegaríamos a ele em algum momento, foi bem rápido.
─Não o conheço direito, acho que posso gostar se ele for como penso, mas agora não dá para saber como ele é.
─Porque? – Ela franze a testa sem me entender, já esperava por isso.
─Por que agora ele não é ele mesmo, ele é o garoto da cicatriz, na cabeça dele isso é maior que tudo, está bravo e triste, então não sei como ele realmente é.
─Entendi, ficou assim também quando aquilo te aconteceu.
─Quando aquele maníaco me atacou, eu sei que sim, mas não foi o ataque dele em si, foi o mundo a nossa volta, achei que todo mundo ficaria como aquele louco, por isso eu tive raiva e medo, mas depois eu dei de cara com um monte de gente boa e vi que o apocalipse não tirou isso de todo mundo, só de quem quis abrir mão disso.
─Se contabilizarmos encontramos mais gente boa que ruim.
─Muito mais. Mas isso é porque você é médica, as pessoas precisam de você e te protegem, não sei se seria assim se não fosse, se eu estivesse sozinha.
─Não está. – Ela sorri, brigamos, isso é um fato, muitas vezes, quase todos os dias por todo tipo de tolices com ou sem fim de mundo, mas é a pessoa que mais amo no universo e isso também vai além do fim do mundo. ─Hoje não está.
─E hoje é o que importa. – Me levanto vou até ela, beijo seu rosto e caminho para porta. – Vou animar um pouco o Carl. Acha que tudo para ele vai voltar ao normal?
─Como médica digo que sim, ele está ótimo, de resto é com ele e com quem se importa com ele. Com você por exemplo.
─Te amo mãe! – Bato a porta atrás de mim e saio caminhando, estamos perto um do outro, meia quadra, mas vou pelo lado oposto apenas para dar a volta no quarteirão e respirar um pouco.
Olhar o mundo a minha volta, as pessoas que sobreviveram, heróis de suas próprias vidas. Enid para na minha frente me impedindo a passagem, demoro um segundo para assumir a situação, me concentrar na realidade e olhar para ela.
─Estava com os pensamentos longe. – Ela me diz do nada, como se fossemos amigas, como se tivesse dado espaço para conversas amenas.
─Eu tenho os pés firmes no chão Enid, mas as vezes permito que minha mente se afaste, não muito, nem muito longe, nunca a ponto de me esquecer as pessoas a minha volta.
─Lição de moral? Que enfadonho. Não sabe nada de mim, me deixe em paz.
─Não me coloquei no seu caminho, você atravessou o meu. – Ela me olha com ar superior, fico pensando se é normal ou apenas uma louca idiota, esse tipo de gente faz tolices e arrisca vidas.
─Tem certeza que não atravessou meu caminho?
─Sério Enid? Quer mesmo começar uma briga por conta de garotos? Não vale a pena.
─Está certa, ele decide o que quer.
─Nunca vou deixar minha felicidade nas mãos dele, definitivamente eu decido o que quero. – Não espero resposta, passo a seu lado e sigo meu caminho.
Não penso mais nela também, isso é tolice, ela é tolice. Quando chego a casa de Carl não bato na porta, só empurro e entro, teria batido se achasse que Rick está lá, mas o vi envolvido no trabalho e sei que Carl está sozinho.
Ele estava sentado na sala com os olhos perdidos, isso sim é estar com a mente distante.
─Oi. – Desperto o garoto confuso que existe dentro dele e Carl me olha, da um meio sorriso, eu podia mesmo gostar dele. – Judy está com a Carol.
─Não sei quem é Carol.
─A mulher de cabelo curto. – Ele diz quando me sento a seu lado.
─Não vim até aqui saber dela, vim saber de você, está legal?
─Vivo, eu estou vivo.
─Será? – Ele me olha, sorri largamente e fica realmente bonito.
─É divertida, tem dúvidas sobre eu estar vivo?
─Tenho. Pense comigo, respirar, andar e comer não significa nada, isso os mortos também fazem.
─É tem razão, então acho que posso dizer que estou tentando ficar vivo.
─Sozinho e fechado aqui dentro não vai ser fácil. A coisa que sempre tive mais medo desde que o mundo acabou foi ficar sozinha. Sem ninguém para me mostrar a diferença, a dor é melhor do que a indiferença, então eu prefiro isso, se fosse você iria preferir encarar a pena das pessoas do que a solidão do isolamento.
─Amanhã. Quando tirar essas ataduras eu vou fazer isso.
─Bom, amanhã espero sua visita lá em casa. – Ele me sorri afirmando. – Encontrei sua namorada.
─Que saco Amber, ela não é minha namorada!
─Ficou bravo! – Rio, meus olhos encontram os dele e são bem azuis. Paro de rir quando qualquer coisa acontece dentro de mim e nunca tinha acontecido. – Porque fica bravo quando digo que é sua namorada?
─Porque não quero que você pense que é.
─Eu ou todas as pessoas? – Quero saber, sou sempre o tipo que quer saber. Não gosto de palavras pela metade nem assuntos não resolvidos, não vou levar nenhuma dúvida quando a morte me encontrar numa dessas esquinas do apocalipse.
─Você, não quero que você pense que ela é minha namorada.
─Certo, então não penso.
─Simples assim? – Ele se espanta. Dou de ombros.
─A vida é simples, tem os mortos, os vivos, as pessoas que nos importamos, as que queremos que vá para o time dos mortos, a vontade de viver e o fôlego para correr mais que eles. É isso. – Olho para ele um tanto surpreso, depois para o vídeo game. – Vamos jogar um pouco, sei que está louco para ver minha calcinha de novo, mas não vai acontecer.
Ele fica corado, balança a cabeça em negação, pega os controles na mesa, me joga um e fica com o outro.
─Vai comer poeira Amber. – Ele me desafia e é bem possível, nunca joguei essa droga muito bem.
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