Resumption
43 Capitulo 43
Notas iniciais
Pov – Clarie
Acordo com a luz entrando pela janela e me despertando, a primeira coisa que sinto é a falta de Daryl espalhado na cama, tateio em busca dele, nada, abro os olhos e estou sozinha.
Acho que nunca aconteceu de acordar sozinha, suspiro tentando despertar, Daryl sempre acorda carinhoso, me puxa para ele, e as coisas sempre são tão boas pela manhã. Será que está tudo bem? Penso em Ben e a ideia de algo errado me faz saltar ansiosa.
Ele me acordaria se Benjamin tivesse se sentido mal, eu caminho para o quarto de Ben, ele também não está, acabo por sorrir, os dois tem uma ligação especial, quem sabe saíram juntos para uma volta? Não pode ser nada ruim ou alguém teria me acordado.
Volto para o quarto, me arrumo e só então desço as escadas disposta a encontra-los. Paro na sala com os olhos úmidos, é tão bonito de ver que me emociona. Benjamin dorme com a cabeça no colo de Daryl, já Daryl dorme sentado de braços cruzados e todo torto.
Fico olhando para eles sem coragem de desfazer aquele momento, sinto desesperadamente falta do mundo que tínhamos, um mundo onde eu poderia eternizar aquele momento numa foto, quem sabe um dia mostrar a um Benjamin adulto o dia em que dormiram na sala.
Agora preciso contar apenas com sua memória, sinto que ele vai se lembrar, é um momento especial, ele é sensível o bastante para isso.
Benjamin abre os olhos, demora uns segundinhos para se localizar, seus olhos encontram os meus e ele se senta. Balança Daryl.
─Pai a gente dormir aqui na sala, pai! – Daryl abre os olhos, me encara, minhas lágrimas escorrem, ele disse pai, isso é emocionante e os olhos profundos de Daryl me contam isso. Não saio do lugar, fico ali, paralisada olhando Daryl em seu novo estado, Pai. – Mãe a gente ficou conversando aqui e dormiu.
Mãe, como essa palavra torna tudo novo e diferente? É só uma palavra, ou devia ser, é só o modo como filhos chamam aquela que te ama mais que tudo na vida, era assim com a minha mãe, eu gritava essa palavra entrando em casa depois do colégio, resmungava ela quando queria algo e ouvia um não, implorava por ela no meio de pesadelos depois de ver um filme de terror.
Não me lembro de vê-la se debulhando em lágrimas como eu agora. Os dois me olham Daryl se senta ereto, Ben me encara completamente confuso e caminho para ele.
Eu o abraço apertado, tomo cuidado com seus machucados, mas não deixo de envolve-lo. Meu filho, meu, eu o amo e somos agora uma família, é assim que me sentia, mas a palavra é como uma aprovação, uma confirmação.
─Desculpa Clarie eu não chamo mais você assim. – Ben diz confuso, me afasto dele para olha-lo.
─Não Ben, estou chorando porque gostei muito, eu queria muito que me chamasse assim e fiquei tão feliz.
─É? E chorou de feliz? – Aquilo não faz sentido para Benjamin. Isso até me dói um pouco, meu pequenino conhece quase nada de felicidade, assim como seu novo pai, eles não sabem nada sobre família.
─Sim! – Eu digo sem conseguir não chorar, peço ao universo que me dê a chance de ensina-los, sobre amor e família.
─Pai você chora de feliz?
─Não pequeno duende, é que a Clarie é muito perfeitinha! – Daryl diz sorrindo, gosto tanto quando ele fala assim.
─Amo você Benjamin, entende isso? Que eu te amo e quero cuidar de você?
─Acho que sim, você até chora. – Eu o abraço mais uma vez, me acalmo, acaricio seus cabelos.
─Agora que sou sua mãe posso cortar seu cabelo?
─Agora não pode, agora eu tenho o cabelo igual ao do meu pai.
─Amor agora que é pai posso cortar seu cabelo?
─Não, agora eu tenho um cabelo igual ao do... do... meu filho! – Daryl engasga um pouco ao falar, me emociona quando ele diz meu filho, mais lagrimas rolam e Ben me olha preocupado.
─É melhor a gente não falar dessas coisas mais, pronto, chega. ─Daryl ri e fica de pé, nós o imitamos.
─Vamos nos agasalhar Ben, temos que ir na doutora e depois eu vou...
─Ficar aqui com o Ben enquanto eu vou ajudar por aí. – Eu completo e ele me olha desolado, temos um acordo e quero que ele cumpra a parte dele, não posso e não quero ser um bibelô trancado em casa e protegido enquanto os mortos estão lá fora dominando o mundo.
─É isso. – Daryl concorda sem discutir.
─E as aulas voltam á tarde. – Benjamin sorri animado, dei uns dias de folga porque ele está ferido e assustado, mas é hora de tentar retomar a vida.
No caminho para a enfermaria eu fico rezando para Ben não ter um ataque de raiva e maltratar a doutora, mais uma vez, isso é algo que ainda temos que aprender a controlar nele, essa pequena fúria incontida.
Denise fazia um curativo em Spencer, ele nos sorri quando entramos só eu correspondo, os outros dois não saem por aí gastando sorrisos.
─Bom dia! – Denise sorri também. – Pronto Spencer, já está ótimo. Foi um corte fundo, mas você como sempre se recupera rápido.
─Eu tinha que ter alguma vantagem sobre essa droga toda. – Ele veste a camisa. – Foi uma luta com um daqueles lobos, cortei o ombro feio, ainda bem que tudo ficou bem. Ou quase. – Ele conserta acho que se lembrando das perdas que tivemos. – Eu vou indo, tem muito a ser feito ainda.
Spencer acena, nos deixa e Daryl me olha sério. Prefiro ignorar o olhar e me concentro em Denise.
─Então vamos ver como estão as coisas Benjamin? – Ben concorda com um movimento de cabeça e um olhar desolado, desistiu há muito de parecer forte, no dia que admitiu ser uma criança passou a agir como uma.
─Vai doer muito?
─Não vai doer nada, se estiver tudo bem, só vai voltar aqui para tirar os pontos.
─Eu não vou chorar. – Ele diz firme, mas com os olhos marejados, por que as coisas são sempre tão difíceis para ele?
─Tive uma ideia! – Me sento na cama, puxo bem para o meu colo, quem sabe ele assim perto de mim não fica mais tranquilo. – Pronto, assim pertinho vai doer menos.
─Vai. – Ele diz se encostando em mim, fecha os olhos quando ela começa a desfazer o curativo das costas, a pele está ainda muito machucada, serão marcas grandes. Como as que Daryl tem, mas não consegue falar sobre elas. Benjamin aperta meu braço, depois solta rápido. – Eu te machuquei Clarie, vi seu braços, desculpa, não foi de propósito.
─Tudo bem, eu sei disso, agora me diz, o que vai fazer quando sairmos daqui? Quem sabe ensina o seu pai a jogar vídeo game?
─Quer pai?
─Pode ser, depois que a gente for dar um oi para o Carl, o que acha disso?
─Não vai deixar eu lá sozinho? – Ele pergunta de novo se agarrando a mim quando o liquido gelado toca a pele.
─Vamos ficar juntos. – Ele afirma, Denise termina seu trabalho sem nenhuma resposta atravessada ou xingamento e me sinto vitoriosa.
─Volte só para tirar os pontos, a Clarie faz os curativos todos os dias até lá.
─Ela é minha mãe, não é Clarie. – Ele responde e comemorei cedo demais.
─Ela é sua mãe? E ele é seu pai? – Denise sorria, nunca vi tamanha paciência com Benjamin.
─Sim!
─Parabéns então. – Ele desce do meu colo e aperta a mão de Daryl.
─Vamos pai. – Daryl olha para ele firme. – Obrigado doutora Loyd.
Ben diz meio forçado, ganho um afago dela e vamos embora, me despeço dos dois que caminham para casa de Rick, vou para o lado oposto, um grupo de pessoas estava reunida diante de uma casa queimada. Entre eles Rick.
─Oi vim ajudar. – Aviso e Rick sorri.
─Tanta coisa para fazer Clarie. Vamos tirar os escombros aqui, limpar, e depois a gente vai reformar.
─Conte comigo. – Digo sorrindo, Rick toca meu ombro sorrindo.
─Vamos lá pessoal, cuidado para não acontecer nenhum acidente, está tudo meio podre. Abe você coordena as coisas. Vou até o outro grupo.
Rick nos deixa, Abraham dá algumas instruções e começamos. Não me importo com o trabalho pesado, quero fazer parte da reconstrução, quero me orgulhar de viver aqui.
Spencer também está no grupo e me sorri quando passo com algumas madeiras apodrecidas e queimadas, ele martelava algo tentando soltar do resto da construção.
Duas horas de trabalho pesado e paro para beber um pouco de agua, estávamos perto de conseguir liberar a escada, que levava aos quartos e a cozinha, no momento só a sala ou as cinzas do que um dia foi uma sala estavam livres de escombro.
─Uma pena ver isso! – Spencer diz com um copo de água ao meu lado. – os caras chegar decididos a destruir e nada mais.
─Tem muita gente ruim nesse mundo. Gente de todo tipo mesmo.
─Eu sei, não foi fácil o tempo que ficamos lá fora, malucos de todos os tipos nos cercando.
─Fiquei pouco tempo nas ruas, mas deu para ter uma ideia.
─Pouco? Tinha uma comunidade? – Não se pode chamar aquele maldito hospital de comunidade.
─Eu estive... É quase isso, vamos voltar ao trabalho. – Deixo o copo ao lado da garrafa, tento me afastar, mas Spencer me segura pelo braço, me assusto com o toque se sua mão. Ele me solta percebendo.
─Desculpe se toquei em algum assunto ruim, não queria te trazer memórias.
─Bobagem, vamos trabalhar. – Me afasto e retomo o trabalho. A escada fica livre, não tem escombros por ela, paramos diante dos degraus.
─Fiquem aqui, vou ver se não está condenada, pode desabar e não queremos ferir ninguém. – Abraham diz subindo sozinho. – Tudo bem, a parte de cima está em boas condições. – Ele comunica e decido subir também.
Encontro Abe no corredor. Ainda tem um forte cheiro de queimado, no chão pouco antes a porta de um quarto um corpo carbonizado, são apenas restos mortais, mas move alguns dedos, a cabeça gira em nossa direção e abre a boca, grui muito baixo.
Abe suspira, aquilo é o que somos agora, maquinas incansáveis de matar. Ele puxa sua faca, segue até o corpo e acerta a cabeça.
Spencer e outro homem o carregam para fora, não sei quem é, mas sei que é mais uma perda para Alexandria e penso nos amigos dessa pessoa, na nova dor que tem pela frente. Mais um enterro.
Abe abre a porta a sua frente, Uma mulher abre a porta ao lado e faço o mesmo com a terceira porta, já que estou ali não custa conferir.
Entro em um quarto de casal, tem coisas espalhadas pelo chão, a janela aberta a cortina caída, talvez alguém tenha saído pela janela, puxado a cortina com a fuga. Caminho pelo ambiente silencioso, vou até a janela e olho para baixo, nenhum parapeito, telhado, ninguém pode ter saído por aqui sem terminar de cabeça rachada lá em baixo, não soube nada sobre isso.
Meu cérebro registra tudo rápido, se não pulou ainda está aqui, puxo a faca num movimento instintivo e quando me viro um corpo se precipita sobre mim. Os gemidos fortes, as mãos sujas e enegrecidas, a pele do rosto queimada, era uma mulher de cabelos longos e agora queimados, seguro seu pescoço tentando afasta-la de mim, empurro, me enrosco na cortina caída e desabamos juntas com ela sobre mim, as mãos em meu ombro tentando alcançar meu rosto com a boca aberta e faminta.
Me concentro em sair daquilo, penso em Daryl e Benjamin, em tudo que acabamos de começar e não quero perder. Penso na garota fraca e indefesa que eu era e na mulher que me transformei, eu saí lá fora sozinha e os venci, derrubei muitos deles até Daryl chegar e esse corpo faminto não vai me vencer, junto força, as duas mãos no pescoço daquele corpo, a faca em uma das mãos.
Se solta a mão para usar a faca ela me pega antes. Não vou perder, não vou perder. Penso em Daryl sempre repetindo que nós não vamos perder e cravo fundo meus dedos naquele pescoço, sinto a pele mole ir se abrindo, enquanto meus dedos vão afundando em sua garganta e desmontando aquela máquina.
O sangue podre jorra sobre mim, os gemidos continuas, a fome continua, mas minhas mãos vão afundando e vou sentindo meus dedos entrando fundo naquele corpo morto até que a coisa vai perdendo a força e consigo afasta tempo o bastante para cravar minha faca quando Abraham e outros entravam no quarto.
─Eu estou bem! – Aviso me erguendo, olho para mim e minha roupa está coberta de sangue. Respiro aliviada, Abe me olha de olhos arregalados.
─É bom ver alguém que tinha medo de respirar fazendo algo assim. – Abe me diz sorrindo. – Mas agora melhor você ir para casa. Se limpar um pouco e aguentar o Daryl tento um pequeno ataque.
─Pequeno? – Glenn surge na porta. – Um grande ataque.
─Deu tudo certo gente, eu consegui. – Estou orgulhosa, sorrio sem parar, eles acabam sorrindo de volta.
─Vai Clarie. Chega por hoje.
Obedeço Abraham, encontro Spencer na escada.
─Meu Deus Clarie, está ferida? – Ele segura meus ombros. – Vou te levar na Denise.
Acabo de descobrir que não gosto quando ele toca em mim, me afasto, de algum modo ele me lembra coisas que não quero lembrar. Mais do que os policiais do Grady ele me lembra Aiden.
─Estou ótima Spencer, não preciso de ajuda, vou para casa.
Corro escada abaixo e caminho apressada e ansiosa, descubro mais uma coisa, eu não sei lidar com isso, aprendi a enfrentar os mortos, mas não os vivos, eles ainda me apavoram.
─Docinho o que é isso? – Eric surge na minha frente com olhos assustados. Só de vê-lo já me acalmo.
─Eric. – Meus olhos marejam. Sem se importar com meu estado ele me abraça. Por alguma razão que desconheço tenho uma crise de choro.
─Mas o que é isso? Quanta angustia? Se feriu?
─Não, peguei um zumbi, estava distraída, caiu sobre mim, mas estou bem, acho que é só um choro de alivio, te vi e.... Não sei.
─Pronto, passou, venceu, não chora mais, assim vai matar seu homem de preocupação.
─Tem razão. – Respiro fundo me afastando dele. – Sujei você todo.
─Sujou mesmo docinho, mas é minha musa, então não me importo, vem te acompanho até em casa. Está muito nervosa.
Vamos caminhando lado a lado, Eric com um braço me envolvendo daquele jeito gentil.
─Aaron vai ficar todo inciumado quando me vir todo sujo e souber que abracei você, ele morre de ciúme de nós dois.
─Isso é sério? – Sorrio me acalmando.
─Claro! – Ele tem um ar divertido. – Aaron tem medo de me perder e sabe que você e esse seu jeito de diva fatal são muito atrativos!
─Eric! – Finjo estar brava, ele solta uma doce gargalhada.
─Eu sei, não faz sentido, você não tem definitivamente nada que me atraia. Mas como vamos entender a cabeça dos homens?
Chegamos a minha porta, paramos um de frente para o outro, ele me investiga com o olhar.
─Não sei não, vou ficar de olho em você, tem mais alguma coisa aí nessa sua crise de choro, mas depois descubro, vá se limpar e cuidar da sua família. Está entregue.
─Obrigada! – Já que ele está todo sujo eu o abraço mais uma vez, depois me afasto e subo os degraus apressada. Abro a porta, Daryl e Ben estavam sentado lado a lado com a besta no colo, os olhos se arregalam. Os dois se põe de pé.
─Não estou machucada. – Aviso quando Daryl caminha para mim apavorado e Ben começava a chorar. – Isso é sangue de zumbi, encontramos um numa casa, ele veio para cima, mas eu o peguei, não me machuquei, só preciso de um banho.
─Você não vai morrer mãe?
─Não Ben, eu juro.
─Clarie... – Os olhos de Daryl estão impenetráveis.
─Vou tomar um banho e me limpar. Já desço.
Corro para o quarto, arranco toda aquela roupa e entro no chuveiro, me esfrego nervosa, a agua vai me acalmando, repito o processo de passar sabonete e esfregar mil vezes antes de me sentir limpa o bastante para desligar o chuveiro, me seco rápido, me enrolo na toalha e escovo os cabelos molhados encarando o espelho embaçado, meu peito apertado e cheio de angustia.
Saio do banheiro em busca de roupas, Daryl está no quarto, ainda sério, os olhos firmes sobre mim, me assusta um pouco, algo aconteceu dentro de mim e me sinto fraca e com medo.
─Eu não sou esse tipo de cara, sinto muito, não consigo ser. – Ele diz firme e fico olhando para ele sem entender. – Não consigo te deixar livre por aí como o Glenn faz. Não consigo ficar em casa cuidando do Benjamin enquanto se coloca em risco.
─Daryl... – Não sei o que dizer, acho que no momento só quero dizer que tudo bem, que não quero nunca mais sair da segurança dessa casa, acho que só quero que ele me abrace.
─Eu tentei está bem! – Sua voz se altera. – Mesmo, fiz um esforço e tentei, não consigo ser assim, não consigo não me preocupar com você, me dá medo de perder você, me dá medo de não estar perto. Eu não vou perder mais nada!
Ele anda pelo quarto, a porta fechada e acho bom que Benjamin não o veja tão irritado.
─Não queria mais sentir nada, eu tentei não sentir. Aconteceu, entrou na minha vida, sabe disso, dominou tudo, e eu não posso te ver toda suja de sangue e fingir que está tudo bem! Ou me deixa cuidar de você ou vai me matar aos poucos!
Estava tentando ficar forte e não chorar, mas suas palavras me desmontam e desabo em lágrimas, numa crise ainda maior do que a que tive com Eric, ele me olha assustado.
Estou de pé, enrolada numa toalha, chorando descontroladamente e então ele me abraça, sentir seus braços me envolvendo só me fazem mais frágil e me encolho em seus braços.
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