Resumption
42 Capitulo 42
Notas iniciais
Pov – Carl
Depois que consigo finalmente ficar sozinho em casa eu pego um espelho e me sento no chão da sala. Encaro o pequeno espelho redondo apoiado na mesinha. Fico uns minutos ali observando meu reflexo, a bandagem grande cobre o olho e parte do rosto.
Não vai durar para sempre, a partir de amanhã vou ter que encarar a piedade e a repulsa das pessoas, como se não tivesse coisas o bastante para enfrentar todos os dias quando abro os olhos.
Puxo o ar com força, prendo um longo momento tomando coragem, depois vou soltando lentamente até encontrar alguma coragem. Quero um minuto sozinho, eu e essa nova parte de mim.
Começo a desgrudar o esparadrapo de cima para baixo, aos poucos a pele ferida começa a surgir, depois os primeiros pontos, as manchas roxas, o vermelhão característico da pele machucada. O olho vermelho e inchado. A parte de baixo ainda prende o curativo e deixo ali para depois fechar novamente.
─Carl! – Me viro com pressa e um tanto assustado, Enid está de pé no meio da sala, assim que me vê vira o rosto, quase corre para longe e percebo seu choque, ela não é boa o bastante para esconder. – Desculpe! – Ela diz quando apressado eu fechava o curativo. – Volto depois.
─Pode ficar, já fechei. – Ela me encara com o rosto corado. – Achei que tinha feito algo que merecesse sua raiva, simplesmente sumiu.
─Estava esperando você ficar sozinho. – Aponto o sofá, ela caminha insegura e se senta na minha frente. – Vi seu pai saindo agora mesmo com a sua irmã.
─Judith, o nome da minha irmã é Judith, apesar de nunca ter perguntado.
─Está bravo comigo? – Ela pergunta como se não entendesse minha revolta. – Até parece que fui eu quem te feri.
─Que ideia! – Olho para ela. Enid não consegue me encarar nos olhos. – Tudo bem com você?
─Normal. – Ela dá de ombros. Olha para a porta.
─Onde estava quando tudo aconteceu?
─Você sabe. Estava fora. Cheguei a ver os zumbis, me escondi, depois começaram os tiros e esperei acabar para voltar.
─Não pensou em ajudar? Não se preocupou com quem podia estar morrendo?
─As pessoas morrem Carl, o tempo todo isso acontece.
─Não entendo você. Não entendo como continua indo lá fora todos os dias, brincando com os mortos, não entendo como não correu para ajudar quando sentiu o perigo.
─Esse lugar enfraquece a gente, ainda não aconteceu com você porque não está tempo o bastante aqui dentro. Eu vou lá fora para não me esquecer como é.
Ela brinca com um enfeite da mesa, não olha para mim, não fala consegue encara quem eu sou agora.
─Antes do ataque eu entendia isso. Me disse uma vez que ia lá fora para não esquecer como as coisas são. Então fomos atacados e não fez nada e só posso ficar sem entender o que quer dizer com isso.
─Do que está falando? – Ela me pergunta. Fico de pé, no momento sua presença me irrita um pouco.
─Eu também não quero me esquecer como as coisas são. Agora nem preciso ir lá fora para isso, a vida deixou sua marca em mim e basta encarar o espelho para saber. Acontece Enid, que não quero esquecer para estar pronto quando eu ou alguém que me importo estiver em perigo, não vou me esconder num tronco de árvore e esperar acabar.
─Fiquei sem reação. – Ela tenta se defender.
─Mesmo? Ou não tinha ninguém com quem se importasse o bastante?
Ela revira os olhos, se encosta no sofá, bufa e passa a mão pelos cabelos, encara o teto.
─Eu gosto de você. – Não sei porque não acredito, ou não me importo, acho que esse tipo de gostar egoísta não me interessa muito.
─O Benjamin, você o conhece né?
─O garotinho mal educado.
─Ele mesmo. Um daqueles caras, o que fez isso comigo. – Aponto meu rosto de novo coberto, ela olha de relance, depois volta a desviar os olhos. – O cara estava com a Judith nos braços, Ben já tinha conseguido fugir, pretendia buscar ajuda, mas o cara disse que se ele não aparecesse mataria a Judy e o Ben voltou. Um garotinho, ele trocou de lugar com ela e não precisava, quem condenaria um garotinho assustado por fugir e se proteger?
─Eu não sou uma covarde! – Ela fica de pé e me encara.
─Nem consegue entender. Eu não estou falando de coragem, o Benjamin estava completamente apavorado. Estou falando de valores que acho que nem reconhece mais. Você me lembra a Lizzie.
─Uma antiga namorada? – Ela desdenha.
─Não. Lizzie era alguém que estava lutando do lado errado, uma pessoa perturbada que se escondeu num mundo fantasioso porque não podia encarar a verdade.
─O que aconteceu com ela?
─Não sei, não importa mais. Se for lá fora de novo, se souber que foi eu vou avisar meu pai, está claro que não se importa, mas eu sim, se atrair bandidos ou zumbis, se por um acaso alguém morrer por sua causa eu não vou carregar esse peso. Agora se puder ir eu estou muito cansado.
Dessa vez eu dou as costas a ela, Enid se demora para partir, talvez pensando se devia ou não dizer mais alguma coisa, mas então fico de novo sozinho e me sento no sofá, olho para o espelho um tanto longe e fecho os olhos.
Fico ali um tempo me sentindo confuso e tenso, não sei se tenho coragem para me olhar mais uma vez.
─Carl! – Uma mão no meu ombro me desperta e abro os olhos. Amber está ali com Judy dormindo no colo. – Vou coloca-la na cama. Seu pai pediu para traze-la.
Afirmo calado, ela sobe com Judy e desce uns minutos depois com a babá eletrônica, coloca na mesinha ao lado do espelho.
─Estava olhando como ficou a cicatriz? – Me pergunta sentando ao meu lado.
─Pretendia. – Respondo sem qualquer ânimo.
─Então vamos ver. – Me diz tranquila. Olho para ela meio confuso. – Eu te ajudo, não quer ver como está?
─Sei que está muito feio, acho que posso fazer sozinho.
─Minha mãe é médica Carl, ajudei ela a fazer coisas que nem imagina, cresci entrando e saindo de hospitais, vi gente de todo tipo, acha que me importo?
─Talvez eu me importe.
─Sério que é assim superficial? Que pena! – Amber parece mesmo decepcionada.
─As pessoas vão sentir pena e repulsa.
─Não está exagerando? Quer dizer, tem gente sem braço, sem perna, tem zumbis desfigurados por aí a fora. Essas coisas já não chocam mais. – Ela se senta do meu lado. – Vai, vamos ver isso de uma vez, não saber é pior, se eu correr assustada vai saber que está terrível e arruma uma máscara para se esconder.
─Está brincando porque não é com você. – Digo de muito má vontade.
Amber fica de pé, desabotoa a calça Jeans. Arregalo os olhos sem acreditar quando ela desce o zíper, olho para a porta assombrado.
─O que está fazendo? Meu pai pode chegar e... – Me calo quando ela baixa a calça e fica de calcinha e blusa.
─Olha isso! – Ela mostra a coxa direita. Uma cicatriz que ia do joelho a virilha. – Viu? – Amber sobe a calça, fecha e se senta ao meu lado de novo. – Um cara fez isso, um maluco assassino no primeiro acampamento que ficamos. Uma faca. Pegou da virilha e foi descendo a faca e me rasgando. Mataram ele, minha mãe costurou.
─Eu... sinto muito.
─Vamos ver isso aí. – Ela se aproxima e com cuidado começa a tirar o esparadrapo, dessa vez sai mais rápido porque já perdeu um pouco de cola. Amber tira todo ele, fico olhando para suas expressões em busca da repulsa que vi em Enid, mas não tem nada ali se não curiosidade e atenção. ─Vai ficar uma cicatriz. – Ela diz com naturalidade. – A minha é muito maior, o dobro do tamanho, mas a sua é mais visível, então considero empatado.
─Não sabia que era uma disputa.
─Vou fazer um curativo novo, tem material?
─Sobre a mesa da cozinha, meu pai trouxe.
─Certo. – Ela me entrega o espelho. – Fica aí se olhando um instante enquanto pego as coisas. – Encaro o espelho, mas o que faço mesmo é pensar na diferença entre Enid e Amber, depois deixo o espelho sobre a mesa e decido que preciso me recuperar e parar de pensar em garotas, ao menos por enquanto.
─Achou? – Ela afirma me balançando uma caixinha.
─Posso fazer ou quer que chame sua namoradinha? – Sinto o desdém em suas palavras e não sei bem porque ela não gosta de Enid se nem a conhece.
─Enid, se é dela que está falando não é minha namorada. E não tem nenhuma outra.
─Nesse caso se não vou ganhar uma inimiga ciumenta eu mesmo faço. – Ela começa o trabalho. – Na verdade eu pergunto porque sou ciumenta e não iria querer nenhuma garota mexendo no rosto do meu namorado. E sou teimosa também. Quando quero algo não desisto fácil, de vez em quando eu e minha mãe brigamos. Ela quer que eu seja uma criança e com esse mundo escuro e perigoso não tem espaço para isso.
Ela molha o algodão pela terceira vez, passa com cuidado no meu rosto, depois coloca o curativo.
─Pronto, agora está perfeito. Se isso for mesmo ruim demais para suportar deixe o cabelo crescer e continue a usar esse seu chapéu estúpido, ninguém vai ver.
─Obrigado.
─De nada. Fica de olho na sua irmã. Eu vou indo. Nos vemos.
Assim como chegou ela se vai, me deixa sozinho e fico sem saber o que pensar, mas gostei do toque, do jeito como falou comigo, de como é alegre, cheia de vida, sem aquele ar pesado e sombrio que vejo em Enid.
Talvez Enid se pareça mais comigo. Acontece que as pessoas não precisam ser iguais, na verdade ser diferente pode ser um ponto positivo. Pego a babá eletrônica e subo para meu quarto, chega de surpresas por hoje, vou tentar ler um pouco com um olho só.
Pov – Daryl
Não vai ser fácil cumprir o acordo de trabalhar metade do dia e deixar a outra metade para Clarie, já não cumpri minha promessa hoje, não consigo achar certo ela ficar lá fora trabalhando enquanto me divirto com Ben, mas como ninguém tocou no assunto não serei eu a falar.
Jantamos ensopado de carne de coelho e legumes, o sabor está fantástico e Benjamin não perde muito tempo conversando. Olho para ele, o rosto está um pouco melhor, menos inchado, mas ainda bem marcado. Olho para Clarie e ela o observava com um ar de mãe orgulhosa que a deixava ainda mais bonita.
Terminamos todos juntos, Ben empurra o prato e se encosta na cadeira, geme de dor e se põe ereto de novo, fica um pouco pálido de dor e sinto pena.
─Me esqueci. Toda hora eu esqueço, porque já tinha sarado e depois machucou tudo de novo.
─Logo fica bom de novo. – Clarie começa a recolher a louça e eu a ajudo, Ben fica assistindo. Minha mente vai para Maggie e essa história de gravidez. Não consigo nem imaginar o quanto Glenn vai ficar apavorado.
Ela já perdeu tanto, e agora isso? Tudo pode dar errado, ela pode perder a criança e seria um horror para ela. Pior ainda. Pode morrer no parto ou até antes. Isso tudo é mesmo uma droga. Não queria estar no lugar deles.
Benjamin se senta na sua velha poltrona, está caindo de sono, tem tomado comprimidos para dor e antibiótico, além disso fica sempre todo desajeitado porque todo movimento que faz é dolorido, mas acho que a hora de dormir não é um bom momento para quem tem oito anos e vive num apocalipse.
─Quer ir dormir Ben? – Clarie pergunta quando eu a envolvo, quem sabe hoje finalmente vamos ter um tempo para nós, não aguento de tanta saudade que sinto dela.
─Não, eu estou bem aqui. Acho que nem preciso dormir hoje.
─Eu acho que precisa, para ficar bom logo e poder ajudar o Daryl.
─E eu acho que hoje a gente devia ficar conversando lá no quarto do Ben, porque é um quarto de menino de oito anos, mas mesmo os adultos gostam. Quem vem comigo? – Definitivamente hoje ele dorme na cama dele. Fico de pé e Clarie faz o mesmo.
─Vou com você Daryl.
─Então eu também vou. – Ben fica de pé e subimos. Clarie o ajuda a se arrumar na cama. É desconfortável para ele dormir. Mas ele se ajeita sentamos eu e Clarie um de cada lado na beirada da cama.
─Está quentinho? – Clarie pergunta afastando seus cabelos um tanto compridos.
─Sim. Aqui não vem zumbi.
─Não. Porque está trancado e zumbis não sabem nem abrir porta.
─Nem lobos, porque eles não existem mais. – Benjamin comenta buscando confirmação.
─Lobos nunca mais.
─o Daryl, todas as crianças de Alexandria têm pai e mãe? Ou pelo menos um dos dois?
─Por sorte sim. – Eu afirmo. Ele olha agora para Clarie.
─Tem mesmo Clarie?
─Todas. Algumas só o pai ou só a mãe, mas todas têm.
─Não estão esquecendo nenhuma criança não?
─Não. – Clarie diz depois de procurar na memória. Benjamin fica um momento pensativo, as coisas começam a fazer sentido para mim.
─Todas, todas, todinhas mesmo? Não esqueceu nem uminha?
─Ah! Depende, tem uma que não tem, mas não sei se consideramos criança ou adolescente.
─Eu tenho oito anos! – Ele diz rápido e sorrio da inocência dos dois. Clarie não tem a menor ideia de onde ele quer chegar, e Benjamin está em busca de respostas sobre seu lugar, mas não consegue perguntar porque é como eu e fica dando voltas e voltas.
─Estou falando da Enid. Pelo que sei ela está um pouco sozinha.
─AH! Ela. – Ele se mostra aliviado. ─ O resto todo mundo tem? – Aquilo vai longe e decido dar uma mão. Está na hora de mostrar a ele. Benjamin precisa de segurança. Ainda que eu ache que palavras não bastam, silencio também não é o caminho.
─Vamos contar? – Eu convido e ganho sua atenção. – Amber tem a doutora Loyd.
─É.
─A Bravinha e o Carl tem..
─O Rick! – Ele completa.
─O Benjamin tem a Clarie. – Aponto Clarie. – E o Daryl. – Me aponto e lá está tudo que ele queria. Está claro como água no modo como ele olha de um para outro surpreso.
─É. Porque vocês não têm nenhuma criança então eu fico sendo de vocês. Mas tem outras pessoas que não tem crianças. A Carol, a Michonne, a Maggie... Não a Maggie já tem agora.
─Ben você é nosso filho porque não temos criança e porque eu e o Daryl amamos você. – Clarie diz a ele. Mas isso ele não consegue compreender ainda. É triste constatar que Benjamin não compreende bem o que significa amor.
Eu também não sabia até Clarie surgir em minha vida e me iluminar, Clarie me olha um momento com os olhos marejados. Acho que isso é tão grande para ela quanto é para ele ou para mim.
Comecei com isso, olhei aquele garotinho perdido e não pude abrir mão dele, era só um poço de revolta e angustia, agora isso se foi, ou boa parte disso, e então, quando só restar amor e alivio talvez eu realmente não saiba mais como fazer, mas no momento eu sei, ele quer ter onde se agarrar, quer ter um porto seguro para quando for dominado pelo medo.
Quis isso muitas vezes, ninguém sabe, ninguém além de Benjamin sabe como é não ser nada, não ter ninguém, a raiva que te domina. A vontade que o mundo se exploda e vá todo mundo para o inferno.
─E eu vou chamar você de mãe?
─Se quiser sim.
─E você de pai? – Isso vai ser a coisa mais confusa do mundo para mim, possivelmente eu nem vou responder achando que é com outra pessoa.
─Apenas se quiser Ben.
─Agora é preciso dormir. Fecha os olhos que vamos ficar aqui, os dois esperando.
─Até eu dormir?
─Isso. – Clarie beija sua testa, ele fecha os olhos sorrindo. – Boa noite Ben.
Ficamos os dois nos olhando um longo momento, não faz muito estávamos decidindo que nome dar ao que tínhamos. Ela disse namorados e achei aquilo grande. Agora temos um filho.
Benjamin ressona tranquilo e pego Clarie pela mão. Finalmente um tempo nosso. Ela sorri sem parar quando deixamos o quarto de Ben com a luz de um abajur acesa.
Encosto a porta do quarto e nos olhamos. Faz mil anos, é assim que me sinto. Clarie fica me olhando ainda sorrindo, os olhos ainda marejados.
─Foi você que me deu isso desde o começo. Quis o Benjamin mais que tudo e me deu um garotinho. – Ela vem até mim. Me abraça. Beijo seus lábios. – Obrigada.
─Acho que no começo eu só olhava para ele como um espelho, mas não quero falar do meu passado, acho que não quero falar de nada agora. – Beijo seus lábios, depois seu pescoço, aspiro seu perfume suave, conheço seu cheiro, reconheceria Clarie mesmo vendado apenas pelo cheiro de sua pele. – Senti sua falta.
─Parece que faz séculos que não ficamos assim, juntos. – Ela suspira, sua mão corre por minhas costas.
─Agora estamos aqui e vamos apenas aproveitar esse momento. Sem pensar em nada.
─É isso que quero. – Vamos nos beijando em direção a cama, deixando as roupas pelo caminho, trocando carinhos e suspiros, entregues um ao outro. Ela se deita me puxando com ela. Meu corpo cobre o seu e isso me faz queimar por ela.
Volto a beija. Meus lábios vão passeando por seu corpo, os dedos acariciam sua pele enquanto sinto os delicados dedos de Clarie contornando minhas linhas. Eu sei onde gosta que eu a toque, ela sabe como me fazer arder, aprendemos um com o outro e ali. Nada mais importa.
─Daryl. – Sua voz sai rouca, o desejo a domina e sempre me surpreende que seja eu a provocar isso nela. – Quero ser sua. – Ela diz no meu ouvido. É um sussurro sensual, não estudado para me provocar, é apenas Clarie e por isso é perfeito. Porque somos honestos com o que sentimos, porque vivemos o momento sem jogos de sedução. É o amor que temos um pelo outro que nos guia.
Nos movimentamos juntos, no começo de modo lento, meus olhos presos nos dela. Aproveitando cada sensação. Trocando beijos e carinhos. Pertenço a Clarie e ela a mim. Somos inteiros quando estamos juntos.
Depois vem a pressa, o abandono, a viagem alucinante e depois a calmaria de tê-la em meus braços, o sorriso puro, os olhos vivos. Não sei quando foi que fiz algo para merecer Clarie, mas eu a ganhei e não vou perde-la, por isso proteger Clarie é o que mais me importa.
─Amo você Daryl.
─Amo você Clarie. – Meus dedos ainda passeiam por seu corpo, sinto a pele de seda e agora é só um modo de mostrar que me importo. Que ela é mais que meu desejo.
Olho para seu braço, tem duas manchas roxas.
─O que é isso? Deixa eu ver o outro. – No outro também. – O que foi isso?
─Não foi nada. Isso foi o Benjamin, no meio daquele surto, quando se agarrou a mim aqui no quarto querendo ir embora.
─Clarie.
─Amor, já se olhou? Está tudo bem, ele apertou tanto seu pescoço que também marcou sua pele. – Ela diz fazendo um carinho no local.
Beijo seus lábios. Depois o braço. Ela acaricia meus cabelos.
─Acho que talvez ele melhore agora. – Digo a ela, quero que ela desculpe o pequeno, que o entenda, mesmo sabendo que Clarie tem um coração puro eu fico buscando desculpas para ele.
Antes queria que me aprovassem, agora isso se estende a ele e fico querendo que as pessoas gostem de Benjamin.
─Eu estou bem, isso não é nada. Minha pele é clara, logo some, ele estava desesperado. Me sinto um pouco culpada, não sabia o que estava acontecendo, achei que era só um ataque de fúria quando era na verdade um ataque de pânico.
─Agora ele é seu filho, vai cedo ou tarde te chamar de mãe, acho que quando se acostumar tudo isso acaba. Quando depois de muito tempo comecei a me sentir seguro eu comecei a dominar meus excessos.
─Ele vai te chamar de pai também, como vai reagir?
─Não tenho ideia. – Beijo Clarie. Ela suspira, se enrola em mim.
─Acha que ele vai dormir a noite toda? Melhor nos vestirmos.
─Acha que já matei a saudade? Ainda temos muito tempo. – Clarie sorri, um sorriso tão amplo que me faz rir.
─Nesse caso eu acho que a gente não devia perder muito tempo com conversas. – Assim que diz fica corada. É só o que preciso para tudo reascender.
─Daryl! Daryl! – Demoro uns segundos para desertar, o quarto está escuro. Clarie dorme ao meu lado. – Daryl. – Benjamin me chama baixinho sentado ao meu lado na beira da cama.
─Ben? – Que bom que nos vestimos como Clarie sugeriu.
─Eu estava pensando em perguntar uma coisa.
─Não devia estar dormindo pequeno duende?
─É que eu fiquei pensando e pensando.
Me sento, acendo o abajur, Clarie nem se move, ele olha para ela.
─O que aconteceu com o braço da Clarie? – Sinto seu espanto.
─Vamos descer Ben, assim a Clarie não acorda.
Ele segue ao meu lado, na escada, quando nota a escuridão segura minha blusa. Acendo uma pequena luz e nos sentamos no sofá.
─Pronto. Diz aí o que ficou pensando e pensando?
─Se eu te chamar de pai, vai ficar igual ao meu pai, me xingando, machucando, rindo de mim? – Ter uma mãe é fácil, ele nunca teve, vai experimentar uma agora, mas um pai, Benjamin sabe bem como é.
─Eu tinha um pai igual ao seu. – Ele me olha espantado. – Ele era muito ruim, me machucava também. Só porque gostava. Só para rir do meu medo.
─Você tinha medo? Você não tem medo de nada!
─Eu era pequeno Ben, tinha medo de tudo. Era muito sozinho também, e odiava ter pai, queria que ele fosse embora e me deixasse em paz.
─Verdade? Eu queria que aquele meu fosse também, mas quando ele foi eu chorei um pouco.
─Eu não sei bem porquê, mas quando o meu se foi eu também chorei um pouco. – Ele presta atenção em mim, acho que sente um certo alivio de não ser o único. – Não quero ser como ele. Eu quero ser bom com você, um bom pai, que cuide de você, mas é como eu disse, me chama de pai só se quiser.
─Você vai ser sempre assim como é agora?
─Sim. – Ele me olha um momento pensando a respeito.
─Posso deitar aqui um pouquinho, pai? – Esse é um daqueles momentos em que a vida gira cento e oitenta graus. Pai. Não sei se isso é para ele tão sério quanto para mim. Gosto da sonoridade, gosto de como soa vindo de Benjamin, afago seus cabelos. Seus olhos buscam desesperados minha aprovação.
─Pode. – Ele se deita no sofá com a cabeça no meu colo. Ficamos em silencio.
─Pai, eu sei que fui eu que fiz aquilo na Clarie. Na minha mãe. Quando eu fico nervoso e com medo eu nem sei direito o que faço.
─A gente vai resolver isso aos poucos. – Ele afirma. Fecha os olhos mais confiante, me encosto no sofá, também fecho os olhos, vou esperar que durma e o coloco na cama.
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