Resumption
40 Capitulo 40
Notas iniciais
Pov – Daryl
Benjamin fica em meus braços chorando enquanto afago seus cabelos em silencio esperando que se acalme um pouco. Porque não pode ser um mundo justo, seguro? Eu não tinha esses desejos até Clarie e Benjamin invadirem minha vida, agora sonho o tempo todo com um lugar seguro para eles.
─Não chora mais, acabou, não tem mais nenhum lobo, eles não podem mais te machucar.
─Morreu todos? – Ele se afasta um pouco para me olhar. O rosto abatido, todo cheio de marcas, curativos, tão pequeno e tão ferido, de todos os modos, tão parecido comigo.
─Todos. Agora tem que colocar uma roupa quente, a Clarie deixou essa aqui. – Estico para ele. Ben se afasta de mim, tenta se virar, são tantos machucados que os movimentos estão comprometidos, mas Benjamin assim como eu não sabe pedir ajuda, nunca teve ninguém por perto para ajudar. Tomo a iniciativa e começo a ajuda-lo. – Isso, e as meias.
─Não vou por sapatos, não precisa, eu vou ficar aqui, não é mesmo? Estou doente, não vou em nenhum lugar.
─Nenhum lugar, mas está muito frio e a Clarie quer que fique quentinho, então põe as meias. É coisa de mulher.
Alguém bate na porta, ele se empertiga, me olha tenso. Escuto Clarie caminhar, sem se dar conta, Ben segura minha mão.
─Oi Rick! – Ela cumprimenta e essa é uma das vantagens e se morar numa casinha pequena. É como se estivessem no quarto.
─Oi Clarie, posso falar com o Benjamin? – Rick pergunta da sala.
Ben se gruda a mim. Envolve meu pescoço assustado.
─Não quero ver ele, não quero ver ninguém, manda ele embora, estou doente! – Ele chora, esperneia. – Manda ele ir, não quero que ele venha aqui.
─Calma Benjamin, é só uma visita. – Dessa vez não tenho a menor ideia do que o aflige.
─Não, não, estou muito ruim, com muita febre, vê Daryl. – Continuo só com ele em meu colo, abraçado a mim, não sei o que deu nele, mas acho que depois do que passou seria tolice achar que ele agiria com tranquilidade, foi um grande trauma.
Clarie surge no quarto, traz uma bandeja com dois copos e um prato e aquilo é surreal, uma bandeja, no quarto, no meio do apocalipse depois dos dois dias apavorantes que tivemos.
─Cadê o Rick? – Pergunto quando Benjamin me aperta a ponto de machucar meu pescoço.
─Foi embora, achou melhor voltar amanhã, não sei se sabem ele não é surdo. – Clarie se aproxima.
─Não quero falar com ele amanhã, já vou ter morrido até, estou muito doente.
─Benjamin você não vai morrer e não quero mais ouvir isso! – Clarie se aproxima, seu tom é tão duro que nós dois ficamos surpresos, ele sai do meu colo, se arruma sentado na cama enrolado nas cobertas. Ela se senta com o prato de sopa na mão, olha para ele. – Precisa comer para se recuperar.
─Não consigo, estou mor... fraco. – Ele muda o rumo da conversa, olha para as cobertas em que está enrolado.
─Consegue abrir e fechar a boca? – Ela pergunta, ganha sua atenção, ele afirma. – Deixa eu ver. – Ben abre e fecha a boca. – Muito bom, agora vou te dar a sopa, amanhã vai acordar muito melhor é só abrir e fechar a boca como um menino bem bonzinho.
Vou para meu lado da cama, ela começa a dar a sopa na boca de Benjamin, ele engolia feliz, começou com dezesseis anos, passou para oito e agora age como se tivesse menos idade que Judith.
─Toma o suco Daryl, espremi uns limões.
─Não devia ter feito isso, está cansada. – Mesmo assim eu tomo, no momento acho Clarie meio assustadora. Ela é sempre tão doce e agora está firme, ereta, alimentando Benjamin com um ar sério.
─Foi um minuto. Você também precisa tomar Benjamin.
─Eu não falo mais que estou morrendo Clarie, desculpe. – Ela apoia o prato no colo, acaricia os cabelos de Ben. Beija sua testa. O ar suaviza no mesmo instante.
─Fiquei com muito medo de perder você Ben, corremos muito para te achar, você foi forte e corajoso, está vivo, isso é maravilhoso, não pode me assustar dizendo toda hora que vai morrer, sinto medo.
─Não falo mais. – Ele responde sério, ela sorri e logo seu sorriso contagia Ben, ele se tranquiliza.
─Amanhã eu prometo que vão comer qualquer coisa que não seja sopa, sei que devem estar cansados de tanta sopa.
Ela muda de assunto, eu e Benjamin sorrimos, a sopa era muito boa, mas não seria má ideia algo diferente. Ben termina o prato, Clarie se levanta, espera que ele beba todo o suco, depois deixa o quarto, ele passa as mãos pelo cabelo tirando do olho.
─É bem de noite já. – Ele me diz e percebo seu cansaço. – Eu vou ficar aqui mesmo? É melhor né? Se eu ficar com febre?
─Acho melhor, se importa de dormir aqui só mais essa noite? – Pergunto sabendo que é exatamente isso que ele quer.
─Não. Você pede para a Clarie? – Sorrio, tiro os sapatos, me deito deixando o meio livre.
Clarie volta para o quarto, tira sua pistola da cintura e junto sua faca, depois pega os remédios, faz Ben engolir um comprimido, vai para o banheiro, retorna, recolhe sua lança, minha besta, ajeita na parede do quarto, vai até a janela, eu e Ben acompanhando seu andar de um lado para outro, ela não para e já me sinto esgotado só de assistir.
Quando passa perto da cama dou o bote, puxo Clarie pela cintura e a derrubo no meio da cama.
─Me ajuda a segurar ela Ben. – Ele ri contente, abraça Clarie. – Chega, não vai mais se mover dessa cama. Está me dando nervoso.
─Tudo bem, venceram! – Me afasto enquanto Ben está ainda agarrado a ela, tiro seus sapatos, arrumo as cobertas sobre ela, Benjamin se aproveita da situação e se mantém em seus braços enquanto ela acaricia seus cabelos depois de um longo suspiro. – Estou meio elétrica mesmo, mas foi tanta tensão.
─Mas por hoje chega, temos muito trabalho pela frente. – Tem muito a colocar de pé novamente nessa comunidade e mais do que nunca quero fazer isso.
─Não vai pedir Daryl? – Ben me lembra nos braços de Clarie e bem que sinto certa inveja da proximidade, era tudo que queria hoje.
─Clarie estamos achando melhor o Ben dormir aqui hoje.
─Fala que é por causa da febre. – Ele insiste.
─Por que ele pode ter febre. – Continuo.
─Não de morrer. – Ele decide deixar claro só por precaução. Ela sorri, beija sua testa e continua com o carinho nos cabelos.
─Acho muito boa ideia. Uma febre agora seria muito chato, deixa eu testar. – Ela toca seu rosto, beija mais uma vez sua testa. – Tudo em ordem. Nada de febre. Onde dói agora.
─Tem um monte de lugar que dói, mas não de morrer. – Prendo o riso, ela me olha me alertando, é uma mãe brava e não sabia disso.
─Daqui uns dias passa. – Ben afirma, depois fecha os olhos, encolhido e enrolado nela, me apoio na mão para poder olhar para eles, cinco minutos e ele apaga esgotado.
Nenhum dos dois se move, continuamos ali, olhando o pequeno garotinho dormir. Minha mente vai refazendo seus passos. Imagino seu drama, tudo que passou sozinho e sinto meu coração apertado, falhei com ele.
Os dedos de Clarie tocam meu rosto num carinho, quando olho para ela, lagrimas escorriam.
─Chorando?
─Estou feliz que estamos os três aqui. Tive tanto medo, perdi as esperanças quando entramos naquela cabana, admirei você quando teve forças para abrir aquele armário, me senti enfraquecer, por um segundo me imaginei sem ele e doeu.
Beijo os lábios de Clarie, só um beijo leve, mesmo querendo mais do que isso.
─Me senti caminhando para uma espécie de morte, era como seguir para a guilhotina, mas precisava ver com meus próprios olhos.
─Daryl eu amo o Benjamin, ele é difícil, xinga, quebra coisas, esperneia, foge, exige, ao mesmo tempo é doce, sensível, não entendo como pode ser isso, mas eu o amo.
─Eu sei como é isso, vontade de proteger e fazer ele sorrir.
─Você consegue, ele corre para você, sempre para você, se algo dá errado ele se atira em seus braços e estranhamente não sinto ciúme, nem dele, nem de você. – Ela continua me fazendo carinho, deslizando os dedos por meu rosto, a mão delicada, os olhos escuros que antes eram puro mistério agora são para mim como agua limpa, eu os entendo. – Hoje tudo que queria é me perder em você, mas não podemos porque ele está aqui, precisa de nós e então está tudo bem, não me sinto frustrada, apenas feliz.
─Quem sabe não descemos um pouco para falar sobre essa coisa de se perder em mim? – Pergunto antes de tomar seus lábios num longo beijo, profundo, cheio de desejo e saudade. Um beijo logo interrompido pelo resmungo de dor de Benjamin que se move dormir e as costas vão de encontro ao colchão.
Nos afastamos, Clarie arruma Ben de modo que ele fique confortável de novo, depois se arruma em meus braços.
─Ou apenas dormimos mesmo. – Não dá para deixa-lo sozinho no momento.
─Dormir também é bom amor, acho que dormir é o melhor no momento. – Ela fecha os olhos também esgotada, beijo seu ombro e faço o mesmo, não é como se tivéssemos escolhas de qualquer modo.
Caio num sono profundo e sem sonhos, até ouvir meu nome num grito de medo, custo a compreender que não é um pesadelo, abro os olhos ao mesmo tempo que Clarie.
Benjamin chorava sentado na cama, acendo o abajur ao meu lado. Clarie o puxa para seus braços.
─Sonhei que estava sozinho lá fora. Os zumbis começaram a correr atrás de mim e ninguém abria o portão, porque o Rick me mandou embora e ele é dono de tudo. – Ao menos compreendo porque Rick teve aquela recepção.
─Pronto! Foi um sonho, está tudo bem. – Clarie o acalma.
─Ben, porque acha que o Rick ia te mandar embora?
─Daryl você pede para ele deixar eu ficar? Tenho oito anos, você fala para ele que tenho oito anos, que não é dezesseis?
─Acha que o Rick quer te mandar embora? – Insisto.
─Viu como o Carl está bem machucado? Sabia que teve gente que morreu? Tem casas queimadas, os lobos que fizeram tudo isso, porque eles queriam me buscar de volta. A culpa é minha.
─Não, a culpa não é sua, os lobos não queriam você de volta, eles fizeram tudo isso para destruir Alexandria, sabe que eles sempre fazem isso, quantas comunidades você viu eles destruírem?
─Três, eu não queria ajudar. – Ele volta a chorar. – Mas eu só faço coisas feias, eu estraguei as coisas da Clarie e xingo e falo palavrão, eu obedeci e trouxe os zumbis...
─Ben! – Eu o interrompo, faço um carinho em seus cabelos enquanto ele soluça nos braços de Clarie. – Sabe o que o Rick veio fazer aqui? – Ele nega. – Veio te agradecer, porque protegeu Judith, fez uma coisa muito boa, foi muito corajoso, o Rick agora gosta muito de você.
Ele me olha surpreso, as lágrimas se vão do mesmo jeito que chegam, num piscar de olhos.
─É verdade? Ele gosta de mim e não vai mandar eu ir embora?
─Não. Ele está feliz que salvou a Bravinha, todo mundo está.
─Porque vocês acham ela linda e boazinha.
─Igual você. – Clarie garante. – Agora precisa dormir, e amanhã quando o Rick vier não vai fazer como hoje.
Ele afirma e fecha os olhos, dessa vez ficamos assistindo seu esforço em pegar no sono, demora, mas por fim ele adormece.
─Como a gente faz para ele entender?
─Devíamos dizer que ele não vai a lugar nenhum, que agora é nosso filho. – Clarie me diz se sentando na cama como eu.
─E porque ele acreditaria Clarie? Fizemos um mundo de promessas, ele acreditou. Acreditou que estava seguro, que não ia nunca mais lá fora enfrentar zumbis, que voltaríamos para busca-lo e como ele acabou? Sozinho, humilhado, agredido, e sobrevivendo por seus esforços. Ele não tem nenhuma razão para acreditar em palavras.
Tudo isso me magoa, eu sei como é acreditar que acabou, que dessa vez não vai mais ser como antes, me lembro de uma assistente social fazendo um discurso sobre amor e proteção, do meu pai jurando que mudaria, que seria diferente, eu acreditava, me enchia de esperanças e então a porta batia atrás de assistente e o inferno se abria ainda mais profundo e dolorido.
─Tudo bem, se acha que ele não vai acreditar em palavras sem problemas, vamos mostrar, nós dois. – Ela deixa claro. – Sim, não me olhe assim, você pode, eu sei que sim porque me mostra seu amor todos os dias.
─Acha? – Beijo Clarie, puxo ela para se deitar e nos abraçamos.
─Sim, não acredito que me ama apenas porque disse, mas sim porque mostra, vamos mostrar, ele vai entender.
─Não temos mesmo escolha. – Ela me beija, depois fecha os olhos e dormimos.
Quando acordo é dia, os dois ainda dormiam, deixo que fiquem descansando e saio da cama. Olho pela janela da sala uns minutos depois e está tudo ainda silencioso e tranquilo, todos recolhidos e pensando em suas perdas.
Nem pude sentir a morte de Sasha, nem sei se perdi mais alguém, não sei quando ou como isso vai acabar, mas esgota e tira as esperanças, para uma criança é ainda pior.
E a criança veio até mim, ou talvez não, acho que fui eu que a tomei para mim desde o começo, Ben é meu passado de volta, devia me assombrar e fazer correr, mas ao contrário disso me empurra em sua direção e foi automático, simplesmente não pude evitar, assim como não pude evitar o que sinto por Clarie, só me tomou e deixei acontecer porque dizer não era uma dor ainda maior.
─Bom dia. – Os braços de Clarie me envolvem pelas costas, me viro e beijo seus lábios, é tão linda, sempre, em qualquer situação. – Vou fazer um café e vamos ver onde podemos ser úteis.
─Clarie eu acho que o Ben não tem forças para ficar por aí, ainda mais com tanto frio, fraco assim ele pode ficar doente, fica com ele.
─É eu sei, mas quem sabe amanhã começo a ajudar?
─Tudo bem, amanhã revezamos, de manhã eu fico com ele e de tarde você fica.
─Esperto, assim trabalha mais porque as tardes são mais longas. – Ela ri e Benjamin se junta a nós. Come uma fatia de pão enquanto tomamos uma xicara de café.
─Sabia que eu tomei sangue do Daryl Clarie? Não bebi não, foi no braço, acha que vou ficar um pouco forte agora?
─Acho que vai ficar muito forte. – Clarie beija seu rosto e ele sorri.
A porta se abre e sei que é Rick, Benjamin também sabe porque fica tenso, mas não reage, Clarie disse que ele deveria se comportar e ele começa a sentir sua força.
─Encontrei você! – Rick toca o ombro de Ben, ele me olha, Clarie estica uma xicara de café para Rick que se senta. Benjamin da a volta na mesa e se encosta em mim. – Vim agradecer o herói de Alexandria, todo mundo dizendo que o Benjamin salvou minha filha. Obrigado Benjamin.
─De nada.
─Foi muito corajoso.
─Eu sei. – Ele diz começando a se orgulhar. – Sou bem forte. – Agora o ato de coragem começa a subir a cabeça e rimos todos. – Eu vou ficar morando aqui em Alexandria, não é Rick?
─Eu estou contando com isso Ben, estamos precisando de gente forte, quero que me ajude aqui.
─Tudo bem, então eu fico, vou morar aqui mesmo, eu gosto de casas bem pequenas, sabia que agora eu tenho oito anos?
─Eu soube. Gosta de casas pequenas então?
─É, não me importo de ser pobre. Aqui eu fico perto do Daryl e da Clarie.
─Como o Carl e a Judith, eles tem que ficar perto de mim, você fica do lado dos seus pais, muito bom. ─ Rick fica de pé, deposita a xicara na mesa, Benjamin está olhando de mim para Clarie. – Só vim mesmo agradecer, vou ver o Carl e trabalhar.
─Vamos todos ver o Carl. – Eu digo arrumando a besta nas costas. – Depois sigo para o trabalho e Clarie volta com o Ben. Quer ver o Carl? – Pergunto a Benjamin, ele afirma meio sem fala.
─Então vai colocar as luvas e a touca. – Clarie pede a ele.
─Eu não tenho Clarie, deixei de pista para vocês.
─E achamos suas pistas, elas estão sobre a sua cama. – Ele sobe as escadas contente.
─Benjamin estava se sentindo culpado, a crise de ontem foi porque achou que tinha vindo manda-lo embora. – Clarie conta a Rick. Ele ergue uma sobrancelha.
─No fundo ele está certo em não confiar em ninguém, quem pode culpa-lo?
Ninguém, sabemos que está sempre tudo por um fio e que qualquer um pode fazer uma tolice a qualquer hora e por tudo a perder. Ben se junta a nós e vamos ver Carl.
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