Resumption
50 Capítulo 50
Notas iniciais
Pov – Daryl
Ela me perdoou, simplesmente passou por cima de tudo. Não posso me esquecer disso da próxima vez que tiver uma crise estúpida. Benjamin caminha ao meu lado carregando minha besta orgulhoso, paro com ele na porta da escola.
─Pronto. Agora você entra. A Clarie vem te buscar.
─Você não pode vir? – Ele me pede e dou um meio sorriso.
─Posso. Venho buscar você mais tarde.
Ele me devolve a besta. Pego a arma pensando se um dia vou ter a chance de ensina-lo a caçar. A morte está sempre tão perto. No virar de uma esquina. Sempre tão faminta.
─Seja um bom garoto. Seja um bom garoto sempre. Corajoso e justo. – Ele afirma. – Um dia quando for grande vai ficar com essa besta.
─Ela vai ser minha?
─É sua. Vou cuidar dela até estar pronto. É com ela que vai proteger sua mãe.
─Eu vou sempre cuidar dela e nunca mais vou xingar. Nunca, nunca, nem se ficar bem bravo.
─Bom saber. Agora entra. – Afago seus cabelos, ele sorri. Um grande sorriso. Ainda não somos de abraços e todo o resto. Mesmo assim eu o amo. Assisto quando ele caminha para dentro da casa confiante com um caderno na mão.
Sigo para encontrar com Rick e tranquiliza-lo, no fundo tenho certeza que ele sabe que estou bem. Viro uma esquina e Spencer surge caminhando sozinho. Esse sim é o encontro perfeito.
Paro diante dele, o cara fica tenso. Tão cheio de si na hora de dar em cima da minha mulher. Agora encara o chão feito um covarde.
─Spencer. Que bom encontra-lo. Precisava te dar um recado. – Arrumo a besta nas costas. Ele me olha sem muita convicção. Travo meu punho. Se quiserem me chamar de selvagem que chamem, não conheço nenhum outro modo de lidar com homens como ele. Acerto um soco perfeito em seu rosto, ele despenca feito um saco de estrume. A mão segue para o queixo enquanto seus olhos me encaram perplexos. – Fica longe da minha mulher. – Ele fica mudo, não se põe de pé disposto a me enfrentar, revidar ou qualquer coisa, só se mantém ali. – Não vai se levantar? Estou esperando.
─Não sou um selvagem.
─Que pena. Eu sou. – Ele continua ali. – O recado foi dado. Bem longe ou vai ver o quão selvagem posso ser.
Eu começo a caminhar. Rick e Mich conversavam, Judith entre ele. Rick sorri quando me aproximo.
─Não disse?
─Como sabe que está tudo bem?
─Conheço você. Estaria com outra cara se não estivesse, como uma como a de ontem ou pior.
─Estamos bem. – Não entro em detalhes, não é que não confie em ninguém, mas acho que só mesmo Aaron e Rick conseguem me entender e com mais ninguém me sinto a vontade para falar. Faço um carinho em Judy que sorri. – Vou procurar o Aaron e desfazer os planos de viagem.
─Vai lá. Melhor assim. – Dou uns passos e depois me volto.
─Ah! Já ia me esquecendo. Acabo de dar um soco no Spencer. – Rick balança a cabeça em negação.
─Acho que tenho que ficar feliz por ter só dado um soco.
─Provavelmente. – Continuo a caminhar.
Carl me para, está nervoso por conta da fuga de Enid, essa garota é um grande problema. Não tenho escolha se não seguir seus passos.
Atravesso pela passagem que ela provavelmente criou e que será a última vez que alguém vai usar. Abraham e seu grupo de construção vão ter que dar um jeito nisso.
Eu a vejo caminhando um pouco mais a frente com uma mochila nas costas. Não posso gritar por ela sem criar problemas, então sigo com passos apressados para alcança-la.
Uns minutos depois passo por uma pequena fogueira recém apagada. Fico em alerta. Garota burra e irritante. Agora que não posso mesmo gritar por ela. Quem quer que seja não está longe. Minha atenção se dobra e meus passos diminuem.
Vejo o vulto de um pequeno grupo de zumbis. Meia dúzia caminhando por entre as árvores. Me escondo. Espero que Enid tenha feito o mesmo, eles se afastam quando um som vindo de outra direção os convida.
Me apresso. Ela sai de traz de uma árvore e me vê, faço sinal para parar. Sinto sua dúvida. Seu olhar vai para outra direção, ela faz um movimento com a cabeça. Me viro com a besta em punho para descobrir o que quer me mostrar com seu silencio. Quatro homens me apontam armas.
O W na testa deixa claro quem são. Ficamos ali, nos encarando, eles me apontando suas armas e eu a besta. É uma imensa desvantagem.
─Corre! – Grito para ela sem me mover. Escuto seus passos se afastarem amaçando as folhas secas. – Estou apenas passando. Não precisamos de nada disso.
─Se deu muito mal cara. A gente pretendia te matar e ficar com a garota. Mandou ela fugir. Agora vai ficar no lugar dela. Agora solta a arma. – Ficar no lugar dela. Não está nos planos deles me matarem, mesmo que me recuse posso derrubar um deles. Quem sabe dois, ainda assim acabaria morto. Talvez encontre outra oportunidade e ganhe tempo com sorte Enid avisa alguém.
Solto a besta no chão. Dois deles seguem em minha direção. Assim que se aproxima um deles tira uma corda. Amarra minhas mãos nas costas. Isso não é nada bom. Recebo um soco no estomago depois que estou amarrado. Não caio, mas me dobro de dor.
─Durão. Achei que era do tipo que se daria bem entre nós, mas depois de mandar a garota correr já vi que não entendeu como o mundo é agora.
Recebo outro soco. Dessa vez, tenho uma crise de tosse e ânsia de vomito, escuto as risadas. Ergo meu olhar. Encaro aquele rosto sujo e medíocre diante de mim. Vou matar esse cara. Nem que seja apenas isso que possa fazer.
─Andando!
─Não precisa me amarrar. Iria junto, me rendi.
─Você não precisa ter medo, se um zumbi aparecer acertamos ele, não vai ser mordido, ainda não.
Vamos caminhando dois deles de cada lado, ao menos Enid ficou livre, nem quero pensar o que fariam com ela.
Os zumbis que a pouco encontramos caminhavam um pouco a nossa frente. Nos escutam, se viram com fome, os gemidos tornam-se altos os passos apressados ou o mais perto que podem disso. Os caras pegam suas facas.
─Vai ser um desperdício, mas é melhor acabar com esses.
Ficamos cercados, eu ali de mãos atadas literalmente. Eles vão derrubando os mortos, um dele atravessa o cerco e vem em minha direção, maldito imbecil, a boca abre e fecha os olhos mortos fixos em mim. Magro, rasgado e cinza. Chuto o corpo quando ele fica perto o bastante, ele cai, tenta se erguer. Eu o chuto e piso em sua cabeça. Esmago o cérebro do infeliz espalhando seus fluidos pelo chão.
─Sem usar as mãos. Que pena. Seria uma boa aquisição. – Eles riem e continuamos a caminhar. Mais nenhum zumbi surge até chegarmos ao que parece uma pequena fábrica ou galpão na beira da estrada.
─Vai gostar do lugar. – O cara ri. É o único a falar comigo, os outros são silenciosos. Talvez ele seja o chefe daquele pequeno núcleo, me pergunto quantos lobos ainda tem por aí.
O portão de ferro range, ele passa correntes quando entramos. Uma pequena guarita de guarda está cheia de zumbis, eles arranham as vidraças atiçados por nossa presença.
─Nossos soldadinhos. – O cara ri. Acena para os mortos. Os outros acham graça e riem com ele. Um deles puxa uma porta de ferro que abre para lateral. O lugar está vazio, um tanto escuro. Só a iluminação das vidraças altas na parte superior.
Quando caminhamos escuto o som das botas no chão lodoso. Uma grade mantém alguns zumbis num pequeno espaço.
─Mais soldados. A gente entendeu há muito tempo que um dia a munição acaba. Conhece arma melhor? – Eles têm lá um fundo de razão. Mas duvido que reunir todos eles, não implique em muitas perdas. – Sim, de vez em quando alguém é mordido, mas então vira munição como todos os outros. Nada se perde, não é?
Sou amarrado em um pilar. Não tento nada. Se tiver que morrer aceito, mas quero ter certeza do que sabem. Que minha família está segura.
─Sou muito mais útil solto. A garota se foi, estou sozinho e posso me juntar a vocês. – Arrisco, o cara anda em volta de mim. Eu aproveito para olhar bem o lugar e seus homens.
Tem uma saída lateral e a da frente. Nenhuma sala, além do galpão amplo. Seus três homens usam apenas uma arma cada um além de facas. Parecem bem cansados.
─O grupo deve estar a caminho. Somos muitos, uns quinze lobos. – Ele para diante de mim. – Nós aqui nos separamos um tempo, andamos por aí, quando voltamos tinha um recado para seguirmos para cá. Uma comunidade pelo que entendemos. Escrever não é talento do Travis. – Os caras riem com gosto e adoro me lembrar do que fiz com o infeliz. – No fim chegamos primeiro. Ainda não vimos a tal comunidade. Mas está na cara que você sim. Então quando o grupo chegar vai abrir a boca e entregar tudo. Depois a gente mata você e vai pegar o que é nosso.
─Se vão me matar porque vou dizer qualquer coisa? – Pergunto encarando aquele rosto doentio.
─Porque temos talento para mortes bem lentas e doloridas e não vai querer passar por isso.
Meus olhos ficam cravados nele. Não tenho medo, a dor é minha companhia desde antes do fim. Já estive por um fio uma dezena de vezes desde que essa porra começou e mais uma dezena de vezes antes do fim. Não me importo.
─Tudo bem. Me solta e esperamos seus amigos.
─Eu não tenho amigos e não vou te soltar. Somos um rebanho de lobos.
─Alcateia babaca! – Ele me encara cheio de fúria. Me acerta um soco no olho e mais um no estomago. Rio, que se dane, não vem porcaria de grupo nenhum, matamos seus amiguinhos e não me importo a mínima com esses quatro babacas. Eles não vão viver muito mais que eu. – Ok, se querer ser ovelhas rebanho então!
─Qual é o problema desse cara? – Um deles se aproxima com uma faca na mão. – O que acha que vai conseguir com isso?
─Novos amigos? – Provoco, Ele encosta a faca em minha barriga.
─Vou furar você imbecil, beber seu sangue! – A tenção e as vozes deixam os zumbis desesperados. Eles atiçam a cerca. A faca do homem me fura. Penso em Clarie e Ben, ofereço a eles meus melhores pensamentos. – Não se preocupe. Entendo de corpo humano, não peguei nenhum órgão. Vai viver para abrir o bico. Eles é que vão acabar com você! – Ele me aponta os zumbis. Usa o cabo da faca para acertar minha testa e fico tonto. O riso deles ainda soa em meus ouvidos, mas a visão embaça um pouco.
─Marcamos o caminho, eles já deviam ter nos encontrado. – Um dos caras diz uns minutos depois, fico ali esquecido, amarrado, e sangrando, o liquido quente escorre lento por minha barriga descendo pela perna.
Faço um esforço para focar a visão, nada grave, nem é muito sangue. Levaria horas para isso me matar. Sinto a garganta seca, meus ombros doem depois de tanto tempo com as mãos amarradas para trás.
Me pergunto quanto vai demorar para eles entenderem que sua preciosa alcateia está destruída e que são os últimos lobos. Aquela fauna nociva está caminhando rápido para a extinção.
─Travis deve estar juntando mais deles. Com um bom número derrubamos o lugar. Ele chega até o dia acabar.
─Talvez pela manhã. Podem ter parado para dormir.
O líder me vê de olhos abertos os observando, abre uma garrafa de agua, dá uns goles na minha frente. Fico pensando nos mil modos que poderia mata-lo. Engulo em seco quando meu corpo responde a sede. Meus ombros queimam e minhas pernas começam a ficar fracas.
Me lembro dos canibais e de como eu tinha certeza que tinha acabado. Mas não tinha, era só um contratempo, depois daquilo eu morri um pouco perdendo Beth e renasci mais forte quando ganhei uma família.
Como uma fênix, que nasce das próprias cinzas. Um homem de lata que ganhou um coração como Clarie gosta de dizer. Os olhos escuros e vivos da minha garota me dominam.
Foi uma grande noite. Vou apagar todo o resto e levar comigo aqueles momentos. Nada mais importa. Quantas vezes me disse que não podia continuar sem mim? Vai ter que aprender, não se trata mais de nós dois. Agora é tudo sobre Benjamin e sua sobrevivência.
Prometi pega-lo na escola. Uma droga de promessa, não posso cumprir. Me arrependo de ter prometido. A besta ficou na floresta, nem mesmo isso vou poder deixar de herança para meu filho. Nem um beijo, um abraço verdadeiro. Nada além de alguns afagos nos cabelos compridos.
Eu podia ter feito tanto, mas cada vez que alguém se aproxima, que quero mostrar me transporto para o maldito passado e todos os carinhos negados. Toda a violência que substituiu o carinho.
Hoje eu vou deixar tudo isso para trás, não vou carregar na morte o que aguentei em vida. Só levo Clarie, Benjamin, meus amigos. Minha família e tudo que me ensinaram sobre amor e coragem.
─Com sede arqueiro?
─Nada que não posso esperar isso acabar e vocês morrerem.
─Vai implorar, acredite, ainda vai implorar. – Ele enfia os dedos no corte abrindo mais, sinto uma dor explodir dentro de mim, não me dobro, não grito, e muito menos imploro. Só encaro seus olhos com toda força que me resta de algum jeito ele se assusta. Se afasta de mim.
─Acho que vou dar uma volta lá fora e ver se encontro um coelho ou qualquer coisa para comer. – Um deles avisa, depois me olha. – Se não achar nada sua perna vai ser o jantar. É como dizemos, tudo se aproveita.
O homem arrasta a porta e deixa o lugar. Dois deles se deitam no chão e o líder caminha de volta para mim. Me encara mais uma vez.
─Quantos vocês são lá?
─Não sei do que está falando. Não sei onde é lá.
Ele me acerta o estomago duas vezes, depois me dá mais um soco no rosto e outro na ferida que não para de se abrir cada vez mais e sangrar. Ainda é muito pouco, nem a morte na boca daquelas coisas me faria entregar minha família.
─Continuo não sabendo o que está dizendo. – Aviso e ele se irrita.
─Não vou ter piedade. Vai falar o perder a maldita língua! – Ele grita. Com a arma acerta meu rosto, perco um pouco a noção, apago um momento. Que se dane. Não me importo, Clarie está segura. Benjamin está, ele não pode me tirar nada. Tudo que tenho está longe de mim o bastante para ficar fora de risco.
Pov – Clarie
Enid obedece Daryl, corre como ele mandou fazer, felizmente vem em minha direção e a seguro tampando sua boca quando chega perto de mim, os olhos apavorados me encontrar e ela se acalma.
─Shiu! – Peço soltando a mão. – Silencio, não podemos ser descobertas.
─Eu não queria... Eu não pensei...
─Depois. – Assisto Daryl se render, ser amarrado e levado. Minha mente bloqueia todos os pensamentos que não sejam seguir Daryl e tira-lo dessa encrenca que essa garota burra o colocou.
─Clarie eles vão matar ele.
─Vai mesmo fingir que se importa? – Ela me encara assustada. – Vamos segui-los. Você vem comigo.
Exijo isso, quem sabe depois posso manda-la de volta em busca de reforços? Vamos caminhando muito de longe. Se formos descobertas a morte será lenta e macabra. O que adianta ficar viva se perder Daryl?
Recolho a besta. Sinto algo se rasgar por dentro quando a coloco no ombro. Ela vai voltar para ele. Preciso acreditar nisso ou apenas vou querer me entregar a morte e morrer a seu lado será uma honra.
Eles lutam com alguns zumbis, sinto o ar sumir e meu corpo todo treme quando um zumbi avança sobre Daryl, Aponto a pistola e estragaria nosso disfarce não fosse ele ser quem é e derrubar e esmagar a cabeça do zumbi com as mãos nas costas.
O grupo de quatro homens e Daryl chegam a uma velha e abandonada fábrica. O que afinal não está abandonado ou morto nessa terra de ninguém?
Quando a porta alta se fecha num rangido que dói meu coração encaro Enid.
─Volte a Alexandria e traga ajuda. Não se atreva a ignorar isso, não se deixe morrer no caminho, seja rápida e traga reforços. Estamos a meia hora, tem uma hora para voltar com mais pessoas ou vou entrar lá sozinha.
─Eu juro que vou conseguir, sinto muito.
Entrego minha pistola a ela. Ela nega com a cabeça, eu a obrigo a segurar.
─Faça o que for preciso, mas traga ajuda.
Enid obedece. Corre para longe e por entre as árvores começo a dar a volta no lugar. Encontro uma porta lateral, pode ser útil, mas preciso saber como as coisas estão lá dentro.
As janelas são altas demais. O lugar é todo cercado por grades. Subo em uma árvore. A vidraça está suja mas vejo sombras e movimentos. Eles parecem estar nos fundos do lugar. Desço e caminho para outra árvore. De lá posso ver melhor. Daryl amarrado em um pilar e os homens a sua volta.
Vejo que falam, mas não sei bem o que. Acertam Daryl. Queria ser forte o bastante para não deixar as lágrimas me dominarem, não sou e a cada agressão meu corpo se dobra em dor física e as lagrimas correm.
Preferia estar em seu lugar. Esse mundo precisa muito mais dele do que de mim. Daryl fica firme. Não sei por quanto tempo, mas está agora e vou ficar pronta.
Pronta para que? Nem a pistola tenho mais. Só posso contar com minha lança e não é grande coisa quando se trata desses lobos armados. Vejo um brilho que lembra uma faca na mão do homem diante dele. Parece estar suja de sangue e o pânico me domina, minha perna falha e escorrego um pouco, reprimo um grito quando me seguro de novo.
Um zumbi surge em baixo da arvore. Me vê e começa a arranhar o tronco. Mas que grande droga. Vai chamar atenção de mais deles. Preciso descer e acerta-lo. Preparo a lança, desço alguns centímetros e o bastão de Morgan esmaga a cabeça de encontro ao tronco da árvore.
Salto cheia de esperanças. Então Rick, Michonne e Enid estão ali.
─Como chegou de volta tão rápido?
─Estávamos procurando por vocês. Carl me avisou, na saída encontramos Morgan, ele veio conosco e Enid nos encontrou há pouco na floresta. – Rick me comunica com uma mão gentil em meu ombro.
─Quantos Clarie? – Morgan corta a conversa.
─Quatro. Daryl está amarrado, bateram nele, talvez... Não sei direito o que vi. Pensei ter visto o brilho de uma faca suja de sangue. – A voz embarga. – Tem a porta da frente e uma lateral. Não posso perde-lo. – Digo antes de um soluço de dor.
Rick troca um olhar com Michonne e Morgan. Tento ficar firme e parar de chorar. Enid me devolve a pistola. Meus olhos a fulminam. Essa garota está colocando em risco tudo que me importa. Apenas por que sua vida é entediante.
─Certo, não podemos perder tempo, principalmente se ele estiver ferido.
─Rick, são lobos. – Aviso, assim ele sabe que não são gente preocupada em sobreviver. Ele para de falar, olha para mim preocupado.
─Ótimo, então vamos mandar o resto deles para o inferno hoje. Vou pela frente com a Mich. Vamos entrar atirando. Eles vão instintivamente dar as costas a Daryl para tentar nos pegar. Vocês correm pela lateral. Morgan cuida da retaguarda enquanto solta Daryl e Retira ele de lá.
─E eu? – Enid questiona, todos olhamos para ela, olhares furiosos.
─Vai com a Clarie. Talvez ela precise de ajuda se Daryl estiver ferido demais para caminhar. As duas juntas podem arrasta-lo para segurança enquanto terminamos o serviço.
─O mínimo de disparos gente. Depois temos que encarar a floresta de volta a Alexandria e não vamos ter tempo para zumbis com Daryl ferido. – Morgan pede e concordamos.
─Vamos. Clarie, o sinal de vocês são os tiros.
Escutamos a porta de metal ranger. Nos abaixamos, um homem saia e isso pode ser ainda melhor.
─Vão. Eu e Mich pegamos ele. Talvez isso ajude a distrai-los quando entrarmos, vão pensar que é o cara de volta.
Eles se afastam, Morgan me olha firme. Seus olhos me dão esperança.
─Lágrimas impedem a visão. Foco como te ensinei, escuta tudo a sua volta, se concentra. Pode lidar com isso, sabe que pode.
Afirmo e caminhamos abaixados e silenciosos, saltamos as grades evitando qualquer barulho, depois corremos abaixados até a porta de ferro lateral. Aperto a lança, o bastão de Morgan descansa em suas costas, agora ele usa um rifle.
Escuto o primeiro disparo e puxo a porta. Morgan entra atirando, está uma confusão de tiros e gritaria. Vejo Daryl amarrado, corro para ele. Tem muito sangue por seu corpo. Ele está apagado.
─Daryl! Me ajuda Enid. – Ela me ajuda a cortar as cordas, minhas mãos tremem quando solto seu corpo ele vai ao chão fraco. Me abaixo a seu lado.
─Clarie. – Ele pisca confuso.
─Temos que sair daqui amor.
─Foge. Vai embora. – Ele tenta me afastar, ainda estão trocando tiros.
Enid grita. Me viro a tempo de ver um dos homens surgir como um vulto sobre nós. Ele ergue uma arma. Daryl me empurra, sou rápida. Não treinei horas sem fim para nada e quando rolo para seu lado uso a lança e ela acerta o abdômen do homem atravessando seu corpo, a arma ainda dispara, eu empurro o corpo com a lança e a arma em sua mão rola para longe quando seu corpo encontra o chão num barulho oco. Ainda escuto um último disparo e silencio.
Corro para Daryl no chão. Ele segurava o ombro.
─Vai ficar tudo bem amor. Vamos levar você para casa. – Ele me olha. A mão suja de sangue toca meu rosto. Não consigo me acalmar, me abraço a ele chorando.
─Se não conseguir tem que ficar forte e cuidar do Benjamin. É nosso garotinho. Prometemos a ele.
─Não diz essas coisas! – Soluço, sua mão toca a besta em meu ombro.
─É dele. Eu dei a ele essa manhã. – Beijo os lábios de Daryl.
─Para com isso! Rick. Rick! – Me afasto. – Vamos Enid, vamos coloca-lo de pé. Anda Daryl, para de fazer corpo mole e me ajuda. – Grito com ele.
Rick, Michonne e Morgan surgem a nossa volta.
─Trouxe um pelotão inteiro! – Daryl diz confuso.
─Vem cara. Vamos logo para casa antes que os zumbis se libertem e mais deles apareçam.
Morgan e Rick colocam Daryl de pé, um de cada lado vão arrastando ele para fora do local. Vou na frente com Michonne e Enid segue logo atrás de todos.
Deixamos o galpão, é uma longa caminhada. Daryl não consegue andar, é praticamente carregado pelos dois. Um zumbi aparece. Michonne corta sua cabeça. Vamos caminhando e logo um pequeno grupo nos seguia a uma curta distância.
Não precisamos correr. Só precisamos andar mais rápido que eles. O grupo vai aumentando, os gemidos dominando o lugar, quando algum surge a nossa frente eu e Mich resolvemos o problema.
─Daryl! – Eu o chamo.
─Vivo Clarie. – Ele responde quase sem forças. É só o que me interessa. Escuto a respiração pesada de Rick e Morgan arrastando Daryl pela floresta. Uns metros depois quatro zumbis surgem. Uso a lança em dois ao mesmo tempo. Mich pega os outros.
Agora somos seguidos por pelo menos vinte zumbis. Rick e Morgan cansados e mesmo assim usando tudo que resta de suas forças.
─Amor.
─Vivo. – Ele me responde.
─Não apaga Daryl! – Escuto Rick dizer. – Está pior do que quando a Andrea te acertou com um tiro na cabeça.
─Me sinto mais morto que naquele dia. – Ele diz. – Me deixa aqui e vão. Eles vão nos alcançar.
─Não tem ninguém atrás de nós. – Morgan mente.
─Tenho ouvidos! – Daryl responde. – Vão de uma vez.
─Cala a boca! – Me viro para ele. Os olhos cheios de determinação para que ele entenda. – Nós não vamos perder. Não vou dizer a seu filho que te deixei no meio do caminho para ser devorado. Então para de se entregar e anda! Nós não vamos perder!
Que se dane se falei alto demais e convidei mais zumbis, o que não falta são zumbis a nos cercar. Volto a caminhar na frente dos homens. Quando olho para trás ele tentava ajudar Morgan e Rick dando passos incertos.
A distância entre nós e os mortos diminui ao mesmo tempo que os portões de Alexandria surgem.
─Abram! Abram o portão! – Começo a gritar. Os zumbis perto demais, Enid que caminhava atrás passa por nós. – Abram! — Grito e então eu e Michonne deixamos que Rick e Morgam passem a nossa frente. Mich começa a disparar seu rifle e eu a pistola derrubando os dá frente. Vamos caminhando de costas, escuto o portão abrir, tiros vindos da torre começam a nos ajudar e então estamos todos dentro, um segundo antes do grupo finalmente nos pegar o portão é fechado.
Corro para Daryl. Abraham e Glenn trocam de lugar com Morgan e Rick.
─Prometi pegar o Ben na escola. – Ele me diz antes de fechar os olhos e o corpo ceder pesado. Já subíamos os degraus da enfermaria. Denise nos aguardava e ele é colocado na cama.
─Um tiro no ombro. Talvez uma facada. – Aviso quando ela cortava sua camisa com uma tesoura. Morgan e Rick chegam. – Ele vai viver, Denise ele vai viver.
─Calma Clarie, deixa eu entender o que aconteceu aqui.
Aperto a mão de Daryl, ainda está quente. Ele vai viver. Eu sei que sim. Não vou perde-lo.
─Acorda meu amor. Não faz isso comigo. Alguém tem que conseguir acorda-lo. Daryl. – Beijo seus lábios, Denise diz qualquer coisa e Rick me tira de perto dele.
─Clarie se controla, está atrapalhando.
─Acho que ele perdeu muito sangue. A bala está aqui. Vou tirar e fechar. O corte não foi profundo a ponto de pegar órgãos. O sangue já coagulou, vou fechar também. Vamos ver. Tenho soro e algum medicamento. – Ela anda de um lado para outro.
Amber surge na sala. Me olha com pena, depois olha para Daryl na cama.
─Mãe?
─Vamos Amber. Liga o soro. Vou preparar a medicação.
A garota obedece no mesmo momento. Uns minutos depois pequenas gotas de soro e medicação pingavam longas e lentas pelo cano preso ao braço de Daryl.
─Preciso que segurem ele para retirar os estilhaços da bala.
A doutora pede e Abraham e Rick já refeito o seguram. Mas aquele é Daryl Dixon e a dor nunca foi problema para ele. Não tem nenhuma reação, é como se dormisse ainda.
─Daryl. – Me aproximo mais lentamente para não ser afastada dele. – Porque ele não acorda?
─Vai acordar Clarie, os sinais estão bons e ele vai sair dessa. Espere e verá.
Posso esperar, posso esperar a vida toda e mais outra vida se for o caso, posso passar a eternidade esperando, não tenho mesmo mais nada para fazer se não esperar.
Daryl é tudo que tenho e esperar é o que me resta. Os homens se afastam a doutora fecha o local com bandagens e me encosto em seu peito, escuto as batidas do seu coração. Enquanto ele bater o meu responde. Se um dia o dele parar então a coragem que herdei dele se vai e me entrego.
Dependemos um do outro, o ambiente se acalma a nossa volta, não me afasto, continuo sentada com a cabeça em seu peito ouvindo seu coração e molhando Daryl com minhas lagrimas. O que me resta delas ao menos.
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