Resumption
31 Capítulo 31
Notas iniciais
Pov – Benjamin
Clarie está cozinhando e o cheiro é muito bom, eu gosto de ficar fazendo lição enquanto ela fica ali cozinhando, às vezes o Daryl não tem nada para fazer e fica ali na cozinha também.
Faço muitas lições, vou saber mais que todos os garotos daquela escola idiota e ninguém vai rir de mim, sei escrever e ler muitas coisas agora, e contar e fazer contas bem difíceis de mais e de menos e os dois ficam falando que sou muito inteligente e acho que não estão mentindo.
Nunca me chamam de burro, estúpido, cachorrinho, inútil, nunca me machucam e nunca me mandam fazer coisas que não quero, nem tem zumbis por perto.
Me encosto na cadeira para contar, agora posso encostar em tudo que não dói, durmo de noite de tudo que é jeito e não dói nada, nem banho quente dói e não tem mais curativos. Mas ainda gosto que vejam se tenho febre, não sei porque, a mão da Clarie é bem quentinha, a do Daryl as vezes é geladinha, ele fica muito lá fora trabalhando, de vez em quando é quentinha também.
Olho para ela, Clarie ergue o olhar, ela sempre sabe que estou olhando para ela, daí me olha e sorri. Ela deve gostar de ficar sorrindo.
Ela sorri, eu sabia, volto a olhar para meu caderno, não gosto de ficar de risinho, nunca fico de risinho com ninguém, nunca, nunca.
Essa casa é bem melhor que as mansões de toda Alexandria, não quero mais morar em uma, aqui eu tenho um quarto, com cama e tem sempre comida e se eu ficar doente eles me ajudam, não sei não se eles estão lembrando de contar os dias.
Já faz muito tempo que estou aqui, passou os vinte dias e fico bem calado. De vez em quando eu fico muito nervoso, parece que não ligam muito e quando fazem isso fico bravo, ou quando eles ficam pertinho de descobrir que sou criança ainda.
Criança só se ferra no mundo, todo mundo faz coisas ruins com crianças. Não sei não porque as vezes escuto algumas correndo e brincando lá fora, acho que fingem, ou será que não, pode ser que não aconteça coisas ruins com elas.
Comigo acontece. Desde bem pequenininho, lembro do meu pai, ele era bem diferente do Daryl, muito mau, bêbado, Daryl não bebe, será que é porque não tem bebida?
E tem os lobos, me lembro deles e fico com raiva e medo, e não gosto de lembrar, passo a mão pelo cabelo, não devia pensar neles, não devia, é ruim.
─Clarie, acho que eu estou com muita febre! – Vou até ela, Clarie seca a mão no pano e me toca, fico calmo, ela afasta meus cabelos, sorri, toca meu pescoço, de novo a testa.
─Está sem febre Benjamin. Que bom, não é? – Faço que sim, então volto para o caderno, leio mais uma vez o que está escrito, depois continuo a fazer a continha. A porta da frente se abre e ela já sorri, agora os dois ficam bem namorando toda hora.
─Oi Benjamin. – Daryl me diz acenando.
─Oi. – Ele beija Clarie, ela se encosta nele, nem parece que ele estava agorinha com a gente.
Daryl se senta bem do meu lado e olha meu caderno curioso, acho que ele gosta de me ver fazendo lição.
─Essa professora é muito chata, te enche de lição. E o vídeo game?
─Gosto mais de ler e escrever.
─Outro problema? Todo dia tem muitos problemas para resolver.
─É, esse é bem difícil, tem que fazer duas contas.
─E consegue? – Afirmo, sou bom com os números. – E tem eu aí?
─Tem. – Procuro onde está escrito o nome dele, sempre tem ele ou eu e até os dois. – Aqui. Está escrito Daryl.
─Clarie só me arruma problema, ainda bem que você é bom e resolve. – Daryl se levanta, sorri para Clarie, ela passa os braços por seu pescoço, eles se beijam. – Vou tomar um banho.
Então ele sai e termino o problema, guardo meu caderno e fico sentado na sala, ligo um pouco o vídeo game, agora é só esperar o jantar. Depois fico aqui, de vez em quando eu durmo, de vez em quando fico acordado, Daryl é bem forte e sempre me coloca na minha cama, não tenho muito medo dele.
Agora quando a Clarie vai em algum lugar ela me chama, e já dei uma volta em toda Alexandria com o Daryl só para ver os muros.
A comida está boa, depois eu ligo o vídeo game de novo e os dois ficam conversando e abraçados e fico ali, quando sinto muito sono desligo e me encosto na poltrona, acho que aquela poltrona é um pouco minha, sempre sento nela.
Eles vão me mandar embora e vou sentir saudade de ficar aqui, de dormir, de comer, fico de novo nervoso e com vontade de chorar.
─Acho que me deu um pouquinho de febre. – Me levanto e vou até os dois. Daryl toca minha testa a mão não está mais gelada.
─Está bem, olha ali uma manta, é só frio, se cobre. Deita lá na sua poltrona que eu te cubro.
Ele falou minha poltrona, acho que nem vão me mandar embora mais. Me deito encolhido e ele me cobre. Vê de novo se eu tenho febre e depois vai ficar com a Clarie.
Pov – Daryl
─Morgan sabe que está vindo uma nevasca? Para que se arriscar? – Eu não acho que seja boa ideia ele sair agora.
─Daryl depois do que me disse sobre a mochila do Aaron acho melhor descobrir mais alguma pista desses caras, nem sabemos se estão ligados com o W, se é coincidência, se tem algo a ver com as marcas nas árvores, eu posso aguentar um inverno lá fora, já aguentei outros.
─Se tem uma coisa que aprendi é que a gente não pode fazer com que as pessoas se importem com a gente e depois simplesmente deixa-las. Clarie vai ficar morrendo de preocupação.
Morgan sorri, se senta ao meu lado na escada de casa. Suspira.
─Esse seu amor por ela é incrível, e perigoso. – Olho para ele sério. ─Desculpe, não quero te preocupar nem nada, mas é sério, você fica meio cego pela Clarie, ela está meio acima de tudo e fico pensando que tipo de besteira faria.
─Qualquer uma. Por ela qualquer uma. Eu pensei em acertar uma flecha no Benjamin quando ele apontou uma arma para ela. Teria acertado o garoto se ela não tivesse me pedido.
─Você é assim, capaz de fazer qualquer coisa que ela te peça. Mas pense antes está bem? Não fique cego. Minha mulher... Eu não tive coragem e por isso perdi meu filho.
─Conheço essa história Morgan, mas se a Clarie... – Nem consigo pronunciar as palavras. – Morreria junto.
─Pensa que não quis isso? Pensa que não teria preferido? Mas eu tinha meu filho e por isso não fiz e agora você tem um filho e eu não tenho mais nada.
Olho para ele um tanto chocado, ele disse filho? Eu tenho um filho? Penso um segundo, talvez seja isso, não ligo que seja, até gosto da ideia. Benjamin é mesmo algo como isso, ou quero que seja um dia.
─Eu tenho, mesmo que ele não saiba ainda. ─Admito e isso não me causa constrangimento nenhum.
─Só fica atento. Vou esperar passar a nevasca. Além disso se algo estiver a caminho quero estar aqui para ajudar.
─Ótimo. Quer voltar para dentro e tomar um café? – Eu o convido quando um vento frio sopra e ele ergue a gola do casaco.
─Não. Obrigado, agradeça de novo a Clarie pelo almoço, estão domando a ferinha, ele pareceu quietinho hoje.
─Pensei que demoraria muito mais tempo, mas estamos avançando, vinte e cinco dias aqui e ele agora xinga no máximo um dia sim e um não.
Morgan ri, depois desce os degraus.
─Te vejo amanhã. Já que agora o treino também é um dia sim e um não.
Volto para dentro, Clarie estava sozinha na sala. Benjamin estava no quarto tomando banho para depois fazer a lição de casa que no fundo era tudo a mesma coisa já que ele não saia de casa, mas os dois eram bem organizados. De manhã a cozinha era uma escola e á tarde era uma cozinha mesmo e ele fazia a lição de casa.
─Convenceu ele?
─Pelo menos até depois da nevasca sim. Tem café? Está um frio lá fora, está tudo quieto hoje. – Clarie me acompanha a cozinha. Tomo um gole do café quente e sorrio. – Você leva jeito, cuida de tudo e aqui parece que não tem apocalipse, isso me assusta as vezes.
─Eu sei Daryl, dá medo de esquecermos como é lutar para viver. Me sinto assim as vezes, mas então eu penso que pode ser que tenha acabado, que dê certo, que seja só isso mesmo.
─Um recomeço? – Ela sorri, se aproxima, me dá um beijo e deixo a xicara na pia. – Amo você. – Clarie me pediu para dizer ás vezes e digo, faz bem a ela e faz bem a mim.
─Faz vinte e cinco dias que ele está aqui e fico pensando na tal mansão que ele quer escolher. – Ela diz num suspiro de preocupação. ─ Acha...
─Não faz! – Benjamin surge na cozinha. – Você é bem burra, não sabe nada, disse vinte dias, eu me lembro. – Ele grita. – Eu sei contar dias, falta um monte ainda. Quer que eu vá embora, mas falta um monte de dias. Um monte! Odeio você – Seu rosto está coberto de lágrimas, vermelho pelos gritos.
─Benjamin...
─Cala a boca sua burra, burra, falta um monte de dias! – Ele empurra uma cadeira. Está fora de si, parece ser a pior de todas as crises, demoro um pouco para reagir, aquilo me assusta e confunde, sinto pena, e raiva, não dele, de quem o tornou assim, minha mente não consegue reagir. – Imbecil, idiota! – Outra cadeira vai para o chão e ele chuta, grita. – Odeio você!
Dou um passo para pará-lo, mas Clarie é mais rápida, segue até Benjamin, o segura pelos braços, firme, não com violência, se dobra um pouco para olhar em seus olhos.
─Benjamin, calma, me desculpe se contei errado. – Ele paralisa com os braços presos ao longo do corpo, olhando para Clarie, chora ainda, mas ela hipnotiza a gente, eu sei como é e ele não reage. – Desculpe, não vai a lugar nenhum, você conta os dias, você avisa quando for vinte dias, se nunca for vinte dias tudo bem, pode ficar. Não precisa ir a lugar nenhum.
Seus músculos relaxam, ele ainda chora, mas não está mais irritado, ela solta seus braços e ele continua imóvel e perdido, e penso em mim, em tudo que guardava dentro de mim, nos medos e na solidão. Me lembro de sair batendo a porta, respirar ajudava.
─Vem Benjamin, me ajuda a verificar os muros. Já voltamos Clarie. – Ele me segue, sinto pena de deixa-la, mas ela compreende que eu sei o que ele precisa. – Pode levar minha besta?
Benjamin afirma, pega a besta e pendura no ombro, sei que é pesada para ele, que é metade dele, mas só quero tira-lo um instante da droga do passado e saímos para o vento gelado. Ele se orgulha em apenas carrega-la, sinto pelo modo como caminha.
Começamos a caminhar em silencio, felizmente as ruas estão vazias e ele pode secar suas lagrimas e se recompor sem se envergonhar na frente de estranhos.
─Todo mundo dentro de casa, muito frio, não é?
─É. – Um soluço escapa na tentativa de controlar o choro.
─Às vezes os zumbis congelam no inverno.
─Eu sei, ficam parados e parece que acabou, mas o gelo derrete e eles voltam a se mover.
Claro que sabe, me esqueço que estava lá fora em algum lugar, sendo maltratado como se o apocalipse não fosse o bastante.
─Não gosto mais de mansões, gosto de casas pequenas agora. – Ele me diz.
─Então agora é como eu e a Clarie.
─Sou. – Ele arruma a besta no ombro.
─Aquele seu quarto é bom, com coisas de menino, um garoto de dezesseis anos gosta.
─É.
─Acho que menores também gostariam, tipo uns dez anos. – Investigo em busca de alguma resposta.
─Até menos. – Ele me diz.
─Menos? Acha que um garoto de quantos anos gostaria?
─Oito anos. – Paro de andar um segundo com o choque, oito anos e tudo isso de dor? Sozinho, é quase menos que uma criança, como um bebê. Me refaço do choque. – Deixamos a Clarie sozinha.
─Tudo bem. – Vamos andando ao longo do muro, meus dedos congelando sem luvas, ele se acalmando.
─Fiquei meio bravo.
─Ah eu sei, e sei o que vai fazer, vai chegar em casa e pedir desculpas, mas é pena que ela desculpa e depois você faz de novo.
─Um dia ela não vai mais me desculpar? – Sua voz fica ansiosa de novo, me sento num banco porque acho que a besta está muito pesada para ele. Benjamin se senta ao meu lado e pego a besta, encosto no banco. – Nem você? – Os olhos marejam. A angustia de não saber o que fazer está de volta. – Acho que estou com muita febre de novo, pode ver?
Então eu entendo a fixação pela febre, é seu pedido desesperado por carinho, afago seus cabelos, ele se encosta em mim, é a primeira vez que faz isso, continuo afagando seus cabelos, ele não me abraça, nem se move, mas fica ali, encostado em mim enquanto vou afagando seus cabelos e as lagrimas vão escorrendo.
─Clarie não é burra, ela me ensina um monte de lições, não tem culpa de não saber contar os dias, coitada. – Sorrio.
─Verdade. Devíamos parar de contar os dias, agora que gosta de casas pequenas e até uma criança de oitos anos gostaria de um quarto como aquele você pode ficar.
─Pode ser. – Ele finge desinteresse. – Acho que é melhor, assim ninguém mais erra as contas.
─Sabe Ben, eu gosto de crianças de oito anos. A Clarie então, adora.
─São fraquinhas, acontece coisa ruim com elas.
─Só até ela encontrar gente que gosta de criança, aí essas pessoas não deixam mais acontecer.
─Mas a pessoa precisa ter lança, ter besta, ter pistola. – Sorrio ainda acariciando seus cabelos, ele encostado em mim.
─Verdade. Se encontrasse um garotinho assim eu cuidaria dele. – Ele se encosta mais em mim, soluça, continuo acariciando seus cabelos. – Clarie vai te desculpar Ben.
─Ninguém nunca que me chamou assim. De Ben.
─Ah me desculpe, é que Benjamin é comprido, gosto de Ben.
─Pode chamar, a Clarie também pode se ela quiser.
─Está pronto para voltar para casa Ben? Antes que a gente vire picolé? Tem uma velhinha ali numa janela achando que ficamos doidos. Você vai ser o primeiro picolé de duende do apocalipse. – Ele afirma, se afasta relutante e ficamos de pé, dessa vez eu levo a besta.
─Podemos contar para Clarie que não vamos mais contar os dias?
─Podemos, mas acho que ela pode chorar um pouquinho, ela queria muito que você ficasse.
Ele me olha absolutamente surpreso, incrédulo, num espanto de dar pena e até torço por umas lagrimas de Clarie só para ele acreditar, Benjamin titubeia nos degraus, sabe que extrapolou todos os limites quando atirou e chutou cadeiras.
Toco seu ombro, podemos fazer isso juntos e será mais fácil, fazia essas coisas sozinho, não porque queria me desculpar, mas porque não tinha escolha, eu tinha medo de acabar nas ruas. Corria pela floresta, mas não tinha outro lugar para ir se não voltar para casa e então eu voltava e me desculpava por coisas que não tinha feito.
Clarie está com os olhos vermelhos, se recompondo apressada quando entramos, Benjamin, para ao meu lado, ela olha para ele.
─Sinto muito, você não é burra, nem estúpida, nem idiota e... – Acho que ele está tentando lembrar do que mais a xingou, felizmente o vadia ficou no passado.
─Entendi. – Ela diz.
─Desculpe.
─Está desculpado. – Ele não esconde o alivio. Então me olha, faz um movimento com a cabeça apontando Clarie, os olhos ansiosos, acho que espera que eu conte.
─Conta para ela. – Me pede.
─Clarie, não somos nada bons nesse negócio de contar dias, o Ben não gosta mais de mansões, então não vamos mais contar dias. Ele vai ficar nesse quarto mesmo.
─Sério? – Ela está emocionada, como achei que ficaria, lagrimas escorrem e o surpreendem, ele me olha.
─Disse que ela podia ser que chorasse.
─Agora eu gosto de ser pobre.
─Estou feliz. Que bom Benjamin. Agora também vai ser um dos pobres de Alexandria. – Clarie, ria e chorava ao mesmo tempo.
─O Daryl acha melhor me chamar de Ben, pode chamar se quiser.
─Posso? Que bom, mas estão gelados, não é? Está muito frio. ─ Ela se aproxima dele, toca suas mãos, depois o rosto. ─Que menino gelado. Eu sei que não é um menino, é só força de expressão.
─Eu não ligo. – Agora ela me olha espantada.
─Então vai colocar luvas, sabe onde estão? – Ele afirma e corre escada acima. Abraço Clarie, ela ainda chorando.
─Desculpe ter te deixado. Ele precisava de um pouco de ar.
─Foi bom, eu precisava ter uma crise de choro longe dele.
─Depois te conto tudo, agora só fica calma, acho que talvez as coisas melhorem para ele.
─Obrigada amor, por estar fazendo isso por nós. – Beijo Clarie. Sempre fico surpreso quando ela diz amor ou meu amor, tenho vontade de olhar em volta para ver se tem alguém, sempre achando que não pode ser para mim. – Você também está gelado.
─Eu trouxe as luvas dele. – Ben surge na sala abanando minhas luvas, todo prestativo.
─Obrigado. – Pego as luvas e bagunço seus cabelos, ele não se esquiva, é um começo, vamos conseguir.
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