Resumption
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Pov – Daryl
Faço mira com o rifle. Rick caminha de braços erguidos a espera dos policiais, o estacionamento está vazio, se o acordo não der certo não sei como será. Preciso que funcione.
Preciso desesperadamente tirar Carol e Beth desse lugar, de algum modo a culpa é toda minha. Carol veio comigo quando vi o carro com a cruz, podia tê-la deixado lá com o grupo, mas não fiz e ela acabou presa naquele lugar como Beth.
Beth, tão doce e gentil, sempre tão cheia de esperanças, me fez acreditar que era possível, que ainda tinha uma chance de reunir a família e recomeçar, e quando a família finalmente se reuniu ela não estava entre nós, mas vai estar, sei que sim.
Não. Eu não sei, eu apenas desejo isso, quero ser o cara que ela vê em mim, ao menos hoje quando preciso ser esperançoso.
“Você precisa salvar quem você é”. A voz de anjo martela minha mente. Ela vai sempre ter que me lembrar disso, não consigo sozinho. Nunca estive realmente sozinho, sigo qualquer rato estúpido que cruzar meu caminho para não acabar sozinho, como Joe e seu grupo de imbecis.
Nunca estive tão perto de alguém como de Beth, tudo que me livrei depois que ficamos sozinhos, as coisas que confessei, o quanto me abri, só mesmo aquele anjo poderia conseguir de mim.
Quando a perdi naquela noite, perdi a melhor parte de mim, não somos irmão, não somos amigos, somos um pedaço um do outro, foi isso que nos tornamos quando acabamos sozinhos no meio do fim do mundo.
Tudo que quero é que a pequena Beth Greene prove para esse mundo como é forte e corajosa, e como eu também posso ser.
Nos primeiros dias juntos fiquei furioso, não queria estar com ela, não queria guardar sua vida, só queria que tudo acabasse logo, mas com o tempo ela me fez mudar de ideia, mostrou sua coragem e determinação e me tirou da escuridão.
Eu amo Beth Greene, não do jeito que homens e mulheres se amam, não como irmãos se amam, temos uma conexão, ela é tudo que não tenho, eu sou tudo que ela não é. Nos unimos em nossas diferenças e quero que ela viva, que encontre alguém que a faça feliz como Glenn e Maggie são porque mesmo me dizendo que não chora mais eu sei que é sensível e que precisa disso.
Os homens parecem concordar com o acordo, baixo a arma contente, logo isso acaba e podemos cair na estrada mais uma vez.
Algo em mim não está bem, algo em mim não acredita que pode dar certo, espera pelo pior porque sou um Dixon e é sempre o pior que segue para quem tem esse sangue contaminado pelo DNA daquele velho infeliz.
“Vai precisar me lembrar disso às vezes”. No minuto que me deixou eu esqueci.
Subimos as escadas, Maggie vai ficar feliz, será um belo reencontro, as irmãs Grenne merecem isso, Judy merece estar mais uma vez nos braços da mãe que ela conhece.
Meu coração dói de um modo estranho e sinto vontade de desistir, todo tempo que passamos juntos desde a queda da prisão vai surgindo em minha mente. Beth batendo o pé feito uma menina mimada em busca de um gole, o jogo tolo e a briga que se seguiu.
A pequena foi corajosa e me enfrentou de igual para igual, o abraço que veio depois, o primeiro e desengonçado abraço da minha vida e toda a dor que ele libertou.
A casa queimando junto com meu passado, a fumaça subindo e engolindo o homem amargo. A leveza dos dias que vieram depois, o riso largo e fácil, as brincadeiras despreocupadas que me dei o direito de permitir.
Beth aprendendo a caçar, minha besta nas mãos ávidas por conhecimento e liberdade.
O piano soando afinado na voz delicada, inundando a funerária de paz e esperança, as refeições tranquilas. Minha impaciência em espera-la caminhar mancando.
A leveza de carrega-la pela casa. Chegamos ao quinto andar, agora cada segundo conta, cada passo é uma chance de ter de volta as duas pessoas mais importantes que tenho.
Baixamos as armas, nos preparamos, concordei com Tyreese que esse era o modo certo, mas cada passo que dou é como caminhar para guilhotina, não sinto qualquer confiança.
Procuro buscar meu foco. Esquecer o lado sombrio que está sempre ganhando espaço sobre a esperança.
Os dois grupos ficam frente a frente em um pequeno e estúpido corredor, não vai dar certo. Aquilo fica claro como água, foi a pior escolha, como pude achar que daria certo? Um passo em falso e tudo se acaba.
Vejo Beth surgir empurrando uma cadeira de rodas onde Carol está sentada. Seu rosto marcado me tira do sério, eu poderia definitivamente matar o maldito desgraçado que a feriu.
Cruzo meu olhar com o dela de modo rápido, não é o momento para demonstrações de afeto, agora temos que ser frios.
Eu a encontrei, eu consegui, ela disse que não ia me deixar e não deixou, está aqui, Carol também está, estou livre da culpa de terem acabado aqui, agora preciso leva-las para um lugar seguro, só precisamos recomeçar e é assim que vai ser.
Fico repetindo isso mentalmente porque quero acreditar, mas uma voz no fundo da minha mente me garante que está perdido. Aquela voz que sempre diz que Daryl Dixon não nasceu para o sucesso. Luto contra ela. Luto desesperadamente ficando pronto para o que for preciso.
Pov – Clarie
─Melhorou bastante.
Toco o rosto marcado pela violência de Dawn, Beth afirma sem muita convicção.
─Não deu certo, mas ainda não desisti. Noah conseguiu, quando Carol melhorar iremos juntas, vai ver como ela é forte e decidida.
─Acha que Dawn fez aquilo porque?
─Me deixar dar os remédios para Carol?
─Sim. Acha que é culpa?
─Acho que é desespero, arrependimento, um misto de tudo isso.
─Noah vai para a família dele, e você? O que vai fazer? – Olhamos a paisagem morta da janela, as duas de pé, vestidas da mesma maneira, vivendo o mesmo inferno e nem de longe parecidas. Beth é forte eu sou fraca. Beth é livre, mesmo presa aqui é livre, seu espirito é. Eu não me sentiria livre nem mesmo lá fora, estou presa na minha dor.
─Procurar a minha, aprendi com Daryl a rastrear, posso voltar de onde nos perdemos, tem que haver uma pista, uma direção, se não conseguir então vou procurar por Noah.
─Acha que Carol vai conseguir?
Beth me olha, depois encara a vidraça mais uma vez, dá de ombros, ergue o queixo decidida.
─Eu disse a ela que estive aqui, me despedi de algum modo, quero muito que sobreviva, mas tenho medo que não consiga. Carol é forte uma grande mulher, eu estava prestes a fazer uma loucura quando ela chegou.
─Lutaram muito juntas?
─Muito. Nos perdemos, mas se ela está aqui outros podem estar por perto, quem sabe Daryl?
─Torço por você.
─Você virá comigo Clarie, ou nós duas vamos morrer tentando e não será nenhuma vergonha, precisamos lutar pelo que é certo.
─Se descobrirem que matou dois policiais... Tem que sair daqui antes que descubram, Dawn não guardou seu segredo por amizade, quando for interessante para ela vai dizer.
─Talvez. Mas não vou a lugar nenhum até ter certeza sobre Carol.
Ela me abraça, quando a vi de volta fiquei feliz por estar viva, triste por estar de novo presa, Beth se tornou meu porto seguro, meu farol, se puder ajudá-la a chegar até os que ama vou fazer, se não puder então morrerei tentando e sim, não existe nenhuma vergonha nisso.
─Sua amiga acordou! – A voz de Dawn nos faz saltar de susto, encaro Beth que sorri contente. Ela dá uns passos em direção a saída, Dawn a segura. –Você tem sorte. – Os olhos de Dawn me assustam um pouco.
─Quero ver a Carol. – Beth puxa o braço, ergue o queixo.
─Você vai embora. Parece que sua família te encontrou aqui. – Os olhos de Beth se arregalam, os meus também, penso no que ela me disse sobre Daryl encontra-la, ele deve mesmo ser um homem incrível.
─Daryl?
─Não sei, estão com meus homens e vamos fazer uma troca, você e sua amiga pelos meus homens. Noah parece que está com eles.
─Clarie... – Beth olha de Dawn para mim. – Deixe que ela venha comigo.
─Escute aqui. – Dawn segura firme o braço de Beth, se aproxima ao ponto de ficarem realmente frente a frente. – Clarie não pagou o que deve, não está no acordo e se tentar qualquer coisa ela termina no poço do elevador. Você não vai tirar minha autoridade.
─Você não pode obriga-la.
─Quer que eu acabe com o acordo e receba seus amigos com bala?
─Beth não. – Me aproximo, quero que ela seja feliz, que tenha uma chance, aperto sua mão, minhas lágrimas se confundem com as dela. – Vá, não lute por mim, eu aguento.
─Não está aqui para aguentar, precisa ser forte e lutar, precisa viver.
─Por favor, não coloque o peso disso em mim, se alguém morrer, se seus amigos...
─Está bem. Eu aceito isso. – Seu olhar nega suas palavras.
─Clarie, ajude a amiga de Carol a se vestir, aqui estão as roupas dela. – Ela separa algumas peças. – Aqui estão as suas Beth. Vista-se e fique feliz, isso é um presente que poucos receberam.
─Não, isso não é um presente, é uma troca.
Beth me olha firme quando deixo o quarto, não quero que faça nada por mim, não quero que corra qualquer risco. Carol estava deitada, os olhos perdidos quando entro.
─Oi, eu sou Clarie, vim te ajudar. Como se sente?
─Como se tivesse caído de uma ponte e logo em seguida atropelada.
─Puxa! Acha que vai conseguir ficar de pé?
─Sim.
─Sabe que seus amigos estão aqui? Que Beth está bem e que vão partir agora?
─A policial me avisou.
Ajudo Carol a ficar de pé. Tiro suas roupas de hospital, visto a mulher que geme vez por outra. Depois eu a coloco na cadeira de rodas, ela segura minha mão um minuto antes de caminhar para longe do quarto.
─Obrigada Clarie.
Queria sorrir, queria demonstrar alguma coisa que não fosse dor e medo, Beth era minha esperança, meu porto seguro. Volto ao inferno de sempre.
─Cuida da Beth. Ela nunca duvidou.
É hora da troca, Carol é levada, no corredor encontro Beth, ela me abraça longamente, choro assim como ela.
─Boa sorte Beth, não perca essa força nunca.
─Vou falar com eles. Fique pronta. – Ela sussurra em meu ouvido.
─Não faça. Não arrisque. Não olhe para trás.
Nos afastamos quando ela é puxada pelo braço e levada para longe de mim.
Fico curiosa sobre quem são seus amigos, principalmente Daryl, o homem que carrega uma besta e que a ensinou a ser forte. Me encolho num canto e observo as pessoas de longe.
Mentalmente rezo para tudo dar certo. O grupo parece cansado, fortes e no limite, nem imagino como é viver nas ruas, enfrentando os mortos, tremo só de pensar.
A troca começa, vejo Noah com aquelas pessoas, é bom saber que vão cuidar dele, Carol segue para eles, cruzo os dedos, depois é a vez de Beth, sinto o carinho do homem que beija sua cabeça quando a tem de volta.
Como queria estar ali, indo embora com aquelas pessoas. Dawn quer Noah, eu sabia que ela não abriria mão de sua postura de líder.
Eles se negam, Noah se posiciona, diz que fica, não esperava nada diferente dele. Beth abraça Noah, depois se posiciona diante de Dawn, nunca se dobrou para ela, nem nesse último embate. Algo dá errado.
Ouço um disparo, meu coração acelera vejo Beth cair e preciso me segurar na parede, minhas pernas fraquejam, um homem com olhos marejados de fúria atira Dawn despenca.
Todo meu corpo treme de pavor, uma pequena guerra se anuncia, mas então tudo para, acabou, nenhum daqueles policiais se importa com Dawn, rei morto, rei posto. Eles não se importam.
A última luz se apaga, Beth se foi, um farol, uma esperança, não tem qualquer razão para seguir em frente, se aquela pequena fortaleza se foi então não resta mais nada.
Vejo a dor daquelas pessoas, se eu me sinto morrer um pouco o que mais esperar deles? Das pessoas que viveram com ela por tanto tempo?
O homem de barba convida a todos para seguir com eles. Uma escolha, pela primeira vez tenho uma escolha, as pessoas não se movem, preferem os abusos a enfrentar o mundo.
Um silencio se instala por um instante, junto minha coragem, devo isso a Beth, devo isso a minha mãe, com passos incerto caminho em direção aos estranhos, se morrer tentando não será nenhuma vergonha.
O homem que derrubou Dawn ergue o corpo de Beth, tem tanta dor ali que sei que aquele é Daryl. Noah toca meu ombro quando sem olhar para trás eu caminho com eles, pela primeira vez na vida vou para as ruas, enfrentar o apocalipse.
Do lado de fora a cena é ainda mais dolorida, uma mulher cai ao chão ao ver Beth sendo carregada, poucas pessoas juntam em torno de si tanto amor. O mundo escureceu mais hoje.
Fale com o autor