Resumption
25 Capítulo 25
Notas iniciais
Pov – Daryl
Carol? Carol fez aquilo? O que está acontecendo? Como ela se tornou essa pessoa? Em que momento fez isso e não vi? Quando foi essa transformação?
Ela surge na cozinha. Seu olhar é firme, não importa o que diga, não importa que motivos ela tenha, não posso olhar para ela do mesmo modo, não depois das perdas, não com os mortos, os riscos.
Eu podia ter perdido Clarie, a imagem de Ron cercado por corpos enquanto Rick tinha sua arma em punho me volta a mente. Que tipo de pessoa brinca com a vida de crianças?
Não ela, não depois de Sophia, ela conhece essa dor, não entendo, é a maior decepção que já tive desde que o apocalipse começou, é uma perda diferente, passo as mãos pelo cabelo, encaro Carol, mas ela está mais preocupada em enfrentar Rick.
É para ele seu olhar erguido, seu ar decidido.
─Então o café na casa nova de Daryl era uma emboscada? – Ela pergunta.
─Emboscada? Isso é sério? Está mesmo dizendo isso? Você? – Rick questiona.
─Eu mesma. Faz muito que não fujo de quem sou, não precisava tudo isso, era só me perguntar e teria contado. Estamos do mesmo lado Rick.
─Porque fez isso Carol? – Clarie pergunta encurtando a pequena discussão que se anunciava. Olho para ela, enxergo um pouco da minha decepção em seu olhar.
Carol caminha até a cafeteira, se serve de café fumegante, toma um gole, respira fundo, todos aguardando sua versão, Sasha dá um longo suspiro de tédio, não parece importar para ela.
─Chuveiro quente, recursos, muros seguros, tudo que temos aqui, tudo que podemos ainda ter. Esse lugar... Não tem outro igual. Precisamos conquistar esse lugar.
─Estávamos fazendo isso Carol, depois daquela coisa com o Pete, já tínhamos as armas, já controlávamos as coisas. – Rick comenta.
─Não. Deanna ainda é quem importa para eles, ou era, até eles nos verem realmente em ação, até perceberem que sem nós não são nada.
─Então foi isso? Arriscou nossas vidas por isso?
Ela se senta, Clarie para ao meu lado, mais uma vez me olha, procura com o olhar saber como me sinto e no momento me sinto péssimo.
─Não temos que precisar do apoio de Deanna, não temos que ficar explicando e pedindo apoio e opinião para cada passo. Eu já disse uma vez, essa gente... Rick você sabe, eles são como crianças indefesas. Agora sabem disso, contam conosco para ficarem vivos.
─Você providenciou isso! – Eu digo em tom firme e irritado.
─Eu não sabia que tinham tantos, não sabia que Sasha estava brincando de tiro ao alvo com uma horda! – As duas se encaram, Sasha não se justifica. – Achei que chegariam uma meia dúzia deles até que descobrissem o portão, que seriam alguns gritos, uma correria e tudo ficaria bem.
─Quando foi assim? Quando as coisas foram apenas um susto tolo? É sempre sangue e morte! Não podia ter feito isso, a vida dessas pessoas...
─O que tem a vida delas? – Carol se irrita com Rick. – Vai mesmo me dizer que nunca passamos por cima de tudo pelos nossos? Fazemos o que tem que ser feito, isso é por eles também. Você disse que teria matado para mantê-los vivos.
─De frente Carol, eu teria enfrentado essas pessoas cara a cara se fosse preciso, não armando uma emboscada suja.
Rick se defende e concordo com ele, eu teria lutado a seu lado, mas isso foi sujo. E pior, não tem arrependimento em suas palavras, não tem culpa, é só Carol conversando sobre o cotidiano, é apenas isso para ela.
─Então isso é algo sobre ética? Hipocrisia isso sim! – Ela se altera um pouco. – Porque me olha assim Daryl? Até onde iria pela Clarie?
─Não mataria crianças por ela. – Eu respondo.
─Nenhuma criança morreu, isso é como... Eu sei que não querem aceitar, mas as pessoas que morreram eram fracas, isso é como a seleção natural, só os fortes sobrevivem.
─Eles podiam aprender a ser fortes. Você aprendeu! – Eu a lembro, ela concorda com um movimento de cabeça.
─Sophia foi o preço. – Seu olhar esfria no mesmo instante.
─Você me disse uma vez que adiaria ao máximo sua ida ao inferno, não achei que empurraria outros na sua frente.
─Eu posso entender você Daryl, sua decepção, ou a da Clarie, são dois românticos sonhadores, você sempre foi, sempre se escondeu nessa máscara de indiferença, mas sei o quão bom é o seu coração e aceito que de algum modo eu o perdi hoje. Mas Sasha? RicK? Vocês são como eu.
─Eu não sou, por um segundo Ron não foi devorado, um maldito segundo, o garoto estava cercado por três zumbis, não posso aceitar que ache isso normal, que chame de seleção natural. Não você Carol, que acaba de nos lembrar de Sophia. – Rick está decepcionado e sei que para ele tudo isso tem muito peso.
Ele perdeu Sophia enquanto ela salvou Judith, aquilo é doloroso e confuso para os dois.
─Não gosto do que aconteceu, de como terminou, não vai acontecer outra vez, mas não vou me arrepender e sofrer por isso, não mais, nos lembrou como é lutar para sobreviver, somos isso e apenas isso Rick, sobreviventes, esses caras que vivem aqui não tem ideia do que é preciso fazer lá fora.
─Tiveram sorte, talvez mais talento, não transformamos a prisão em nada que não fosse apenas um teto contra a chuva, podíamos ter feito algo assim lá.
─Rick teria caído do mesmo jeito e sabe disso, não vamos repetir erros, acabou, estamos aqui, já fiz e agora é esquecer, continuar.
─Assou cookies para as famílias que perderam pessoas? – Sasha questiona. – Como fez com Deanna? Abraçou e consolou essas pessoas como fez com Tyreese?
Nunca soube que Sasha sabia sobre Karen e David, Carol fica pálida, as duas se encaram.
─Ty me perdoou.
─O que mais esperar de alguém como ele? Meu irmão perdeu a guerra para o coração bom que sempre teve. Não importa mais, ele está morto, Karen está. O que me assusta é você ter forças para continuar com tudo isso que carrega ai dentro, o que me assusta é que tipo de pessoa tenho diante de mim, até onde pode ir.
─Sasha eu vou até o fim. – Ela enfrenta aquele olhar e procuro os olhos de Clarie, estão assustados, confusos, ela está encolhida na bancada, abraçando o próprio corpo como se quisesse se proteger de tudo aquilo. – E então? É agora que você dá uma de líder que faz o que é certo e me expulsa de novo? – Carol encara Rick. – Vai exigir um conselho? Um julgamento como o que tentaram te obrigar? Você que matou Pete na frente da esposa sem pensar duas vezes? Ou vai fazer o mesmo comigo, vá em frente. Vai me dar um tiro na cabeça porque não caibo mais nessa sociedade que criou?
─Tenho medo que no fundo seja isso que quer. – Rick comenta demonstrando seu cansaço.
─Morrer? Acha que sou o mal e não consigo viver com isso? Que provoco vocês em busca de quem sabe redenção? – Ela ri, fica de pé, olha um por um. Fria como gelo, não é mais Carol e sua dor por Sophia, quando caçávamos Beth juntos eu senti que algo muito diferente a dominava, não quis enxergar, mas aí está. – Acho que sabe melhor que eu Rick. Esse mundo maniqueísta não existe mais, nunca existiu. Posso fazer coisas ruins como matar. Mas posso fazer coisas muito boas como salvar sua filha.
─Não me esqueci Carol, me lembro todos os dias quando abro os olhos e encaro Judith, assim como não me esqueço que um dia Daryl ofereceu seu sangue para salvar meu filho. A diferença é que ele apenas fez, é meu irmão, já você não me deixa esquecer. Não vamos ter um julgamento, não vou te colocar num carro com combustível e mandar que ache seu caminho.
─Ótimo.
─Vou pedir a todos aqui que simplesmente esqueçam o que aconteceu se for possível, que sigam em frente e guardem esse maldito segredo.
─Acho que todos concordamos que é a melhor solução. – Ela diz sem esconder o alivio.
─E vou ficar por perto, bem perto, e te ouvir menos, muito menos.
Ela sorri, acena e nos deixa. Ninguém diz nada, eu me sinto abatido demais para qualquer coisa, só me deixo ficar ali, de pé, no meio da cozinha, com a verdade de que o mundo transformou todos nós e não foi gentil com Carol.
─Pode fazer isso Clarie? – Rick questiona e ela olha de mim para ele.
─Sim. – Ela diz simplesmente, ele olha para Sasha.
─Conte comigo. Hoje é como um primeiro dia para mim, preciso mudar muitas coisas. Enterro essa história junto com meus mortos. – Sasha fica de pé, acena e também vai embora. Eu e Rick nos olhamos.
─Sinto muito Daryl. –Rick me diz e afirmo. Então ele também vai embora, não precisa me pedir segredos, sou eu, seu irmão, estamos juntos, foi há muito tempo, no dia em que tirei a arma de sua mão e acertei Dale, ele não precisava carregar tudo e decidi ajuda-lo com o peso e tem sido sempre assim.
Caminho para sala. Clarie me segue, me sento e encaro o chão, as coisas me voltam a memória, minha velha amiga, assustada e perdida, a rosa cherokee, seu funeral quando achamos que tinha morrido na prisão junto com T-Dog.
Acho que aquela Carol morreu um pouco ali, não me dei conta, mas agora ela me atira tudo isso no rosto.
─Ela... Eu não tinha ideia de que ela significava tanto para você. – Clarie me diz sentada na poltrona, longe de mim, estranhamente longe de mim. Olho para ela, está triste e não parece ser por descobrir o que Carol fez. – Vocês...
Ela não termina, espera que eu entenda. Minha mente tenta trabalhar rápido, relações humanas são complicadas para mim, não me expresso bem, mas não engano ninguém, não minto e não traio e por isso me magoa perder Carol, era uma grande amiga que me aceitava como sou, mas agora sei que não era porque ela me entendia, é porque não se importava.
─O que Clarie, precisa dizer.
─Amou a Carol, vocês se envolveram alguma vez? – Ela pergunta e vejo tanta tristeza, como pode pensar que tem espaço para mais alguém dentro de mim, ela dominou tudo.
─Rick, seus filhos, Glenn, os Greene e Carol são minha família. Eles me fizeram seguir em frente, sobreviver e lutar por eles. A dor deles é a minha. Carol e eu somos ou éramos, não sei mais, muito próximos. Me apoiava nela. Não como homem e mulher, nunca desse modo, mas sim, ela significa muito para mim, e acabo de perde-la porque não sei conviver com quem ela se transformou.
─Desculpe! Foi tolice, está triste e eu... sinto muito.
Eu me levanto, sigo até ela, faço com que fique de pé, me sento e a traga para meus braços. Ela se encosta em mim. Posso ficar pensativo com ela por perto, de algum jeito isso torna as coisas mais fáceis.
─Não esperava por essa decepção, só isso, me acostumei a sermos sempre os mocinhos, os heróis que salvam inocentes. Se fosse qualquer um dos outros seria a mesma angustia.
─Ela ainda pode voltar, não se preocupe tanto, ficamos de olho, não deixamos ela pensar tolices e ela pode ser sua velha amiga de novo.
É tão inocente, não queria nunca que perdesse isso, se tudo der certo se esse lugar sobreviver, talvez a vida não tire isso dela.
─Tem lugares que vamos que não tem volta Clarie. – Ela me beija, se encosta em mim, beija meu pescoço.
─Me tirou de um buraco escuro que achei que não tinha saída. Eu era a pessoa que não se importava em viver ou morrer, tinha uma dor me rasgando por dentro dia e noite e me tirou de lá. Pode acontecer com qualquer um.
─É muito forte e acho que queria se salvar. Vou acreditar que está certa, mas acho que quero sair um pouco daqui.
─Estou pronta para recrutar. Ainda é nosso plano, podemos pegar a moto e ir. Fechar a porta e cair na estrada, um dia, dois, mil, não me importo.
Eu não devia reclamar. Tenho Clarie, ela é a coisa mais viva e verdadeira, é como uma joia, não tem escuridão quando está em meus braços. É só luz e eu a amo. Isso é bem simples na minha cabeça, já foi bem complicado, mas agora se resolveu dentro de mim. Amo Clarie. Só falta mesmo dividir isso com ela.
─Está certo senhora da lança, eu pretendia te dar uns dias de férias na casa nova, mas acho que podemos fazer isso, será bom me afastar um pouco.
─Vou preparar comida para levarmos, e uma muda de roupa quente para os dois, se não o Eric passa na minha frente.
Eu rio, ela tem essa necessidade de cuidar de mim que me emociona, nunca ninguém teve isso, nem mãe, nem amigos, uma mulher, nada, foi só eu enfrentando a vida e agora estamos juntos e isso é perfeito.
─Mas não vamos de moto.
─Ah! – Ela se decepciona. – Achei que seria uma boa aventura.
─Quando Aaron estiver conosco de carro seguimos de moto, só os dois precisamos de um lugar para dormir, nos aquecer do frio e trazer pessoas. Vamos recrutar sobreviventes, se encontramos mandamos correr atrás da moto?
Clarie ri, concorda e pretendia se levantar, eu a seguro. Tomo seus lábios num longo beijo, depois nos olhamos.
─Só tem você. Sempre só você! – Ela sorri de modo largo. – Agora vai preparar uma cesta de piquenique chapeuzinho vermelho que vou ver o carro.
─Você é o lobo mal né? Nada de vovozinha.
─Sempre o lobo mal. – Beijo seus lábios mais uma vez e então nos separamos.
Testo o carro, separo combustível e óleo para garantir, Aaron se aproxima.
─Tudo bem? – Ele já me conhece um pouco.
─Vou lá fora, Clarie vai comigo, nada longe.
─Em busca de sobreviventes? – Olho para Aaron.
─Não exatamente. Clarie pensa que sim, mas só quero um dia lá fora, dois no máximo, nada de seguir rastros, observar um tempo, claro que se der de cara com sobreviventes não vou ignorar, mas vamos deixar o recrutamento para quando eu e você pudermos ir juntos.
─Certo. Eric está quase bom, tem tudo isso que aconteceu aqui, a comunidade está em algum tipo de transição e não quero me afastar. Tenho impressão que posso ser como um intermediário.
─Pode. Uma vez me disse que sei reconhecer pessoas, que enxergo se são boas ou más. Rick é bom. Tenha isso em mente se ele precisar.
─Eu sei, guiou com sua ajuda essas pessoas. – Baixo o capô do carro.
─Que bom que sabe. Vou avisa-lo, uns dois dias e estou de volta.
Aaron se afasta e Clarie se aproxima sorrindo com uma mochila nas costas sua lança e a pistola.
─Estou pronta.
─Vou avisar o Rick, separar alguma munição e enquanto isso vai se despedir da Maggie, afinal são irmãs agora. Não é isso?
─Acho que sim.
─Dez minutos.
Ela afirma e depois se afasta. Rick sabe que as vezes preciso de um tempo e que esse é um desses momentos e apenas aceita, ele pode lidar com tudo, tem o Glenn e a Maggie e Morgan ainda está aqui.
Quando chego no carro Clarie abraçava Morgan, e pensar que morria de ciúme, olhando agora parece bem ridículo, o homem olha para ela como se fosse uma menininha.
─Se cuida, não esquece de tudo que ensinei, estou organizando umas coisas, refazendo em um mapa uns caminhos que fiz, traçando uma rota para uma futura viagem. – Ele diz com as duas mãos nos ombros de Clarie. – Mas espero voltarem para partir.
─Quem bom, não queria chegar aqui e não encontrar você! – Ela o abraça.
─Cuidem se! – Ele aperta minha mão. – Olho vivo Daryl, não se arrisque, se parecer fácil demais...
─Dou meia volta. Estou esperando por armadilhas agora.
─Certo.
Clarie se senta ao meu lado e dou partida, o portão se abre e antes de sair quando olho pelo retrovisor eu me lembro do que aconteceu há poucos dias, foi uma guerra e Carol a causou. Acho que nunca vou poder olhar para ela sem me lembrar.
─Onde? – Ela me pergunta.
─O Universo decide, só queria muito sair, senti necessidade, agora vamos deixar que a vida nos guie. ─Chegamos a um cruzamento, paro o carro e sorrio para Clarie, linda e ansiosa ao meu lado. – Direita ou esquerda?
─Quanta responsabilidade! – Ela fecha os olhos, se encosta no banco e se concentra um segundo. – Direita! – Me diz abrindo os olhos quando faço o que me pediu. – Senti uma certeza estranha.
Olho para ela, depois volto a prestar atenção na estrada.
─Como assim?
─Como se fosse o caminho certo, como se estivéssemos indo para algo importante.
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