Resumption

22 Capítulo 22


Notas iniciais
Oi gente! Espero que gostem. Pretendia me dedicar mais hoje, quem sabe postar em mais uma fic. Mas foi bem complicado. Dia cheio.

Pov – Clarie

Acordo antes dele só para vê-lo dormir, simplesmente amo aqueles momentos, Daryl vulnerável, adormecido, com o rosto leve, sem o peso de toda uma vida, apenas descansando, ele nunca faz muito isso, nunca está relaxado, tranquilo.

Tem sempre um mundo de coisas para fazer, gente para proteger, alimentar. Carrega sobre seus ombros a existência de toda civilização, criou em sua mente que precisa manter todos vivos e toma para si o peso desse mundo de mortos.

É bonito, admirável, mas perigoso, cada morte, perda o atinge como um soco fatal, é como se ele tivesse errado, como se fosse o único causador do apocalipse.

Não conheço sua história, é tão ruim que ele simplesmente não conta, não consegue e entendo isso, sei como é porque também não falo muito sobre o que me aconteceu, me assusta lembrar, reviver meu passado me traz de volta toda a dor e mesmo sabendo que devia exorcizar contando eu não consigo.

Sinto vergonha de ter me dobrado e deixado acontecer, não uma vez, mas todos os dias, um por um, todos aqueles malditos estiveram lá e eu não consegui impedir.

Agora acabou, mas ainda machuca, ainda me faz sentir um pouco menor e menos importante que os outros e sei que alguém em seu passado o fez se sentir como eu e ele ainda não superou.

Talvez a gente possa passar por isso juntos, superar, quem sabe meu amor por ele não o liberte? Sorrio com a ideia, é talvez um pouco prepotente de minha parte achar que posso, justo eu, tão quebrada quanto ele, mas posso sonhar em devolver a ele tudo que a vida tirou.

Toco seus cabelos, ele bate a mão afastando a minha como se espantasse moscas e prendo o riso, as vezes me divirto com esse jeito atrapalhado dele que alguns confundem com grosseria ou falta de educação, ninguém que conheço é tão sensível que Daryl. Apenas não sabe como mostrar isso.

Fico mais uma vez imóvel, deitada a seu lado, seu rosto próximo do meu, o dia já clareou há pelo menos uma ou duas horas, Daryl nunca dorme muito, mas foi uma noite longa, as lembranças me fazem corar, quando estou em seus braços fico diferente, mais solta, me deixo levar pelo desejo.

Os olhos azuis me encaram, sorriem embora o rosto esteja impassível. Cada dia eu o conheço mais.

─Bom dia. – Abro um largo sorriso.

─Já acordada? – Afirmo, ele continua imóvel.

─Olhando você. – Ele me puxa para seus braços, adoro quando faz isso, me arrasta para seus braços, é sempre sem pensar, quando ele pensa não se comporta assim porque tem medo.

─Tem planos para hoje? – Me pergunta com o rosto enfiado na curva do meu pescoço.

─Ficar aqui para sempre? – Ele ri, sinto um arrepio pelo corpo.

─Bom plano, mas parece muito mais um daqueles sonhos que nunca se tornam realidade.

─Vai trabalhar na moto hoje?

─Ela está pronta. Trabalhei muito nela ontem quando fiquei jogado lá. – Gosto da lembrança do ciúme.

─Posso ter uma? – Ele ergue a cabeça para me olhar, tem uma ruga na testa. – Uma moto Daryl. Eu posso ter uma?

─Mas é claro que não! – Ele diz chocado, se tivesse pedido uma estrela ou o sol ele teria achado mais natural. – Tem uma garupa, é o máximo, se contente com isso.

─Posso aprender a dirigir pelo menos?

─Pilotar. Para que quer pilotar uma moto? – Afasto seus cabelos, ele tem os olhos fixos em mim, acho que fica sempre tão perfeito pela manhã.

─Segurança, sobrevivência. Se um dia precisar...

─Vamos ver. Hoje tenho outros planos.

─Que são? – Pergunto quando ele me beija e depois se afasta.

─Tentar sair daqui e me afastar de você já é um começo.

─Se afastar? Disse que gosta quando fico perto. – Não esconde que aquilo me deixa triste, ele nota e volta para perto de mim.

─Não é disso que estou falando, é sobre isso aqui. – Ele nos aponta, sua mão vem para meu quadril, ele se move e está sobre mim, no mesmo instante me sinto queimando de desejo. – Deixar a cama tem sido um tormento.

Ele diz em meu ouvido e a temperatura aumenta, ebulição é a palavra. Tudo fica em segundo plano. A vida é apenas meu corpo respondendo ao dele.

Seu toque sempre vai me causar essa intensidade de emoções? Me pergunto quando descansava em seus braços. Um sorriso tolo dançando em meu rosto sem que possa me livrar dele. As manhãs estão ficando melhores que as noites.

─Temos que ir. – Ele me diz, o peso da responsabilidade o trazendo de volta a terra. – Agora entende o que digo? Você e eu na mesma cama dificulta as coisas.

─Mas as coisas vão continuar difíceis não é? – Me movo, quero olhar para ele, me sinto um tanto alarmada, Daryl ri, não é muito de rir, não daquele jeito despreocupado.

─Por mim ficam impossíveis, agora vamos sair daqui.

Me estico toda para beija-lo. Depois tomo a iniciativa de sair da cama, preciso mostrar alguma força, ao menos sobre isso.

Não tem mais ninguém na casa quando finalmente conseguimos chegar no andar de baixo.

Encontro café quente, tomamos uma xicara, trocamos olhares e sabemos que pensamos a mesma coisa, ele balança a cabeça, lava a xicara sorrindo e me puxa pela mão.

─Vamos, tenho planos.

─Que planos?

─Treinar um pouco lá fora. – Ele avisa quando deixamos a casa, levo minha lança comigo, dou uns passos em direção ao portão, ele me segura. – Vem, vamos lá no arsenal primeiro.

─O que vamos fazer lá?

─Não me esqueci que não sabe atirar, temos que treinar.

Odeio a ideia, não quero ter uma arma na mão, pistolas me lembram coisas que odeio lembrar.

─Já tenho a lança, ela é bem boa, não preciso de mais nada.

─Desculpe Clarie, mas se quer mesmo sair comigo lá fora um dia, precisa saber atirar.

Chegamos a casa, entramos, Carol está lá, ela sorri quando nos vê, quem olha para ela vê apenas uma pacata senhora, doce e delicada, não sabe o mundo de força que tem dentro de si, não imagina o que aquele rosto compreensivo esconde.

─Quanto tempo. – Ela brinca com Daryl. – Estão bem?

─Sim. Agora quero uma pistola Carol.

─Não era você que andava dizendo que estava tentando?

─Para Clarie, além disso as coisas mudaram, a começar por você aqui, no estoque.

─Eu sei, temos nos revezado, Maggie estava aqui logo cedo, vim substituí-la.

Carol mexe em armas, Daryl a seu lado. Vão fazendo comentários sobre peso, precisão testando com movimentos até que ele escolhe uma. Estou nervosa, não consigo evitar mesmo aquilo sendo uma bobagem.

─Essa está ótima. Vamos? – Me convida, afirmo acenando para Carol e seguindo para o portão. Estou com a mente longe, Daryl calado como sempre fica quando passamos do portão, chegamos a uma clareira na floresta. Ele olha em volta, analisa o ambiente.

Não ouço nada, não sinto a presença que coisa alguma, deve estar seguro, Daryl abre a mochila, tira umas latas dela. Coloca sobre uns troncos, pedras, monta um tipo de arena de tiros. Acho que aqueles são meus futuros alvos, não consigo pensar muito, odeio a ideia e pronto. Só quero sair daquele lugar, esquecer pistolas e segurança.

─Tudo bem? – Ele me pergunta. Apenas balanço a cabeça confirmando, Daryl não parece acreditar muito.

Mordo o lábio, torço os dedos, a pistola em seu coldre me incomoda. Ele olha mais uma vez em volta, confirma a segurança, arruma a besta nas costas, passa as mãos nas calças para limpa-las quem sabe secar um pouco.

─Vem aqui. – Faz um movimento com a mão me chamando e tira a arma do coldre, me aproximo. – Vê isso aqui? É uma trava de segurança, assim ela não atira. ─Ele trava a arma, aponta para as latas, aperta o gatilho e nada. – Viu? É sempre bom que mantenha assim, nunca se sabe e acidentes acontecem.

─Certo. – Forço a resposta, sinto a boca seca e a mente distante.

─Agora quando for usar, destrava assim, entendeu? – Me olha e só movimento a cabeça. – Tudo bem? – Mais um movimento de cabeça apenas. – Tudo bem. Agora você é pequena, tem os braços delicados, os tiros podem te dar um tranco, então firme bem os pés no chão, daquele jeito que o Morgan te ensinou.

─Metralhadora. – Ele me olha, de novo a ruga. – Eu não posso usar uma daquelas que a Sasha tem?

─Vamos com calma, que tal a pistola para começar? Segure com as duas mãos. Assim. – Ele me mostra fazendo o movimento. Dispara e uma das latas sobe e depois despenca num pequeno giro. – Agora você.

─Eu entendi tudo, quando precisar...

─Tem que treinar Clarie, pegue a arma. Um dia pode ter que apontá-la para a cabeça de alguém. – Ele balança a arma em minha direção, pego sem muita convicção, ela queima meus dedos, me dá asco, traz lembranças. Meus olhos marejam. – Escolha um alvo e vá em frente. – Ele aponta as diversas latas posicionadas.

Ergo a arma, pisco para limpar a visão, me sinto no Grady, a pistola queimando minha têmpora, aquele hálito nojento fungando em meu pescoço, meu corpo tremendo, tentei fugir, não consegui, devia ter escolhido morrer, mas não fiz isso, a porcaria da arma foi o bastante para me convencer e fiquei imóvel, sabia que não seria a única vez, odiava viver, tinha medo de tudo, a morte me convidou e fui covarde, recusei o convite.

Meus dedos tremem tanto que a arma dança em minhas mãos, não enxergo nada diante de mim, só o momento mais covarde de toda minha vida. Depois daquilo foi uma sucessão de dias com a mesma coisa se repetindo e a maldita arma sempre com seu cano frio tocando minha pele até não precisar mais dela.

─Clarie! Clarie! – A voz de Daryl vai me dominando a mente e me trazendo de volta, deixo a arma cair da minha mão quando o choro me consome e só me entrego.

─Não consigo. – Digo entre soluços. – Desculpe, desculpe, eu não consigo.

─Do que está falando? – Ele se aproxima de mim, sua mão toca meu ombro, não me movo, só consigo sentir vergonha.

─Não lutei, aceitei tudo, o cano da arma na cabeça, descendo por meu pescoço, aquelas mãos sujas, tudo misturado. Eu queria morrer, mas não tinha forças para aceitar o disparo e me rendi. Eu sou fraca, covarde, sinto muito.

─Isso não é verdade! – Ele me abraça, é bom me sentir protegida pela muralha que o peito de Daryl Dixon se torna quando tudo parece ruir a minha volta. – Eu sei que não é, sobreviveu a tudo aquilo, não se rendeu, não cedeu, não tem culpa, não participou daquilo.

─Odeio essas pistolas, odeio tocar nelas, não quero pensar mais naquilo.

─Shiu, está tudo bem, era só me dizer, não precisa.

Sua compreensão só aumenta minha crise e me entrego mais as lágrimas.

─Olhe para mim Clarie.

─Não posso.

─Pode. – Ele me segura o rosto com as duas mãos, me faz olhar para ele. – Não precisa usar essa arma se não quiser, mas ela não é um símbolo de covardia. Foi muito forte.

─Como pode me dizer isso?

─Porque é verdade, não ficou louca, não se deixou morrer, nem mesmo perdeu a doçura, a pureza. Eu não quero diminuir o que passou, fazer parecer que não é importante. Mas não tornou você uma pessoa fraca ou amarga.

─Me mostrou que sou covarde.

─Se tivesse morrido então teria sido covarde, mas aguentou, quando pode deixar tudo aquilo para trás deixou, se arriscou em um grupo de desconhecidos para sair daquilo.

─Eu te conhecia, Beth me apresentou você, eu confiava em você.

Ele me envolve mais uma vez. Beija meus cabelos, meu corpo todo protegido pelo dele.

─Tem coisas que marcam, por dentro e por fora, seguir em frente, sobreviver a elas é ser forte e você faz isso todos os dias. Não teve medo de deixar nossa história começar.

Eu o amo, como podia fugir disso, foi devastador e só pude me render, ele não pode entender com palavras o quanto significa para mim.

─Você é minha razão, eu disse, é porque está aqui, me abraçando e sendo carinhoso que continuo, apenas por isso. Para estar com você.

De novo ele me afasta um momento, me faz olhar para ele, as duas mãos espalmadas em meu rosto.

─É meu coração. Eu estava morto, tinha desistido, me trouxe de volta, sua força interior, a pessoa que é por dentro, precisamos um do outro, isso nos mantêm e não vamos perder isso.

─Se perder acabou. – Ele toca meus lábios com os seus. Primeiro é apenas um beijo leve e carinhoso, depois se torna voraz, me domina e preenche, completa, traz de novo o sentido de viver.

─Nós não vamos perder. – Ele diz palavra por palavra, os olhos azuis firmes encarando meu medo, me mostrando de modo completo que estamos juntos. – Está ouvindo Clarie? Entende isso? Nós não vamos perder.

─Nós não vamos perder. – Eu repito, as lágrimas me deixam, algo em mim fica grande, ele está comigo. Nós, ele disse e sinto que posso. Sou seu coração, aquilo me domina, é maior que eu te amo.

Passo meus braços por seus ombros, ele me envolve e seus lábios cobrem os meus, não é apenas um beijo, estamos selando uma promessa, nós não vamos perder.

Um gemido nos separa, um zumbi se aproximava, está longe ainda, vem com seus passos lentos e faminto, perdeu. Não vai acontecer comigo, não vai acontecer com ele.

Daryl tira a besta das costas, talvez um dia sua vida dependa de mim, da minha força. Coragem, eu preciso ter coragem. Olho para o chão, a pistola está lá, caída, jogada fora pela minha covardia.

Me abaixo, pego a pistola, é só uma arma, não representa nada, não posso deixar que me domine, eu tenho escolhas agora e escolho usar minha dor para ser mais forte.

─Eu posso Daryl. – Aviso erguendo a pistola, a mão ainda treme, as imagens ainda se confundem um pouco.

─Você consegue Clarie. – Ele me diz fazendo mira com a besta ao meu lado. – É só não pensar em nada.

Disparo. O tiro pega no peito, o zumbi cambaleia, mas continua vindo, três metros agora, prendo a respiração, foco aquele rosto cinza morte e disparo mais uma vez, o corpo cai para traz num solavanco fatal.

Baixo a pistola e não me movo, fico olhando o corpo caído.

─Acho que eu consegui. – Sorrio, ele me sorri de volta.

─Claro que conseguiu. – Abraço Daryl, é como se um peso tivesse saído de mim.

─Obrigada. É só uma pistola, agora eu sei.

Sua mão vem para meu pescoço, se acomoda em minha nuca, seus olhos brilham, é minha pequena vitória, mas parece sua, é assim que vai ser, vamos dividir tudo. Ele me beija.

─Acho que chega por hoje, vamos voltar, mesmo com silenciador, parados aqui chamamos atenção deles. Amanhã treinamos mais.

Afirmo, ele pega a pistola da minha mão, prende no coldre, depois me olha firme, eu o amo, isso é tão certo, me faz feliz só de sentir, mesmo que ainda não seja assim para ele.

─Pode carrega-la com você? Está pronta para isso?

─Posso. – Ele afirma, e com um ar risonho prende o coldre em mim.

─Armada e perigosa. – Brinca comigo.

─Por enquanto só armada, mas ainda vou ser perigosa, prometo.

Daryl toca meu ombro me convidando a seguir a seu lado, começo a caminhar, ainda era cedo, o dia estava limpo, o cheiro de terra molhada depois de uma noite de orvalho subia se misturando com o perfume dos pinheiros, aspiro deixando a paz me dominar.

Será uma jornada longa até encontrarmos segurança, mas já sinto como um recomeço. “Você é meu coração” ele disse, preencheu o meu de mais amor.

─Homem de lata. – Digo olhando para ele quando nos aproximamos do portão. – O Mágico de Oz, disse que sou seu coração. Me lembrei do homem de lata.

─E você? É Dorothy? – Ele brinca.

─Claro que não. – Rio quando o portão se abre e passamos para o lado de dentro. – Sou o leão covarde. Uma boa troca, meu coração por sua coragem. Pode dar certo.

─Vai dar certo. Nós não vamos perder.

Notas finais
Gostaram? Foi um capítulo importante, deu o tom da relação que eles vão construir juntos. Me contem o que acharam Beijos