Resumption

11 Capítulo 11


Notas iniciais
Oi gente! Mais um capitulo, espero que gostem.

Pov – Clarie

Daryl fica bem quando está ali, no meio daquelas peças todas, remexendo, parafusando, vez por outra ele me procura com o olhar, me sinto em paz ali, sentada num velho e manco banco de madeira assistindo silenciosa enquanto ele brinca de mecânico.

As vezes ele me diz que peça é aquele e para que serve, me explica o que vai fazer e o resultado do trabalho.

As horas voam ali, um estranho me acharia meio estúpida, talvez um pouco idiota de passar meu tempo ali com ele, mas é bom.

Penso em sua partida, no quanto ficar sem ele vai me deixar sem rumo, penso em Aiden e no que ele pode fazer para conseguir o que quer. Um arrepio percorre meu corpo.

─Se eu fosse como Michonne ou Sasha me levaria com você?

─Sim. – ele diz com naturalidade, me olha um instante, depois se abaixa mais uma vez para remexer na moto.

Mas eu não sou como elas, nem mesmo parecida eu sou, talvez se treinasse mais, tenho uns dias ainda, quem sabe o convenço que sou capaz de me defender e que assim posso ir?

─Merda! – Daryl puxa a mão de dentro do motor, leva o dedo na boca, me aproximo preocupada, puxo sua mão.

─Cortou? – É um corte fino e superficial, a pele de sua mão é grossa, tem alguns calos feitos pelo trabalho pesado e a besta. – Melhor desinfetar isso, se infeccionar pode criar problemas.

─É uma bobagem! – Ele tenta puxar a mão de volta, mas eu não permito. – Não precisa se...

─É só lavar e passar um antisséptico, um segundo! – Não vou abrir mão disso. Ele se rende. Eu puxo sua mão em direção a pia, sem alternativa ele me segue, abro a torneira e deixo correr um pouco de água limpa, troco um rápido olhar com ele e noto seu desconforto, Daryl Dixon não sabe ser cuidado.

Depois de fechar a torneira e ainda segurando sua mão mais por medo de ele fugir que qualquer outra coisa, remexo um armário ao lado da pia, encontro o antisséptico.

─Como sabia que encontraria isso?

─Gays! – Eu brinco e ele sorri. – Eu imagino que Aaron se cortou algumas vezes tentando mexer nessas coisas, Eric com certeza preocupado com o Aaron providenciou.

Jogo o liquido em seu dedo, ele finge não ligar, mas aposto que está ardendo e de modo instintivo eu assopro.

─Não está ardendo e não sou criança. – Ergo meu olhar, encontro os dele e fico um segundo perdida ali, aos poucos vou soltando sua mão, meu corpo sempre responde ao seu olhar e ele se aproxima de Daryl, com ele não parece ser muito diferente e mais uma vez sinto seus lábios cobrirem os meus, é como estar em outra dimensão, onde não tem apocalipse e nem sofrimento, só meu coração acelerado e a respiração alterada.

Nos afastamos depois de um longo beijo, nos olhamos ainda um minuto, queria entender o que seus olhos dizem, queria saber o que ele sente, se apenas está atraído, carente ou tem por mim algum sentimento, porque teria, não sou divertida, corajosa, falante, não sou nada.

Só uma garota assustada que foge de tudo menos seus braços. Talvez ele tenha uma ideia errada sobre isso, não sei, não quero descobrir, quero só que ele nunca pare de buscar meus lábios que suas mãos nunca deixem de me envolver.

─Devíamos falar sobre isso. – Ele me diz com a voz meio presa. Nego me afastando, sigo de volta para o banco em que passei as últimas duas horas sentada.

─Não quero falar sobre isso. – Sei como vai terminar a conversa, isso é errado e ele não vai fazer de novo e não quero ouvir. Daryl volta ao trabalho sem insistir no assunto para meu alivio.

─Acho que chega por hoje. – Ele diz olhando a moto e limpando as mãos em um chumaço de estopa velha, uma hora depois. – Vamos?

Afirmo ficando de pé, seguimos para a porta e o dia tinha terminado, a noite estava estrelada e caminhamos em silencio para casa. Carol estava na cozinha, o grupo estava muito mais confiante e metade dele tinha se mudado para a casa ao lado.

─Fiz o jantar. – Aquela frase soa estranho para todos nós e Carol cai na risada junto com Daryl, eu apenas sorrio me sentando em um banco próximo ao balcão. – Tem uma vaga para você no quarto com a Sasha. – Ela me diz ainda sorrindo. — primeira porta a esquerda, seu quarto é o logo ao lado Daryl, não vai precisar dividi-lo com ninguém. Sei como você é.

─Gosto do meu canto no chão da sala. – Ele diz colocando a mão na panela e pegando qualquer coisa que mastiga.

─Podemos sentar e comer todos juntos Daryl, uma vez na vida não mata.

Os dois tem uma bela amizade, ele revira os olhos e deixa a cozinha, ficamos nós duas, fico meio tímida na presença de Carol, eu a acho a mulher mais forte do grupo, corajosa, firme, me sinto completamente fora do lugar quando estamos próximas, mas ela é sempre gentil.

─Aprendeu algo hoje?

─Muitas coisas. Daryl é muito bom, quando está lá fora parece estar em casa, acho que ele poderia sobreviver em qualquer ambiente.

─Não nesse aqui Clarie. – Ela se senta ao meu lado. – Com festas, jantares em família e vizinhos.

─Mas ele tem todos vocês por perto e isso deve ser o bastante para ele aprender, ou ao menos se acostumar um pouco.

─Acho que você pode ajudar muito nisso. – Olho para ela meio confusa. – Ele gosta de você e você dele, acho que por você ele parece ser capaz de tentar.

─Ele está partindo. – É tudo que consigo dizer, não registro muito essa coisa de que ela acha que ele gosta de mim porque não quero criar esperanças tolas.

─Ele não pode evitar, mas vai voltar, a família é tudo para ele, essas pessoas, principalmente Carl e Judith, Daryl ama aqueles garotos, claro que do jeito fechado dele, mas todos os passos que dá é pensando em todos nós.

─Posso ver isso.

─Mas vamos com calma sobre tudo não é? Acabamos de chegar e nem sabemos bem que lugar é esse.

─Por isso ele não devia ir. E se der tudo errado e tivermos que partir às pressas? Nunca mais vamos nos encontrar de novo.

─Ele nos caça Clarie, acredite, ele nos encontra, encontra você, não tenha medo.

Isso eu já tinha entendido, ele encontrou a Beth, a questão é se ele iria querer me encontrar. Jantamos quase todos juntos, alguns conversam e brincam, eu fico em silencio o tempo todo, não era intima de ninguém. Apenas Maggie e Carol se aproximam, além disso as crianças.

Me ofereço para lavar os pratos, afinal sou a única que não tem um trabalho, Rick conversa um tempo com Daryl, depois ele sobe com os filhos, as pessoas começam a se retirar, seco a louça ouvindo o burburinho e quando termino tudo estava silencioso.

Vou para meu canto na sala, sobre uma coberta macia de pelos cor de caramelo, me encolho ali porque não tenho nenhuma intensão de dividir um quarto com Sasha, não sei muito como ela era antes das coisas andarem para trás, mas agora é uma mulher amarga e difícil, me assusta um pouco.

Além disso não quero ficar longe de Daryl, a porta se abre e ele entra, me vê encolhida no mesmo lugar das duas noites anteriores, não diz nada, pega uma almofada do sofá e segue para o lugar de sempre no chão puro.

Adormeço mais uma vez olhando para ele, me sinto quase ao seu lado, mesmo estando longe. Pela manhã ninguém questiona minha escolha pelo chão da sala, talvez o apocalipse tenha feito isso com as pessoas, mas o fato é que a maioria nem mesmo parece se importar com minha escolha sobre onde dormir.

Há muito que segurança e comida ganharam todos os nossos pensamentos. Ou deviam, no meu caso tudo que tenho em mente é Daryl, o tempo todo ele domina meus pensamentos, se está longe quero saber onde está e o que está fazendo, se está perto quero descobrir o que está pensando, o que significa seus gestos e olhares, buscando coisas interessantes para conversar, nunca acho nada, sempre me sinto completamente estúpida e acho que ele pensa o mesmo.

─Pronta? – Daryl me questiona surgindo atrás de mim na varanda, me viro apressada. – Não quer treinar hoje?

─Claro, eu... Eu não sabia, achei que não...

─Vem, temos pouco tempo até eu partir.

─Não gosto quando fala em partir. – Admito enquanto caminho de volta para a sala, pego a lança e deixamos a casa.

A floresta está como todos os dias. Silenciosa não fosse as folhas secas sob meus pés, Daryl é mil vezes mais silencioso e nunca vou entender como ele pode ser tão bom nisso.

Caçamos dois coelhos, ou ele caça e eu assisto, quando ele recolhia o segundo um zumbi surge, vem com seus pés cambaleantes e dessa vez não espero autorização.

Avanço com passos firmes, a lança presa entre os dedos, procuro manter o equilíbrio quando atravesso sua cabeça e puxo com força e rapidez, ele cai e continuo de pé.

Sorrio vitoriosa, é isso, preciso ser rápida, isso me mantem de pé, se for ao chão cada vez que acertar um deles não vou sobreviver nenhum dia inteiro.

Daryl me observava com o rosto leve, sinto que está satisfeito com meu trabalho, volto para perto dele orgulhosa. Ele não me elogia ou coisa assim, só aponta o caminho a frente.

Evito o máximo que posso fazer barulho, começo a ficar mais atenta as coisas a minha volta, tento não pensar tanto no que Daryl espera de mim e me concentro um pouco mais no caminho. Me viro quando escuto passos, logo depois vem o som e só então ele surge, são na verdade dois, outro segue uns metros mais atrás.

─Vai. – Daryl diz erguendo a besta. Tento fazer o que fiz mais cedo, acerto o primeiro que cai e então o segundo está bem perto de mim, ergo a lança mais uma vez. Encaro aquele rosto de pele esverdeada e olhos mortos, eu faço o primeiro movimento para acerta-lo quando vejo a letra W marcando sua testa.

Paro um segundo com a lança no ar, é apenas um rápido segundo de distração e é o bastante para sua mão fria e sem vida tocar meu braço, dou um passo para trás assustada, tropeço em um tronco de árvore, começo a cair com aquela coisa sobre mim, a lança escapa de minhas mãos quando tenho que segurar seu pescoço para não ser mordida.

Uma flecha atravessa o cérebro da coisa sobre mim e eu o empurro para longe, tudo não durou mais que um minuto. Me ponho de pé.

─Ele tinha um W, eu me distraí, foi um segundo.

─Um segundo é o bastante para você morrer! – Daryl está mesmo bravo e isso me assusta um pouco. – Não vê que tem que se concentrar? Precisa ficar atenta, esse mundo não perdoa. – Não consigo dizer nada, fico ali, olhando para ele que me encara. – Por isso está aqui, para aprender, para treinar e não é o que está fazendo, essa porcaria de W não pode ser o bastante para distrair você. As coisas que vai ver, as coisas que vão te cercar...

─Eu sei. Desculpe decepcionar você, não sou boa o bastante para esse mundo, nem sei porque se importa.

─Porque eu quero que você viva!

Ele quase grita. Meus olhos marejam, eu não queria chorar e mostrar mais uma vez minha fraqueza, mas quando o vejo tão bravo e ao mesmo tempo tão preocupado comigo.

─Não mereço viver, esse mundo é para gente como você.

Daryl para de andar de um lado para outro, acho que por conta de minhas lágrimas, me abraça quando menos esperava um abraço, talvez quando mais precisava de um.

─Precisa viver Clarie, eu não quero que morra, não quero que perca essa suavidade, talvez deva parar de te ensinar.

─Porque nunca vou ser boa o bastante?

─Porque posso proteger você, porque odeio quando fica em risco, eu podia ter errado, não quero mais fazer isso.

─Vai embora Daryl eu vou ficar naquele lugar.

Ele me afasta, apenas o bastante para poder me olhar nos olhos, toca meu rosto com tanta delicadeza, me beija, não daquele modo impetuoso, apenas um beijo leve nos lábios.

Um som conhecido chega a nossos ouvidos e ele me afasta de vez, não procura pelo zumbi, apenas me conduz para longe andando ao meu lado.

─Porque não gosta de lá.

─Me lembra o Grady. – Daryl me encara um momento, parece surpreso com a comparação. – Limpo, silencioso, organizado, a primeira vista tudo é tão perfeito que parece que está a salvo, mas atrás das portas fechadas, sob o tapete, a sujeira está lá, basta olhar com atenção e vai encontrar a podridão.

─Apenas eu vou me ausentar, o resto do grupo vai ficar e cuidar de você, Rick faria por mim, Glenn também.

Afirmo sem muita vontade de dizer qualquer coisa, nada vai mudar como me sinto, ele não puxa mais assunto, não tenta me beijar de novo, só caminhamos e fico pensando porque ele me beija.

Os portões de Alexandria se abrem e ele me acompanha até nossa casa, começo a subir os degraus, mas ele fica parado, me viro para entender o que se passa.

─Vou terminar a moto, Aaron quer partir em dois dias. – Nunca vou convence-lo a não ir. – Vá mais tarde até a garagem.

Assinto, ele caminha para seu segundo lugar favorito e eu me ocupo em ajudar um pouco com a organização da casa e os cuidados com Judy, Carl passa muito tempo com a irmã e acho que ele merece umas horas de paz, no meio da tarde ele retorna corado do passeio, agradece os cuidados com a irmã e decido me encontrar com Daryl.

Caminho um tanto nervosa, não sei ele queria mesmo minha companhia ou se apenas sente pena de mim, decido apenas ir até lá.

─Decidiu? – A voz de Aiden me assusta, não o vi se aproximar, mas ele estava diante de mim me impedindo a passagem. – Assustei você?

─Eu... eu vou...

─Na casa do Eric, já percebi que estão bem amiguinhos. Mas o que importa mesmo é, vamos ou não ser uma dupla?

─Não sou boa lá fora, acho que estará melhor sem mim.

─Acho o oposto, acho que será muito boa lá fora, vou cuidar de tudo, isso inclui você. – Ele segura meu braço, aperta um pouco, começo a sentir um pouco de dor, mais uma vez me lembro do hospital, olho em volta, as ruas estão tranquilas. – Entenda Clarie, estar comigo te dará tantas vantagens que nem vai parecer o fim do mundo, não sei se reparou, mas não se vê muitas mulheres como você por aqui, acho que não se via mulheres como você nem mesmo antes do mundo acabar.

Sua mão livre toca meus cabelos, apenas me encolho um pouco.

─Preciso ir, pode me soltar por favor, está me machucando.

─Quando disser sim vai ver como posso ser bem gentil. – Ele me solta o braço. – Vou te procurar amanhã e quero ouvir um sim.

Aiden passa por mim como um raio e desaparece, só então me dou conta que duas senhoras caminhavam conversando, eu podia abraça-las em gratidão, mas apenas apresso o passo para a casa de Eric esfregando o braço que com certeza ficaria marcado.

Antes de entrar desço um pouco a manga da blusa, não quero que ninguém saiba do que aconteceu, não vou criar problemas para nenhum deles, principalmente Daryl.

─Pensei que tinha desistido. – O tom de Daryl parece uma critica, me espanta um pouco, será que ele queria mesmo que eu viesse?

─Eu fiquei um pouco com a Judith para o Carl dar umas voltas por ai. Eu sei que não gosta que faça isso...

─Agora é diferente. – Ele para o que está fazendo para me olhar. – Você pode cuidar dela se quiser, talvez seja...

─Melhor para mim, já que não faço nada direito.

─Sei um pouco como é isso de não se achar bom o bastante, mas acredite, não leva a lugar nenhum, só afasta as pessoas. – Ele me encara com as sobrancelhas juntas, parece me analisar um pouco, me lembro do encontro de mais cedo. – Está tudo bem com você?

─Sim.

─Tem certeza? – Afirmo, ele se demora me olhando, sinto meu rosto queimar, desvio meus olhos e encaro o chão. Odeio mentir para ele, mas não vou contar sobre Aiden. – Me ajuda aqui então.

Ergo meu olhar já sorrindo, eu sei que ele não precisa de mim para coisa alguma, mas gosto de saber que quer me agradar e distrair.

─Limpe essas peças. – Ele me entrega a estopa e umas peças, algumas bem pequenas, outras maiores, aposto que nem vai usar todas, mas me ocupa o resto da tarde e quando deixamos a casa depois de um copo de suco de laranja com Eric e Aaron na varanda me sinto quase feliz.

Eric é sempre tão gentil comigo que sinto que podemos mesmo ser amigos, gosto de como ele me deixa tranquila, como seus assuntos são sempre leves, e faz parecer que temos uma vida perto do comum.

Aiden está na esquina numa roda de amigos, me encara de longe e mesmo quando subia os degraus da varanda sinto o peso de seu olhar nas minhas costas.

Não vou ficar aqui e acabar nas mãos dele, de jeito nenhum, tenho que dar um jeito de convencer Daryl que estou pronta e posso sair com ele em busca de novas pessoas.

Durmo no mesmo lugar, do mesmo jeito, olhando Daryl, meu sono é agitado e acordo pouco antes de amanhecer, a casa mergulhada no mais profundo silencio, ele dormia tranquilo, uma ideia passa por minha cabeça, posso ir lá fora, treinar sozinha, ficar umas horas lá, quando voltar viva ele vai saber que sou capaz.

Minha lança repousa ao lado da porta, os primeiros raios do dia surgiam, pego a lança e caminho para os fundos, é isso vou lá fora me virar sozinha, se morrer ninguém perde nada, se voltar talvez ele acredite na minha força.

─Bom dia. – Carl me diz assonado preparando uma mamadeira quando passo por ele. – Cedo assim de pé?

─Sim.

─Quero voltar para cama, mas hoje era meu dia de fazer a mamadeira da Judy.

─Bons sonhos. – Tento brincar quando saia pela cozinha e ele retornava em direção ao quarto.

Um homem cuidava do portão, folheava um livro distraído, olho para torre, Sasha mais uma vez estava lá, mas apontava seu rifle para o lado oposto e não me via.

─Pode abrir por favor? – O homem se ergue meio confuso, caminha para o portão na mesma hora.

─Vocês gostam mesmo de ficar do lado de fora dos muros, nunca vi coisa igual.

Passo sem responder ao seu comentário, o portão se fecha atrás de mim com um leve ranger. No mesmo instante me arrependo, escuto o canto dos pássaros, respiro fundo, é hora de arrumar coragem e fazer o que me propus.

É isso ou acabar nas mãos de Aiden e não vou mais pertencer a um homem, não contra minha vontade. Aperto a lança, limpo a mente, me concentro nas lições de Daryl Dixon, o melhor e mais corajoso homem do apocalipse.

Eu posso ser como ele, só preciso tentar. Meus passos começam barulhentos, os galhos secos se quebrando sob meus pés, talvez pelo nervosismo ao caminhar, respiro fundo mais uma vez. Apero mais firme a lança na mão e caminho mais leve, o som diminui.

O primeiro zumbi surge, sozinho felizmente, eu vou ao seu encontro, acerto a lança, ele cai, continuo de pé, isso é bom, meu coração bate alucinado, continuo caminhando, devia ter seguido pelo caminho que sempre fiz com Daryl, mas por alguma razão estúpida vim pelo lado oposto.

Mais um zumbi, repito o trabalho, outro que deixo no chão quando continuo de pé. Podia ter trazido uma pistola, mas não foi o que fiz, então preciso pegar apenas um de cada vez, se muitos surgirem eu preciso mesmo é fugir.

Dois aparecem, estão mesmo distantes um do outro e posso dar conta. Acerto o primeiro quando o segundo se agita em minha direção, quando me aproximo um pouco percebo seu tamanho.

É muito alto, firmo a lança na mão a ponto dos dedos ficarem brancos pela falta de circulação. Penso no quanto são frágeis, chuto seu joelho, os ossos se quebram e ele tomba, aproveito para cravar a lança em seu cérebro.

Me sinto forte, uma onda de confiança me domina e meu corpo responde se retesando, volto a caminhar, atenta, mas ao mesmo tempo tranquila.

Escuto o som de gruídos, busco com o olhar de onde vem, é uma mulher surgindo por entre as árvores, tem longos cabelos negros, usa calça jeans, botas, uma faca ainda presa ao cinto, falta um braço, ela estava aqui fora, tentou, enfrentou os mortos até se tornar um deles, talvez estivesse sozinha como eu, talvez tenha se sentido confiante e então foi pega.

Ela continua caminhando para mim, faminta, asquerosa, me deixo observa-la, uma mão fria toca meu ombro e solto um grito de pânico quando sinto aquela boca fétida se aproximar de meu pescoço, tento me desvencilhar. Empurro o corpo que apertava meu ombro e vamos ao chão, chuto aquela coisa, empurro para longe lutando contra seu desejo frenético, a outra agora mais perto, a lança está caída ao meu lado, tateio o chão tentando me controlar, com as pontas dos dedos toco o aço frio, puxo a lança e acerto a cabeça que agora estava a milímetros da minha perna, puxo a lança a tempo de posiciona-la na vertical e acertar a cabeça do zumbi que agora debruçava sobre mim. A lança atravessa seu cérebro, a cabeça desce pelo cabo de aço e só para de encontro a minha mão apoiada em minha barriga, seu sangue, podre e escuro, se espalha sobre meu corpo.

Pensava em me erguer quando uma pequena sinfonia de gruídos surge pela floresta me confundindo. Olho em volta, um grupo de zumbis caminhava, meu grito deve tê-los convidado, são pelo menos dez deles e não posso vencê-los.

Fico imóvel, torcendo para o sangue que se espalha por meu corpo confunda os zumbis. O plano dá certo, fecho meus olhos, não me movo, me mantenho ali, com aquele corpo sobre mim, o outro ao meu lado, o sangue se espalhando mais e mais me cobrindo daquela meleca cheirando a morte.

O som vai se distanciando mais e mais, só me atrevo a me mover quando o silencio volta a dominar o ambiente, olho em volta, estou sozinha mais uma vez, me ponho de pé, tenho dificuldade para recuperar minha lança presa aquela cabeça.

Cada parte do meu corpo treme, me sinto absolutamente estúpida, passo a mão pelo rosto, tento limpar a pele que tem alguns respingos de sangue, meus braços, e corpo estão completamente cobertos pelo sangue.

O plano de sair sozinha que antes me parecia ousado e corajoso agora me parece ridículo e sem sentido, penso em Daryl, se conseguir voltar ele vai ficar furioso, o grupo todo vai e a pouca confiança que ganhei deles vai embora num piscar de olhos. Quero chorar, os tremores ficam mais intensos, um pássaro vou por entre as árvores e quase grito de susto.

Preciso dominar o medo e achar o caminho de volta, os zumbis seguiram na direção de Alexandria e tenho que mudar um pouco a direção. Vou caminhando com a lança na mão, olhando de um lado para outro, vez por outro secando lágrimas.

Um casebre surge no meio da mata, está gasto pelo tempo, quase sem teto e apresso um pouco o passo, um barulho me chama a atenção, olho com pressa e zumbis forçavam a velha janela pelo lado de dentro. Reprimo mais um grito, eles forçam mais uma vez, e a janela cede. Um corpo cai para fora, logo depois outro e então mais um, vou caminhando de costas, assustada com o número de zumbis que passavam por aquela pequena janela, com as partes do corpo que iam perdendo quando caiam uns por cima dos outros, com as tentativas de ficarem de pé.

Não posso vencer todos eles, mesmo que estivesse pronta, não com uma lança apenas. Correr, é isso que me resta, correr para longe daquilo o mais rápido que puder.

Me viro pronta para correr, três deles me cercavam, sinto vontade de me render, não posso vencer três ao mesmo tempo. Penso em Daryl, em suas palavras, que eu tinha que fazer valer a pena pelos que morreram, que eu precisava viver por eles.

Beth Greene nunca teria desistido e apronto a lança, chuto o que está mais perto, ele cai de joelhos e aproveito para acertar o segundo com a lança, quando puxo de volta uma mão agarra minha canela. Sem pensar muito apenas abaixo a lança cravando aquele cérebro a centímetros de mim mais uma vez, o terceiro ergue os braços em minha direção e me esforço para tirar a lança do que está sobre meu pé. Uma flecha atravessa a cabeça do zumbi que apenas desmonta diante de mim.

Notas finais
Gostaram? Daryl está furioso, sim ou com certeza? Mas a Clarie mandou bem, ele vai ter que admitir isso, depois de gritar um pouco com ela é claro.