Resquícios
5 Dor
Notas iniciais
Uma Morte Trágica… ou Anunciada?
Na manhã desta sexta-feira, o Ministério da Magia mobilizou equipes de contenção para controlar um incêndio de proporções alarmantes — e, para alguns, profundamente simbólicas.
Nos arredores de Aberdeen, o amanhecer trouxe não apenas névoa, mas fumaça espessa o suficiente para obscurecer o céu. Curiosamente, nenhum vizinho relatou ter ouvido gritos. Nenhum pedido de socorro. Nenhuma explosão inicial.
O fogo simplesmente… estava lá.
Uma residência inteira consumida pelas chamas — e, ainda assim, silêncio.
Talvez não seja coincidência que os ocupantes da casa jamais tenham sido plenamente aceitos pela comunidade local. Alguns moradores, quando questionados por esta repórter, limitaram-se a dizer que “era questão de tempo”.
Há cerca de dois anos, a família Shunpike instalou-se na região. O nome certamente soa familiar aos leitores do Profeta Diário. Stanley Shunpike, ex-cobrador do Nôitibus Andante, ganhou notoriedade ao ser associado aos Comensais da Morte durante o regime d’Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado.
Na época, Shunpike alegou estar sob a influência da Maldição Imperius — uma defesa conveniente, embora impossível de comprovar com total certeza. Ainda assim, foi inocentado no período pós-guerra, em meio a julgamentos acelerados e decisões que, para muitos, priorizaram reconciliação em detrimento de rigor.
Seu depoimento contou com o apoio direto do célebre Harry Potter, cuja palavra, como se sabe, possui peso quase incontestável nas cortes mágicas.
Shunpike retomou suas atividades no Nôitibus. Casou-se com Matilda Smith, nascida-trouxa. Fontes próximas afirmam que o casal tentava engravidar havia meses — talvez anos — sem sucesso. Comentários reservados sugerem que métodos trouxas foram utilizados, o que levanta questões adicionais sobre a saúde mágica do casal.
Não é segredo que parte significativa da comunidade bruxa jamais aceitou plenamente as decisões tomadas no pós-guerra. Shunpike recebeu ameaças reiteradas nos últimos anos. Todas foram investigadas pelos aurores. Nenhum responsável foi oficialmente identificado.
Ou talvez nenhum tenha sido oficialmente apontado.
Em um dia particularmente simbólico — o quarto aniversário da derrota do Lorde das Trevas — celebrações estavam programadas em diversas regiões do país. Discursos, homenagens, festividades.
Agora, o que deveria ser comemoração carrega o cheiro acre de cinzas.
A morte de Stanley Shunpike e de sua esposa será lamentada por alguns. Por outros, segundo comentários que esta repórter ouviu sem dificuldade, pode ser interpretada como ajuste tardio.
Informações obtidas no fechamento desta edição revelam que o incêndio foi provocado por Fogo Maldito — magia rara, extremamente poderosa e notoriamente difícil de controlar. Leitores atentos recordarão que o mesmo feitiço foi conjurado durante a Batalha de Hogwarts, resultando na morte de Vincent Crabbe e na destruição de parte da histórica Sala Precisa.
Especialistas consultados sob condição de anonimato afirmam que o padrão das chamas encontrado na residência de Aberdeen não corresponde integralmente aos registros tradicionais do feitiço. As manifestações teriam apresentado comportamento atípico — mais expansivo, mais persistente, menos previsível.
Uma variação?
Erro de execução?
Ou algo mais inquietante?
O Ministério, até o momento, mantém silêncio.
Se há culpados, que sejam encontrados.
Se há negligência, que seja revelada.
E se a história recente nos ensinou algo, é que decisões apressadas podem produzir consequências que queimam muito depois que os aplausos cessam.
Esta repórter continuará acompanhando o caso.
Rita Skeeter.
— Mais café, jovem senhor? — a voz esganiçada de Finn o trouxe de volta à realidade. — Meu senhor está machucado? Finn fez algo errado?
Draco demorou alguns instantes para se recompor. Sentiu o rosto molhado e limpou rapidamente os vestígios, irritado consigo mesmo por permitir algo tão patético quanto lágrimas. Amaldiçoou Skeeter em silêncio enquanto impedia a elfa de se punir.
— Está tudo bem, Finn. Você não fez nada errado. Traga mais café, por favor.
A elfa, que já procurava algo para se castigar, parou imediatamente e acenou antes de sair apressada da sala. Draco aproveitou o momento para recuperar o controle. A maldita Skeeter sabia exatamente como inflamar as coisas. Ainda enjoado, dobrou o jornal com cuidado e o guardou; não queria que seus pais — especialmente sua mãe — lessem aquela matéria.
Mesmo com a sensação desagradável no estômago, começou a folhear o restante das correspondências. Havia cartas do Ministério — sempre havia. Parte da sentença da família exigia comparecimentos periódicos para verificações formais. Havia também um envelope simples da Associação pelos Direitos dos Bruxos, que ele queimou imediatamente com um gesto rápido da varinha; algo assim jamais poderia ser encontrado na posse de sua família. Por fim, havia um exemplar da revista O Pasquim, cuja manchete dizia: “Algo estranho entre nós”. Draco encarou a capa por alguns segundos antes de guardá-la junto ao Profeta Diário.
Finn voltou da cozinha carregando um bule de café, e seus pais apareceram logo depois, conversando sobre trivialidades. Narcisa parecia relaxada; beijou o filho antes de sentar-se e servir uma xícara de chá de hortelã. Os dois falavam com ele enquanto ele respondia apenas com acenos e murmúrios de concordância.
A cena era ao mesmo tempo estranha e familiar. Sua mãe sempre exigira que todos se sentassem juntos para o café da manhã e compartilhassem aquele momento. Quando era criança, Draco ficava fascinado com as histórias que o pai contava sobre sua linhagem e sobre como o nome Malfoy era influente. Naquela época, ele adorava ouvir tudo aquilo; sentia-se orgulhoso, feliz. Tudo o que queria era ser como o pai — alguém de quem Lucius pudesse se orgulhar.
Durante os anos em Hogwarts, as conversas passaram a girar em torno da injustiça dos professores, do chamado trio de ouro e dos acontecimentos na escola. E então o Lorde das Trevas passou a frequentar sua casa — e aqueles momentos familiares passaram a ser cercados de um terror silencioso.
— Concorda, Draco?
Ele ergueu os olhos, confuso.
— Vamos à casa dos Greengrass às dezenove horas, está bem? — repetiu Narcisa, agora com um olhar preocupado. — Você parece pálido. Está se sentindo bem?
— Estou bem. Apenas pensando em algumas coisas.
Ela parecia pronta para insistir, mas foi interrompida por Lucius, que observava o filho com um olhar quase compreensivo.
— Ele está bem, Narcisa. Provavelmente pensando na adorável senhorita Astória — disse, tomando um gole de café com um pequeno sorriso. — Estranho. Não vejo o jornal...
— Não veio — respondeu Draco rapidamente. — Se me dão licença, tenho alguns assuntos para resolver.
Sem esperar resposta, levantou-se da mesa.
Havia se esquecido completamente do compromisso com os Greengrass. Seus pais não faziam nada sem cálculo: a aproximação com aquela família fazia parte de um plano para limpar a imagem dos Malfoy. Entre pagamentos de indenizações, retratações públicas e visitas inesperadas do Ministério, surgira também a ideia de uma união — um casamento entre ele e Astória Greengrass.
A ideia não o desagradava do ponto de vista prático. Seria simples: Astória era jovem, bonita, inteligente e claramente apaixonada por ele. Um casamento ajudaria a restaurar a reputação da família. Ainda assim, ele não queria. Simplesmente não queria. E se recusava a fazer algo apenas porque lhe haviam ordenado.
Não seria como seus pais, que pareciam dispostos a aceitar qualquer condição para serem reintegrados à comunidade bruxa.
Sozinho em seu quarto, caminhou até um pequeno baú lacrado com um cadeado trouxa. Era quase irônico possuir algo assim, mas aprendera da pior maneira que não podia ter segredos — por mais inofensivos que fossem. Na última visita do Ministério, um auror encontrara seu antigo baú e o interrogara por horas sobre os recortes que guardava. Com medo, Draco dissera que se desfaria de tudo, que era apenas curiosidade.
Poucos dias depois, fora até a Londres trouxa — algo que costumava fazer quando se sentia sobrecarregado. Encontrara uma pequena loja e, ali, o baú e o cadeado. Eram diferentes de qualquer coisa que possuía. Sem pensar muito, comprou-os usando o dinheiro de papel que o pai lhe dera certa vez, explicando que era prudente ter algumas notas trouxas à disposição.
Na visita seguinte do auror, o baú passara completamente despercebido.
Fora a melhor compra de sua vida.
Calmamente, alinhou os números da combinação para liberar a tranca. O vendedor explicara várias vezes como utilizá-lo, e Draco ficara fascinado com o pequeno objeto. É claro que conhecia cadeados — e sabia que um simples Alohomora poderia abri-lo —, mas havia algo intrigante naquele mecanismo: nenhuma chave, apenas números e ordem.
O cadeado se abriu com um clique suave.
Dentro havia dezenas de recortes de jornal. Era quase mórbido guardar as provas públicas da vergonha de sua família, mas o hábito começara no quinto ano em Hogwarts, quando seu pai fora preso. Draco nunca entendera exatamente por quê fazia aquilo, mas perdera incontáveis noites relendo aquelas notícias. Desde o fim da guerra, sua coleção apenas aumentava.
Retirou os recortes metodicamente, examinando um por um para garantir que nenhum fosse comprometedor demais. Entre eles, encontrou um de seis meses após a Batalha de Hogwarts.
A notícia era pequena, sem fotografias — apenas um comunicado breve, quase como um lembrete publicado às pressas.
Na madrugada do dia 2, quatro bruxos foram encontrados mortos após um confronto envolvendo magia avançada nos arredores de Derbyshire. As vítimas foram identificadas como membros da família Avery, conhecida por sua associação histórica com atividades ligadas às artes das trevas.
Segundo informações preliminares, as mortes foram causadas pelo uso de Fogo Maldito, um feitiço extremamente perigoso e de difícil controle. O local foi isolado por equipes do Ministério da Magia ainda nas primeiras horas da manhã.
Autoridades afirmaram que os responsáveis pelo confronto ainda não foram identificados. Testemunhas relataram a presença de civis na região no momento do incidente, mas não há confirmação oficial de envolvimento direto.
O Ministério informou que o caso segue sob investigação.
Ele guardou o recorte novamente. Mais de dois anos haviam se passado, e ninguém fora punido por aquelas mortes. E ele sabia que, neste novo caso, ninguém seria punido também.
A comunidade falava de reconstrução, de justiça, de reconciliação. Mas, na verdade, poucos se importavam com justiça. As pessoas perdoavam ou condenavam conforme seus próprios interesses.
Draco puxou o Profeta Diário e O Pasquim do bolso das vestes, recortou a matéria cuidadosamente e queimou o restante do jornal. Guardou o novo recorte. Antes de fechar o baú, seus olhos encontraram mais uma vez o rosto assustado de Shunpike na fotografia do jornal.
Por um instante, Draco teve a estranha sensação de que ele não estava olhando para a câmera.
Estava olhando para ele.
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