Resquícios
6 St. Mungus
Notas iniciais
Já haviam se passado doze dias desde a reunião no St. Mungus. Draco estava aliviado por nenhum auror ter invadido a casa para prendê-lo e levá-lo para Azkaban, mas também irritado com a demora por uma resposta. Nos últimos dias, sua mãe permanecera estável — nenhum episódio. Narcisa chegara até a caminhar pelos jardins da mansão, algo que não fazia havia semanas.
— Posso entrar, Draco?
Imerso em seus pensamentos, ele não ouvira as batidas na porta; apenas a voz fina de Finn. A elfa sempre engasgava levemente ao chamá-lo pelo nome.
— Entre.
Ele já estava completamente vestido. A cama arrumada. Esperava apenas que o restante da casa despertasse para que pudesse descer.
— Chegou, senhor! Enfim, chegou!
Finn saltitava pelo quarto, entusiasmada demais para aquela hora da manhã. Enquanto pulava, bateu na mesa de Draco e vários objetos caíram no chão. Entre eles, o presente que Blaise enviara em seu último aniversário: um curioso objeto trouxa chamado sextante. A peça se partiu ao atingir o piso de madeira polida.
— Finn má!
Antes que Draco pudesse reagir, a elfa já havia agarrado um castiçal e levantava-o acima da própria cabeça, pronta para se punir.
— Está tudo bem, Finn.
Ele segurou o castiçal, impedindo o golpe. Com um gesto breve, murmurou:
— Reparo.
O objeto quebrado se recompôs imediatamente, retornando à forma original.
— Me dê a carta, por favor, Finn.
A elfa entregou o envelope com as mãos trêmulas. Seus olhos grandes estavam apreensivos. Finn fora uma companhia constante nos últimos anos. Era ela quem lhe levava chá durante as longas noites de insônia, quem o ajudava em pequenas tarefas que ele não podia realizar sozinho.
Draco encarou o envelope por alguns segundos. O selo do Ministério brilhava à luz das velas. Respirou fundo algumas vezes antes de finalmente abri-lo.
Prezado Senhor Malfoy,
Após cuidadosa análise do material enviado, concluímos que, apesar de sua pesquisa não seguir os protocolos exigidos pelo Ministério da Magia, ela apresenta significativa eficiência.
Dessa maneira, oferecemos ao senhor um cargo como curandeiro no St. Mungus, sob supervisão direta do Diretor Abbout. Também lhe será concedida a oportunidade de continuar sua pesquisa, desta vez por meios devidamente autorizados.
Reiteramos que pesquisas conduzidas sem o aval do Ministério podem acarretar problemas legais e a necessidade de comparecimento ao setor de justiça. Contudo, considerando a contribuição de sua família nos últimos anos, decidimos não registrar formalmente essa ocorrência, limitando-nos a emitir uma advertência.
Cordialmente,
Dolores Umbridge
Subsecretária de Assuntos do Ministério
Draco releu a carta várias vezes, tomado por uma mistura de excitação e repulsa.
O nome de Dolores Umbridge não era surpresa. Ele sabia que ela ainda trabalhava no Ministério e, aparentemente, voltara a ocupar cargos relevantes. A nova gestão insistia em falar sobre renovação, mas nomes antigos e influentes sempre encontravam maneiras de permanecer.
— Eles me chamaram para trabalhar lá, Finn. – Disse a elfa o observava atentamente.
— Muito bem, jovem senhor! Finn feliz! Finn vai trazer firewhisky para o senhor!
Draco apenas assentiu.
Ele havia conseguido — mais do que imaginara inicialmente. Continuar sua pesquisa era exatamente o que desejava, embora não tivesse ousado pedir isso diretamente. Com o apoio do Ministério, teria acesso a ingredientes raros e laboratórios adequados. Sabia que havia manobras políticas envolvidas, mas ainda assim era uma oportunidade.
Finn retornou alguns minutos depois, acompanhada por seus pais.
Lucius Malfoy não parecia particularmente satisfeito com a notícia. Narcissa Malfoy, por outro lado, sorria.
— Então você vai realmente fazer isso? — disse Lucius, a voz fria. — Tornar-se um curandeiro?
Draco percebeu o tom de desprezo na última palavra.
— Sim.
Lucius permaneceu em silêncio por alguns instantes.
— Interessante. — Ele caminhou até a janela, observando os jardins da mansão. — Durante muito tempo imaginei outro futuro para você...
Draco não respondeu.
— A guerra mudou muitas coisas — continuou Lucius. — Ainda assim, não esperava que você escolhesse… isso.
— É um trabalho necessário.
— Necessário — repetiu Lucius.
— Eu acho admirável.
Lucius virou-se lentamente.
— Admirável?
— Sim. Draco quer ajudar pessoas.
O olhar de Lucius voltou para o filho.
— Ajudar pessoas. — Ele fez uma pequena pausa. — Os Malfoy costumavam se dedicar a coisas maiores.
Draco sustentou o olhar do pai.
— Talvez tenha sido esse o problema.
Lucius permaneceu imóvel por um instante. Apenas um pequeno movimento no maxilar denunciou que ele havia entendido exatamente o que Draco quis dizer.
— Quando você começa, querido? — Narcisa quebrou a tensão, acostumada ao clima que permeava a interação entre seu filho e seu marido.
— Amanhã. — Draco mostrou à mãe outro pergaminho com instruções.
Narcisa leu rapidamente, os olhos percorrendo as linhas com atenção. Um sorriso pequeno, mas sincero, apareceu em seu rosto.
Ela se aproximou do filho e, por um instante, segurou seu rosto entre as mãos.
— Eu acho admirável — repetiu suavemente.
Antes que ele pudesse reagir, depositou um beijo leve em sua face.
Draco não disse nada, mas sentiu a pressão gentil dos dedos dela por um segundo a mais antes de ela se afastar.
— Devemos fazer um belo jantar — continuou Narcisa, voltando-se para o marido com naturalidade calculada. — Vou à cozinha organizar tudo. Me acompanhe, Lucius.
Lucius observou Draco por um momento que pareceu longo demais, como se ainda pesasse algo que não fora dito. Então virou-se e seguiu a esposa.
Quando a porta se fechou atrás deles com um clique suave, Draco finalmente permitiu que a rigidez de sua postura cedesse. Os sentimentos e opiniões do pai a respeito de seu novo cargo não importavam. Não mais.
Ele pegou o copo de firewhisky que Finn deixara sobre a pequena mesa de canto e tomou um gole curto. O calor da bebida desceu lentamente pela garganta. Sabia que não seria uma experiência fácil.
Trabalhar no Hospital St. Mungus para Doenças e Acidentes Mágicos significava mais do que um emprego. Significava exposição. Olhares. Suspeitas. E, provavelmente, fracasso.
Num gesto automático, desabotoou o punho da camisa e dobrou a manga milimetricamente três vezes. O suficiente para expor o antebraço. Seus olhos se fixaram na Marca Negra gravada em seu braço esquerdo. A marca estava fraca agora. O desenho quase apagado pelo tempo, reduzido a uma cicatriz pálida que poucos notariam à primeira vista.
Pequenas manchas escuras se aglomeravam ao redor dela. Como se a pele ali estivesse tentando expulsar algo. Ou, talvez, contê-lo. Draco passou o polegar sobre a cicatriz.
A marca não reagiu.
Mas as manchas ao redor pareciam mais densas, mais profundas — como se a velha magia que um dia vivera ali impedisse que qualquer outra praga se instalasse completamente.
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