Resquícios
2 390 Dias Depois
O sol começava a surgir no horizonte. Ao fundo, ele podia ouvir os barulhos dos elfos domésticos iniciando suas tarefas. Seus pais não acordariam tão cedo; nunca foram pessoas matinais. Sua mãe insistia que precisava de muitas horas de sono para manter a pele viçosa. Apesar de tudo o que acontecera nos últimos anos, eles mantinham a pose. Agiam com naturalidade e navegavam com aparente tranquilidade diante do tormento. Ele não podia dizer o mesmo sobre si. Não conseguia lembrar a última vez que dormira mais de três horas sem acordar gritando. Olhou para sua cama, o dossel era imponente, estava a gerações em sua família, os lençóis desarrumados o lembraram do seu pesadelo, era apenas escuridão, mas o aperto em peito o fez acordar.
Uma batida na porta interrompeu seus pensamentos.
— Pode entrar — disse, sem olhar para trás. Já estava completamente vestido, arrumado e polido. Não era ansiedade. Era apenas conformismo. Sabia que não podia evitar o dia de hoje, então era melhor não resistir.
— Jovem senhor, não chamou Finn para ajudar...
— Está tudo bem — interrompeu antes que a elfa começasse a se martirizar. — Gosto de me arrumar sozinho.
— Finn vai trazer o café — a elfa estalou os dedos, os lençóis se arrumaram perfeitamente. Ele estremeceu, mas assentiu. Não tinha fome, mas comeria. Era uma necessidade. Era sobrevivência.
Algumas horas depois, estava parado em frente à recém-construída loja de varinhas do senhor Olivaras. Podia ouvir as conversas ao seu redor. Seus pais falavam com algum membro do Ministério. Ele não sabia quanto sua família havia doado, nem se interessava por isso, mas sabia que devia ser muito. Afinal, os Malfoy estavam na ala privilegiada, posicionados ao lado dos heróis da guerra.
Ele não falou com ninguém. Não havia o que dizer.
O evento era um espetáculo calculado. As pessoas sorriam, conversavam; a maioria os ignorava. Ele sabia o que pensavam: foram perdoados fácil demais. Não sofreram consequências suficientes. Ninguém dizia isso em voz alta. Ninguém queria contrariar o grande Potter, que o defendera, junto com sua mãe, perante o júri. Até Granger falara a seu favor. Seu pai enfrentara consequências maiores, mas ainda assim leves em comparação a muitos outros.
Draco não saberia dizer quanto tempo a socialização durou. Tentava não pensar muito, manter-se à margem. Funcionou — quase o evento inteiro. Em um descuido, afastou-se dos apoiadores da família. Uma velha senhora o encurralou. Ele nunca a tinha visto antes, mas ela cuspiu no chão à sua frente, proferiu o que ele imaginou ser uma maldição e foi embora.
Ele não se assustou. Não revidou. Poderia ser pior.
Aceitou a humilhação em silêncio e sentiu alívio quando o ministro Kingsley Shacklebolt chamou a todos para o início oficial da reinauguração. Ele discursava com voz forte e segura. Suas palavras eram de ordem, reconstrução e esperança. As pessoas aplaudiam. Tudo parecia perfeito.
Um homem baixo e franzino apresentou-se após o discurso. De forma teatral, sacou a varinha, murmurou um encantamento e uma nuvem de fumaça surgiu diante de todos. Ali, pairando no ar, rostos começaram a aparecer — vítimas da guerra. Draco sentiu um frio na nuca.
À medida que os rostos passavam, o público cativo esboçava reações. Ele via lágrimas, dor e saudade estampadas nas expressões. Um sentimento incômodo crescia dentro dele. Puxou o ar, tentando se concentrar na respiração. Um rosto específico trouxe maior comoção, ele ouviu o horror nos rostos, um não sussurrado, ele estava olhando para o rosto de Severus Snape, sabia que Potter tinha algo com isso.
E então aconteceu — tão rápido que poderia ser imaginação.
A atmosfera mudou. A magia tremulou. Algumas pessoas pareceram engasgar. Algo negro, como um risco no ar, surgiu e desapareceu.
Ele não teve tempo de observar com calma. Estava preocupado com as próprias reações. Sua mão esquerda tremia levemente. Podia sentir uma gota de suor descer por sua têmpora. Discretamente, levou a mão direita para segurar a esquerda. Como um reflexo tardio, seus olhos encontraram o trio de ouro. Granger e Weasley pareciam enjoados. Mas seu olhar se fixou em Potter.
Seus olhos estavam fechados, apertados, havia suor em sua testa. Foi rápido.
Potter abriu os olhos. Recomposto.
O bruxo do Ministério dizia algo sobre as emoções, sobre como poderiam levar ao descontrole da magia. Todos pareceram concordar. Era um dia emocional para todos.
Apesar disso, o tremor e o frio o acompanharam. O frio não era desconhecido.
Era dor antiga.
E dor antiga ainda encontrava maneiras de respirar.
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