Reparo. {hiatus}
21 20. Immobillius.
Notas iniciais

• Immobillius.
Feitiço usado para imobilizar o alvo.
| 20 |
Ela estava sentada no chão frio um pouco afastado da sala onde a festa acontecia. Os sapatos cor de pérola juntos ao lado dela, e as pernas esticadas mostrando as meias brancas em seus pés descalços, não se importou se o vestido estava sujando, com a cabeça encostada na parede e os olhos fechados ela tentava como louca empurrar as memórias confusas e distorcidas de dentro da sua mente.
Uma vida perdida.
Três jovens.
Buraco no espaço-tempo.
Parecia tudo um monte de baboseira, mas não era de jeito nenhum, ela sentia isso. Hermione tinha certeza que aquela mulher sabia sobre seus sonhos, não havia outra maneira de estar tudo aparentemente relacionado como estava.
Sua cabeça martelava.
Era tão doloroso não entender, Hermione estava ciente que não sabia de tudo que acontecia em sua volta, mas ela sabia de boa parte. E não saber sobre sua própria situação a colocava num estado estacionado que ela não estava acostumada. Hermione gostava de saber o que acontecia pelo menos em sua vida, e a angústia que aqueles sonhos lhe traziam estava a vencendo aos poucos.
— Granger, não se foge assim de uma festa quando se é acompanhante. — ergueu os olhos para ver Tom Riddle, chegando lentamente até ela. — Não é educado vindo de uma dama.
— Não é educado de um cavalheiro deixar sua acompanhante também, o que leva a pergunta de por que você está aqui quando deveria me deixar em paz de agora em diante. — sua voz soou calma, ainda que as palavras não fossem.
Ele não recuou — nunca o fazia, na verdade — e Hermione não estava disposta a brigar. Estava amargurada e confusa demais para estar com medo dele, e diante de seus problemas com seus pesadelos e o fato dela ter sido o centro das atenções em um festa que só aceitou ir por educação, deixava Riddle um problema pequeno demais para ser um motivo de irritação, mesmo que ele não fosse um problema pequeno.
— Tenho certeza que ela não sentirá minha falta, está eufórica demais compartilhando informações inúteis no momento.
Riddle se encostou na parede ao lado dela e continuou em pé.
— Não estou com paciência para você hoje, Riddle. — murmurou.
— E você já esteve com paciência para mim? — ergueu uma sobrancelha.
Ele tinha um ponto.
Houve um silêncio que não era desconfortável como a maioria das vezes que estiveram numa cena semelhante, Hermione tentava se concentrar no som da sua própria respiração e mexia os pés cobertos pelas meias procurando uma distração.
— Era uma profecia? — ele perguntou de repente.
— Eu não sei. — colocou uma perna em cima da outra. — É complicado explicar...
— Então é um extremo conveniente que eu seja o melhor aluno do meu ano.
Contar ou não contar?
Ela podia se levantar, mandar ele cuidar da própria vida, virar as costas e sair. Entretanto, isso funcionaria perfeitamente se fosse outra pessoa com quem começou uma conversa, mas era Tom Riddle ao seu lado curioso sobre sua vida.
Ela bem sabia o quanto ele era insistente quando estava curioso.
— Começou quando eu era criança, — molhou os lábios. — Eu tinha sensações estranhas, eu nunca tive dificuldade para nada por que eu sempre senti que a minha vida inteira é um eterno dèjá-vu. Eu me lembro de partes da minha casa que deveriam existir e que não estão lá, e me lembro de coisas que ninguém nunca me ensinou e que eu nunca li em lugar nenhum, e tem esses... Pesadelos.
Ela pausou sentindo um calor em seu rosto bastante parecido com aquele que sentimos quando estamos prestes à chorar.
— É quase sempre sobre pessoas desconhecidas. Uma menina loira, uma menina ruiva, dois garotos e eu; estamos correndo de algo, estamos todos com medo e eu... Eu estou preocupada com alguém, estamos fugindo rápido e meu coração dilacera cada vez que acabamos desacelerando. — seus olhar era para voltado para a frente, porém não via nada lá, as cenas se repetiam em sua mente enquanto narrava. — Parece uma guerra.
— E estes sonhos estavam relacionados com o que Cora Twindle disse lá dentro?
Ela o encarou franzindo a testa.
— Conhece ela?
— Ela é a Medibruxa da Sra. Malfoy, a encontrei um par de vezes.
Hermione se perguntou como podia ele saber essa informação, mas empurrou seu questionamento.
— Ela disse sobre três jovens, eu costumo ver silhuetas quando estou sonhando, três silhuetas que aparentam ser de pessoas muito jovens.
Sim, conseguia lembra delas, apareciam num destaque diferente de sombras, empunhando suas varinhas de costas para a visão. Parecia estar vendo atrás deles e eles a ignoravam, antes de começarem um duelo violento com rostos que não podia ver.
— Intrigante, de fato. — disse Riddle, era possível ver uma metade de seu rosto iluminada pela luz precária das Masmorras.
Hermione sentiu um aquecimento incomum em seu estômago pela imagem, talvez estivesse ficando doente de verdade.
— É difícil por que esses pesadelos me acompanham à muito tempo, eu ponho a culpa neles pelas coisas que eu sinto. — enfiou os dedos dentro de seus cachos semi pressos, puxando o grampo para soltá-los. — Eu sempre me senti alheia, como se estivesse faltando uma parte de mim que eu não consigo descobrir qual é, eu observo como todos parecem tão satisfeitos com o que têm e eu tento também, mas parece diferente para mim, como se eu fosse diferente e eu não falo por convencimento... É por quê... — arfou com a intensidade de suas próprias palavras. — É como se ninguém entendesse por mais que eu quisesse explicar, eu tenho uma vida confortável, as pessoas me dizem o quanto eu sou talentosa e inteligente, e pelo meu próprio cálculo eu entendo que meu futuro será brilhante de qualquer maneira... Mas não é... Não é...
— O suficiente. — Completou a espantando, ele não a olhava, apenas tinha suas sobrancelhas franzidas e era uma surpresa ver aquela reação de um ser tão inexpressivo. — Tudo parece muito banal, nada surpreende, nada impressiona. Parece tudo morto e cinza, e o que os outros vêem como felicidade, parece só soturno, como todo o resto.
Ela engoliu seco, arregalando os olhos.
— Sim. — sussurrou.
Havia profundidade nas suas palavras, como se estivessem presas há tanto tempo quanto as dela estavam.
Hermione tinha se impressionado poucas vezes em sua vida, ela podia contar com seus dedos as vezes.
A primeira vez que foi ao cinema.
A primeira vez que praticou magia.
A primeira vez que entrou em Hogwarts.
E agora, a primeira vez que encontrava alguém que via as coisas como ela via.
Com seus lábios entreabertos, observava o rapaz perigoso e com ideais tirânicos, que lhe pareceu simpatizante.
Isso a assustou.
Ambos pareciam fúnebres e vacilantes.
Ela levantou, pegando seus sapatos e os ajeitando, ficando da altura de Riddle graças aos saltos. Se encaravam perto demais embora estivessem em sentidos diferentes, ela virada para a parede que outrora se encostava, e ele em sentido à porta da sala de Slughorn.
Ver o oceano de seus olhos verdes depois daquela conversa parecia diferente do que era, eles compartilhavam mais do que somente segredos sujos um do outro.
Aquela humanidade recém encontrada nele a desconcertava.
— Boa noite, Riddle. — cumprimentou suave e evitando o olhar de novo, se virou de costas em direção à saída.
— Boa noite, Granger.
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