Remetente Anônimo
1 Carta 1 - Reconhecimento
Notas iniciais
Estava na casa da Letícia quando recebi sua ligação. Assumo que fiquei confusa, você nunca me ligou nesse horário; à noite... Fui então para sua casa, a fim de entender tudo.
— Para resumir: hoje cedo recebi uma carta muito suspeita...— simplificou, entregando-me um envelope bege, que estava em suas mãos e sentando-se na cadeira de sua escrivaninha, me convidando a sentar sobre sua cama.— E quando a li, acabei ficando curiosa, então, fui olhar seu remetente e... Bem é o que vê aí.— Dei uma lida rápida naquela carta enquanto você falava. Também olhei o espaço para dados no envelope, e não achei o remetente, apesar de já estranhar a ausência de selos. E a estranha aparência de antiga que ambas tinham.
Te devolvi a carta, um tanto quanto perturbada com a parte que dizia que sofreria "penalidades" caso não cooperasse.
— E por que está me mostrando isso?
— Oras, pois, juntas, poderemos pegar essa pessoa mais rápido!
— ...V-você está louca?! Fumou por acaso? Isso não é hora de bancar a detetive, esta pessoa claramente sabe quem você é! Se possível, colocaremos até a polícia no meio disso!— alertei, mas parece que cada vez mais você está convencida de fazê-lo.
— Não! Essa pode ser a chance que estava esperando para mostrar nosso valor, vamos... O que pode acontecer de ruim?— Preferi nem dizer o que pensava naquele momento, entenda... Nunca é uma boa opção perguntar isso se não tiver certeza das consequências, mas enfim, minha cabeça já estava começando a doer com essa história e achei melhor ficar olhando para o tapete persa vermelho e dourado que havia ali perto; na sala de sua casa.
Diferente do que esperava, você não falou nada. Apenas levantou-se do sofá e foi à cozinha. Decidi não te seguir, mas acabei escutando um barulho alto vindo de lá, parecendo panelas caindo. Suspirei e decidi ver o que estava fazendo.
— E então, você vem?— Nessa altura, eu já não me surpreenderia tanto assim. Entretanto, conseguiu. Não podia acreditar se arriscaria assim. Sempre lunática... Você realmente iria cair numa provocação dessas?
Enfim, você estava arrumando uma mochila com suprimentos básicos, quando esbarrou na panela, alarmando-me. Como seus pais estavam viajando, seria mais fácil sair sem ser percebida, mas eu não; como sairia de casa com minha mãe no encalço? Só um milagre mesmo para clarear essa sua mente perturbada...
— Hã... Te perguntei se vem comigo...
— Você nem deveria aceitar isso! Vai que é alguém com más intenções? Não se pode confiar em mais ninguém nos dias de hoje!
— Eu confio em você, agora pegue suas coisas e vamos!— exclamou animadamente, nem percebendo que nessa história tinha algo de muito errado.— Já consegui pensar até num meio de sua mãe te liberar sem maiores suspeitas.
— Está certo, me rendo... Mas o que pretende fazer?— Dei de ombros, já que não poderia fazer muita coisa.
— Vamos falar que minha mãe te convidou para passar uns dias aqui, que nem daquela vez.
— Não sei se percebeu, mas seus pais estão viajando, então, como quer que a convença?
— Simples demais!— E saiu correndo, voltando um tempo depois com seu celular em mãos, colocando um áudio para eu poder ouvir, com a voz de sua mãe, da vez que ela fez o convite.
Se possível, me surpreendi mais ainda com sua cara-de-pau. Você teria essa coragem? E se minha mãe fizesse alguma pergunta a qual você não tivesse uma resposta? A gente nem se conhece a tanto tempo, e se algo assim desse errado... Suspirei então. Argumentar contigo é uma tarefa para poucos, e eu não estava nem um pouco a fim.
E você ligou. Até voltei para o quarto, não queria ouvir essa maluquice, qualquer coisa eu nem estava aqui. Voltou um tempo depois, sorridente. Havia entendido o recado; ela permitiu... Ainda não entendo como, fui te ajudar a arrumar as coisas.
Minha ficha tinha acabado de cair. Eu realmente estava aqui, caminhando já há um bom tempo, em busca de algo que nem sabemos o que é, apenas nos deixando guiadas? Aliás, não lembro de, em nenhum momento, você mencionar o mapa que estávamos seguindo.
— Veio junto da carta, se quer saber...— riu, imaginando que eu estivesse intrigada com a questão.
— Estava tão óbvio assim?
— Sim; estampado na tua testa!
— Voltando, por que não vi o mapa quando abri aquela carta?
— Tirei antes de você vê-la, senão as chances de concordar comigo seriam menores ainda.— respondeu simplesmente, sem dar importância às suas palavras. Suspirei pesadamente, massageando minhas têmporas para pôr os pensamentos no lugar.
— Passe a carta para mim novamente, o envelope completo; com tudo o que você recebeu junto quando chegarmos em algum lugar não tão abandonado quanto o que estamos agora.
Você se calou e um silêncio incômodo se instalou. Comecei, então, a prestar mais atenção ao caminho. Estamos na divisa de nossa pequena cidade, então a paisagem já era mais rural, com serras ao longe e pastos a perder de vista, tudo camuflado pela escuridão da noite. De certo modo, passava um clima sinistro, e eu pude perceber que você estava começando a ficar assustada, pelo modo que encolhia os ombros a cada ruído que ouvia. Não vou dizer que estava melhor ou pior que você, mas sempre me contive mais.
Chegamos, enfim, num lugar com luz. Era uma vendinha de beira de estrada, que por algum motivo estava aberta, mesmo sendo tarde da noite, com risco de roubos ou assassinatos, além disso, o que mais me surpreendeu era o fato de quem estava lá era um idoso. Contudo, não tive tempo para pensar em mais nada: você se aproximou.
— Com licença... Poderia me trazer água?
— Sim, claro. Mas o que duas moças estariam fazendo no meio do nada?— Talvez tenha perguntado por pura preocupação, mas estranhei a entonação que ele deu. E antes que você respondesse, te belisquei e estendi a mão. Ainda bem que entendeu o recado. Deu-me o envelope, com mapa e tudo.
— Nada de mais...— respondeu, sentando-se na bancada que havia na nossa frente e tomando a água calmamente.
Enquanto você continuava sua conversa, sentei-me no banco ali perto, reabri o envelope e peguei o mapa, que estranhamente terminava aqui, e que depois continuava em outro ponto. Fui dar uma reconferida na carta, levando um susto com o que vi. Gritei e jogue-a no chão, vendo o que antes era uma folha de papel transformar-se em uma poça de sangue. O que eu havia visto era uma gota caindo... Será que tinha isso naquela hora, na sua casa, também? Não... Impossível... Eu teria reparado.

— Você está bem? Está pálida!— questionou preocupada, observando-me enquanto eu ficava vidrada naquele ponto.
— Sim, acho que estou...— menti, mas isso porque até o presente momento eu não estava sentindo realmente nada. Só depois disso que fui me sentir um pouco tonta, e com algumas falhas na visão. Acho que com você foi o mesmo, visto que se apoiou em mim e logo em seguida no banco. Não sei o que houve a seguir, caí sobre a poça de sangue e desmaiei.
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