Remetente Anônimo
2 Carta 2 - Desafio
Notas iniciais
Quando acordei, percebi que não estávamos mais no mesmo lugar. Isso se você também estivesse aqui. Não enxergava um palmo a minha frente, o escuro se via bem presente. Também estava acorrentada, e gritar parecia não adiantar nada. Só me restava esperar, afinal. Até tentei me soltar, mas acho que a corrente está presa em algum bloco de concreto, justamente para eu não conseguir sair dali sozinha.
Mas você não demorou muito. Cerca de uns dez minutos depois —os quais não pude contar, já que não tinha como— um portão, que eu não havia enxergado graças à escuridão, foi aberto e você apareceu. A luminosidade certamente me incomodou, mas nada se comparava com sua expressão horrorizada de quando me viu. Não consegui entender de início; não era motivo de tanto alarme eu estar apenas acorrentada. Tudo bem, talvez, mas nem tanto.
— Você está bem?— perguntou-me apavorada, enquanto vinha até mim.
— Sim, apesar dessas correntes. Por quê?
— E todo esse sangue?— Apontou para meu rosto e camiseta, daí lembrei do que aconteceu antes de estar aqui.
— Foi a carta, não lembra? Ela virou uma poça de sangue! Aliás, como chegamos aqui?— Me escutava atentamente enquanto soltava as correntes de mim, em seguida me olhando atordoada.
— Sangue? Eu não vi sangue nenhum! Eu vi você abrindo a carta e tendo um surto, e depois só lembro de que caí desmaiada e acordei no meio do corredor, em frente a essa porta.
— Então, quer dizer que... — Agora quem estava intrigada era eu. Como assim não havia visto aquele sangue? Pelo menos isso explicava sua aflição no seu rosto.
— Pois é, só você viu.— murmurou, enquanto jogava as correntes, que já havia soltado, do meu braço para um canto qualquer.
— Enfim, vamos sair logo daqui.— sugeri, massageando meus pulsos e apontando com o rosto para a porta.
— Sim, vamos.
Saímos do cômodo, então. O corredor que veio a seguir era extenso e passava uma sensação horrível; uma sensação mórbida. Era escuro, o que acentuava mais com as paredes num tom negro, com desenhos avermelhados, assemelhando-se à rabiscos com sangue, com um rodapé acinzentado e um extenso tapete vermelho, que cobria todo o chão daquele longo corredor, com um forte brilho no final, a saída, supus. E por seu caminho, portas de madeira, altas e visivelmente pesadas. Preferimos não olhar nenhuma. O teto não era visível por ser alto demais e estar muito escuro. Ainda tinha uma impressão de estar sendo vigiada.
Andávamos receosas naquele corredor. Olhei para você de relance e vi que estava tremendo, pelo frio, talvez, porém mais provavelmente pelo medo. Tentei dar um exemplo, mas conseguia sentir meu coração pulsar desesperadamente em meu peito. Lembrei-me que tínhamos lanternas nas mochilas que levávamos, antes de chegarmos aqui. Onde será que estariam? E a pergunta que mais me assombrava no momento: onde será que nós estamos? Se bem que me sentiria melhor se tivesse ideia de quanto ainda faltava para tudo terminar.
Por que tenho a leve impressão de que quanto mais seguíamos, mais a saída se afastava? E acho que você também percebeu, já que a ouvi soluçando baixo, para não me alarmar. Quando você passou a diminuir seus passos, avistei uma poça de sangue, mas, curiosamente, havia outra carta. Aquilo havia me enojado. Aliás, toda essa história me enojava, e a ti também, com certeza. Cautelosa, peguei o envelope; evitando manchar minhas mãos e você se aproximou, inquieta. Abri-a e li-a em voz alta.

Já que não havia outro jeito, pus-me a pensar. Primeiramente, percebi que mesmo que a parte externa da mensagem estivesse gotejando o sangue da poça, o máximo que havia na parte interna era uma pequena mancha, na parte superior esquerda, que por acaso não havia tido contato.
Não consegui prosseguir meu raciocínio. Você cutucou meu ombro e apontou para uma silhueta que vinha em nossa direção, enquanto limpava brevemente as lágrimas que haviam ficado em seu rosto, deve estar com uma sensação terrível de arrependimento... Logo de início, não dava para reconhecer a pessoa, pois ela estava contra a luz, porém quando se aproximou, pudemos perceber —e lembrar— que era o senhor da barraquinha de beira de estrada.
— Ora, vejo que as senhoritas já acordaram. Me acompanhem, por favor.— reverenciou, virando-se de costas e seguindo para onde veio.
— Percebeu que a roupa dele mudou?— sussurrou perto do meu ouvido, olhando-o enquanto o seguíamos, já que de qualquer forma iríamos para aquele mesmo lugar.
— Não que eu tivesse prestado atenção na roupa que usava, mas tenho certeza absoluta de que ele não estava usando um terno, antes de desmaiarmos. Seria muito chamativo, para alguém que estava logo no meio do nada.
— Sim... — concordou, se afastando de mim.
— Quaisquer dúvidas que as senhoritas possam ter devem ser respondidas quando o desafio for completado. E para ajudá-las, minha senhora permitiu deixá-las ler a carta mais uma vez antes dela seguir seu próprio curso.
— Curso?— perguntou-lhe, tão curiosa quanto eu.
— Já saberão a resposta— ponderou, dando-nos passagem para o lugar o qual findava o corredor.
A mudança repentina de claridade se fez aparecer, nos incomodando. Fechamos os olhos por poucos segundos, já que a momentos atrás estávamos num breu. Depois que me acostumei, comecei a reparar no lugar. Me surpreendi com o que vi, realmente não esperava, pelo clima fúnebre que aquele corredor passou. Começava por onde entramos, parecia uma sala normal em tons de bege e marrom, com uma extensão do tapete, dessa vez em veludo; um toque bem clássico. A nossa frente havia um bar, no qual várias lâmpadas iluminavam-no. Era possível ver várias bebidas também, suponho que a maioria alcoólica. Atrás, notava-se uma cascata que ia de uma ponta da parede a outra, com um portal no meio, dando um certo movimento ao lugar. Ao nosso lado esquerdo, havia um jukebox iluminado por neons, algo que eu nunca tinha visto, não assim, ao vivo. E à nossa direita um painel cheio de interruptores, botões e algumas luzes, provavelmente onde controlava-se todas as inúmeras lâmpadas desse lugar. Também dava para ver um pouco além da cascata. Parecia que o ambiente se expandia, tanto que daqui não era possível enxergar um teto, e as paredes apareciam muito mais ao longe, sem muitos detalhes. Mas, com certeza, algo que chamava a atenção, era um lustre, que mesmo que não desse para ver tudo, já parecia algo lindo. Ainda mais por ficar refletindo sua luz na queda d'água, dando um efeito muito interessante de reflexos azulados e em movimento nas paredes, no tapete e no balcão do bar. Atravessamos o portal e entramos no salão então. Como eu esperava, ele era enorme. O lustre, agora que dava para ver direito, descia em espiral por, pelo menos uns cinco metros, era realmente muito alto, e lindo para concluir. Parando de olhar para cima, passei a observar o lugar o qual estávamos. Passava um clima um pouco diferente, se comparar com o do cômodo anterior, estava mais para um complemento; um supria as necessidades do outro. Nessa parte as paredes eram de um tom de azul marinho bem forte, que chegava a ficar brilhante com o reflexo, agora dourado, do lustre. Mas, na verdade, aquele salão se resumia numa sala de jogos, digna de casa de festa, ou até maior e mais completo. Tinha direito até a pista de dança, o qual ficava abaixo lustre, o qual depois foram acesas diversas luzes coloridas sobre si. Realmente não haveria globo de espelhos melhor.
— Chegamos a sala de jogos, sintam-se à vontade. Vou dar-lhes uma breve noção desse cômodo. Mais a frente temos a pista de dança, à esquerda temos os jogos de mesa, tais como, respectivamente, autorama, hóquei de mesa, sinuca, pebolim e tênis de mesa, um pouco mais além temos uma saleta reservada para jogos eletrônicos. Indo para esquerda, temos uma mesa para repouso, e uma estante com alguns baralhos e tabuleiros, se interessarem-se. Atrás da estante temos uma escada subindo que dá acesso a uma pista de patinação no gelo e sob isso temos um espaço para boliche. Voltando para a pista de dança, há duas escadarias a sua frente: uma subindo e uma descendo. A que sobe leva para um palco com um piano e a que desce dá-lhes acesso a uma piscina térmica com vestiários e alguns modelos de roupas de banho. Caso minhas explicações não tenham sido claras o suficiente, há um mapa muito mais detalhado às suas esquerdas. Tenham bom proveito.
Apesar de tudo parecer tentador, optamos por não mexer em nada, isso ainda soava suspeito demais. Além disso, tínhamos certos problemas para resolver antes. Sentamo-nos à mesa então, mesmo eu tendo que quase arrastar-te para lá. Acha que eu não percebi que você estava muito vidrada naquela saleta? Sua viciada por jogos...
— Excelente escolha, passaram em nosso pequeno teste.— avisou, vindo até nó com duas mochilas, as nossas por sinal.— Suas recompensas serão a devolução de seus pertences.
As pegamos, cautelosas. Dei uma olhada rápida por dentro e tudo estava no mesmo lugar. Mesmo assim, aquilo não inspirava confiança nenhuma, dada as condições.
— Aqui, senhorita, a carta "desafio".— Entregou-me aquela carta, mas isso é estranho... Eu poderia jurar que estava comigo.— Mas creio que, antes disso, a senhorita deseje mudar sua roupa, sinta-se à vontade para usar o toalete da piscina.
Obviamente recusei, embora eu realmente estivesse desconfortável com o cheiro do sangue que estava em minha roupa. Por sorte, só o casaco que estava usando ficou com uma mancha, e eu estava usando uma blusa por debaixo. Aproveitei e tirei o casaco ali mesmo, já que não tinha ninguém me olhando diretamente. Daí peguei uma sacola vazia da sua mochila e joguei meu casaco ali, em seguida guardando dentro da minha.
Enquanto isso, você estava vidrada num ponto ao alto, realmente fixada, e só saiu do transe quando o olhar daquele senhor caiu sobre si. Após, você começou a ficar afobada, parecia que havia visto algo que perturbou-te. Cutucou-me discretamente, enquanto fechava a mochila. Quando olhei para ti, pude ver em teus olhos o mais puro desespero. Não entendi, e tentei olhar para onde você estava antes, mas o lustre ficava atrapalhando minha visão, apesar de estarmos quase com a mesma perspectiva. Desisti de tentar ver, ainda mais quando percebi que ele começou a esboçar um interesse em sua reação. Voltei meu olhar para a carta, levantando-a e observando-a nos detalhes, antes de relê-la de fato.
Pude perceber que o sangue que antes havia já não existia mais, não como se tivesse secado; já que ficaria uma mancha, mas como se tivesse sido absorvido, ou então como se nunca tivesse ali. Também percebi que a cor das letras estavam mais aparentes, mas talvez devesse ser por que eu li pela primeira vez no escuro... Enfim a li, em voz alta, como da última vez.
Tenho que confessar a mim mesma que a primeira coisa que eu pensei foi que essa pessoa estivesse morta. Contudo, vinha uma segunda frase que me dizia o contrário, e além de isso ser contra meus princípios. Ainda assim, sempre era reforçada essa ideia. E ainda tinha a tal trapaça, que com certeza estava me incomodando, ou melhor, a punição que viria por consequente. O que será que fizemos de errado? Como eu queria que tudo terminasse logo...
— E então, conseguiu chegar a alguma conclusão?— questionou-me, revezando olhares entre mim e tua estranha agitação.
— Eu acredito que...— interrompi-me quando te vi levantando e indo para algum lugar fora do meu campo de visão, e já que queria manter meu olhar para frente, não me interessei no que fazia no momento.— Acredito que, num primeiro momento, isso teria sido uma carta suicida, mas como talvez algo tenha dado errado, esta pessoa tenha ficado presa aqui, e, por alguns motivos a mais, creio que ela não tenha mais idade que eu.— concluí, finalmente olhando para trás, para ver o que estava fazendo, e vendo-te revirando algumas cortinas. Despreocupada, voltei meu olhar para onde estava antes.
— Decerto a senhorita não crê em espíritos, acertei?
— Espíritos...? Pode-se dizer que nunca fui levada a acreditar.
— Compreendo...— E novamente seu olhar se desfocou do meu e passou a te encarar, falando umas breves e inaudíveis palavras e suspirou— Por favor, peço que controle sua amiga.
Estranhei quando ele falou aquilo. Virei-me novamente, a tempo de te ver encontrando uma porta e abrindo-a. Até tentei te impedir, mas você já havia conseguido entrar, simplesmente correndo em disparada corredor adentro. E, logo quando eu iria te seguir, senti algo quente e líquido em uma de minhas mãos, justamente a que segurava a carta; mais uma vez uma havia tornado-se sangue. Uma vertigem forte me atingiu, mas tentei me manter de pé; não cairia dessa vez. Recuei uns passos e apoiei-me no sofá, balançando a cabeça para tentar espantar essa sensação, sem muito sucesso.
— Muito bem, digamos que a senhorita acertou o desafio, e como informei anteriormente, quaisquer dúvidas que possa ter serão esclarecidas. Apenas adiciono duas informações: terá um limite de cinco perguntas, podendo usar quantas precisar e não responderei sobre a punição, a qual a senhorita já foi informada. Pode começar.— Admito que isso foi um tanto quanto inesperado, mas era a chance que queria para esclarecer minha mente, o quanto der. Não daria para te procurar agora, ainda mais estando como me sentia. Decidi aceitar a preposta, então.
— O-o que mais me perturba no momento é como viemos parar aqui... Que lugar é esse?— Ainda estava um pouco desnorteada, mas a sensação não foi tão forte como da última vez. De qualquer jeito, me via obrigada a sentar-me novamente no sofá, e evitava perder o contato visual com ele.
— Com certeza devem ter estranhado acordar em um lugar tão diferente como esse. Mas não se preocupe, eu as trouxe assim que desmaiaram, e para tranquilizar-lhe, aviso-lhe que ainda estão no mesmo lugar de nosso primeiro encontro. Talvez não tenham enxergado por conta da escuridão da noite, mas essa habitação fica logo atrás de minha barraca. Algum outro questionamento?
— Sim. Quem está por trás disso tudo?
— Minha senhora quer que descubra por si mesma.— Já imaginava que receberia uma resposta assim, mas não pude deixar de tentar. E só restavam mais três perguntas...
— Pode deixar que definitivamente eu irei descobrir.— avisei, dando um riso forçado— E sobre minhas últimas perguntas... Como, ou por que, as cartas que recebemos estava com a aparência tão velha e se tornando sangue? Por que só eu consegui enxergar a poça naquele momento? E qual o objetivo disso tudo?
— Primeiramente, as cartas são todas são escritas pela minha senhora, a base de seu sangue e suas lágrimas. Quando não há mais razões para sua existência, é natural que retorne para seu ponto de origem. E talvez a senhorita só a veja por ter algum tipo de sensibilidade, e o objetivo é capaz de responder sem minha ajuda. Aqui me despeço, aproveite sua estadia.
Sinceramente, o que era para esclarecer minha dúvidas só serviu para plantar mais em minha mente, mas, no momento, só poderia me contentar com o que tinha. Observei-o sair pela escadaria detrás da estante ao nosso lado ainda sentada, para enfim recuperar-me por completo e começar a te buscar.
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