Rehabilitating A Heart
8 The two kings.
Notas iniciais
Antes que Stiles pudesse encontrar, Derek fechou seus lábios, se afastando um pouco. Não se beijaram. E aquilo suou ridiculamente estranho para o mais velho, mas Stiles não reclamou. Passou um de seus braços por detrás do de Derek, abraçando-se a um de seus braços, se aconchegando no ombro largo do rapaz.
Não podia entender o que havia acontecido ali, pela primeira vez em uma eternidade, Derek ficou tão próximo de alguém, sem sentir todo seu corpo repugnar o contato. Mesmo que amargasse em seu interior um possível arrependimento, estava aliviado por não ter ido além. Primeiro porque Stiles era de menor. Depois, porque o garoto parecia estar muito sensível, talvez o frio o deixou daquela forma. E por último, algo que não chegou nem a importar tanto, Stiles era um garoto. Observava-o, enquanto lentamente seu coração desacelerava e sua respiração diminuía. Caia no sono gradativamente, aos poucos.
Quando pensou melhor na última condição, se lembrou de Danny. Ethan. Pareciam felizes, a felicidade havia chegado para eles daquela forma, encontraram abrigo um no outro. Ao menos era o que Danny explicou para Derek, mais tarde, quando pegou o Hale tentado fugir de sua casa na madrugada. Claro que ele não se sentia confortável, e em sua cabeça, tudo que passava era que Danny poderia agarra-lo a qualquer momento, arrasta-lo para o quarto e assediar Derek junto de seu parceiro.
Mas o pouco tempo que ficou com eles, deu para ele um conceito diferente sobre Danny. Ele jamais o olhou com segundas intenções, mesmo quando entrava no quarto que Derek trocava de roupa para lhe dar roupas novas. Não avaliou seu corpo, mesmo que seu físico fosse algo que sempre atraísse olhares. Não apenas não demonstrava interesse, como também, não tinha.
A forma que falava de como Ethan era um total perdido no fim do colegial, e como foi difícil ficar longe dele enquanto se formavam em faculdades separadas. Não podiam manter um laço, como um namoro, afinal, eram alguns longos quilômetros de distância, mas mantiveram uma promessa. Claro, Danny ficou com outros caras, e Ethan também, e inclusive com garotas. Mas sempre que podiam, se encontravam. Todo dinheiro que sobrava, usavam para se encontrar.
E assim que se formaram, as coisas também foram difíceis. Seus pais deram um apoio, que somando os pais de Danny e os pais de Ethan era zero. Foram rejeitados por ambas as famílias. Com um escritório pequeno, Ethan manteve as coisas instáveis, enquanto moravam em um quitinete minúsculo. Logo depois, começou a ganhar nome e fama, por ganhar todos os casos. Então Danny finalmente conseguiu uma chance como enfermeiro. Inicialmente, como um ajudante de dentista, não era muito, mas o dinheiro ajudava. Depois, foi indicado pelo próprio dentista que ajudava, e então entrou em um hospital pequeno. Foi tão útil que conseguiu ser promovido para enfermeiro chefe e receber uma transferência para o hospital principal. O dinheiro aumentou também. Construíram uma casa da forma que queriam e sonharam. E agora, o hospital não é mais uma prioridade para Danny, que estuda medicina avançada. Quer ser um médico. Ethan também não parou como advogado. É promotor do Tribunal Estadual de Beacon Hills. Não quer parar por aí, quer se tornar juiz.
Aprendeu muito com Danny e Ethan. Principalmente porque, mesmo sem famílias ou dinheiro algum, conseguiram viver juntos e serem bons no que fazem, além de amar suas profissões. E principalmente, são felizes. Era difícil ter nojo de duas pessoas que o tratavam tão bem, embora ainda não se imaginar com uma pessoa do seu lado, Derek queria ser exatamente como Ethan e Danny. Felizes, acima de tudo.
Derek não tinha família. O que realmente aconteceu foi que sua namorada, Kate, não era um exemplo. Sua família era alguém com bastante status, então os Hales não se importavam do relacionamento dos dois. Porém, Kate tinha fortes pensamentos suicidas, sádicos e psicopatas. Ele levava tudo na brincadeira, embora lutasse contra o constante vício da garota em torturar pessoas, tanto psicologicamente, quanto com agressões. Kate fez com que a irmã de Derek, Laura, começasse a praticar bulimia, convencendo-a de que estava gorda. Entre outras coisas, como também colocar o senhor e a senhora Hale um contra o outro, fazendo-os acreditar que se traiam.
Mas nada superou o que aconteceu naquela noite. Depois de dopar todos com uma medicina muito forte colocada em um vinho caríssimo, a garota começou a incendiar a casa. Quarto por quarto, deitava cada um em sua cama e observava como todos gritavam, mesmo dopados, conforme as chamas devorava e desfigurava seus corpos. Como Derek havia bebido uma dose muito menor, já desconfiado, foi atrás da garota ao ouvir os gritos.
Chegou ao quarto de Laura, enquanto os demais todos pegavam fogo e testemunhou como ela abria o corpo de sua irmã, Laura, com um bisturi. Não sabia onde ela havia conseguido aquilo. Ela dizia “Derek, que bom que você veio me ajudar operar sua irmã”, enquanto abria o corpo da garota. Seus olhos brilhavam em vermelho escárnio enquanto as chamas começavam a tomar conta do quarto. Derek fugiu para um lugar abaixo do solo da casa, quase como um porão, porém de pedras, a casa tinha uma base antiga. Porém a fumaça e o calor eram insuportáveis demais. Desmaiou.
Acordou no hospital. E tudo que podia ver em todos os lugares, era a figura de Kate, apontando para ele e rindo, com seus olhos brilhando pelas chamas ao redor. Teve o primeiro ataque de pânico no hospital, onde adquiriu também fobia de hospitais. Foi levado para uma clinica de reabilitação psicológica. A imagem de Kate destroçando sua irmã não saia de sua cabeça, sempre que via médicos, era como se ela aparecesse atrás deles e gargalhasse de Derek.
Depois de um tempo, se recuperou bem. Mas não quis mais ficar naquele lugar. Descobriu que toda sua família morreu naquele incêndio, e que alguns foram abertos ou cortados, até mesmo Kate tinha sido cortada. Era tão louca aponto de cortar a si mesma, quando percebeu que não conseguiria pegar Derek também. Claro, os Argents nunca mencionaram nenhum comportamento estranho sobre Kate, era a garota loira e adorável que se apaixonou por um caso perdido, alguém perturbado, que assassinou todos, depois colocou fogo na casa e fugiu para o subsolo. Porém, pela policia e humanamente, era impossível que Derek tenha feito isso. Era uma peça de prata, um bisturi de prata. A família Argent fabricava artigos em prata. E depois de tudo, foi aberta uma tese sobre a garota. Porém não foi possível deduzir muito, já que ela tinha se suicidado com as chamas, morrendo queimada. Muitos detalhes foram perdidos. E a suposta inocência de Derek foi confirmada quando seus ataques de pânico o faziam gritar de medo, e um único nome o atormentava: Kate.
Claro que, para os policiais, ele podia ser um psicopata muito inteligente, bolando tudo isso e depois esse ataque de pânico com o nome da garota para jogar todo o peso de sua culpa pra cima dela. As evidências perdidas não podiam revelar o verdadeiro suspeito.
Já livre de seus ataques de pânico, porém com marcas profundas que talvez durassem toda sua vida, como sua fobia ainda não superada de hospitais, ele se viu livre. Porém alguém amaldiçoado. Não quis o dinheiro da sua família, e demorou longos anos para poder se chamar de Hale novamente. Mas, o tempo passou, ele ficou mais forte, aprendeu a viver nas ruas.
Agora, já estava em perfeitas condições, mesmo que seu choque emocional tenha sido imenso, mas decidiu por ele mesmo que começaria uma nova vida. O caso foi fechado como “acidente”, por influência dos Argents, pois sua força financeira não era pequena. Então, nem Derek e nem Kate eram culpados por aquilo. O sobrenome Argent era uma ferida dolorosa na vida de Derek, assim como Hale também.
Se sentia culpado pela morte de seus pais. Ele sabia que a garota não era normal. Porém, os poderes de persuasão de Kate eram incríveis. Usava seus doces olhos para enganar. Ele deveria ter desconfiado quando descobriu que ela misturou agulhas de prata na carne que deu para os cachorros da família. Eram o luxo dos Hale, três cães da raça ‘Pastor Alemão’, super dóceis. Todos morreram de hemorragia estomacal e intestinal, porém não chamaram um veterinário, apenas Derek sabia o que Kate havia feito, mas ela o convenceu a não contar nada.
Mesmo depois de bem recuperado desse pesadelo passado, desenvolveu uma camada grossa, que o protegia contra pessoas. Não as deixavam se aproximar. Várias mulheres olhavam para ele, porque sua aparência ajudava, mas nunca conseguiu ficar com nenhuma. Nem ao menos beija-las. Fazia tempo que não tocava uma mulher. Fazia tempo que não era intimo de alguém. E depois daquilo, seu coração nunca mais sentiu o calor de uma paixão. Somente o frio da prata, que parecia correr por suas veias ao se lembrar de tudo que acontecera.
Sobreviveu na rua. Embora nunca ter usado nenhuma droga. Uma única vez em sua vida, fumou cigarros. E foi no exato dia em que conheceu Stiles. Não conseguia suportar a droga em seu organismo, tentou usa-la para acabar com a dor, mas mentiu a pessoa que disse que, pelo menos no momento em que estava fumando, os problemas iriam embora. Convivendo com pessoas em estado decadente, ainda não era feliz com o rumo de sua vida, mas podia igualar sua dor a de alguém. Embora muitos se entregassem fácil demais. Chegou a roubar algumas vezes, mas apenas para comer. As drogas que vendia, eram apenas o que conseguia roubar de drogados que não se aguentavam mais em pé. Vendia para uns poucos que estavam desesperados por qualquer quantidade de qualquer qualidade.
Aprendeu o ‘idioma das ruas’, a desconfiar de todos. No fim, tudo que descobriu, foi que suas resistências aumentaram. Podia suportar o frio, porque estava acostumado. Podia suportar dormir em um lugar duro, porque estava acostumado. Tudo no fim se resumiu nisso: se acostumar.
Então, quando enfim achou que as coisas não mudariam muito, um garoto entrou em sua vida. Tão desajeitado quanto um dos drogados desesperados a procura da porcentagem de morte que adicionaria a seu corpo por alguns segundos de uma ilusão doentia, que viciaria, mas pelo menos daria alguns trocados. Entrou, como alguém perdido, com dores e cicatrizes abertas, porém invisíveis. E mesmo com medo, conversou. Alguém tão puro que, em todos esses anos, nunca havia experimentado essa pureza em estar com alguém.
As atitudes do garoto não provaram o contrário. No primeiro dia, dividiu seu alimento com Derek. E quando o Hale percebeu que estava se aproximando demais, tentou afastar Stiles a todo custo. Ele era sujo, esta corrompendo Stiles sem perceber. Tentou manchar de preto a alma branca e intocável de Stiles no momento em que lhe ofereceu um cigarro. Porém a resposta do garoto apenas confirmou o que ele temia: Stiles era totalmente limpo.
A tristeza que o garoto carregava tentava apaga-lo, mesmo assim, em momento algum ele parecia querer se render. Derek estava acostumado a ouvir de pessoas que se suicidavam por não ter drogas, por terminar namoro, por serem sozinhos, Stiles não pensava nisso. Ele continuava procurando uma saída. E quando não achou mais nenhuma, sentou e conversou com um estranho, contou parte de sua vida, ouviu algumas histórias e algumas mentiras, mas não desistiu.
Isso tudo mudou no momento em que ele deixou Derek caído. Mais uma mágoa foi tatuada em sua alma naquele momento. Mas foi apenas mais uma para coleção, ele pensava. Até o momento que com aquela, algumas outras começaram a sumir. Não doía mais que as outras, mas de alguma forma, as fazia parecer pequenas. Porém, há males que vem para o bem.
Danny então entrou em sua vida. Ele mal suportava a nova mágoa, então mal sentia as dores em seu corpo, mas doíam. Danny as cuidou, Danny o limpo, o banhou. Embora Danny fosse gay, provou ser também uma pessoa pura. Não deixou em momento algum Derek desamparado. Cuidou tanto de seus ferimentos quanto de seus medos. Arrancou do Hale os pontos inflamados da cicatriz onde tinha pavor de médicos. Com um cuidado especial, o levou para sua casa. E ele fugiu. Mesmo assim, fugiu agradecendo Danny por cada segundo que ele cuidou de Derek e dividiu com ele sua história. Uma história triste, mas uma pra coleção. Mas essa em destaque, revelou que a felicidade existe. Que contos de fadas nem sempre terminam em príncipe e princesas num castelo, para Danny, foram dois reis em seu reino.
E tudo retornava a ali. Quando fugiu, não fugiu como todas as outras vezes. Não se sentiu livre. Se sentiu culpado, iria preocupar quem se preocupava com ele. Então, quando pensava em talvez, mais uma vez, sumir de vez daquela cidade, ele foi salvo novamente por Stiles. De uma forma que nunca havia sido salvo antes.
Foi singelo, foi simples. Mas foi salvo. Stiles estava bem melhor dessa vez, ele conseguia sorrir. Ele conseguiu apagar a mágoa da alma de Derek. A mesma mágoa que havia o salvo das outras antes, que fez todas as outras dores parecer pequenas. Apareceu, e dessa vez, não foi embora. Mesmo que isso significasse que ficasse sem um teto, mesmo que ficasse ali, sem comida, ou nada, ele não deixou Derek sozinho. O salvou de novo.
Ele havia aprendido a nunca dever ninguém. Porque nas ruas, se você não paga suas dividas, você morre. Simples assim. Mas Danny não cobrou nada. Stiles não apenas não cobrou, como sem perceber, deu muito mais do que recebeu. Era como se cada palavra fosse um curativo, e todas juntas fechassem uma ferida. O passado ainda existia, e ele ainda não tinha coragem para falar sobre. Mas parecia que a tempestade passou. Passou e onde antes havia um rastro de florestas partidas e destruídas, agora novas árvores nascem. Árvores de esperança.
Agora estavam ali, em um abraço quente, combatendo juntos a madrugada fria, conseguindo um calor que ele nunca antes foi capaz de conseguir com Kate. Conseguindo a proximidade que por anos não conseguiu ter com ninguém depois dela. Pondo abaixo todas as suas armaduras. Ainda tinha um passado para enfrentar, e mesmo que ele quisesse que não, o passado ainda existia. Mas agora, era velho e fraco. E Derek, novo e machucado. Mas com Danny, curado. E, com Stiles ele era forte contra o que ficou para trás.
Talvez ele jamais pudesse conseguir um novo começo. Mas uma certeza ele tinha, ele podia mudar seu final. Danny pode, porque ele quis. Ele também queria.
Stiles estava com seu celular nas mãos, segurando fraco, quase o deixando cair. O abraço no braço de Derek também não tinha mais tanta força, apenas se apoiava nos braços do mais velho para não cair para o lado. Havia uma densa neblina cobrindo as árvores. E o mais velho podia sentir o frio. Porém, estavam quentes, apoiados um no outro.
Com cuidado, moveu seu braço e pegou o celular de Stiles. Olhou as horas. Passava das sete da manhã. Haviam passado uma noite todas juntos. O céu estava da mesma cor que a neblina: branco. Como se as nuvens tivessem caído sobre eles durante a noite. Colocou o celular no bolso da blusa vermelha de Stiles e começou a, com todo cuidado do mundo para não acorda-lo, sair daquele abraço. Assim que conseguiu, apoiou o corpo de Stiles até que ele encostasse na árvore, de forma que não caísse.
Se levantou e começou a andar, procurou não olhar para trás. Mas não conseguiu. Olhou. Sorriu para a figura do menino que deitava naquela árvore. “Vamos ser sozinhos juntos”, ele se lembrou. Voltou até o garoto, e observava a forma como respirava. Uma ‘fumaça’ branca saia a cada vez que ele respirava, por causa da neblina. Começou a tirar sua jaqueta de couro. Era a que Danny havia lhe dado, por dentro era forrada com um tecido suave e que esquentava com facilidade.
Cobriu com cuidado o garoto adormecido, deixando sobre ele sua blusa de frio. Seu cheiro. Seu calor. Não se arrependia de ter passado aquele tempo com Stiles. E se o destino permitisse, ainda queria encontrar o garoto pelas curvas da vida. Porém, ainda não estava pronto para deixar que o garoto o visse daquele jeito. Não estava pronto para deixar que alguém o siga, enquanto ele mesmo não tinha direção.
Saiu rapidamente dali. Sabia para onde tinha que ir. Naquela noite, foi como se pudesse reviver toda sua história. Sabia o que tinha que fazer, o que era bom pra ele. Os fantasmas do passado não faziam-se mais tão presentes em sua vida. Caminhou pelas ruas até parar na porta de uma casa. Não foram preciso mais que duas batidas para porta se abrir em seguida.
– Derek! Meu Deus! – Danny disse o puxando para dentro da casa. – Eu esperei você voltar a noite toda. Eu fiquei preocupado.
– Eu lembrei que você teria problemas se eu saísse antes do tempo... – Derek disse baixo, quase rouco.
– Pronto, agora também está resfriado – sorriu colocando o dorso da mão sobre a testa de Derek, sentindo como estava fria. – Não era por isso que eu estava preocupado, sim com você. Ethan também. E se você não quiser falar sobre seu passado, tudo bem...
Ethan chegou em seguida. Sorriu para os dois. Ele estava com um roupão. Um dos que estavam atrás da porta do banheiro que Derek viu da primeira vez. O preto.
– Que bom que decidiu voltar – comentou. – Olha, se não quiser, não precisamos mexer com nada do seu passado. Não precisamos falar sobre isso, nem nada. Só saiba que você pode contar comigo para te ajudar com isso quando quiser. Seus bens e tudo mais – Derek olhou para baixo, mas sorriu meio triste. Assentiu com a cabeça.
Ambos, novamente, acolheram Derek em sua casa. Os dois reis em seu reino. Derek sorriu, olhando para Danny e Ethan se abraçando enquanto subia as escadas. Eles eram pessoas boas. E em algum canto de sua memória, pode lembrar de Stiles. Pensou no garoto, mas não se arrependeu de ter deixado-o lá. E em seus pensamentos, ambos sorriam, assim como os dois reis que o olhavam subir as escadas.
Fale com o autor