Redenção De Sangue: “A Maldição Do Herdeiro”.
3 III: "A nova criatura."
Notas iniciais
“Enigma perfeito, maligno feitiço.”
Não se deixe iludir pela contemplação dos olhos que te encaram tão místicos divergentes entre o azul e dourado. Olhos de feitiços sublimes, mas devastadores. Lábios de falar encantos, de onde escorre o mais doce néctar do dessabor da morte.
Não se deixe enganar pelo toque suave das mãos, nelas descansam a inércia letal das almas malditas que o seu afago aceitar.
Não se deixe acreditar nas verdades tão plenas que seus lábios contarem, eles metem com tal honestidade, que te fazem acreditar que em toda a sua verdade, você é o enganado.
Não confie no bem de procedência nefasta.
Príncipe de ascendência maldita, que nas veias corre, junto com sangue, heranças funestas de força implacável, destruição em sua mais legítima potência.
MÉDICI, Davina Eleonor.
“Fenômenos inexplicáveis.”
O dia nascia ao longe, espreguiçando-se por entre as árvores frondosas, Klaus abriu os olhos incomodados com a luz intensa. Sentia todos os seus ossos e músculos doerem. Estava deitado sobre um manto de galhos, ramos e folhas mortas, o cheiro do húmus invadindo seu olfato. Levantou-se lentamente, observando a paisagem a sua volta, surpreendendo-se ao perceber que não mais se encontrava em casa, e provavelmente nem em New Orleans. Levantou-se com dificuldade, sobressaltando-se ao lembrar-se do que ocorrera á pouco, as imagens da garota definhando em seus braços passavam como flashes diante de seus olhos, fazendo-os fecharem-se repentinamente.
Parou por um minuto, havia algo de muito familiar naquilo tudo. Fosse o cheiro de pinho e terra úmida, ou a maldita sensação de que já estivera ali, embora a lembrança parecesse ser de muitas vidas passadas. Ouviu a risada infantil ecoar pela mata, os passos ressoando em meio ao vento que balançava as copas verdejantes e imponentes. Buscou por quem provocava tais sons, mas não havia ninguém ali. Então se virou em um apto instante ao sentir a presença alguns passos atrás de si, correndo em sua velocidade vampírica para não o perder de vista. O susto fora inevitável ao depara-se com a pequena criança diante de seus olhos.
A figura era pequena, no auge de cinco ou seis anos no máximo, vestia calções curtos, em azul marinho e meias ¾ bem esticadas, perfeitamente simétricas, os pés calçados em sapatos de couro negro, habilidosamente lustrados. O suéter cinza por dentro das calças, as mangas longas eram divididas no punho por duas faixas azuis, assim como a gola. O lenço bem dobrado enredava o fino pescoço, como um lorde inglês. As golas da camisa branca, perfeitamente engomadas estavam á mostra sobre o suéter. Os cabelos castanhos bem cortados e penteados, moldados sobre a cabeça, o topete levemente levantado. A criança de pele alva tinha o rosto bem traçado, o nariz aquilino e a boca pequena de lábios irreverentes em um sorriso torto no canto esquerdo combinado com as covas nas bochechas, o conjunto só não era mais perfeito devido aos grandes olhos em uma cor indecisa entre o verde marinho e o âmbar felino que acabavam por serem desproporcionais e desarmoniosos ao rosto de feições suaves.
A criança em um todo era bonita e de aparência sadia, parecia ter surgido de uma pintura renascentista de tão enigmáticos que eram sua presença e expressões. As mãos dadas nas costas, balançando o corpo num ritmo suave e lento, apoiando-se nos calcanhares e depois nas pontas dos dedos, num vai e vem que antes tão monótono e entediante. Agora executados pela fascinante criatura, tornavam-se atrativos e magníficos.
Klaus mantinha-se estático, seus pés não respondiam. Mas tão longo entreabriu os lábios para falar, a criança moveu-se, colocando o dedo indicador sobre os próprios lábios, a língua fremindo em um chiado sonoro. Klaus não conseguindo desobedecer ao encantador ser, aquietou-se no lugar, indagando-se de porque diabos não conseguia libertar-se do feitiço causado por tão pequeno místico?
Olharam-se por alguns segundos, Klaus guardando o máximo possível de detalhes de seu fascínio maior, nada, nunca em toda a sua vida lhe prendera de tal maneira, nem a amada Caroline que lhe era a humanidade e coração, nem os irmãos que lhe eram a carne, sangue e alma, muito menos a imortalidade e poder ilimitado que tanto almejara. Nada em todos esses anos lhe captou tanto a “paixão”, sim, encontrava-se em um estado de paixão. Onde nada mais importa, além de dedicar eterna adoração ao seu obtentor de perfeição e magnificência. Nenhuma pessoa, objeto ou desejo nunca arrebatara seus sentidos da maneira absoluta com que aquela criança o fazia. O tempo arrastava-se sonolento e preguiçoso, parecia quase inconsciente de seu posto, parando nos entreveros do cosmos, apaziguando o sol que se apressava em cumprir sua missão.
Klaus também se impacientava de sua situação, estátua de carne e osso, sem púlpito ou pedestal, com apenas um observador, esse muito volúvel e dispersivo distraia-se com extrema facilidade deixando-se levar pelos sons inconvenientes do bosque que os circundavam, olhava para as copas cheias e verdejantes buscando por passarinhos ou qualquer outro sinal que nunca alcançava, Klaus sabia disso devido ao olhar descontente e frustrado que o menino direcionava aos sapatos que subiam e desciam seguindo o balançar do tronco.
Depois de mais alguns incontáveis minutos Klaus não pôde mais controlar seu ímpeto, havia tantas duvidas a serem feitas ao menino e a si mesmo, por fim constatou que não gostava de esperar por atitudes que nunca chegariam. Moveu-se de seu estado catatônico, arrependendo-se ao ver a criança assustar-se com sua aproximação repentina. Os olhos cresceram ainda mais sobre a face miúda, os lábios contraíram-se em um quase bico, as sobrancelhas louras curvadas para baixo, dando a ele um tom inquisidor em meio a tanta fragilidade e inocência.
Klaus balbuciou um pedido de desculpas tão culpado e arrependido que chegava a ser indigno de si mesmo, preferiu calar-se antes de constranger seu pequeno fenômeno.
Manteve-se estático pelo que lhe pareceram anos, e se ele fugisse como todos? Como sempre fazem todos que despertam algo de bom em Klaus, como Caroline, Elijah ou Rebekah, e se ele lhe julgasse um monstro como fez Esther? E se ele fosse como todos? As indagações lhe tomavam de assalto com raios tempestivos, assombrações malignas.
Não se atreveu a um movimento sequer, algo dentro de si retorcia-se só de imaginar-se sem sua pequena maravilha. Aquela visão que lhe causava toda a sorte de sentimentos esquecidos a muito, ou simplesmente nunca conhecidos. Que lhe atraia ao seu manto hipnótico lhe roubando a logica e experiência, talvez devesse fugir, ou atacar, mas só de imaginar tais possibilidades suas entranhas queimavam em brasa, afirmando que nada nesse mundo lhe seria mais benigno do que estar próximo daquela adorável criatura.
A distância agora era questão de passos, assim de perto Klaus pôde observar melhor a criança que aos poucos ia acalmando-se a sua frente, antes de postura ereta, agora tinha seus ombros arqueados em receio, o cenho ainda franzido embora nas sobrancelhas já não houvesse mais curvas, havia algo de tão familiar naquele menino que Klaus duvidou de que não já o conhecesse, mas nunca vira tal criança em sua vida, se já tivesse visto teria notado, algo tão excepcional nunca passaria ignóbil aos olhos de um artista, sendo como a obra genial que era.
E então em um estalo, tudo veio, em turbilhão insano, uma explosão de pensamentos embaralhados, chocando-se, estilhaçando-se, destruindo-se na busca pela única linha de raciocínio concreta que se formava nas sombras da mente do hibrido. Como uma colisão de estrelas que dispersa trilhões de toneladas massivas de energia em sua mais ampla magnitude, Klaus teve que fechar os olhos para reprimir os flashes ofuscantes que lhe cegavam a lógica, deixando perdido.
Despertou de seus devaneios abruptamente, fitando a criança a sua frente, sustentando sobre a face pequena um olhar incrédulo, a forma mais intensa do ceticismo, aquele que não crer no inegável.
Seu corpo arrepiou-se como não lembrava que podia, ao perceber que estava ali, nos traços ainda discretos do queixo infantil, nas linhas fiéis do nariz arrebitado em uma altivez um tanto quanto arrogante que só podia ser de herança, nos lábios de sorriso torto e irreverente até mesmo diante do desconhecido, mas acima de tudo nos olhos amendoados que eram completamente iguais, em uma identidade que só se passa pelo sangue, pela carne.
Klaus sentiu seu corpo estremecer ao sentir uma vontade arrebatadora de tocar a tal criatura que agora já não era estranha para si, era até familiar demais.
Ao poucos vencendo o receio do medo que poderia causar, o hibrido estendeu a mão esquerda lentamente, mantendo-a em uma altura razoável, aguardou alguma reação do menino que o olhava intrigado. Até que finalmente o pequeno pareceu compreender o pedido, em uma lentidão que para Klaus pareceu desesperadora, o bracinho trêmulo ergueu-se até que as mãos estivessem paralelas, Klaus aguardou que ele definisse a aproximação, embora sua vontade fosse envolver seu pedaço de céu em seus braços em niná-lo pra sempre.
“Vínculo perpétuo.”
As mãos encostaram-se finalmente, num roçar delicado, cheio de apreensões e segredos inconfessos, desejos adormecidos por anos que despertavam agora em um rompante incontrolável, inundando o peito do hibrido de sentimentos confusos embaraçando-se entre si e uns com os outros, surgindo em explosões celestiais, como corpos celestes incandescendo seu poder magnânimo sobre a alma quebrada de Klaus, um bálsamo regenerador sobre suas feridas em brasa que estraçalhavam seu ser, até só resta miséria e agonia.
A criança o fitou profundamente, como se pudesse decifrar o que até mesmo Klaus desconhecia. Os dedos pequenos próximos a mão adulta pareciam frágeis e quebradiças, mas havia tanto poder emanando daquele pequeno ser que Klaus acreditou ser ele o fraco ali, diante da figura pequena de importância inimaginável.
De repente num ímpeto de arrependimento, dor e ao mesmo tempo realização, Klaus deixou seu corpo sucumbir ao peso de toda a sua insignificância diante do quanto àquela criança representava para si. As lagrimas correndo pesadas sobre a face, desabou de encontro ao solo úmido, firmando-se, a custo, nos joelhos, os dedos agora entrelaçados aos do menino que não parecia surpreso á reação do homem diante de seus olhos.
O corpo pequeno moveu-se devagar, diminuído ainda mais a distancia entre os dois, tão próximos e tão distantes ao mesmo tempo. Klaus tremia, engasgando-se com a mistura de choro e voz que travavam sua garganta. –Me perdoe... – Murmurou estremecendo ao sentir os dedos pequenos lhe afagarem o rosto. –Eu falhei com você, me perdoe. – a voz do hibrido soou em uma suplica desesperada, como se o perdão da criança fosse lhe salvar de algum mal eminente. O hibrido acariciou delicadamente os dedos pequeninos sobre sua face, como se aquele toque fosse a cura para todos seus males.
Havia o tempo suspenso, o curso de um rio interrompido, o vento extinguira-se por completo, por longos minutos, ali não existia nada além de pai e filho, em completo silêncio fazendo todas as confissões que uma alma pode ter guardada em si durante mil anos de existência.
Klaus aninhava o menino em seus braços com tanta firmeza que parecia querer fundir-se á sua tão adorada criatura. As lágrimas lavavam sua face e sua alma, absolvendo-o de todas as suas sentenças proferidas pelos juízes cármicos do universo. Poderia permanecer toda a eternidade ali, com seu menino mudo e quieto, ninando-o em um balanço lento e vicioso, mas tão abrasador e gratificante que Klaus perguntava-se como vivera tão tempo sem tal sentimento. Mas como todo sonho bom, o despertar vem nos roubar nossas alegrias como um carrasco cruel que interrompe vidas inocentes e precoces, toda a tela quebrou-se em um súbito segundo, a criança mais ágil do que Klaus imaginara, desvencilhou-se de seus braços depressa, e mais depressa ainda dirigiu seus pequenos passos para distante do hibrido. –Hey, espere. Aonde você vai?- Klaus levantara-se o mais rápido que seus sentidos ainda aturdidos permitiram, andando em uma meia corrida para alcançar o menino que tinha passos espaçados e ligeiros. Klaus interpelou seu caminho, percebendo a inquietude em sua expressão, medo impregnado nas íris de mel. –Não vá embora. Fique comigo. — Klaus interviu ao notar o menino inquieto, tentando livrar-se do obstáculo que impedia seu prosseguir. Os olhos quase dourados devidos os fagos de luz que chocavam-se contra a íris castanha, encararam o hibrido de maneira incisiva, não havia mais sequer um resquício de toda aquela doçura e inocência de pouco tempo atrás. Havia uma voracidade, como se estive pronto á esmagar todo e qualquer um que atravessasse seu caminho. Klaus mais do que nunca reconhecera os legados sanguíneos presentes na criança, as segurança e força de Elijah, a teimosia de Rebekah e impaciência de Kol, além da malícia de Heyley e o que mais se exaltava neste momento, sua própria ferocidade representada na pequena criatura de olhos vorazes a sua frente. – Eu estou com você, papai. – a ultima palavra dita fizera o peito de hibrido apertar-se em desespero, por saber que aquilo não passava de um sonho, um tão lúcido e vívido sonho. – Estou sempre com você, onde quer que vá eu estarei junto. Porque eu sou parte de você. Sempre. – A criança apertara a mão de Klaus entre as suas, em gesto de despedida. –Mas por que tem que me deixar assim, ás presas? Está fugindo de algo... Alguém? – Indagou o hibrido ao perceber o nervosismo do menino que olhava para todos os lados, como que receando estar sendo vigiado. –Está muito acima de você, de todos vocês. – Afirmou o menino sem interromper sua caminhada acelerada. – Hey, espere um pouco. Eu tenho perguntas a fazer. –afirmou o hibrido parando a caminhada, esperando que o menino fizesse o mesmo, o que aconteceu a seguir fora o contrário, sem sequer olhar Klaus por uma ultima vez, a criança saiu em disparada, mais rápido do que um humano e mais lento que um vampiro. Klaus acabou por fim, perdendo a o resquício de paciência que existia em si. Utilizando sua velocidade sobrenatural, interpelou o menino, pondo-se a frente de seu caminho, fazendo-o desequilibrar-se devido o impacto da parda súbita. –Aonde você pensa que vai? – Klaus indagou, segurando firmemente pelos ombros, mas sem exceder na força. A fúria estampou-se no rosto do menino, o corpo pequeno debateu-se, tentando desvencilhar-se do aperto que o impedia de continuar sua fuga. – Solte-me! Agora! – Mas você não compreende, não é? Pra você o que é compreensível é a força, a brutalidade. Solte-me agora. – não havia sequer uma fagulha de infantilidade naquela criatura, lembrava em tudo um adulto encolerizado e arrogante. Os olhos faiscaram ardilosos, desviando-se repentinamente á um canto inespecífico do bosque. –você tem que confiar em mim. Eu só quero protegê-lo, mas se você nunca intende a sutileza, seremos rudes. – A voz incisiva soou aos ouvidos do hibrido que se mantinha em silêncio, buscando decifrar os enigmas contidos naqueles olhos de beleza vulgar e ao mesmo tempo fascinante.
Um estrondar alto ecoou por entre as arvores, como uma grande explosão, fazendo o chão vibrar e os pássaros revoarem assustados. – O que foi isso? – Indagou Klaus direcionando o menino para trás de si, em um gesto institivamente protetor. –Você definitivamente não vai querer saber. – Afirmou o menino com a voz pesada e os olhos atentos. –Vamos! Você tem que ir. Agora!- a voz infantil soara grave demais para a estatura de seu dono, o menino segurou firme a mão do hibrido, guiando-o mata adentro, enquanto os estrondos intensificavam sua potência e diminuíam a distância dos dois. Klaus deixou-se levar por alguns metros enquanto calculava as possibilidades daquilo tudo não passar de um sonho provocado pelo excesso de álcool. Se estava sonhando o que deveria temer? Se se tratava de um sonho, porque aquela criança lhe parecia tão real? Klaus estancou seus passos abruptamente, fazendo o menino encara-lo com os olhos raivosos. –Vamos! O que está esperando? – indagou a criança, já demonstrando uma profunda impaciência. –Eu não pretendo ir a lugar algum antes que me diga o que é você e o que é aquilo. – apontou para o lado do bosque de onde vinha o barulho. – Onde estamos e porque estamos fugindo. – Klaus fora incisivo, as palavras soaram firmes, os olhos verdes desafiadores, não iria a lugar algum sem que soubesse o porquê de está indo.
–Você não intende, eu não tenho respostas para suas questões. Eu simplesmente não tenho. Agora venha, por favor, você não pode ser visto. Será o seu fim... O meu fim. – O menino parecia cansado a essa altura, uma frustração quase imensa de mais se apossando de suas feições, arrependimento e culpa emanando dos grandes olhos, como se houvesse cometido o grande erro do qual ainda não podia arcar com as consequências. Klaus não compreendia, se aquilo eraseu sonho, porque ele não podia comanda-lo, era simplesmente desejar que acabasse que tudo findaria num piscar de olhos, despertar para os vampiros é anos luz mais fácil do que para um humano, então porque ele, o hibrido original não conseguia liberta-se daquele pesadelo que já se tornara perturbador em demasia.
–Você... Você pensa que está sonhando, não é? È isso! – O menino constatara extasiado, como quem faz uma nova descoberta cientifica. Os olhos iluminados com a nova conclusão, enquanto preocupados com seu significado. –Ora, não vai me dizer que tudo isso aqui é real? Eu estava em New Orleans, trancado numa biblioteca escura, me afogando em uísque, às duas horas da madrugada. –Havia deboche e descaso na voz do hibrido. – Oh, não, não. Você me trouxe aqui voando graças ao pó das fadas, pra uma criança que ainda nem nasceu você anda lendo muito conto infantil. – O menino mantinha-se impassível diante da zombaria do hibrido, o que fazia Klaus parecer um tanto quanto miserável em seu humor amargo e inapropriado. –Não seja estúpido, você não está aqui em matéria, só em espirito. De alguma maneira eu te trouxe até aqui. – O menino mantinha a expressão séria, compenetrada em outra direção, falava ao hibrido como se estivesse discursando ao léu, os olhos estreitaram-se em direção á uma parte mais densa da floresta. –Por aqui, venha! – Ordenou segurando o braço de Klaus que parecia alto de mais próximo à estatura pequena da criança, que de criança só tinha o tamanho. –Eu não vou a lugar algum com você, seu demoniozinho traiçoeiro. – Klaus afastara-se do toque do menino com um safanão que o fez tropeçar e por pouco não foi ao chão. –Me diga o que você é, criatura medonha. Mostre-se como você é realmente, porque criança você não é. – Klaus já esbanjava fúria, aquilo estava se tornando enfadonho, quando num instante inesperado, o barulho de madeira partindo-se, o choque de folhas e galhos encontrando-se com o solo se fizera audível ao que pareciam cinco ou seis metros de distância dos dois que se entreolharam indagativos. –O que é aquilo? Diga-me o que está nos perseguindo! – Klaus indagou num brado ressoante como um rugido ferino. –È o nosso fim, isso... Satisfeito? Eu disse para fugirmos enquanto havia tempo, mas você não me ouviu. Como sempre, você não ouve ninguém além do seu maldito orgulho. – respondeu o menino indignando-se. –Agora ela vai aprisionar você aqui, pra sempre. – Continuo com o discurso, havia tanta cólera nas palavras que fez a criança franzina adquirir a energia de uma fera selvagem, como afinal era por dentro, em sua carne, em seu sangue, em suas heranças funestas.
Não havia mais tempo para fugir, o que quer que os estivesse seguindo, acabara de encontrá-los e vinha com sede de destruição, devastando a mata no caminho de seus passos, partindo arvores centenárias como gravetos, tal como os gigantes ferozes faziam nas epopeias literárias de séculos atrás.
Não havia mais escapatória, a única saída seria enfrentar a fera, monstro por monstro, Klaus não se renderia sem lutar.
_Você tem que continuar, eu vou distrai-lo, vá! – Klaus ordenou para o menino que o olhava confuso. O barulho se tornara mais intenso, fazendo os gritos do hibrido se perderem no caos sonoro que se instalara.
Finalmente compreendendo o que estava sendo dito, o menino moveu-se, mais ao contrario do que Klaus imaginava, ele não fugiu, dirigiu a ele lentamente, estendendo a mão esquerda para tocar o rosto do hibrido que não compreendeu de imediato o que estava acontecendo. Mas aos poucos, como que por impulso natural, curvou-se para que seu rosto estivesse ao alcance da mão pequenina. Mesmo contrariando tudo que já havia dito e pensado anteriormente, seu peito acalmava-se, mesmo diante do perigo eminente que se anunciava, diante daquele ser tão pequeno e ao mesmo tempo tão grandioso, Klaus se sentia capaz de derrubar o poder que fosse, para proteger seu pequeno homenzinho, feroz como um lobo, manso como um cordeiro, puro como uma virtude, intenso como um pecado, adorável como um anjo, enigmático como um demônio.
Sentiu os dedos pequenos tocarem-lhe a jugular, comprimindo a traqueia, causando um incômodo, não tanto a ponto de sufocar, mas a ponto de fazê-lo querer quebrar o pescoço da criatura que o causava. Sentiu suas pernas falharem, indo de encontro ao chão, o tronco desabou sob o peso da inconsciência, mas ainda pôde ouvir a voz melodiosa emersa em pesar: – Perdoe-me, mas você não vai se lembrar de mim. Ainda não está pronto. O corpo de Klaus desfez-se como fumaça, desaparecendo rente ao solo, como se sua matéria fundisse ás folhas secas. A alguns passos do menino que permanecia de cócoras, podia se ver as árvores avultosas abalar-se sob uma tempestiva ventania, o céu escureceu tal com fosse noite e então... Klaus despertou atordoado.
Nos próximos capítulos...
– Se ainda quiser ver o corpo da sua irmãzinha querida, Niklaus.
Venha até mim... Temos negócios a tratar. – a voz de Leah era mais familiar do que Klaus desejava que fosse... Iria até Amsterdã, precisava reparar seus erros para com Rebekah, devia isso á sua família... Ao seu filho.
Notas finais
O nome do menino é Hellius, mas como o Klaus ainda não o nomeou, o nome não é citado. Sobre a imagem dele, pense em uma versão em miniatura do ator Douglas Booth. http://www.google.com.br/imgres?imgurl&imgrefurl=http%3A%2F%2Famanheceremparis.blogspot.com%2F2012%2F07%2Fdas-coisas-que-embelezam-o-mundo-2.html&h=0&w=0&sz=1&tbnid=Cp2J8pUWZL
Com a pequena alteração de que o Hellius tem os olhos grandes como os da mãe (Heyley).
Segunda observação sobre o Hellius: A representação dele foi inspirada no livro O Pequeno Príncipe.
Para quem já leu fica fácil identificar as semelhanças entre os dois meninos, pra quem não leu: O Hellius não gosta de responder perguntas... Fala muito pouco e muda de personalidade com extrema facilidade.
Mais uma observação: nesse capitulo em questão, o Klaus vai parecer menos Klaus. Mais emocional e muito comovido. Acalmem seus ímpetos assassinos, ele não amoleceu. Apenas está sob o encanto da lua de Édipo o vinculo magico muito comum entre lobisomens. Durante as gestações as mães sonham com seus bebês, e para elas é a imagem personificada da perfeição e divindade. Mas isso passa logo que as crianças nascem.
Mas como estamos tratando de um legítimo filho da lua, nascido de duas linhagens, ele exerce esse encanto sobre todos os que o cercam, ou seja, todos que moram na mansão.
Mas com os pais isso é mais intenso... Por isso o Klaus está assim.
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