Redenção De Sangue: “A Maldição Do Herdeiro”.
1 I: "O coração do Herdeiro."
Notas iniciais
“Vampiros podem ser eternos, mas somente as lendas são imortais.”
Lendas são convicções, ações, muito mais que historias, fazem a História. De um povo, de uma cultura, de uma religião, de um mundo. Toda criatura sobrenatural já ouviu pelo menos uma vez sobre a lenda que é Klaus Mikaelson, das criaturas a mais poderosa, mas também a mais hedionda. Dos originais, o mais temido e também o mais odiado. Aquele que contrariou o tempo, sendo eterno. Que subjugou o medo, sendo intocável. Que desafiou a morte, sendo imortal. Que renegou a natureza e sua ordem, Klaus é a nova ordem. Um vampiro que não teme o sol, um lobisomem que não se submete á lua. A nova criatura “O híbrido”. Metade vampiro, metade fera. O primeiro de sua espécie. Renegado pelo ventre que o gerou, odiado pelo mestre que o educou, traído pelos irmãos que lhe juraram lealdade. O fracasso da nova linhagem que negou seu sangue. Cego pela sede de poder, em sua incansável busca por algo que não pode exigir dos outros, por não ter si. Amor.
Tentando desesperadamente juntar os cacos do mais próximo que teve de uma família. Irmãos mortos, ainda vivos, em caixões, mas nunca enterrados, levados aonde quer que fosse. Talvez pela ilusão de ter algo á que cuidar além de si mesmo, medo da solidão ou somente um sórdido desejo de ter controle sobre aqueles com quem se importa e diz amar ou ame, á sua maneira.
Durante toda a sua vida, tudo que Klaus quis fora uma família que lhe fosse leal e que o amasse incondicionalmente, talvez agora ele o tenha. Com a chegada de um filho, algo milagrosamente aterrorizante, irreal, inacreditável e todas as palavras que possam denominar a impossibilidade de sua existência, mas ainda assim a criança vive.
Sophie Deveraux.
“Pulsar incômodo.”
Klaus mantinha uma expressão séria, compenetrada, embora seu olhar aparentasse estar meio perdido, distante. Talvez estivesse com Caroline, em Mystic Falls, onde parecia ter deixado um pedaço de si, ou em qualquer outro lugar, menos ali. A chama tremeluzente da lareira iluminava fracamente o lugar, dando ao espaço um ar ainda mais sombrio e solitário, assim como a alma do hibrido.
A mansão nos jardins franceses no quarter 24 era a maior do quarteirão, luxuosamente adornada por um belo gramado, jardins bem cuidados e um campo de bromélias quase em floração, seria um lugar lindo, adorável de se morar. È. Seria se não fossem pelas complexidades da família que nela vivia. Se é que se pode chamar de família um grupo de conhecidos que mal se falam. Rebekah tinha razão no que dizia: “Eram estranhos conhecidos, dividindo uma linha de sangue.”. A sala ampla era finamente decorada, mantendo um estilo clássico, com mobília luxuosa em madeiras nobres, quadros pintados por Klaus decoravam a parede principal, dois grandes sofás no centro da sala, um hall de entrada dava para a imponente porta de ébano. Klaus observava cada detalhe do lugar que exalava o bom gosto e sofisticação de Elijah por todos os lados. O original mais velho fizera todo o necessário para que a casa fosse a mais perfeita possível para os três moradores: Klaus, com seus quadros espalhados pela casa e um grande estoque de vinhos e uísques na adega. Rebekah, que embora não morasse ali, tinha seus jardins de bromélias e tulipas que a vampira tanto amava, além de diversos vasos espalhados por toda a casa com narcisos, jasmins e madressilvas, elegantemente dispensados pelos cômodos e por fim, Elijah e sua biblioteca monumental com algumas dezenas de clássicos literários, além das maiores relíquias que o irmão mais velho poderia ter: Os diários da família Mikaelson, ordenados por cronologia de nascimento: Finn, Elijah, Klaus, Kol e Rebekah, guardados em um compartimento secreto, que por ser secreto, todos os moradores sabiam onde ficava, mas ninguém tinha coragem de lê-los, todos ali já tinham seus próprios demônios em quantidade suficiente para não quererem se aventurar com os dos irmãos, sendo dois deles já falecidos.
E eram esses demônios que assombravam o híbrido original nesse momento. Família, ou a amargura de não tê-la. Levantando-se da poltrona suntuosa em que estava assentado há algumas horas, dirigiu-se ao bar, servindo-se de uma quantidade significativa de Bourbon, sorvendo todo o conteúdo do copo de uma única vez. Os olhos apertaram-se, o líquido pouco afetara seu paladar, estava desenvolvendo tolerância, o incômodo viera de outro lugar. Um momento de concentração, apurando os ouvidos para capitar melhor os sons envolta, pode ouvir ao longe a misturas de vozes, ritmos e barulhos que era o quarter Francês. Mas o som que o incomodava de nada tinha haver com a badalação noturna da cidade. Era sutil, imperceptível aos ouvidos humanos, porém, gritava aos do hibrido. E estava perto. Perto de mais. O som de pulsar foi se formando aos poucos e de um leve sussurro tornara-se um ressoar abafado, mas ainda assim potente e vigoroso. Klaus perguntava-se como algo tão pequeno e frágil podia ter um coração tão forte e rápido? Seria isso tudo pressa de vir ao mundo? Seria essa força toda, vontade de viver? Klaus não gostava de se pegar pensando na criança, mas ultimamente isso se tornara impossível.
Heyley se mudara para a mansão Mikaelson há duas semanas, desde que Marcel havia fechado ainda mais o cerco contra as bruxas, o que poderia oferecer perigo á jovem e consequentemente ao bebê. Desde então, Klaus tinha que dividir o mesmo espaço com a garota e principalmente, com seu ventre palpitante. Não suportava o som daquela criança buscando tão desesperadamente por vida, para quê? Para sofrer nesse mundo, tendo sua existência amaldiçoada e vazia? Definitivamente, Klaus não gostava da ideia de ser pai. Aquela criança era fraca, frágil e desprotegida. Era um ponto fraco, uma brecha na invulnerabilidade de seu poder e isso não era algo a ser apreciado por um rei em busca de recuperar seu trono. Todavia, Elijah lhe dissera que família é poder e sangue é eterno. E Klaus querendo ou não, gostando ou não. A criança era sua. Seu sangue, sua carne, seu filho, Família.
“Negação.”
O som dos passos se fez audível para Klaus, ela estava andando pelo quarto, fazia muito isso, desde que Elijah viajara até Chicago, assuntos importantes a tratar. O original mais velho aconselhara Heyley a evitar encontrar-se com Klaus, o hibrido era instável quando se tratava da garota e poderia fazer alguma loucura da qual se arrependeria depois. Portanto, ela permanecia o tempo todo trancada no quarto, as refeições eram feitas lá também, enquanto Klaus permanecia sozinho e isolado, por receio de atentar contra a vida do próprio filho. Que tipo de monstro ele era? Um que não podia reconhecer nem mesmo o próprio sangue. As respostas eram aptas como raios a dilacerar a escuridão celeste e rasgavam a alma de Klaus, se é que existia uma ali.
A garota permanecia dias e noites, encarcerada naquele quarto, que embora fosse amplo e espaçoso, ainda era um claustro forçado. Tudo porque Klaus era incapaz de aceitar o quanto sua criança estava crescida e quão pouco faltava para a sua chegada.
Desde que soubera que seria pai, Klaus preferira manter Heyley á distância por alguns meses e quando a reencontrou seu ventre já estava arredondado e marcando as roupas. Aquilo fez as entranhas do hibrido se revirarem, numa espécie de agonia. Então preferiu não sentir aquilo novamente, ordenando que Elijah mantivesse a garota longe de seus olhos. O que foi atendido, melhor não contrariar.
“Sob grades.”
Embora Heyley fosse uma mulher de ímpeto e atitudes fortes, preferiu manter-se o mais condescendente possível quanto aos caprichos de Klaus. Sabia que o único motivo pelo qual ainda estava viva, era pela intervenção de Elijah que mantinha o irmão sob constante persuasão, convencendo-o de que aquela criança era uma graça a ser apreciada e não negada, mas Klaus sabe que os malvados nunca recebem graças, são sempre maldições, aquela criança não seria diferente e Elijah estava longe, Klaus tinha vontade, força e agora caminho livre para fazer o que bem entendesse quanto a ela e seu bebê.
Heyley não se incomodava com a solidão, esteve praticamente toda a vida sozinha, desde á sua transformação ela se tornou uma viajante do mundo, nômade entre matilhas alheias, onde permanecia por um tempo e logo partia rumo à outra aventura. Era esse o problema, sempre esteve só, porém livre, dona de si, podia ir aonde quisesse, poderia dormir ao relento, beber até cair em um bar qualquer ou fazer sexo com um estranho, afinal não fazia a menor questão de ser a santa da história, ninguém lhe julgaria, porque não se podem julgar aqueles que não se importam com os vereditos. Heyley não se importava, nunca se importou. Mas agora ser obediente e cautelosa lhe garantia um coração dentro do peito, pelo menos enquanto a criança estivesse em seu ventre, depois provavelmente Elijah lhe mataria com as próprias mãos, afinal ela poderia vir a ser um empecilho entre os irmãos originais e o bebê, teria que convencê-los que estava ali pra ser a ponte e não a represa.
Nas primeiras semanas de gestação, esteve com o clã de Sophie, morando em uma casa no subúrbio, afastada do quarteirão francês, longe das gangues de Marcel, a casa era espaçosa, nada comparado ao luxo e ostentação da mansão Mikaelson, mas havia algo que a mansão nunca teria um ar aconchegante e familiar, as bruxas vivam em completa harmonia e cumplicidade cuidando umas das outras, eram seis bruxas, Nora, Alanis, Michelle, Loren, Sera e Sophie que não morava na casa, mas estava sempre por perto. Na verdade nenhuma delas realmente morava lá, tinham suas vidas, famílias, partiam tão repentinamente quanto chegavam, materializando-se pelos cômodos com suas essências adocicadas e assuntos diversos, Heyley apenas ouvia e espreitava esperando algum resquício de atenção. Ás vezes Sarah lhe dirigia olhares e a levava aos jardins, onde tomava banho de sol, “é bom para manter os ossos fortes”, dizia Loren, a mais velha, com seu ar de quem muito conhece da vida e de seus truques. A casa nunca ficava vazia, mas nunca estava realmente habitada, mas ainda existia aquele cheiro de ervas finas, flores e especiarias por lá, como se fosse sempre um domingo em família. Gostava daquele lugar, embora as bruxas não fossem exatamente receptivas quanto a sua presença, sempre lhe dirigindo olhares incisivos e severos, nunca lhe dirigindo a palavra, mas nunca a esquecendo, todavia ainda era melhor estar com as bruxas mudas, do que os originais barulhentos, com suas discussões alteradas e vidros atirados ao léu. Com as bruxas estava livre para andar pelos cômodos da casa até mesmo pelas imediações da propriedade, diferente de agora, cujo tudo que sabia dos outros cômodos eram os gritos de Klaus para com os criados e as longas e frequentes discursões entre os irmãos, onde a sua vida e da criança eram a unanimidade a ser debatida.
“Amarga rotina.”
Klaus já estava na terceira garrafa de Bourbon, aquilo não estava indo exatamente como o planejado, todos os dias Klaus seguia praticamente a mesma maldita rotina, passava as manhãs tratando de seus “negócios”, as tardes no ateliê pintando ou desenhando, os mesmos temas sombrios e solitários de sempre, com acréscimo de que agora todas as telas de fundo escuro recebiam um arremate com tinta de ouro, o dourado incandescente sobre as sombras da tela e sob a luz do sol lembrava ao hibrido o brilho que Caroline emanava sobre ele, somente ela era capaz de gerar luz na alma de Klaus, ela era seu farol na tempestade, seu norte em alto mar, algo em que ele precisava se pegar quando estivesse perdido, sempre o trazia de volta e era por isso que todos os dias ele deixava uma mensagem de voz para ela, só para lembra-la de que ele não havia se esquecido dela. Durante as primeiras horas da noite, caçava pelas vielas escuras, bebendo das moças desacompanhadas e atordoadas pelo jazz e calor dos amantes, quebrando mais algumas regras, já que Marcel proibira Klaus e sua família de caçar nas redondezas do quarteirão francês, Elijah preferia beber de bolsas de sangue e evitar incômodos, mas Klaus gostava de sangue quente, sentir que poderia controlar a vida de alguém, já que a sua já não mais lhe pertencia e Marcel que fosse ao inferno com suas regras. No final da noite, já saciado de sangue, mas ainda faminto de tudo, o hibrido sentava-se no hall e aguardava, tão logo Heyley começasse com sua procissão cíclica e repetitiva, ele iniciava seu costumeiro e incômodo martírio alcoólico, uma garrafa atrás da outra, em grandes goles, dos copos transbordantes até os gargalos das garrafas, então depois de alguns muitos mililitros de malte, talvez em suas veias houvesse mais uísque que sangue. Odiava tudo aquilo, principalmente odiava estar preocupado com aquela criança que não deveria lhe significar nada, “È seu filho...” repetia sua consciência ou talvez fosse somente Elijah e a afirmação mais pronunciada dos últimos cinco meses. Sim, era seu filho e negando ou não, ainda preocupava-se e naquela noite essa preocupação estava mais latente que nunca, como um presságio de algo ruim estava prestes a acontecer, não que isso não fosse esperado já que a gravidez era considerada de alto risco, mas Klaus desejava com todas as suas forças que nada acontecesse ali e agora, com ele bêbado e sozinho, porque definitivamente não saberia o que fazer.
“Fora dos planos.”
Pouco antes de a garota vir para a mansão, Klaus ouvira Elijah e Sophie conversando sobre a gestação e principalmente suas complicações. A bruxa dissera que a garota sentia fortes contrações, terríveis enxaquecas, tonturas e até desmaios, Sophie enfatizou o fato de Heyley ficar quase sem pulso durante os surtos, como se seu coração estivesse prestes a parar, além de uma extrema palidez inexplicável, como se o sangue da garota estivesse se tornando aquoso. “Talvez a criança seja uma nova espécie de parasita e está sugando as proteínas do sangue da mãe”, Klaus gostava de referir-se ao bebê como “vermezinho infame.”, e qualquer teoria que apoiasse tais insultos, era válida para o hibrido. Talvez, se Sophie não tivesse deixado claro que a criança não tinha absolutamente nada de vampiro e que é mitologicamente e cientificamente impossível que um vampiro procrie, Klaus continuasse confabulando sobre a qual espécie miserável seu filho pertencia. Sophie reforçava seus argumentos afirmando que vampiros não podem procriar, pois são secos de vida e renegados pela natureza e que essa criança tratava-se de um plano maior da natureza. De qualquer maneira a hipótese de Klaus não fora sequer levada a sério. Mas ainda sim, era complicado para as bruxas, cuidarem da gestação de Heyley, esconder a loba dos olhos de Marcel e a ainda protegerem a si mesmas. Depois de algumas longas horas de discussão, Elijah conseguira convencer Klaus permitir a mudança da garota para a mansão, reduzindo a pressão sobre as bruxas, que podiam assim dedicar-se mais aos cuidados com a gestante.
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