Red Eyes
6 Trevas
Notas iniciais

Tinha os olhos vendados. Não sabia onde estava, mas a chuva havia parado. Um dos homens a levava pelo braço, vez ou outra o apertando quando sentia que Lin andava devagar. Andou bastante até que pararam, ouvia vozes, todas masculinas. Não saberia dizer quantos eram, mas sabia que eram mais do que seus dedos podiam contar. Quando a venda foi retirada e teve essa infeliz certeza. Havia muitos, todos armados; facas, espada, bestas, arcos, estavam bem preparados. Um deles estava a segurando pelo braço e tinha seu leque na cintura.
–O que é isso? — um dos homens, aparentemente o mais velho, estava a frente deles — Falei para me trazerem dinheiro, não uma puta.
Lin se enfureceu, porem forçou-se a ficar calada. Observava tudo e todos o máximo que podia:
–Foi o que achamos – disse aquele que a segurava – E se não a quer...
Alguns risonhos foram ouvidos. Pareciam ser trinta homens, ou perto disso.
–Traga ela aqui – ordenou
Lin tentou resistir, mas ele era forte de mais. Quando o homem tentou puxar lhe com ambas as mãos, Lin mordeu uma, colocando toda sua força na mordida. Ele então a soltou xingando mil nomes. Ergueu uma das mãos:
–Nem se atreva – disse o mais velho – Quando eu acabar com ela você poderá espancá-la o quanto quiser
Contrariado, ele apenas voltou a arrastá-la. Jogou a no chão, batendo suas costas com força. Lin tentou levantar, mas ele prendeu seus braços ao chão, segurando-os.
–Me solta, desgraçado! — Lin se debatia o máximo que lhe era permitido
O mais velho abaixando-se, sentando sobre as coxas de Lin, rasgando-lhe o kimono. O coração da jovem disparou. Não conseguia se soltar por mais que tentasse. Xingava, gritava, ordenava para que a deixassem; inútil. Lágrimas subiram os olhos e o desespero era inevitável. Um dos homens abaixou, puxando o kimono de Lin, fazendo um dos seios aparecer. A maioria assistia, um ou outro desviava o olhar. Já não sabia o que fazer. Gritou até sentir a garganta em chamas, por fim, chamou o nome de Lupus.
O homem levava a mão as calças, Lin fechou os olhos e então ouviu um grito. Quando os azuis se abriram viu o líquido rubro. Aquele que antes a segurava seus braços, agora tinha um buraco na cabeça. Seu cadáver foi ao chão, bem ao lado de Lin; a sacerdotisa estava suja de sangue.
–Matem esse filho da puta. — gritou o mais velho, levantando-se.
Lin ainda estava paralisada, nunca vira ninguém morrer; ainda mais daquela forma. Tinha sangue a tingir algumas mexas do cabelo e a manchar-lhe o rosto e kimono. O homem mais velho foi até ela, puxando a pelos cabelos, fazendo-a se sentar. Colocou uma faca em seu pescoço. E então ela o viu, Lupus matava um a um, sem pena alguma:
–Parado! — ordenou o velho. Lupus olhou na direção deles.
Uma parte de Lin se sentiu feliz, a outra já não sabia o que sentir. Seu coração estava a mil e seu estômago revirou:
–Coloque as armas no chão ou eu mato a puta!
O caçador hesitou. Podia perfeitamente atirar na cabeça daquele velho, mas o estado de Lin mexeu com ele. A morena estava suja de sangue e tremia. Ficou cego de ódio, apertou o revolver com força, mas antes que pudesse atirar, Lin o surpreendeu. Ela deu uma cotovelada no homem. Golpe esse que o acertou bem no genital; foi o suficiente para fazendo-o recuar. Depois arrastou-se até o cadáver e pegou seu leque. Os outros bandidos vinham na direção de Lupus. Estavam perto, achavam que ele tinha abaixado a guarda; ingênuos.
Uma energia rubra se formou sobre o caçador e seus olhos brilharam. Ergueu o revolver para cima:
–Tormenta de tiro – um disparo subiu, mas uma chuva desceu em resposta.
No mesmo instante, Lin agarrara o leque, pressionando contra o corpo:
–Por favor, agnêcia – lágrimas escorreram do seu rosto.
Precisava dela – da deusa – e precisava de sua força. Mas quem respondera não fora a deusa, mas uma voz que não reconheceu. “Tarde de mais para implorar pela luz”. Marcas negras nasceram em seu rosto e uma assa tão negra quanto a noite se ergueu, fazendo penas caírem como neve manchada de fuligem. Lin sentiu seu corpo dormente por um tempo. Não sabia o que fazer, nem se quer sabia o que estava acontecendo. Cerrou os olhos e sentiu um poder estranho; se entregou a ele.
Ventos a rodearam e uma tempestade se formou em volta de seu corpo. Os ventos eram fortes e cortaram tudo e todos que estavam por perto. Quando a tempestade foi embora, Lin se viu no meio de corpos e poeira. Sem saber o que de fato aconteceu, a sacerdotisa correu. A direção não importava, tão pouco para onde iria, só queria sumir. Correu desesperada, sentia sua cabeça girar e parou quando a vertigem foi forte de mais. Foi de joelhos ao chão se apoiando em um tronco. Estava ofegante, perdida, com medo, confusa.
Olhou uma poça, se debruçando para se ver no reflexo da água. Seu rosto tinha marcas negras, estranhas. Colocou a mão sobre o ombro e viu que a assa estava menor. Ainda sim, não se reconhecia naquele reflexo. Havia algo de diferente nela, cerrou o punho, batendo na água. Levantou bruscamente e foi andando.
Saiu da floresta, embora não tivesse essa intenção, porem permaneceu a caminhar. Chegou a uma estrada de terra batida, foi seguindo por ela. A assa estava pequena e as marcas quase desapareceram. Tinha os olhos fixos no chão e o pensamento cheio. Mal percebera quando um viajante sobre uma carroça vinha em sua direção. Estava com uma capa negra com capuz que lhe cobria do rosto aos pés, e o tecido estava úmido, a carroça era puxada por apenas um cavalo. Passou por Lin; ela nem se quer olhou para ele. Porém puxou as rédias, parando alguns metros depois.
–É uma sacerdotisa, não é? — era uma voz feminina, embora nem um pouco familiar.
–Quem quer saber? — Lin foi o mais grossa possível, não tinha cabeça para perguntas
Lin virou-se para a tal viajante, nem se quer podia ver seu rosto. A viajante desceu da carroça, acariciou o cavalo – sussurrando qualquer coisa que Lin não pode ouvir – e deu alguns passos em sua direção.
–Estou a procura de uma sacerdotisa – Lin segurou o leque, nunca fora do tipo desconfiada, porem os últimos acontecimentos lhe ensinaram a ser – Fui enviada pela ordem dos paladinos para poder levar a reencarnação de agnêcia de volta ao templo da luz
Ordem dos paladinos... Lin já ouvira falar daquela ordem, há muito. Foram criados para auxiliar os sacerdotes em combate, visto que dominam técnicas de cura e suporte. Uma ordem poderosa que se afastou do templo da luz – sobre essa parte, Lin não conseguia se lembrar de tudo. Nunca viu um paladino, porem aquela visão não era a que Lin tinha em mente de um guerreiro da luz. Por um momento, permitiu-se abaixar a guarda.
–Eu pensei que tinham me esquecido – pegou-se sussurrando. Nos primeiros dias esperava por ajuda, porem o tempo foi passando e no final das contas já não acreditava que seria salva.
Apesar disso, os sacerdotes não esqueceram dela.
–Então, tu és a reencarnação da deusa? — Lin assentiu, a paladina abaixou-se, ficando com um dos joelhos no chão lamacento e uma mão sobre o peito – Enfim a encontrei
Lin passou uma mão sobre os cabelos, tirando as mechas que outrora estavam sobre o rosto:
–Graças aos deuses, eu realmente achei que... Que tinham me abandonado – sentiu os olhos lacrimejarem
–Mas, você não é a reencarnação da deusa... — Lin ficou sem entender, mas sentiu que o tom de voz da paladina estava mais serio – Você... é a reencarnação do mal... — a paladina levantou e Lin deu alguns passos para trás, podia sentir algo de estranho vindo dela – parece que eu cheguei tarde de mais
A jovem sacerdotisa sentiu seu coração apertar:
–D-do que esta falando?! — se sentia nervosa. Sabia que havia algo de errado em si, principalmente depois do que havia acontecido anteriormente, mas “reencarnação do mal” parecia algo forte de mais.
Lin sabia de seu destino como guardiã do poder da deusa, sabia do que devia fazer para controlá-lo, sabia como, sabia o que acontecia quando a guardiã se tornava uma reencarnação perfeita de Agnêcia; e sabia principalmente o que acontecia com as reencarnações que sucumbiam ao lado maligno selado na deusa. Quando uma guardiã do poder da deusa cai em trevas, os poderes da deusa se tornam pura maldade e sua própria existência se tornava um risco para si e para todos.
A assa negra e aquelas marcas, sim, eram sinais do lado negro emergindo, mas em algum lugar dentro de Lin ela podia ter certeza de que podia controlar aquilo, podia voltar para luz. Lin tinha certeza de que não estava perdida; não podia desistir e se entregar as trevas:
–Não, eu... Eu posso controlar, eu posso voltar a luz – disse, antes de perceber que lágrimas desciam
–Não mais... Você não é mais digna do poder divino. Esta corrompida e-
–Pare! — gritou – Eu não estou corrompida! — sua assa se ergueu novamente e podia sentir seu rosto queimar aonde tinha as marcas negras
–Eis o sinal – disse a paladina – Você se entregou as trevas... — seu tom era firme, ignorando tudo o que Lin dissera – Esta corrompida e deve ser eliminada
Lágrimas desciam sem controle e, alem de desespero, um sentimento crescia em Lin; ódio.
–Me eliminar – deu um sorriso amargo – Então eu não significo nada pra vocês? Eu vivi a vida de vocês, todos os dias, eu sempre vivi naquele maldito templo – já gritava, sem se importar com quem pudesse ouvir – Eu nunca tive uma vida normal, nunca pude fazer o que queria. Sempre segui as malditas regras e fiz tudo o que me mandaram. E pra que? — sentiu um aperto no coração. Não fora infeliz, tinha de admitir, mas saber que estava sendo condenada por aqueles que foram sua família; doía – Pra ser condenada por meu primeiro erro?!
A paladina ficou em silêncio por um tempo:
–Os sacerdotes me mandaram salvá-la – disse por fim, em um tom baixo e brando – Mas os paladinos me mandaram eliminá-la caso tivesse se corrompido – caminhou calmamente até a carroça, colocando a mão sobre o manto que cobria a parte traseira do “veículo” — E eu sigo a ordem dos paladinos – uma tênue áurea avermelhada fluiu em torno dela e Lin sentiu o ar pesado.
De baixo do manto ela puxou um martelo e a sacerdotisa logo se colocou em posição de combate. Tinha a visão um pouco turva, por conta das lágrimas que ainda caiam, por causa disso, mal percebeu quando a paladina vinha. Ela foi rápida, mais do que Lin podia esperar de alguém que carregava um martelo tão grande. Foi um golpe forte, que a acertou no abdômen, fazendo-a voar até bater com as costas em uma das árvores próximas. A paladina retirou o manto que a cobria, deixando-o cair na lama:
–Eu me chamo Holy e irei purificá-la.
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