Red Eyes
5 Ruínas
Notas iniciais

Saíram da cidade junto com os primeiros raios do sol. Lin ainda estava meio sonolenta, mesmo depois de tanto tempo. Andaram desde cedo e, depois de um tempo, já não eram acompanhados pelo sol; as nuvens iam as poucos tornando o céu escuro. O vento também se tornava mais forte à medida que o dia passava. Estavam indo em direção a algumas ruínas. Lin estava curiosa para vê-las, já havia estudado sobre as principais ruínas da região, se a reconhecesse poderia saber o quão longe estava do templo e que direção tomar quando fugir. Sim, “quando” e não “se”; Lin tinha a plena convicção de que conseguiria fugir.
Estava novamente amarrada, porem o nó não estava tão apertado, percebeu. Passaram mais alguns minutos, bem longos para Lin, até que enfim chegaram às ruínas. Lin demorou para reconhecê-las, mas sabia quais eram, embora não lembrasse exatamente do nome. Sabia que eram ruínas de uma cidade que fora prospera, mas isso havia sido em um passado distante. Em seu auge fora ataca por uma tribo asmodiana, o que levou a cidade a miséria. Seus poucos sobreviventes deixaram a cidade e hoje ela não passa de uma pila de ruínas e escombros abandonados que os viajantes costumam evitar por acreditar que são ruínas assombradas.
Era um bom esconderijo e, embora Lin não se lembrasse de sua exata localização, tinha a certeza de estar bem longe de casa. Aquela era a ruína mais distante do templo e saber daquilo a deixou desconfortável.
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O céu desabava em cargas d'água. Lin e Lupus estavam abrigados sob um dos poucos cômodos que se mantinham de pé. Era rude, com enormes rachaduras nas paredes, mas era grande e a parte da frente era aberta, o que permitia uma boa visão de outros lugares. Entre eles, uma fogueira queimava. Lin estava sentada, olhando para a chuva como se essa fosse o mais deslumbrante dos fenômenos. O vento balançava vez ou outra as mechas albinas. Ela não fazia idéia do quanto estava bonita. Lin tinha dessas coisas; ela conseguia ser sensual mesmo quando não tinha essa intenção. Os vermelhos a olhavam fixamente, como se tentassem guardar cada detalhe e ela nem se quer percebia.
Um estalo foi ouvido e foi só nesse momento que Lupus desviou seu olhar. Alguém estava vindo, era certo. O caçador logo tratou de jogar areia sobre a fogueira, para apagá-la. Outro estalo:
–O que- antes que Lin pudesse falar algo, Lupus se colocou atrás dela, tapando-lhe os lábios com a mão
E então viram um goblin. Arrastava um pedaço de madeira e andava alienado na chuva, com aquela maldita carranca. Seria inteligente se continuassem escondidos; lutar com ele seria uma perda de tempo e poderia chamar atenção. E, no fim das contas, tudo indicava que ele estava de passagem. Contudo logo atrás dele vieram outros, o seguiam e Lupus logo percebeu que estavam em grande número.
Então sentiram o chão tremer. O que veio a seguir foi rápido. Lin sentiu outro tremor e cerrou os olhos, quando voltou a abri-los, estava na chuva, nos braços do caçador e seu antigo abrigo se tornara uma pilha de pedras. Lupus a colocou no chão, puxando suas pistolas. Em pouco tempo já estavam encharcados. Lin levantou-se e percebeu que atrás da pilha de pedras vinha um Orc. Tinha um enorme porrete de madeira na mão; fora ele que quebrara o abrigo. Ele rugiu, era enorme e brandiu sua arma enquanto corria na direção deles. Lin recuou, estava desarmada e suas mãos estavam atadas, nada podia fazer. Lupus porem foi rápido, em questão de segundo já estava atrás do Orc, atirando em suas costas.
O enorme bicho se virou; agora mirava no caçador. Lin ficou admirando-o; tinha de admitir ao menos para si mesma; ele era bom. Ficou tanto tempo distraída que por pouco não foi acertada por um goblin. Conseguiu esquivar, abaixando-se e dando uma rasteira fazendo o goblin cair. Pegou o pedaço de madeira que estava na mão dele, o golpeando na cabeça. Recuou segurando a madeira com força. Era deprimente se defender com aquela “arma”, porem era tudo o que tinha. Outros vieram, desviou de seus golpes e, sempre que tinha uma brecha, os golpeava com a madeira. Lin sempre foi boa em esquiva e parecia dançar entre os goblins.
Estava indo bem, contudo o Orc decidiu atacá-la. Contra goblins podia perfeitamente se defender, mas contra um Orc seu pedaço de madeira era inútil. Veio correndo como um touro e tentaria esmagá-la se Lupus não fosse mais rápido. O caçador a puxou pelo braço, fazendo Lin ficar atrás de si, em seguida puxou a faca rubra, cravando-a no chão. Uma espécie de energia negra se formou em volta da faca e, quando Lupus a puxou a energia formou uma pequena explosão que arremessou o Orc longe.
–Ei, me solte! — quase ordenou.
Lupus a olhou e por um momento Lin sentiu o rosto ferver. Seu cabelo molhado cobria-lhe parte do rosto, mas seus olhos parecia em chamas; dois faróis vermelhos na escuridão. Não sabia explicar, mas sentiu algo naquele olhar, algo que a fez se sentir quente, mesmo com toda a chuva. Lupus passou a faca pela corda, sem tirar os olhos dos azuis de Lin; e ela não se atreveu a desviar o olhar. Retirou do cinto o leque e lhe entregou em mãos
–Obrigada – sussurrou
Cada um virou para um lado. Lupus foi até o Orc e Lin correu até os goblins. Enfiou-se entre eles e brandiu o leque sobre a cabeça:
–Ventos da divindade! -gritou enquanto o descia.
Ventos foram invocados e uma esfera se formou a frente dela, acertando vários dos goblins. Era uma de suas técnicas favoritas, porem notou que os ventos parecia mais pesados. Decidiu ignorar. Passou a invocar ventos normais e percebeu que seria fácil de mais. Estava a brincar com eles, esquivando de paus e pedras que vez ou outra eram arremessados e contra atacava com rajadas de ventos e alguns selos.
Estava se divertindo quando ouviu uma estrondo. O Orc – bem ferido por sinal – derrubava algumas das ruínas que se mantinham de pé. Uma delas caiu bem na frente de Lin. Era enorme e cobriu totalmente a visão que tinha de Lupus. E foi o suficiente para fazê-la recuar e correr. Havia uma floresta atrás de si. Correu entre os poucos goblins que se não derrotara e se jogou no mar de folhas e arvores. Relâmpagos eram ouvidos e o solo da floresta se mostrou uma armadilha a considerar.
Corria o máximo que se atrevera, sem olhar para trás; tinha medo de fazê-lo. Uma parte de si tinha certeza que se o fizesse, veria Lupus. Então correu, se embrenhando em mato e escuridão. Tropeçou por fim, seu leque rolou de sua mão. Estava ofegante. Depois de um tempo tentando recuperar a respiração, enfim tomou coragem para olhar para trás, porem tudo o que viu foram às sombras das arvores. Um relâmpago clareou onde estava e então teve a certeza de que havia fugido.
Abaixou a cabeça; suspirou aliviada. Suspiro que foi cortado quando ouviu barulho de passos. Ergueu a cabeça e viu um homem parado, com um sorriso macabro nos lábios e um dos pés sobre o leque caído.
–Vejam só o que a chuva trouxe – disse ele
–Quem é você? — perguntou ríspida. Algo nela sentia que não podia confiar nele.
Ouviu mais sons e quando olhou para trás novamente, as sombras tinham formas diferentes. Estava cercada, tinha certeza.
–Você vem com a gente.
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