Notas iniciais
Cap. repostado

Se equilibrava sobre um toco de madeira, apenas sustentada por um pé. Tentava ao máximo se concentrar, paz interior era o que buscava. Mas como raios poderia conseguir com aquele maldito barulho? Uma, duas, três gotas caiam de uma das telhas, fazendo um barulho insuportável quando batiam na pequena bacia de metal. Lin nunca foi uma pessoa calma, e tinha consciência disso, mas se esforçava para ter aquilo que os sacerdotes chamavam de paz interior; nunca soube dizer o porquê, mas sempre seguiu o ensinamento de que ter paz interior era tudo.

Porem não sabia como podia ter paz interior; tão pouco como manter a calma com aquela goteira! Um, dois, três. Tentou ignorar, pensar em outras coisas, outro erro. Para se alcançar a paz não se pode pensar muito. Mas como não pensar?! Um, dois, três.É impossível manter a calma com essa maldita goteira!

Um, dois, três. Sempre três pingos ritmados. O universo estava conspirando contra ela? não sabia dizer, mas no fim, seu pensamento já estava focado na goteira. Seus olhos abriram, duas poças azuis. Sempre gostou da cor deles. Olhou ao redor. O primeiro sacerdote estava sentado, curvado com as pernas cruzadas e os olhos fechados; era o homem mais calmo que Lin conhecera, não se admirava que ele pudesse ficar tão calmo mesmo com aquele barulho infernal.

Sendo a mais silenciosa que poderia ser, Lin desceu e, de pés descalços, foi até a bacia. Um, dois, três. Tirou a bacia de metal e as gotas passaram a morrer no chão de pedra.

–Por que fizestes isso jovem Agnesia? — aquele nome... Ele só a chamava assim quando ela estava errada.

–Não consegui me concentrar com aquele barulho –resmungou

Os olhos do sacerdote se abriram, dois olhos alvos em um rosto enrugado. Era um senhor de idade, com pouco cabelo na cabeça e uma pequena barba alva. Seu rosto era todo rugas e suas costas eram curvadas. Lin nunca soube ao certo quantos anos Sun Hee poderia ter, mas nunca se importou. Por mais velho que pudesse parecer, Sun Hee sempre fora forte, e Lin nunca o viu abatido ou doente.

–Minha jovem Agnesia, deve aprender a manter a concentração, não importando quais-

–Quais circunstancias, eu sei – completou a frase. Impaciente. O primeiro sacerdote podia ser um poço de calmaria, mas Lin não era.

O primeiro sacerdote lhe respondeu com um sorriso terno. Apesar da pouca paciência, Lin nunca conseguiu se quer se estressar com seu velho tutor. Estava prestes a voltar pro seu pequeno “toco” quando um vento frio lhe deu arrepios. O templo geralmente era um lugar quente e poucas foram às vezes que usou roupas de inverno, mas qualquer coisa naquele vento a fez sentir-se em uma nevasca. Seus olhos azuis correram pelo céu; não havia nuvens. Se perdeu no azul imenso e só voltou a si com a voz do sacerdote:

–Minha pequena, deve entrar – ele se levantou o tão rápido quanto suas pernas o permitiam.

Lin não havia entendido o porquê, mas o rosto de seu tutor assumiu uma expressão que a jovem julgou ser sombria.

–Por que devo entrar? — encarrou Sun Hee por alguns instantes – Aconteceu algo¿

O sacerdote forçou-se a dar um sorriso:

–Esta tudo bem minha jovem, apenas entre e descanse – quando viu que Lin nem se quer havia se movido, continuou – Faça o que lhe digo, Lin.

E ele só a chamava de Lin quando ficava apreensivo. Ela não sabia dizer o que estava errado, mas Sun sabia, ele sempre sabia de tudo; ou era isso que parecia. Assentiu e seguiu pelo caminho de pedra. Todo o chão do templo era pura pedra ou terra e haviam arvores em todos os lugares. Apesar disso, Lin sempre andava descalça; mesmo com a insistência de alguns sacerdotes em calçar lhes os pés.

Subiu os degraus e entrou na casa principal. Quando ainda estava na porta, sentiu outro arrepio. Voltou-se para trás e tudo o que viu foi um céu azul e as arvores; tudo normal. Suspirou, só podia ser sua imaginação; mas algo dentro de si dizia que não.

Deitada em seu pequeno quarto, as jovem sacerdotisa fitava o teto. A noite havia caído há muito e, desde que Sun a mandara entrar, ficou em seu quarto. Comeu, dormiu, acordou, tomou um banho e dormiu de novo. Já não sabia que horas poderiam ser, contudo não tinha sono. Sentou-se a cama, a brisa da noite parecia chamar-lhe da janela. E assim atendeu a seu chamado.

Pulou a janela, se jogando na noite. Já havia feito aquilo várias vezes, em noites escuras e sem sono. Andou pelos corredores de pedra, eram largos e seu teto eram as estrelas; e como brilhavam naquela noite. A lua também se mostrava iluminada. Gostava daquilo, de sentir a terra sob os pés e as estrelas sobre si. Continuou seu caminho até chegar a seu destino. O corredor dava ao poço que ficava no meio de uma pracinha de pedra. Bancos e arvores adornavam o lugar.

Sentou-se no muro do poço, gostava de ouvir o leve som da água. O templo era enorme e lindo; e aquele era seu lar. O único que tivera. Desde pequena morou ali e sempre conviveu com aquelas pessoas. O templo era chamado de “terceira casa”, pois era o templo mais alto dos três que ficavam na montanha sagrada. Um templo grande, com enorme terreno e de pouco acesso. Apenas sacerdotes de grande porte podiam frequentar a terceira casa e, em sua maioria, eram velhos; ou mais velhos que Lin pelo menos.

A Segunda casa, há alguns metros abaixo, era destinada há sacerdotes que lecionavam, uma espécie de escola. Lá ficavam os mais jovens e, por fim, a primeira casa era um templo aberto a visitantes e noviços de outros lugares. Mesmo em sua infância, para Lin, nunca lhe fora permitido ficar no primeiro templo; tão pouco de falar com outras pessoas que não fossem os sacerdotes.

Contudo a pesar de tudo isso, Lin se sentia feliz, gostava dali, e se sentia calma; pelo menos na maioria das vezes. Escutou um leve barulho, suficiente para fazê-la ficar em alerta. Tomaria uma bronca de algum sacerdote se fosse vista ali, naquela hora. Levantou-se, dando passos cautelosos, de ouvidos e olhos alertas. Tudo parecia normal...

Até que uma sobra caiu em sua frente. A jovem recuou de imediato, segurando o leque que outrora estava preso em sua cintura. A sombra ficou parada, folhas ao redor dela; e levantou-se. Um rapaz. Por meio momento, Lin perdeu-se em seus olhos. Duas poças vermelhas como sangue. Nunca havia visto rapaz tão lindo; mesmo que nunca tivesse visto rapaz algum, ele lhe parecia ser o mais lindo. Contudo aquele olhar, algo de errado havia em seus olhos.

–Quem é você? -apresou-se em perguntar, mesmo que a voz quase tivesse lhe falhado.

O rapaz ameaçou dar um paço, e logo Lin se colocou em posição de combate:

–Responda minha pergunta! – insistiu, entre dentes

–Não importa – aquela voz causou-lhe um arrepio involuntário – Você vem comigo – o rapaz puxou um objeto estranho.

O que exatamente era, a jovem não soube dizer, mas tão logo reagiu.

–Vento sagrado – gritou lançando lhe três rajadas de vento vindas de seu leque.

O golpe pareceu surtir efeito. E por um segundo ela baixou a guarda; péssima ideia. Como um vulto ele apareceu em sua frente; sabe-se lá de onde. Estava próximo de mais, uma das mãos segurando seu pulso, impedindo-a de mover o leque. A outra com uma faca em seu pescoço. O ferro frio contra sua pele fez seu corpo gelar, mas não fraquejou, manteve seu olhar fixo ao dele. E como aqueles olhos eram hipnotizantes.

–Como eu disse... Você vem comigo

Em um súbito de loucura, a jovem não pensou, apenas agiu. Gritou, gritou por ajuda, ignorando a faca em sua garganta. Aquilo pareceu surpreendê-lo. Barulhos foram ouvidos, passos correndo. Lin aproveitou aquilo e puxou se pulso, fazendo-o solta lá. Estava prestes a lutar, mas ele era rápido. Um vulto, um golpe forte na nuca e depois apenas escuridão.

Notas finais
Espero que gostempostarei juntamente o segundo cap. j que o primeiro foi repostado o/