Red Eyes
4 Multidão
Notas iniciais

Caminhava entre as pessoas, tinha fugido pela janela do quarto e agora fazia parte da multidão. O som das batidas da musica que outrora a acordou, agora era mais forte. Os azuis se enchiam de curiosidade, era tudo tão novo. Nunca vira tantas pessoas juntas, tantos rostos desconhecidos, felizes em sua maioria. O cheiro de comida, os sons de dezenas de conversas, a sensação de ser só mais uma na multidão, sensações novas que Lin tentava gravar na mente.
Andava sem rumo, porem de imediato decidiu seguir o som da musica. Passando pelos estreitos espaços entre as pessoas, a jovem logo chegou aonde vinham às batidas. Tambores eram batidos enquanto dançarinos mascarados faziam passos ao ritmo dos instrumentos. Boa parte das pessoas havia parada a volta dos músicos e alguns até batiam palmas no ritmo dos tambores. Era uma batida forte, rimada e, por um momento, Lin podia jurar que seu coração batia no mesmo ritmo. As batidas se intensificaram e então – de repente – pararam. Uma salva de palmas foi ouvida e quando Lin achou que o show havia acabado, os tambores rufaram de novo e os dançarinos passaram a puxar alguns dos espectadores.
Um deles foi até Lin, pegou-lhe em sua mão, puxando-a para dentro do circulo. A jovem morena nem se quer teve tempo de recusar e, quando percebeu, já estava no meio da roda. Tentou improvisar alguns passos, era a primeira vez que estava dançando. Deu uma gargalhada ao notar que uma das jovens, que também havia sido puxada, tentava imitar seus passos; era divertido. As batidas ficaram rápidas e fortes novamente e Lin deixou-se levar pelo ritmo. Rodopiou, fazendo a calda do kimono flutuar.
Sentia-se livre, pela primeira vez na vida. Quando parou de girar, acabou passando o olhar pela multidão, foi só então que percebeu aqueles malditos olhos. Eram como rubis, os únicos que estavam fixos em si. A principio, Lin ficou paralisada, surpresa de mais para correr, mas por fim deu-lhe as costas e afundou-se na multidão. Tinha de fugir, era isso que precisava fazer desde o inicio, então por que diabos acabara numa roda de dança? Corria o máximo que a multidão permitia, mas por fim sentiu alguém puxar-lhe o pulso.
Foi forte de mais, não podia mais fugir. E lá estava ele, a sua frente. Tinha vestes diferentes, parecia até um camponês normal – e poderia até se passar por um, se não fosse os olhos vermelhos e as orelhas levemente pontudas que quase foram escondidas por completo pelo cabelo.
–Tentando fugir? – perguntou sádico, com um meio sorriso no rosto
Lin tentou puxar o braço, na esperança fútil de libertar-se
–Não eu não – engoliu a seco. Havia se lembrado da promessa de lhe cortar os pés caso tentasse fugir. Uma parte de si não acreditava, mas a outra achava Lupus suficientemente maluco para fazê-lo – Eu só queria ver o festival...
Ele não pareceu acreditar:
–Já viu, agora vamos – puxou a sacerdotisa, mas ela forçou-se, tentando não sair do lugar
–Eu não vou! – os orbes vermelhos se surpreendidos – Eu... Eu quero ficar mais tempo
Por um segundo Lupus se viu de frente com uma criança, Lin inflamou as bochechas e bateu o pé no chão; o caçador acabou sorrindo:
–Você não esta em condições de exigir nada – e no entanto ela não fraquejou, parecia mesmo disposta há ficar mais tempo.
Podia perfeitamente forçá-la a voltar consigo, mas isso poderia significar um escândalo se Lin realmente quisesse ficar. Por fim, Lupus achou melhor ceder – apenas daquela vez.
–Esta com fome? – perguntou.
Lin pareceu não acreditar em sua vitória. Desde que se conheceram, aquela fora a primeira vez que ele cedeu algo a ela; era realmente difícil de acreditar. A morena apenas fez sinal positivo com a cabeça e então foram para as barracas de comida. Andavam de mãos dadas, já era de esperar. Vez ou outra Lupus apertava a mão dela, como se para verificar que ainda estavam juntos; constrangedor. Contudo, logo o cheiro de petiscos acabou chamando mais a atenção de Lin. As barracas estavam cheias, acabaram parando ao lado de uma delas.
Lin estava tão distraída com o mundo ao seu redor que nem se quer reparou no momento em que Lupus soltara sua mão. Só percebeu esse fato quando o mesmo ofereceu-lhe uma espécie de massa gordurosa presa em um palito de madeira. Os azuis se arregalaram ao ver olho escorrendo junto com algo que parecia ser queijo derretido.
–Eu não como isso – acabou fazendo uma careta
–Já comeu alguma vez? – perguntou Lupus, antes de dar uma boa mordida em um dos espetos, fazendo queijo esticar, formando uma fina ponte entre os lábios do caçador e a massa
–Nunca, mas... – o cheiro não era ruim, tinha de admitir, porem algo tão gorduroso poderia ser bom?
–Se não quer, tudo bem – Lupus deu de ombros – Sobra mais pra mim.
Lin hesitou por mais algum momento, porem no final das contas se deu por vencida, pegou o espeto e mordeu, com todo o cuidado do mundo. Puxou um pequeno pedaço da massa, mas uma parte do queijo veio junto e acabou se vendo numa batalha contra teias de queijo derretido. Algumas delas se arrebentaram, mas outras pareciam indestrutíveis, não rompiam por mais que Lin as puxasse. Lupus parecia se divertir; era inacreditável como ela não conseguia lidar com um simples queijo derretido.
Por fim os fios se romperam e Lin ficou com queijo derretido nos dedos e a boca suja. Rapidamente passou as costas da mão nos lábios, tentando se recuperar o “mico” que pagara. Podia sentir as bochechas quentes de vergonha. Apesar disso, tinha de admitir, era um petisco bem gostoso.
Depois de comerem voltaram a andar. Estavam entre barracas de brinquedos quando viram uma movimentação.
–Vão soltar os fogos, vamos! – Lin ouviu e tentou segui-los, mas sentiu Lupus a segurar-lhe
–Eu quero ver! – parecia um cabo de guerra.
–Só se pedir por favor – provocou o caçador
Claro que, de fato, ele não achava que a sacerdotisa iria se rebaixar a tal ponto; não seria algo que ela faria. Apesar disso ela o fez e ele só acreditou quando ouviu a morena pedir-lhe, quase em um sussurro. E foi o suficiente para Lupus se pegar pensando em como seriam seus gemidos. Balançou a cabeça, colocando-se na realidade. E lá estava ele, cedendo novamente. Foram seguindo a massa de pessoas que caminhavam para a queima de fogos.
A multidão ficava mais densa. Lin andava na frente e meio segundo de distração por parte de Lupus foi o suficiente para perdê-la de vista. Praguejou baixo, passando o mais rápido que podia entre as pessoas. E então o primeiro fogos iluminou os céus. Achou Lin logo em seguida. Seu cabelo branco parecia beber a luz dos céus e ela olhava fixamente para cima. Aproximou-se por trás da jovem, segurando uma de suas mãos e passando um dos braços pela cintura dela. Pensou que a jovem tentaria se afastar, contudo fora o oposto, Lin apoiou a cabeça no ombro do caçador, sem tirar os olhos do céus colorido.
Outra explosão tingiu os céus e Lin sorriu. Enquanto todos olhavam o espetáculo no céu, Lupus tinha os olhos na sacerdotisa e, quando percebeu, desviou o olhar. Tinha de admitir que ela era linda, mas era seu trabalho, e nada alem disso. Não percebeu porem quando afundou o rosto no pescoço dela, embriagando-se em seu perfume. Pareciam um casal naquele momento, porem eram apenas caçador e caça, ou era nisso que ambos queriam acreditavam.
Fale com o autor