Recomeço
4 Capítulo 4 - Almas gêmeas não existem
Notas iniciais
Antes
Dois meses atrás — St. Louis — Missouri
Deitada em uma cama de UTI, uma senhora de aproximadamente cinquenta anos era observada à distância por sua filha, uma bela jovem de aproximadamente vinte e cinco anos, com longos cabelos castanhos acobreados e feições delicadas.
A filha estava do lado de fora do quarto, no corredor, observando a mãe inconsciente através da janela. Ela mantinha uma das mãos apoiada no vidro como se quisesse fazer um carinho na paciente. No entanto, os seus olhos encheram-se de lágrimas ao perceber que mais uma vez a sua mãe estava completamente alheia a sua presença ali.
Passos no corredor fizeram com que ela enxugasse o rosto discretamente e se virasse em direção ao médico que se aproximava. Tentou esboçar um sorriso, mas não saiu muito convincente.
– Dr. Bryce, como ela está? — perguntou a garota prontamente — Alguma melhora?
O médico a olhou com certo pesar e respondeu com cuidado:
– Não. Eu sinto muito, mas a Sra. Rachel não está respondendo ao tratamento.
A jovem assimilou aquelas palavras com certa dificuldade, mas tentando manter a esperança sugeriu:
– Vocês não podem tentar algo diferente? Experimental? Qualquer coisa?
– Nós já tentamos tudo o que podíamos e não houve qualquer melhora. Eu realmente sinto muito. — explicou ele e em seguida, insinuou — Se pelo menos nós soubéssemos o que causou o derrame...
Ao ouvir isso, a garota ficou um tanto distante como se soubesse qual era a causa que levou a sua mãe até aquele hospital, mas permaneceu em silêncio porque sabia que o médico não acreditaria nela. Ninguém acreditaria.
O médico a observou por alguns instantes e em seguida colocou a mão em seus ombro e encerrou:
– Eu sei que é difícil ouvir isso, mas dificilmente a Sra. Rachel voltará do coma. Neste momento, a única coisa que a está mantendo viva são os aparelhos. Com todo o respeito a sua dor... Eu lamento, mas não há nada na medicina capaz de reverter o quadro dela. Eu realmente sinto muito.
A jovem observou a mãe pelo vidro mais uma vez enquanto o médico se afastava. Seus olhos encheram-se de lágrimas novamente e instantes depois, ela deixou o hospital visivelmente atordoada.
Logo a garota chegou ao estacionamento e entrou no carro. Se olhou pelo retrovisor e enxugou o rosto. Em seguida deu partida e deixou o prédio em alta velocidade.
Enquanto ela dirigia, lágrimas de desespero rolaram pelo seu rosto. Então ela o enxugou mais uma vez e tentou não pensar em absolutamente nada. Havia anoitecido quando ela finalmente alcançou uma rodovia.
Continuou dirigindo velozmente e sem perceber acabou lembrando de novo da sua mãe deitada naquela cama de hospital e das palavras duras do médico sobre a sua improvável recuperação.
Ligou o rádio tentando afastar aqueles pensamentos, mas inexplicavelmente ele não estava sintonizando em nenhuma estação. Havia apenas um ensurdecedor chiado de interferência. Então ela desligou o rádio e olhou o céu pela janela do carro. O tempo estava começando a fechar e o azul do céu era pouco a pouco substituído por nuvens escuras e extremamente carregadas. Não demorou muito para que a tempestade começasse a despencar. Mas apesar disso, a garota não diminuiu a velocidade. Ao invés disso, ela resolveu acelerar ainda mais. Nem sabia por que estava sendo tão inconsequente, mas a verdade é que também não se importava mais com o que podia acontecer. Tudo o que queria era fugir, se afastar, desaparecer. E que aquela dor passasse em algum momento. No entanto, quanto mais ela deixava o centro de St. Louis para trás, mais a lembrança da sua mãe vinha à sua cabeça. E novamente a dor de perdê-la se tornava insuportável. E para piorar, o questionamento do médico vinha constantemente à sua cabeça:
"Se pelo menos nós soubéssemos o que causou o derrame."
– É tudo minha culpa... — disse para si mesma enquanto enxugava as lágrimas mais uma vez — Me desculpe, mãe... Eu sinto muito. É minha culpa...
Foi então que ao olhar pela janela, algo no céu chamou a sua atenção. Mais especificamente algo que surgia entre as nuvens com uma velocidade descomunal. Então a garota franziu a testa, olhou para aquele estranho objeto em chamas e deduziu que devia ser uma estrela cadente.
– Que diabos... — murmurou ela ao perceber que aquele estrela, além de ter um formato no mínimo diferente, estava vindo bem na direção da estrada.
E ao voltar os olhos para a direção, a garota gritou assustada e desviou bruscamente quando aquilo caiu a poucos metros do seu carro. Por pouco ela não passou por cima daquele peculiar objeto. Mas ao evitar que isso acontecesse, ela acabou perdendo o controle da direção e derrapou na estrada escorregadia. O carro girou e capotou violentamente até parar no acostamento com as rodas para cima. O gosto de sangue em sua boca foi a última coisa que ela sentiu antes de desmaiar.
Alguns minutos depois, ela começou a abrir os olhos e percebeu que estava de cabeça para baixo, presa apenas pelo cinto de segurança. Sentia-se zonza e uma dor excruciante na perna direita a fez gemer. Com dificuldade, ela deslizou a mão até o joelho e sentiu o sangue encharcando a calça jeans que usava. Também sentiu o sangue escorrendo pela sua testa e deduziu que devia ter cortado o supercílio, além de ter quebrado a perna.
– Ótimo... — resmungou.
Ainda tonta ela olhou para o retrovisor e assistiu, em choque, um homem levantando da estrada. As roupas dele estavam ligeiramente chamuscadas e apesar de não fazer o menor sentido, a garota deduziu que aquele homem, de alguma forma, havia caído do Céu. Não tinha sido uma estrela cadente, mas sim aquele homem que havia despencado lá de cima.
Enquanto ele se levantava, uma luz cegante, que parecia vir dele, fez a garota fechar os olhos e proteger o rosto com uma das mãos. E em seguida, ela tampou os ouvidos por causa do ruído estridente e incômodo que crescia a cada segundo.
Ela abriu um pouco os olhos e ao perceber que os vidros do carro começaram a trincar, ela protegeu o rosto rapidamente. E logo eles se partiram espalhando cacos por toda a parte.
A garota estava em choque e não fazia ideia do que estava acontecendo ali. Chegou a pensar que talvez estivesse inconsciente e imaginando tudo aquilo. Mas ao mesmo tempo, tudo era muito real. Principalmente a dor latejante em sua perna. Sentiu vontade de gritar, mas desistiu ao perceber que pouco a pouco, aquela luz brilhante foi se extinguindo a medida que aquele homem desconhecido se aproximava do carro. E ela sentiu medo. Muito medo.
Desesperada, ela tentou tirar o cinto de segurança a todo custo, mas antes que conseguisse, o sujeito parou ao lado do carro e sem demonstrar qualquer dificuldade arrancou a porta do lado da motorista e a jogou a alguns metros. Em seguida, ele se abaixou e olhou para a garota visivelmente preocupado e igualmente confuso.
– Eu machuquei você? — indagou ele.
Ela o olhou intrigada. Era um homem, afinal. Mas como? Como alguém podia despencar do céu daquela forma e não se ferir? E de onde ele tinha vindo? De um avião? De um helicóptero? Ele não podia simplesmente ter caído de uma nuvem. Ele era apenas um homem. Do tipo que você pode encontrar em qualquer lugar. Aparentava uns trinta e poucos anos, era alto, tinha os cabelos castanhos e curtos e um rosto retangular. A chuva aumentou ainda mais enquanto ela tentava entender o que estava acontecendo e ao perceber que a garota estava em choque e confusa, ele insistiu:
– Você está bem?
– Eu acho que quebrei a perna... — murmurou ela com dificuldade.
– Eu sinto muito. Eu não queria machucá-la. — lamentou ele aproximando o dedo de sua testa ensanguentada.
– Ei! Fica longe de mim! — ordenou ela com medo, mas ao perceber que inexplicavelmente a dor havia passado quando ele a tocou, ela o encarou ainda mais perplexa e perguntou — O que você fez?
– Eu consertei você. — respondeu ele.
– Me consertou? — repetiu ela confusa após se certificar de que a sua perna não estava mais doendo — Quem é você? — quis saber ela intrigada.
– Ezequiel. — respondeu ele a olhando serenamente — E você é Claire Davis.
– Como você sabe o meu nome? — surpreendeu-se a garota cada vez mais entendendo menos o que estava acontecendo ali.
De repente ele ficou distante e pensativo. Então a olhou novamente e continuou:
– Mais uma vez, me desculpe, Claire. Eu não quis assustá-la, muito menos causar este acidente. Mas a verdade é que nem eu consigo entender direito como vim parar aqui na Terra. Eu estava com os meus irmãos e então alguma coisa aconteceu. Uma coisa ruim. E quando eu percebi, eu já estava caindo.
– O quê...? — indagou ela ainda mais perplexa e franzindo a testa, continuou — Do que diabos você está falando? Quem é você, afinal? Ou melhor... O que é você?
Claire esperava respostas, mas Ezequiel ignorou as suas perguntas e ficou distante novamente. Em seguida, ele a olhou mais uma vez e encerrou antes de se levantar e se afastar:
– Eu preciso ir, Claire. Eu preciso encontrar os outros. Adeus.
– Adeus? — resmungou ela enquanto o via se afastar pelo que sobrou do retrovisor quebrado — Ei! Não me deixa aqui! Eu estou presa! Socorro! Volta aqui! Socorro! Eu preciso de ajuda! Ezequiel! Alguém?
Ao se dar conta de que estava gritando em vão e que o tal sujeito já havia se distanciado muito e sumido no meio da escuridão da noite, Claire se deu por vencida e resolveu sair daquela situação por conta própria. Então ela tentou destravar o cinto de segurança. Quando finalmente conseguiu, ela começou a se arrastar devagar até o lado de fora do carro tomando o máximo de cuidado para não se ferir com os cacos de vidro espalhados pelo asfalto. Enquanto se levantava, Claire viu um caminhão passar por ela e teve a impressão de ver Ezequiel no banco do carona. Então ela acompanhou o veículo com o olhar até que ele sumiu na linha do horizonte.
Em seguida, ela pegou o celular no bolso da calça e ficou aliviada ao perceber que o aparelho ainda estava inteiro. Resolveu ligar para o serviço de guincho e enquanto esperava que alguém a atendesse, Claire se afastou do carro e ficou andando de um lado para o outro na estrada. A tempestade finalmente havia passado, mas ela ainda tremia um pouco devido ao frio e às roupas molhadas. E também devido ao choque.
– Serviço de guincho 24 horas, boa noite. — anunciou a atendente do outro lado da linha.
– Oi, boa noite... — começou a responder, mas de repente Claire parou enquanto olhava para o chão e via algo estranho.
– Alô? Alô? Senhora? Eu não estou ouvindo... Alô? — chamou a atendente.
Intrigada com algo que havia visto no asfalto, Claire desligou o celular e se aproximou do lugar exato onde Ezequiel havia caído minutos antes.
Com a ajuda do celular, ela iluminou a cratera aberta possivelmente pelo impacto da queda. Ainda havia pequenas chamas em volta do lugar, mas pouco a pouco elas eram apagadas por uma leve garoa que ainda caía. Automaticamente, Claire lembrou das roupas chamuscadas de Ezequiel e das coisas sem sentido que o sujeito havia dito. Mas o que mais impressionou Claire foi o desenho formado pelas cinzas no asfalto. Apesar da água acumulada ali, era possível ver nitidamente o desenho de duas enormes asas negras abertas em volta da cratera.
Claire observou o desenho por mais alguns instantes e em seguida ergueu a cabeça e olhou para o céu finalmente entendendo o que Ezequiel era. Em seguida ela passou a mão pela perna e lembrou que momentos antes ela estava fraturada. E lembrou também do que Ezequiel fez. De quando ele tocou a sua testa e...
– Ele me consertou... — murmurou ela e em seguida lembrou automaticamente da sua mãe e das palavras do médico.
"Não há nada na medicina capaz de reverter o quadro dela."
XXX
Agora
Greensburg — Kentucky
Um dia após a morte de Kate
Era madrugada e Sam e Dean haviam parado em um bar nos arredores de Greensburg. Apesar do horário avançado, o lugar estava cheio e barulhento. Os dois haviam parado ali porque Dean estava morrendo de fome e Sam precisava de um café antes de dirigir no lugar do irmão.
O mais novo olhava ora para Dean, ora para o notebook e parecia incomodado com alguma coisa. Alheio ao que se passava na cabeça do irmão, Dean apenas bebia a cerveja e comia um X-Bacon.
– Awesome! — murmurou ele de boca cheia e muito satisfeito com o saboroso lanche.
De repente, Sam fechou o notebook e começou:
– Posso falar com você?
– Claro. — assentiu o mais velho.
Sam ficou em silêncio por alguns instantes pensando em como dizer aquilo, e então resolveu simplesmente dizer:
– Você estava certo, Dean.
– Dá pra ser mais explícito. — pediu o irmão e dando um sorriso debochado, acrescentou — É que geralmente eu estou sempre certo, então fica meio difícil saber do que exatamente você está falando.
Sam suspirou e revirou os olhos antes de explicar:
– Você estava certo, Dean, sobre eu não estar tentando superar Meredith e sobre eu não estar concentrado no trabalho.
– Oh! Sobre isso! — disse o mais velho fingindo surpresa.
Sam riu levemente e em seguida continuou:
– Dean, apenas me escute, ok? Quando eu falei aquelas coisas sobre a Lisa, eu não queria magoar você. Eu só estava querendo dizer que todas as vezes que nós tentamos nos relacionar com alguém, pessoas como ela, Bonnie ou Meredith terminam machucadas. Mas mesmo assim e por alguma razão que eu não entendo, eu continuei insistindo, todos esses anos, em encontrar alguém e ter uma vida normal com esse alguém. Mas pra quê, Dean? Quantas pessoas eu machuquei no percurso? Jessica, Amelia... Quantas pessoas eu machuquei por causa do que eu faço e de quem eu sou? Um caçador. E por que eu continuei tentando construir algo especial com alguém mesmo assim?
– Por que você acredita em almas gêmeas? — sugeriu Dean com um sorriso, mas ao notar que o irmão fechou a cara, se antecipou — Ok, cala a boca, Dean.
Sam esperou alguns instantes, antes de continuar:
– Foi por isso que eu abri mão da Meredith, Dean. Porque eu sabia que mais cedo ou mais tarde, ela iria se machucar também. E se não fosse um demônio ou qualquer outro monstro, certamente eu mesmo iria machucá-la. Porque é isso que eu acabo fazendo sempre, Dean. Machucando as pessoas, decepcionando as pessoas e... Depois que você me falou aquelas coisas ontem, eu fiquei pensando. E eu percebi, mais do que isso, eu me convenci de que chegou a hora de parar de tentar encontrar esse alguém e simplesmente seguir em frente. E superar Meredith de verdade e não da boca pra fora. — Sam fez uma breve pausa e em seguida, continuou — A verdade é que eu não quero mais machucar ninguém, Dean. Eu estou cansado disso. E também não quero mais me machucar no processo. Acreditar que as coisas podem ser diferentes, pra em seguida ver tudo desmoronar de novo. Isso quando eu não me envolvo com as pessoas erradas, como a Ruby, e começo o fim do mundo...
– Peraí, deixa eu ver se eu entendi. — interrompeu Dean um tanto confuso — Você está tentando me dizer que vai virar monge? Porque se for isso, cara, não precisa ser tão radical. Eu sei que você cometeu alguns erros e passou por várias decepções, mas também não precisa se sacrificar desse jeito. Além disso, um homem precisa de um pouco de diversão. Você sabe... Às vezes.
– Dean, você está bêbado? — perguntou Sam indignado pelo irmão dizer tanta besteira.
– Um pouco... Eu acho. — admitiu o mais velho.
– Eu estou querendo dizer que eu vou tentar superar e esquecer Meredith, de verdade, e que a partir de hoje, eu vou me dedicar única e exclusivamente ao trabalho. Me concentrar nisso. Apenas nisso. — explicou Sam.
– Sem almas gêmeas? — indagou Dean.
– Almas gêmeas não existem. — afirmou Sam — Pelo menos não para pessoas como nós.
– Ok. Por mim tudo bem. Mas se prepara porque quando a Mia souber disso, ela vai ficar muito decepcionada. — previu Dean.
– Cala a boca. — resmungou Sam e depois de algum tempo observando o irmão, resolveu perguntar — E você?
– Eu o quê? — não entendeu Dean.
– Como você está? — quis saber Sam — Você superou ou está superando a Bonnie?
– Sammy, não é porque você abriu o seu coração que eu tenho que fazer a mesma coisa. — esquivou-se o irmão.
– Dean...
– Ok! Eu estou superando. — respondeu o mais velho por fim e em seguida tomou um gole da cerveja.
– Fale comigo, Dean. — pediu o mais novo.
O mais velho respirou fundo e resolveu dizer de uma vez:
– Ok. Você quer mesmo saber? Então lá vai... Eu e a Bonnie éramos mais complicados do que você e a Meredith. Desde o começo estava claro que eu e ela não podíamos dar certo. E não porque ela é uma bruxa e eu meio que odeio bruxas, ou porque ela está morta e eu não curto necrofilia, mas sim porque a Bonnie ainda tem uma ligação especial e muito forte com o idiota do Gilbert. Sei lá, talvez eles sejam mesmo almas gêmeas...
– Dean, você anda conversando demais com a Mia. — observou Sam intrigado.
– Não importa. O que importa é que eu estou superando também. Eu gostava dela, eu realmente gostava e foi bom enquanto durou, mas... Acabou. — afirmou Dean — E se você quer se concentrar no trabalho, adivinha? Você não é o único, Sammy. Eu também quero isso. E é exatamente isso que eu vou fazer. Além de encher a cara e assistir pornô japonês, é claro.
– Sem almas gêmeas? — brincou Sam.
– Almas gêmeas não existem. — resmungou Dean — Como você disse, não para pessoas como nós.
Sam sorriu levemente e em seguida ficou em silêncio por algum tempo antes de dizer:
– Só mais uma coisa. Desculpe se, às vezes, eu sou um porre.
– Às vezes? — repetiu Dean.
– Cala a boca... — resmungou Sam e em seguida abriu o notebook e mudou de assunto enquanto lia uma matéria pela Internet — Bem, já que estamos 100% concentrados no trabalho, que tal isso? Mulher é encontrada morta dentro de casa no Tennessee com sinais de violência. Portas e janelas fechadas, nenhum sinal de arrombamento.
– Espírito vingativo? Demônio? — sugeriu Dean.
– Ou outras cem opções. — respondeu Sam.
– Nada contra este caso, mas eu pensei que nós íamos nos concentrar no ex-anjo, na vampira e nos anjos caídos. — lembrou Dean.
– Nós vamos, mas primeiro nós temos que voltar pro bunker e o Tennessee fica bem no caminho de casa, então eu pensei em dar uma olhada nisso primeiro. Parece ser o nosso tipo de trabalho. — explicou Sam.
– É, sem dúvida parece. Ok. Por mim tudo bem. Não deixa de ser um trabalho, não é? — assentiu Dean terminando a cerveja e em seguida se levantou dizendo — Eu vou tirar água do joelho.
Sam sorriu levemente e voltou a ler a matéria enquanto Dean se afastava e era observado por uma garota que estava sentada em uma mesa próxima da deles. De lá ela havia ouvido toda a conversa entre os irmãos e parecia intrigada.
A bela jovem, de aproximadamente vinte e sete anos, de cabelos loiros e levemente enrolados, observou o Winchester mais velho se afastar e em seguida olhou para Sam que estava visivelmente concentrado no que estava pesquisando. Em seguida, ela pegou o celular e ligou para alguém.
Quando a pessoa do outro lado da linha atendeu, ela disse num tom de voz baixo:
– Claire? Você não vai acreditar, mas eu acho que finalmente encontrei uma pista. Não, eu não estou brincando. Eu ouvi uma conversa entre dois caras num bar. Não, eles não estavam bêbados. Pelo menos, não os dois. Foi uma conversa muito estranha por sinal, mas no meio de um monte de coisas sem sentido, eles falaram algo sobre um ex-anjo e anjos caídos. Pois é, pode ser uma pista sobre Ezequiel. Eu sei, eles são caçadores. Sim, eu sei que eu não posso simplesmente seguí-los. Claire, quantas vezes eu preciso te lembrar que eu não sou uma amadora? Eu sei o que eu estou fazendo. E é claro que eu sei o que eu tenho que fazer agora, Claire. OK. Eu te mantenho informada. Eu já falei que você é um amor?
A loira desligou o telefone um pouco irritada e esperou alguns minutos. Quando viu que Dean estava saindo do banheiro, ela colocou a bolsa no ombro e pegou algo dentro dela antes de se levantar. Então caminhou em direção ao banheiro e quando Dean passou por ela, a garota fez questão de tropeçar e esbarrar nele. Então, com agilidade e sem que ele percebesse, ela colocou um pequeno localizador no bolso da jaqueta de Dean.
– Me desculpe. — pediu ela sorrindo enquanto ele a encarava visivelmente confuso — Eu sou muito desastrada mesmo. Desculpe.
Em seguida, ela se afastou e continuou andando em direção ao banheiro feminino. Dean se virou e seguiu a garota com o olhar ainda mais intrigado. Em seguida, levantou as sobrancelhas e voltou para a mesa.
– O que foi? — perguntou Sam ao notar que o irmão estava com uma expressão estranha.
– Nada. — respondeu ele.
– Nada? — repetiu Sam sem acreditar — Fala sério, Dean. Você está com uma cara estranha. O que aconteceu? Um cara te cantou no banheiro?
– Uma garota tropeçou em mim. — contou ele por fim.
– E? — quis entender Sam.
– E foi estranho. — disse Dean lembrando do momento em que o seu olhar encontrou o olhar da bela loira.
Sam riu e em seguida continuou:
– Dean, a Mia falou que a sua alma gêmea ia tropeçar em você e uma garota qualquer tropeçou em você. É só isso. Você deve ter tido um déjà vu, nada demais.
– Déjà vu... — repetiu Dean enquanto pensava um pouco.
– Não me diga que você vai dar ouvidos pra Mia agora? O que aconteceu com o lance de se concentrar no trabalho e de que almas gêmeas não existem? — indagou Sam sorrindo.
– Não, Sammy... Não é isso. Quer dizer, é isso! Déjà vu. Eu acho que tive um déjà vu. — afirmou Dean enquanto tentava lembrar de onde conhecia aquela mulher.
Sam ergueu uma sobrancelha e brincou:
– Você teve um déjà vu com uma loira que esbarrou em você em um bar de estrada. Por que eu não estou surpreso? Isso não é déjà vu, Dean, isso é rotina. Acontece sempre.
– Não, Sammy, eu estou falando sério. Desta vez foi diferente. Desta vez eu senti como... Como... Se... Realmente... — tentou explicar Dean, mas de repente ficou calado.
– Ok. Qual o problema, Dean? — indagou Sam começando a estranhar o comportamento do irmão e fechando o notebook.
O mais velho pensou um pouco antes de dizer por fim:
– Eu senti como se eu a conhecesse de algum lugar. Alguma coisa no olhar dela...
– Alguma coisa no olhar dela? — repetiu Sam sorrindo — Certo... Dean, você está realmente bêbado, não é? Você nem deve ter prestado atenção na cor dos olhos dela...
– Eram verdes. — interrompeu Dean deixando Sam surpreso — Eu devia perguntar pra ela de onde eu a conheço. — cogitou ele e em seguida se virou para ver se a loira já havia saído do banheiro e acabou vendo que ela estava deixando o bar naquele exato momento.
– Você vai seguí-la? — perguntou Sam com certo receio.
Dean viu pela janela, a misteriosa loira entrar em um carro e hesitou. Por um lado queria tirar aquela história a limpo, mas por outro, Sam devia estar certo. Não era nada demais. Ele estava dando importância demais para aquilo. Devia estar bêbado mesmo.
– Não. — respondeu ele vendo a loira indo embora e em seguida olhou para o irmão e acrescentou — Você está certo, Sammy, não foi nada. Eu só bebi demais.
O mais novo observou o irmão por alguns instantes sem entender por que Dean havia ficado tão impressionado com a tal desconhecida. Depois olhou em volta e resolveu mudar de assunto:
– Onde estão a Mia e o Cas? Ela ligou e disse que estava chegando, mas até agora...
– Falando no diabo... — resmungou Dean vendo que o casal estava entrando no bar naquele momento.
E algo que Mia trazia nos braços, chamou a sua atenção e Dean arregalou os olhos. Tranquilamente ela sentou ao lado dele e Castiel ao lado de Sam.
– O que é isso? — indagou Dean se afastando um pouco enquanto encarava Vincent.
– Isso é um gato. — respondeu ela.
– Nós sabemos que é um gato, Mia, mas o que ele está fazendo aqui? E com você? — indagou Sam.
– Oh! Eu adotei. — respondeu a garota e sorrindo para Castiel, corrigiu — Na verdade, nós adotamos, não é, anjo?
– Que diabos... — resmungou Dean.
– O nome dele é Vincent. — corrigiu Castiel.
– Mia, nós não podemos ficar com ele. — reprovou Sam.
– Por que não? Ele é fofo. E eu gosto de gatos. — argumentou ela.
– E eu odeio gatos. — confessou Dean.
– Por quê? O que eles fizeram pra você? — estranhou Mia.
– É uma longa história. — respondeu Dean evasivamente.
Mia o observou por alguns instantes e em seguida colocou Vincent no colo de Dean e aconselhou:
– Seja lá qual for o seu problema com gatos, chegou a hora de superar.
– Tira essa coisa daqui... — pediu Dean incomodado com a presença do bicho.
Então Vincent mostrou os dentes e miou de uma forma estranha. Ficou todo arrepiado e suas garras ficaram à mostra enquanto ele encarava Dean. Mia pegou o gato de volta e deduziu:
– Parece que ele não gostou de você.
– A recíproca é verdadeira. — devolveu Dean.
Os quatro olhavam para o gato quando um homem careca, alto, musculoso e cheio de tatuagens, que trabalhava no bar, se aproximou da mesa deles e avisou:
– Desculpe, não é permitido animais aqui.
– Sam e Dean, vocês ouviram, ele quer que vocês dois saiam. — debochou Mia enquanto acariciava Vincent.
– Hilária. — resmungou Dean.
– Muito hilária. — acrescentou Sam.
O funcionário do bar suspirou e repetiu com certa impaciência:
– Nós não permitimos gatos neste estabelecimento.
– Agora ele está falando com você, Cas. — insinuou Mia sorrindo para o anjo que sorriu de volta.
– Oh... Por favor, se contenham. — disseram Sam e Dean ao mesmo tempo quando perceberam a troca de olhares entre o casal.
Mia sorriu e levantou em seguida. E quando ficou de frente para o cara do bar, ela perguntou:
– Desculpe, qual é o seu nome?
– Frank. — respondeu ele.
– Frank... É um nome legal. Bem, Frank, eu sei que não é permitido animais neste estabelecimento, mas quer saber? Eu não me importo. — prosseguiu Mia enquanto o olhava fixamente nos olhos — E você também não se importa. É por isso que você vai abrir uma exceção esta noite, Frank, e deixar o gato ficar.
– Claro. — concordou ele prontamente — O gato pode ficar.
– Sabe de uma coisa? Eu gostei de você, Frank. E eu acho que você merece a noite de folga. É... É isso! Tire esta noite de folga. Você merece! — compeliu Mia.
Imediatamente, Frank sorriu muito feliz e se afastou. Em seguida tirou o avental que usava até então e o largou em cima do balcão. E depois deixou o bar sem olhar para trás.
– Ah! Nada como fazer uma boa ação! — murmurou Mia se sentando de novo enquanto Sam, Dean e Castiel a olhavam surpresos.
E de repente os quatro ouviram um cara, que devia ser o dono do bar, gritar nervoso enquanto olhava tudo em volta:
– Cadê o Frank?!
Mia olhou para Castiel, Sam e Dean, levantou depressa e saiu do bar rindo do que ela havia feito. Dean colocou algum dinheiro sobre a mesa e também saiu do bar com o irmão e Castiel.
– Mia, por que você fez isso? — desaprovou Sam já no estacionamento.
– Ah! Foi divertido... — justificou ela.
– Divertido? Provavelmente o Frank vai perder o emprego. — cogitou Dean.
Ao ouvir isso, Mia parou de rir imediatamente e pensou por alguns instantes. Em seguida entregou Vincent para Castiel segurar e avisou sorrindo antes de voltar para o bar:
– Eu tive uma ideia, gênios.
Os Winchester e Castiel se olharam apreensivos e minutos depois, Mia voltou e explicou tranquilamente:
– Pronto, Frank não vai ser demitido. Eu convenci o dono do bar de que ele mesmo deu folga para o funcionário. E Frank ainda vai ganhar um aumento! Perfeito, não? Duas boas ações num só dia. Eu devia virar santa... — e como eles ainda a olhavam perplexos, Mia resolveu mudar de assunto — Então, para onde nós vamos agora, mocinhas?
– Tennessee. Tem algo por lá que nós precisamos checar. — respondeu Sam.
– Ah! Sempre tem. — refletiu Mia e em seguida caminhou até o Mustang, abriu a porta e se apoiou nela — Ok, Tennessee então.
– Mas nós vamos parar no caminho, certo? Em algum hotel? — perguntou Castiel um tanto ansioso — Para... Descansar.
Sam e Dean olharam para Castiel e depois para Mia que sentiu o seu rosto ruborizar rapidamente e repreendeu:
– Anjo, você precisa ser mais sutil em relação a... Certas coisas.
– Não se preocupe, Cas. Nós vamos parar no caminho. — garantiu Dean.
– É. E você e a Mia vão ter tempo suficiente para... Descansarem. — provocou Sam.
– Eu espero que desta vez nada nos interrompa. — murmurou Castiel.
– Ok! Anjo, cala a boca e entra no carro. Sam e Dean, vejo vocês no próximo hotel e quando nós chegarmos lá, me lembrem de fazê-los esquecer completamente deste momento... Embaraçoso. — encerrou Mia constrangida antes de entrar no carro e fechar a porta.
– Vai ser meio difícil esquecer. — debochou Dean antes de se afastar com o irmão e entrar no Impala.
E momentos depois os quatro alcançaram a estrada e seguiram viagem. Logo eles ultrapassaram o carro da loira misteriosa que havia esbarrado em Dean momentos antes. O carro estava parado no acostamento com os faróis apagados. Dentro dele, a garota monitorava através do notebook o localizador que colocou em Dean momentos antes. Ela sorriu satisfeita ao ver o ponto verde que piscava na tela do computador e murmurou:
– Natalie Jones, você é uma gênia.
Depois de esperar alguns instantes, ela ligou o carro e pegou um caminho alternativo para que o seu alvo não percebesse que estava sendo seguido.
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