Recomeço
20 Capítulo 20 - Em busca de Ezekiel
Notas iniciais
Era manhã, pouco mais de oito horas. Sam, Dean, Natalie e Claire haviam acordado há pouco, tomado banho, trocado de roupas e agora estavam sentados à mesa, na sala principal do bunker tomando café quando Kevin desceu as escadas, se aproximou e se juntou a eles puxando uma cadeira. No entanto, antes de sentar, ele espirrou algumas vezes e Dean deduziu:
– Parece que alguém pegou um resfriado.
– Antes fosse isso, mas a culpa é do Vincent... Eu sou alérgico. Gato maldito... — esclareceu o Profeta.
– Nem me fala... Odeio gatos. — concordou Dean que não tinha um bom histórico com aquele tipo de animal.
Em seguida, Dean bocejou e como um efeito dominó, todos na mesa, exceto Kevin, bocejaram também. Primeiro, Sam ao lado do irmão, depois Claire sentada na sua frente e por último, Natalie ao lado da garota.
Ao ver aquele cansaço coletivo, Kevin perguntou:
– Vocês dormiram bem?
– Como uma pedra. — mentiu Natalie.
– É... Eu também. — acrescentou Claire hesitando um pouco.
– Claro. — mentiu Sam enquanto olhava rapidamente para ela.
– Eu tive um pesadelo. Mas depois dormi como um bebê. — completou Dean olhando para Natalie.
Kevin olhou para os quatro achando estranha a forma como eles estavam agindo, mas preferiu não questionar o comportamento deles. No fundo, estava cansado também porque desde que Vincent se acomodou no seu quarto, ele espirrou o resto da noite e não conseguiu mais dormir.
– Cadê a Mia e o Cas? — lembrou Sam mudando um pouco de assunto.
– Ainda não saíram do quarto. — respondeu Kevin.
– Que surpreendente! — ironizou Dean imaginando qual era o motivo da demora.
Mas de repente, todos olharam para a porta ao ouvirem alguns risos e logo Mia entrou abraçada com o ex-anjo. Ao ver que todos os observavam, eles pararam de rir, se separaram e se dirigiram à mesa. Mia sentou ao lado de Natalie e Castiel ao lado de Dean.
– Bom dia! — disse o casal ao mesmo tempo.
– Bom dia. — responderam os outros.
– Eu estou faminto... — murmurou Castiel enquanto pegava um pouco de cada coisa que havia na mesa de café da manhã.
– Eu nem quero imaginar por que... — resmungou Dean.
Enquanto isso, Mia apoiou os cotovelos sobre a mesa e ficou observando Castiel com um olhar apaixonado enquanto ele tomava o café. Como era uma vampira, Mia era a única que não estava se alimentando naquele momento. Mas decidiu que depois iria se alimentar longe deles. Ainda sentia-se envergonhada por beber sangue no meio de caçadores.
– Epa! Quem está roçando a minha perna embaixo da mesa? — perguntou Dean de repente e sem perceber olhou para Natalie.
– Por que você está olhando pra mim, Sr. Awesome? — estranhou ela.
Automaticamente, Mia afastou o pé da perna dele, encostou as costas na cadeira e explicou:
– Desculpe, Dean! Eu pensei que fosse a perna do... Cas.
Dean revirou os olhos e Castiel sorriu antes de esticar o pé e começar a passá-lo suavemente na perna de Mia. Ela suspirou e voltou a apoiar os braços na mesa enquanto o observava.
– Dean, você pode me passar o café, por favor? — perguntou Natalie em seguida.
– Claro, Naty. — assentiu Dean lhe entregando a garrafa térmica — Você quer um pouco de açúcar também?
– Sim, seria ótimo. — respondeu a loira e então Dean lhe passou o açucareiro — Obrigada.
– Disponha. — respondeu Dean.
– Você é um amor, sabia? — elogiou ela.
– Imagina... São seus olhos, loirinha. — respondeu ele.
Sam, que assim como os outros na mesa, observavam os dois admirados, perguntou:
– O que diabos foi isso?
– Isso o quê? — perguntou Dean se fazendo de desentendido.
– Você e a Natalie sendo educados um com o outro. E até um pouco... Falsos, eu diria. — observou Sam.
– Falsos por quê? Por acaso, você não me acha um amor? — perguntou Dean para o irmão e como Sam não respondeu, ele mesmo afirmou — Eu sou um amor.
– O que tem nesse café? — perguntou Sam examinando a garrafa térmica.
Enquanto Dean e Natalie se olhavam como se estivessem decidindo quem ia explicar primeiro, Mia e Castiel se olharam e sorriram levemente deduzindo que o caçador e a loira tinham seguido o conselho deles.
Então Dean resolveu começar:
– Não tem nada no café, além de... Café. O que acontece é que eu e a Naty conversamos e decidimos que vamos nos tratar civilizadamente de agora em diante. Só isso.
– Como um trégua? — quis entender Sam.
– É. Como uma trégua. — confirmou Dean.
– Por quê? — estranhou o mais novo.
Dean olhou para a loira por alguns instantes e em seguida respondeu:
– Bem, ela não tem culpa de ser insuportável.
– E ele não tem culpa de ser um idiota. — devolveu Natalie tentando manter a calma.
– Mas nós estamos juntos nisso tudo. — continuou Dean.
– Infelizmente. — ressaltou a loira.
– Exato! Infelizmente. — concordou Dean — E, pra que isso dê certo, nós temos que relevar algumas coisas para conseguirmos trabalhar juntos e resolvermos o lance do Ezekiel logo.
– É... E depois eu vou embora. Claire vai embora. Adeus Winchesters. Adeus Bat Caverna. Fim da história. — completou Natalie tranquilamente antes de erguer a xícara e tomar o café.
Enquanto Dean pensava na forma como a loira se referiu ao bunker, exatamente como ele se referia, às vezes, Sam se pegou olhando para Claire. Ela o encarou de volta como se estivesse pensando a mesma coisa que ele. E embora a ideia de que a garota fosse embora quando eles encontrassem Ezekiel e resolvessem aquele caso não lhe agradasse, Sam sabia que não podia esperar outra coisa. Ele e Claire se encontraram por uma razão, mas quando tudo aquilo acabasse, eles voltariam a ser dois estranhos um para o outro. Pensando nisso, ele continuou:
– Que bom que vocês resolveram manter o foco no trabalho. Em encontrar Ezekiel. Isso é bom.
– Por falar nisso, quando nós vamos ir atrás dele? — quis saber Claire um pouco ansiosa e olhando especificamente para Sam, continuou — Você disse que tinha uma pista de onde ele está ou esteve, sei lá. E a verdade é que o tempo está passando e a vida da minha mãe continua em jogo. E... Ela não tem muito tempo. Se nós vamos fazer alguma coisa, tem que ser logo.
– E nós vamos. — tranquilizou Sam e depois, explicou — Eu encontrei um caminhoneiro há alguns dias. Ele me contou que viu Ezekiel no meio de uma estrada próximo a St. Louis. Ele ofereceu carona para o anjo e me disse onde o deixou exatamente.
– Ótimo! Então, quando nós vamos checar esta pista? — interessou-se Natalie.
Sam e Dean se entreolharam e o mais velho continuou:
– Sobre isso... Eu lamento informar, mas vocês não vão com a gente.
– Como assim nós não vamos com vocês? — estranhou Claire.
– É, Dean. Como assim? O que aconteceu com o lance de trabalharmos juntos nisso? — questionou Natalie igualmente confusa.
– Olha, acredite, não é nada pessoal, meninas. Mas vocês não conhecem os anjos como e o meu irmão conhecemos. Ezekiel pode ser perigoso. Por isso, o melhor que vocês podem fazer é ficar aqui, no bunker, a salvo, enquanto eu e o Sam procuramos pelo anjo. — explicou o Winchester mais velho.
– Eu sei muito bem me defender. Eu sou uma caçadora, lembra? — protestou Natalie.
– Até onde eu sei, uma caçadora sem experiência com anjos. — argumentou Dean.
– Qual é? Anjos não podem ser tão ruins assim? — duvidou Natalie.
– E não são. — interveio Castiel — Alguns deles não são os melhores exemplos de conduta, é verdade. Eu mesmo já tomei algumas atitudes e fiz coisas das quais eu não me orgulho, mas a maioria dos anjos é de confiança. E até onde eu me lembro, Ezekiel é um bom soldado. Vocês podem confiar nele.
– Sem ofensa, Cas, mas da última vez que você confiou em um anjo, ele tirou a sua graça e te expulsou do céu. Com todos os anjos, aliás. — lembrou Sam e em seguida, completou — Nós não podemos, simplesmente, acreditar que Ezekiel é confiável. Que ele não é como Metatron, ou... Zacharias, Uriel, Rafael...
– Vocês estão esquecendo de uma coisa. — interrompeu Claire e então todos a olharam — Eu sou a única pessoa nesta sala capaz de reconhecer Ezekiel. Reconhecer a sua... Casca, o seu receptáculo. E sim, eu confio nele. Ele salvou a minha vida numa estrada em St. Louis, caso eu não tenha contado.
– Depois de ter provocado o seu acidente. — lembrou Sam.
– Não importa. Ele não fez por mal. E ele podia simplesmente ter dado as costas, ido embora e me deixado lá com a perna quebrada. Mas ao invés disso, Ezekiel me curou e só então partiu. Ele parecia confuso, perdido, e com razão, mas eu não vi nenhuma ameaça nos olhos dele. — argumentou Claire e depois de alguns instantes, acrescentou — Além disso, eu posso não ser uma caçadora, mas eu também sei me defender muito bem. Mas eu tenho certeza que isso não será necessário. Eu confio em Ezekiel.
Sam observava a garota um pouco intrigado. A verdade é que estava com certo ciúme da forma como ela falava de Ezekiel. O anjo parecia ser mesmo perfeito. Pelo menos para ela.
– Bem, eu, particularmente, não confio muito nas boas intenções dos anjos. — disse Kevin e ao perceber que Castiel o olhava um pouco ofendido, esclareceu — Você é uma exceção, Cas.
– Eu também não consigo confiar nos anjos. Só no meu anjinho sem asas, é claro. — disse Mia olhando para Castiel com carinho e em seguida, acrescentou olhando para Claire e Natalie — Por isso, todo cuidado é pouco, meninas. Mesmo que Ezekiel seja um Jedi, ele pode ter encontrado outros anjos, se deixado influenciar por eles, sei lá. Além disso, os anjos não gostam muito dos Winchesters, com todo aquele lance dos meninos terem impedido o Apocalipse. Pode ser perigoso vocês irem com eles.
Claire ainda tentava entender o que Mia quis dizer exatamente com o lance de impedir o Apocalipse. Como caçadora, Natalie tinha ouvido alguns boatos sobre aquilo há alguns anos, em alguns bares de estrada frequentados por outros caçadores e também durante alguns exorcismos quando os demônios mencionavam que Lúcifer estava vindo e que todos na Terra iriam se curvar diante dele. Só então, Natalie se deu conta de que tudo aquilo devia ser verdade. O Apocalipse tinha passado. Sam e Dean deviam ter dado um jeito de impedí-lo. Mas, por mais que tivesse ficado curiosa e quisesse saber mais sobre aquilo, ela resolveu manter o foco da conversa e olhando para Sam e Dean, afirmou decidida:
– Eu vou com vocês. Fim de papo.
– Eu também. E não tem nada que vocês possam dizer ou fazer que vai me convencer do contrário. — completou Claire determinada.
Sam e Dean respiram fundo visivelmente irritados com a teimosia das garotas, mas logo se deram por vencidos. Era inútil discutir com mulheres. E aquelas ali eram os exemplos mais teimosos delas.
Então Dean levantou da mesa e olhando para Castiel, continuou:
– Ok. Cas, nós vamos precisar da sua espada angelical. Ezekiel pode ser um bom soldado ou pode não ser. E eu prefiro me precaver do que confiar nas boas intenções dele. Afinal, o Jedi de hoje pode ser o Darth Vader de amanhã.
Castiel inclinou a cabeça, franziu a testa e disse confuso:
– Eu não entendo esta referência, Dean. Mas, de qualquer forma, eu não preciso entregar a espada. Porque eu vou com vocês.
– Não, você não vai. — discordou Sam — Nós estamos indo atrás de um anjo, Cas, e depois das coisas que você fez, eu não sei se Ezekiel ou qualquer outro anjo vai gostar de te ver. Sinto muito, mas é melhor você ficar aqui.
– Sam está certo. — concordou Mia e depois de segurar a mão do anjo sobre a mesa e o olhar com carinho, continuou — Sem ofensa, Cas, mas você é o última pessoa que os anjos querem ver neste momento. Ou melhor, talvez eles queiram te ver, mas apenas para te matar, depois de te torturar bastante e...
– Quanto otimismo... — resmungou ele um pouco chateado.
– Olha, eu sei que você realmente acreditou que estava fazendo a coisa certa quando se juntou ao Metatron naquele plano idiota de fechar o Céu, mas você é humano agora, Cas. Pode se machucar. Pode... Morrer. E se alguma coisa acontecer com você... Eu nem quero pensar... — prosseguiu Mia visivelmente preocupada.
Castiel segurou a mão da garota com mais força e a tranquilizou:
– Tudo bem, Mia. Eu não vou a lugar algum. Embora... Me esconder não seja exatamente algo que me deixa feliz. Mas eu fico. Eu vou ficar aqui com você.
Todos na mesa, observavam o casal se olhando de um jeito apaixonado até que Dean interrompeu o clima dizendo:
– Na verdade, a Mia vem com a gente.
– O quê? — perguntaram ela e Castiel ao mesmo tempo.
– Você é útil para a missão, Mia. Você pode compelir pessoas e nos ajudar a chegar até Ezekiel, se for preciso. Além disso, as meninas não podem lembrar do caminho. Você precisa compelí-las a esquecer a localização do bunker. — explicou Dean.
– Oh, não... Você vai me compelir de novo, não vai? — protestou Natalie.
– Obrigada pela confiança. — ironizou Claire um pouco decepcionada por perceber que os Winchesters não confiavam nela. Especialmente, Sam.
Ele a observou por alguns instantes e tentou explicar:
– Desculpe, Claire. Não é uma questão de confiança, mas o bunker é um esconderijo. Quanto menos pessoas souberem aonde ele fica, melhor.
– Vocês estão esquecendo de duas coisas muito importantes. — disse Mia fazendo Sam e Claire pararem de se encarar.
– O quê? — quis saber o Winchester mais novo.
– Eu não posso deixar o Cas sozinho aqui com o Céu atrás dele. Eu preciso ficar e protegê-lo. — respondeu a garota.
Castiel sentiu-se um pouco desconfortável ao ouvir aquilo. Agora que ele era humano era como se todos o vissem como alguém frágil e inútil. E o que mais o perturbava era perceber que eles tinham razão. Ele era completamente dependente agora. Não podia ajudá-los, só atrapalhá-los e deixá-los preocupados. No fundo, sentia-se mal com tudo aquilo. Ainda mais porque até pouco tempo, era ele que sentia-se responsável por Mia, que queria protegê-la a todo custo. Agora, os papéis haviam se invertido.
Castiel ainda pensava nessas coisas quando Sam continuou:
– Mia, o bunker é 100% seguro. Os anjos não tem como descobrir a localização. Aliás, ninguém tem. Mas se numa possibilidade remota alguém conseguir descobrir, de alguma forma, e tentar entrar, basta acionar o sistema de segurança. O Kevin sabe como fazer isso e pode explicar para o Cas. E então bunker vai se auto fechar e eles ficarão a salvo. Mas isso não vai acontecer, não se preocupe. Os Homens das Letras protegeram este lugar com os mais variados sigilos. Contra coisas que nós ainda nem sabemos o que são direito. Acredite, o Cas vai sobreviver a algumas horas longe de você. Vai ficar tudo bem.
Mais tranquila, Mia concordou com um meneio de cabeça. Então, Castiel retirou a espada angelical de dentro do casaco que vestia e entregou para a garota antes de dizer:
– Ele está certo. Eu vou ficar bem. Não se preocupe.
– É, eu também vou ficar bem. Obrigado por se preocuparem tanto comigo. — resmungou Kevin e Mia sorriu para ele achando engraçado.
Em seguida, Dean lembrou:
– E a segunda coisa?
– Ah... É que eu não tenho vocação pra ficar segurando vela. — respondeu Mia enquanto olhava para os Winchesters e para as garotas.
Visivelmente sem graça, os quatro se olharam enquanto Mia dava um leve sorriso. Em seguida, ela levantou e desconversou:
– Calma, pessoal. Eu só estava brincando. Vocês sabem... Só pra descontrair um pouco esse clima tenso no ar.
– Eu vou pegar as minhas coisas. — disse Claire e também se levantou e deixou a sala evitando olhar para Sam.
– Eu também. — disse Natalie e deixou a sala apressada enquanto Dean a seguia com o olhar.
Mia sorriu para Sam e Dean antes de perguntar:
– O quê? O que foi que eu fiz?
– Eu vou te fazer engolir verbena e sangue de homem morto até você não conseguir pronunciar mais nenhuma palavra. — ameaçou Sam.
– E eu vou quebrar o seu pescoço. Umas dez vezes até ele ficar completamente torto. Irreversivelmente torto. — completou Dean.
– Humm... Nervos à flor da pele, hein? Sinais típicos de paixão. — provocou Mia enquanto deixava a mesa e antes de sair, avisou — Bem, eu vou me alimentar e pegar as minhas coisas. Espero os pombinhos lá fora, ok? Não demorem.
Sam e Dean respiraram fundo e preferiram não discutir com a garota. Estava claro que Mia gostava de bancar o cupido mesmo quando não havia a menor chance deles estarem interessados em Natalie e Claire. Pelo menos, era nisso que eles tentavam acreditar.
Meia hora depois, os Winchesters e as garotas saíram do bunker e viram Mia apoiada no Mustang se despedindo de Castiel.
– Se cuida, anjo. — aconselhou ela antes de lhe dar um beijo.
– Mia, se tudo der certo, vocês vão voltar em algumas horas. Não precisa ficar tão preocupada. Eu acho que consigo sobreviver até vocês voltarem. — disse Castiel ainda chateado com tudo aquilo e sentindo-se inútil e vulnerável.
– Eu sei... Eu não quis dizer isso, anjo. Olha, me desculpe, ok? — desculpou-se ela e em seguida tocou os lábios dele mais uma vez, sorriu e disse em tom provocante — Te vejo mais tarde. E então nós podemos continuar o que estávamos fazendo no quarto agora há pouco...
– É uma ótima e tentadora ideia, Mia. — concordou ele sorrindo com certa malícia.
– Deus... Vocês não cansam nunca? — resmungou Dean se aproximando com os outros e ouvindo a última parte da conversa.
Então Castiel olhou para Mia mais uma vez e em seguida se afastou sem dizer mais nada. A garota suspirou e enquanto o acompanhava com o olhar, perguntou:
– O que eu posso fazer se eu sou louca por aquele anjinho?
Claire sorriu achando bonita a forma como Mia falava de Castiel. Sam sorriu levemente achando bonita a forma como Claire sorria. Natalie franziu a testa e andou em direção ao Camaro. Dean revirou os olhos e andou em direção ao Impala. Logo Sam o seguiu e Claire foi atrás da loira e entrou no carro da amiga. Mia entrou no Mustang.
Eles tinham combinado que Sam e Dean iriam na frente e Mia e as outras garotas os seguiriam. E depois a vampira faria Claire e Natalie se esquecerem do caminho que iriam percorrer.
Antes de entrar no bunker, Castiel olhou para trás e viu o Mustang, o Camaro e o Impala se afastando. Um pouco triste por não poder participar daquilo, e sem outra escolha, ele resolveu entrar.
Enquanto isso, no Impala, Dean perguntou:
– E então? Pra onde nós vamos mesmo, Sammy?
O mais novo abriu o notebook e acessou um mapa de Lebanon antes de explicar:
– O caminhoneiro disse que deixou Ezekiel neste posto de gasolina. Então se ele não pegou outra carona por lá, ele pode estar em algum hotel, albergue ou pensão da região. Pra nossa sorte, tem poucos lugares onde Ezekiel pode ter se instalado. Mas, por outro lado, ficam longe um do outro. Nós vamos demorar um pouco para checar todos eles. São lugares bem simples e humildes. Baratos. Ideal para quem está recomeçando a vida numa terra estranha e sem um centavo no bolso.
– Isso se ele não pegou outra carona e foi embora de Lebanon naquela mesma noite. — ressaltou Dean e em seguida, acrescentou — É uma péssima pista.
– É a única que temos. — respondeu Sam e depois de fechar a página do mapa, acabou clicando sem querer em uma imagem que estava minimizada.
Dean olhou de relance e viu que era uma foto de Claire. Sam fechou o notebook rapidamente e se justificou:
– Isso não devia estar aqui.
– Você tem uma foto da Claire no seu computador? Que pervertido... — zombou o mais velho.
– É só uma foto que a Charlie me mandou quando eu pedi pra ela investigar a Claire. Nada de importante. — explicou Sam.
– Se não é importante, por que você ainda não deletou...? — quis saber Dean.
Sam pensou um pouco e em seguida abriu o notebook novamente.
– Quer saber? Você está certo. Pra que eu vou manter esta foto aqui? — disse o mais novo e em seguida olhou mais uma vez para a foto, a fechou e excluiu. — Pronto.
Em seguida, Sam fechou o notebook e o colocou no banco de trás. Depois disso, ficou olhando a estrada sem dizer mais nada e com um olhar um tanto vazio. Ao perceber que ele estava pensativo demais, Dean desconfiou e indagou:
– Eu preciso perguntar se... Por acaso... Você e a Claire... ? Aconteceu alguma coisa durante a viagem?
– Não! Claro que não. Não aconteceu nada. — respondeu Sam prontamente.
– Então por que você está com esta cara? — indagou Dean.
– Como assim? — não entendeu o mais novo.
– Sammy... Eu lembro que quando eu te pedi para ir à St. Louis para procurar a Claire, você relutou muito. Você tinha uma antipatia gratuita pela garota sem nem ao menos tê-la conhecido. E então você a encontrou, ela quebrou um vaso na sua cabeça e te fez de refém. Mas desde que você voltou, eu tenho reparado na forma como você olha pra ela, e aqui entre nós, se o Bobby fosse vivo, ele te mataria por olhar daquele jeito para a filha dele.
– Que jeito? Do que você está falando? — indagou Sam — Ah! Certo! Aquele mesmo jeito que você olha para a Natalie.
– O quê?! — surpreendeu-se o mais velho — Do que diabos você está falando? Eu nem olho direito para aquela garota...
– Dean, você reparou na cor dos olhos dela no momento em que ela esbarrou em você no bar. Isso é raro. Geralmente, você não olha muito pro rosto... — lembrou o irmão.
– Ok! Que tal se nós pararmos de falar dessas garotas, já que ninguém olha pra ninguém, ninguém está a fim de ninguém e está tudo certo? — propôs Dean.
– É uma ótima ideia. — concordou o mais novo e depois de alguns instantes, completou — Olha... Vamos nos concentrar apenas no trabalho, ok? Como nós dissemos há alguns dias. Nada de romance. Apenas o trabalho.
– Por mim tudo bem. Apenas o family business. É só o que importa. — concordou Dean e em seguida olhou para o banco ao lado, mas embora o irmão estivesse sentado ali, foi de Natalie que ele lembrou instintivamente.
Dean lembrou do tempo que passaram juntos naquele carro. Na estrada. Dela dormindo no seu ombro e discutindo com ele a maior parte do tempo. De como ela o irritava e o intrigava ao mesmo tempo.
– O que foi? — estranhou Sam pensando que o irmão estava olhando para ele.
– Nada. — desconversou o mais velho e voltou a se concentrar na direção.
E então Dean começou a se perguntar: se Natalie era mesmo tão insuportável por que ele estava sentindo falta dela? Por que não conseguia parar de pensar nela?
Enquanto isso, no Camaro, Natalie também pensava em Dean e no tempo que passaram juntos. Depois de longos dias ao lado dele no Impala, era estranho dirigir de novo por conta própria o seu amado Camaro. E apesar de estar feliz por finalmente ter reconquistado a sua independência, ela não podia negar que estava sentindo falta de Dean. Especialmente, de implicar com ele. Era tão divertido irritá-lo. Mas ela não queria acabar com a trégua. Então lembrou à si mesma que precisava se controlar e também parar de pensar nele. Tinha que se concentrar em ajudar Claire. Apenas isso.
Enquanto isso, no bunker, Kevin estava debruçado sobre uma das mesas tentando decifrar a Tábua dos Anjos. Ao ver Castiel se aproximando, ele perguntou:
– Quer me ajudar com isso?
– Depois. Antes eu preciso que você me ajude com uma pesquisa. — respondeu o ex-anjo parando na frente da mesa.
Kevin ergueu a cabeça e perguntou:
– Que pesquisa?
Momentos depois, os dois estavam andando por uma grande sala repleta de livros e arquivos por todos os lados enquanto Castiel explicava:
– Está acontecendo alguma coisa com a Mia. Durante a viagem ela quase atacou uma garçonete e teve dificuldades de resistir ao meu sangue também. Depois ela se controlou, mas se sentiu mal outro dia, vomitou sangue, e ontem de manhã ela teve algumas alucinações.
– Bem, definitivamente, parece que está acontecendo alguma coisa com ela. — concordou Kevin — Você já falou com Sam e Dean sobre isso?
– Com o Dean, na verdade. Acho que ele deve ter comentado alguma coisa com o Sam. Mas com toda essa questão do Ezekiel nenhum dos dois conseguiu dar a devida atenção ao que está acontecendo com a Mia. E já que eu não pude ir com eles, eu pensei em ser útil de outra forma e procurar algo que possa ajudá-la. — expôs Castiel.
– Algo que possa ajudá-la? — quis entender Kevin.
Castiel parou de caminhar e respondeu:
– Uma cura para o vampirismo.
Ao ouvir isso, Kevin também parou de caminhar e voltou-se para ele um pouco surpreso.
– Eu vou curar a Mia. — afirmou Castiel.
Perto dali, a garota dirigia o seu Mustang e ouvia um pouco de música completamente alheia ao que Castiel planejava. No fundo, Mia estava conformada por ter se tornado uma vampira. Também estava feliz porque desde que teve aquelas alucinações no dia anterior, nada mais aconteceu. Sentia-se bem de novo. Leve. Tudo estava perfeito.
– Isso é... Nobre, Cas. E até um pouco romântico. Mas você acha mesmo que pode encontrar uma cura para o vampirismo? — continuou Kevin.
Castiel voltou a caminhar e enquanto olhava tudo em volta, respondeu:
– Eu preciso tentar. Eu devo isso à Mia. De certa forma, o que aconteceu com ela foi minha culpa. Se eu nunca tivesse a abandonado, ela nunca teria fugido daquela forma. Nunca teria encontrado um vampiro no meio do caminho e, portanto, nunca teria sido transformada em um deles. Além disso, se tem um lugar onde a cura pode estar é aqui. No bunker dos Homens das Letras.
– Ok, então eu vou te ajudar a procurar, Cas. — comprometeu-se Kevin.
– Obrigado. — agradeceu Castiel parando novamente — Mas é importante que a Mia não saiba disso. Pelo menos, por enquanto.
– Por quê? — quis entender o Profeta.
– Primeiro porque existe uma possibilidade de nós não encontrarmos a cura e eu não quero dar falsas esperanças para ela. E segundo porque... A Mia é teimosa e orgulhosa. Se souber que nós estamos tentando ajudá-la, ela vai se recusar a aceitar. Vai tentar nos convencer de que ela está conformada em ser uma vampira e que nada disso é necessário.
– E você acha que ela não está conformada? — quis entender Kevin — Ou é você que não está conformado?
– Não se trata disso. Eu amo a Mia vampira como eu amei a Mia humana. Ela é a mesma pessoa, no final das contas. Mas... Tem alguma coisa errada. No começo, ela estava bem e ser vampira era só um detalhe. Por isso ela estava conformada. Mas agora as coisas mudaram. Eu acho que a transformação está fazendo mal para a Mia de alguma forma. — explicou Castiel.
No Mustang, Mia franziu um pouco a testa e levou a mão à boca ao sentir um breve enjoo.
– Nós vamos ajudá-la. — tranquilizou Kevin.
– E precisa ser logo. — ressaltou Castiel — Eu estou muito preocupado com ela. Eu percebi que esses incidentes acontecem de repente e depois passam sem nenhuma explicação. A Mia teve aquelas alucinações ontem de manhã e depois passou o resto do dia bem e acordou bem disposta hoje. Então... Eu fico pensando que a qualquer momento, ela pode sentir outro mal estar ou ter outra alucinação... Ou qualquer outra coisa.
Neste momento, Mia passou a mão pelo nariz e em seguida olhou para os dedos. Havia sangue neles. Assustada, ela se olhou pelo retrovisor e viu que o seu nariz estava sangrando. Se limpou com a manga da blusa num gesto desesperado. Seu coração acelerou. Aquele tormento ia começar de novo? Aquilo não tinha fim nunca?
Castiel parou de caminhar mais uma vez e se virou na direção de Kevin. E então disse:
– Eu fico me perguntando quando uma coisa daquelas vai acontecer de novo. E se eu estarei lá para acalmá-la, para lhe dizer que tudo vai ficar bem.
Mia freou o carro de repente e o barulho dos pneus contra o asfalto ecoou pela estrada.
Natalie, que vinha logo atrás, parou o Camaro a alguns metros do carro da vampira e olhou confusa para Claire.
– Por que ela parou? — perguntou a loira.
Dean olhou pelo retrovisor e ao ver que o Mustang estava parado no meio da estrada, parou também.
Sam, que tinha voltado a mexer no notebook, olhou para o irmão sem entender porque ele havia parado. Mas quando ele ia perguntar o que estava acontecendo percebeu que Dean estava atônito olhando algo pelo retrovisor. Então ele olhou também.
– Por que ela parou? — perguntou Sam.
Dean tirou o cinto de segurança e abriu a porta do carro. Saiu seguido pelo irmão enquanto Mia se olhava mais uma vez no espelho. Apavorada e sem saber o que estava acontecendo, ela percebeu que seus olhos estavam mudando de cor. A cada instante eles ficavam mais avermelhados e pequenas veias se destacavam em volta deles...
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