Recomeço
30 Capítulo 30 - Decisões
Notas iniciais
Era sete horas da noite quando Castiel resolveu bater na porta do quarto de Mia mais uma vez. Do outro lado, a garota estava deitada na cama, acariciando Vincent que estava ao seu lado. Ao ouvir alguém batendo na porta, ela parou, olhou para a porta e esperou até que Castiel pediu:
– Mia, por favor, abra a porta. Vamos conversar. — e como o silêncio persistiu, ele continuou — Olha, se você quer ficar com raiva de mim, tudo bem. Mas você precisa se alimentar.
– Eu já disse que eu não vou mais fazer aquilo. Eu prefiro morrer de fome. — respondeu ela.
– Você vai ficar fraca se não beber o meu sangue. — argumentou Castiel e em seguida, acrescentou — Além disso, o Vincent também precisa comer.
Ao ouvir isso, Mia olhou para o gato e só então percebeu que Castiel tinha razão. Vincent não comia a ração desde de manhã. Então, ela sentou na cama e o segurou no colo antes de lamentar:
– Desculpe, gatinho... Eu sou uma péssima mãe, não é?
Castiel ia desistir quando ouviu o som da chave girando dentro da fechadura. Mia abriu a porta até metade e empurrou o gato pra ele. Castiel o segurou, mas quando ia tentar dizer alguma coisa, Mia fechou a porta bem na sua cara. Ele respirou fundo e decidiu insistir:
– Mia, quantas vezes eu vou ter que pedir desculpas? Olha, eu realmente sinto muito, mas eu pensei que estava fazendo o melhor para você. Me desculpe se eu tentei te poupar e acabei te magoando. Abre a porta. Eu não gosto de brigar com você. Eu sei que você também não quer isso. Então... Vamos acabar com essa briga. Por favor. Abra a porta. Eu te amo.
Mia que tinha voltado pra cama, levantou ao ouvir aquilo e caminhou devagar até a porta. Parou diante dela. Um lado seu queria abrir a porta e acabar com aquela briga, mas o seu orgulho não deixava. Então ela se apoiou na porta e ficou travando esta luta consigo mesma. Estava magoada por Castiel ter mentido, mas entendia por que ele e todos tinham feito aquilo. Eles só queriam poupá-la de sentir o que estava sentindo naquele momento: muito ódio de Crowley. Ela era uma vampira, suas emoções estavam amplificadas e saber que Crowley estava ali e ter descoberto daquela forma tinha acabado com ela. Talvez tivesse sido melhor que eles tivessem contado no momento certo e com cuidado. Ela ficaria com raiva do demônio do mesmo jeito, mas pelo menos não estaria se sentindo tão magoada. Talvez ela tivesse aceitado melhor. Pensando assim, Mia percebeu que não tinha motivo para continuar com raiva de Castiel. Ele fez aquilo com as melhores das intenções. Além disso, ele havia prometido que não mentiria de novo. Ele reconheceu o erro. Ele disse que a amava.
Mia respirou fundo, passou as mãos pelos cabelos, sorriu e enquanto abria a porta, declarou:
– Eu também te amo, anjo.
Mas ao abrir a porta, Mia deu de cara com Dean que ao ouvir aquilo ficou um pouco sem graça, olhou em volta e esclareceu:
– Não tem nenhum anjo aqui, mas se você quiser eu posso chamá-lo.
– Não! — recusou Mia prontamente e em seguida, resmungou — Ele já foi embora... E eu abri a porta... E eu ia perdoar aquele idiota! Não... Eu não posso perdoar... Não depois disso... Ele nem insistiu... E ele mentiu pra mim! Como eu pude esquecer disso?
– Todos nós mentimos pra você, Mia. — interrompeu Dean — Mas assim como o Cas, foi pensando que seria o melhor pra você. Mas quer saber? Você está certa. Nós não devíamos ter escondido de você a verdade sobre o Crowley. Então, me desculpe, ok?
Mia o observou por alguns instantes e indagou:
– Por que é mais fácil desculpar você do que o Castiel?
– E fácil desculpar ele também, Mia. Basta você querer e, pelo o que eu percebi, você quer. — argumentou Dean.
Mia pensou um pouco, mas resolveu mudar de assunto:
– Sem ofensa, mas por que você veio aqui, Dean? Não foi pra defender o Castiel, foi?
– Não, embora eu ache que você deveria pensar a respeito e fazer as pazes de uma vez. E parar de chamá-lo assim. É estranho. — aconselhou ele.
– Dean...
– Ok, esquece. Em briga de ex-anjo e vampira ninguém mete a colher. — antecipou-se ele e em seguida, explicou — Bem, eu vim aqui por dois motivos. Pra pedir desculpas por ter mentido, eu já pedi e vou deduzir que estou desculpado. E o segundo motivo é... — Dean fez uma pausa e continuou – Olha, Mia, eu não vou mais mentir pra você, ok? Então eu quero te contar as coisas malucas que o Crowley me disse.
Um pouco sem graça, Mia confessou:
– Ah... Sobre isso... Na verdade, eu meio que ouvi a conversa. Você sabe... O lance dos vampiros conseguirem escutar conversas a metros de distância. Eu não resisti... Desculpe.
Dean pensou um pouco e prosseguiu:
– Tudo bem, me poupa o trabalho de ter que repetir tudo aquilo de novo, mas mesmo assim nós precisamos conversar. Ah! E você precisa saber que eu já contei tudo pro Cas enquanto ele arrumava as coisas dele no outro quarto. E... Ele está disposto a dar o sangue, literalmente, por você, Mia. Ele quer te salvar a todo custo.
Ao ouvir aquilo, Mia fraquejou um pouco. Gostava de saber que mesmo brigados, Castiel estava disposto a ajudá-la. Mas em seguida o orgulho a invadiu de novo e ela afirmou com desdém:
– Eu não preciso ser salva. Eu estou bem.
– Se você ouviu toda a minha conversa com aquele diabo, você sabe que isso não é verdade. Mia, você precisa de ajuda. Pare de negar isso e para de fingir que você não quer a cura porque eu sei que você quer voltar a ser humana. — argumentou Dean.
Mia pensou um pouco, abriu passagem e pediu:
– Entra.
Dean entrou e sentou na cama. Mia sentou também, com as costas apoiadas na cabeceira, ficando de frente para o Winchester. Ela ficou em silêncio por algum tempo até que os seus olhos brilharam cheios de lágrimas e ela admitiu:
– Você está certo, Dean. Eu quero voltar a ser humana. Pode parecer estranho não querer ser imortal, viver pra sempre, não envelhecer, mas a verdade é que eu nunca quis, nem nunca me conformei, em ser uma vampira. Isso não é um presente, é uma maldição. E agora que eu sei que o meu corpo está rejeitando isso, agora mais do que nunca eu quero voltar a ser humana, Dean. Eu só não disse isso antes e fingi que estava tudo bem porque eu não queria preocupar vocês e também porque eu não queria ter esperança de encontrar uma cura e descobrir que não existe nada capaz de reverter isso. E me decepcionar. Então, sim, Dean, eu quero a cura. E eu até acredito que aquele diabo infeliz possa ajudar, mas... O preço dele... A liberdade dele... O que ele está pedindo... Nós não podemos aceitar. E não porque ele é o responsável pela morte dos meus pais ou por tudo que ele fez com Kevin, com você, com o Sam, mas principalmente porque ele é uma ameaça pra todas as pessoas. Pro mundo. Se ele sair daqui, livre e ileso, ele vai continuar enganando as pessoas, machucando as pessoas, matando, dominando, destruindo. Então se esse é o preço que eu tenho que pagar pra ter a cura, eu prefiro continuar assim até onde der...
Sensibilizado pelas coisas que a garota disse, Dean continuou:
– Mia, eu quero te lembrar algumas coisas. Primeiro, Crowley não está em condições de exigir qualquer coisa. Eu nunca deixaria ele sair daqui livre e ileso. Então se você realmente quiser a cura, eu posso negociar outra coisa com ele. Mas tem outra questão que me preocupa além disso. Tudo tem consequências, Mia. Te curar vai trazer coisas boas, mas também coisas ruins. E como você mesma ouviu enquanto eu conversava com Crowley, nós não sabemos que consequências serão essas. Então eu preciso saber se você está ciente disso e se mesmo com todos os riscos envolvidos, você quer a cura. Porque se você quiser, nós vamos conseguí-la pra você, Mia. Eu juro que nós vamos. Mas a escolha é sua.
Ela pensou um pouco e em seguida perguntou:
– Qual seria a sua contra proposta para o Crowley?
– A vida dele. — respondeu Dean e depois de alguns instantes explicou — Crowley não tem colaborado muito, e ele sabe que nós estamos perdendo a paciência com isso. Além disso, desde que nós prendemos ele aqui, Abaddon tem dado as ordens no andar de baixo. Se Crowley saísse do bunker, como ele quer, ele não ia durar muito. Ele perdeu aliados e influência, Crowley não é mais o Rei do Inferno.
– Meu coração sangra por ele. — zombou Mia.
– O meu também. — brincou Dean e em seguida, prosseguiu — Bem, o que eu estou querendo dizer é que a minha contra proposta para o Crowley é: a cura do vampirismo em troca da vida dele. Se ele não ajudar, nós o entregaremos para Abaddon. Se ele ajudar, ele ganha o direito de continuar vivo, mas vai continuar preso aqui. Simples assim.
– Eu gosto dessa contra proposta. — admitiu Mia sorrindo mais animada.
– Eu odeio essa contra proposta. — declarou Crowley momentos depois quando Dean explicou tudo aquilo para ele. — É um ultraje! A coisa mais idiota que eu já ouvi! Eu não aceito! — gritou indignado.
Mia, que também estava na masmorra, sorriu e o provocou:
– Pense bem, ex-Rei do Inferno. É uma boa troca. De certa forma, nós estamos te oferecendo proteção. Pelo o que eu entendi, Abaddon quer a sua cabeça e neste lugar ela jamais vai te encontrar. Você está seguro aqui. Mas se nós te soltarmos, você não vai durar meia hora lá fora. Você perdeu, Crowley. Você não é mais nada. Não é mais ninguém. Se eu fosse você, eu aceitaria a proposta do Dean. É o máximo que você vai ter de nós. Mas se mesmo assim você não quiser, tudo bem. Será um prazer entregar você de bandeja pra Abaddon.
– Além disso, eu sei que alguma coisa aconteceu com você quando o Sammy quase te curou naquela igreja, Crowley. Você tem um lado humano agora, e a minha aposta é que esse lado morre de medo daquela ruiva. Eu sei que você não quer encontrá-la tão cedo. — acrescentou Dean com um sorriso debochado.
Crowley encarou os dois com ódio. Em seguida pensou um pouco. No fundo, eles tinham razão. Ele havia perdido muita influência no Inferno e Abaddon não hesitaria em terminar a briga que começou naquela igreja há alguns meses. Abaddon queria a sua cabeça e Dean estava disposto a entregar isso pra ela. Crowley precisava planejar melhor um possível retorno. Precisa ter calma e ser mais inteligente do que a ruiva se quisesse retomar o controle do Inferno um dia. E ele queria muito voltar a ser o Rei. Mas para dar um passo pra frente, às vezes, você precisa dar dois passos para trás. Por isso, o demônio começou a considerar seriamente a proposta de Dean. Depois de mais algum tempo em silêncio, ele anunciou:
– Eu tenho algumas condições.
– Você não está em condições de exigir nada. — ressaltou Dean.
– Eu não tenho muito a pedir, não se preocupe, Squirrel. — garantiu o demônio e em seguida, explicou — Eu conto tudo o que eu sei sobre a cura, digo como fazer, como ela funciona e em troca, além de proteção, eu quero um pouco de conforto também. Eu quero ser bem tratado aqui.
Dean começou a rir e perguntou:
– Você o quê?!
– Eu não estou pedindo nada de mais, Squirrel. Eu só não quero mais ficar preso com essas correntes, como um bicho. Eu quero uma cadeira mais confortável, talvez uma cama, poder esticar as pernas, ver a luz do Sol, respirar ar puro, às vezes. Um bom uísque escocês também seria ótimo. Esse tipo de coisa. Ah! E um pouco de respeito também. Nada de tortura, nada de escuridão absoluta, nada de “Cala a boca, Crowley”. Como eu disse, um pouco de conforto e respeito.
– Você está mesmo falando sério? — indagou Mia tentando não rir, e olhando para o Winchester, disse — Dean, embora eu ache que este desgraçado não merece nenhuma consideração, até que as exigências dele não são tão absurdas. Talvez nós devêssemos aceitar.
– É, talvez. Mas não sem antes pensar mais um pouco. — respondeu Dean e em seguida começou a se afastar com Mia.
Em seguida, os dois deixaram a masmorra e foram para a sala principal do bunker. Kevin estava sentado à mesa pesquisando uma forma de deter os Cavaleiros do Inferno até que Dean olhou em volta e perguntou um pouco tenso:
– Cadê a Naty?
– Eu não a vejo há... Horas. — respondeu Kevin só então percebendo a ausência da loira.
– Como assim há horas? — indagou Dean enquanto caminhava apressado até uma das janelas. E ao perceber que faltava uma coisa do lado de fora, ele perguntou — Cadê o carro dela?
Mia e Kevin se entreolharam e a vampira respondeu:
– Eu não tenho ideia, Dean. Eu também não vejo a Natalie há um tempo. Mas talvez ela tenha saído pra...
– Saído?! — repetiu Dean indignado enquanto se afastava da janela — Como assim saído? O que aquela maluca tem na cabeça? Abaddon e Belial caçando todos nós, inclusive ela, e ela resolve simplesmente sair?! E sem avisar nada?! E sozinha?!
Kevin e Mia se olharam de novo estranhando a preocupação exagerada de Dean que agora andava impaciente de um lado pro outro.
– Por que você não checa o seu celular? Vai ver que ela tentou avisar alguma coisa, mas com o lance do Crowley você não viu antes. — sugeriu Kevin.
Dean pegou o celular no bolso e por um instante respirou aliviado ao ver que tinha uma mensagem não lida. Então ele a abriu, mas o conteúdo o deixou ainda mais perplexo.
– Tem uma mensagem... — murmurou ele ainda sem acreditar que estava mesmo lendo aquilo.
– E o que ela diz? — interessou-se Mia.
Dean sorriu nervoso e respondeu:
– Diz "Fui caçar" e uma carinha feliz. A Natalie colocou uma carinha feliz na mensagem! Fui caçar e uma carinha feliz!
– O nome correto é emotion. — explicou Kevin.
– Pra mim continua sendo uma carinha feliz. — rebateu Dean enquanto andava de um lado pro outro cada vez mais nervoso — Como assim a Natalie foi caçar? Sozinha? Com aqueles demônios lá fora?! Ela perdeu completamente o juízo! Onde ela estava com a cabeça?! Fui caçar e uma carinha feliz!
– Dean, se acalma. E para de falar desta bendita carinha feliz. — pediu Mia tentando não rir e em seguida, ressaltou – Caso você não se lembre, Natalie é uma caçadora, ela sabe muito bem o que está fazendo. Ela vai ficar bem.
– Eu vou ligar pra ela. — anunciou ele e em seguida tentou ligar, mas a ligação caiu diretamente na Caixa Postal.
"Oi, você ligou para Natalie Jones. Deixe seu nome, telefone e pesadelo após o sinal."
Dean parou, desligou o celular e ficou imóvel por alguns instantes até que Kevin perguntou:
– O que foi?
– A gravação da Caixa Postal dela é meio parecida com a minha. — respondeu Dean intrigado e em seguida, anunciou — Eu vou atrás dela. Talvez Natalie esteja em perigo!
– Dean, você nem sabe pra onde ela foi. E você precisa se acalmar antes de mais nada... — disse Mia.
– Eu não estou nervoso! — exaltou-se ele e percebendo como dizer aquilo era contraditório, se acalmou e explicou — Eu só estou... Preocupado. Como eu me preocuparia com qualquer pessoa, aliás.
Mia levantou as sobrancelhas sem acreditar na última parte e continuou:
– Dean, eu vou repetir: a Natalie é uma caçadora. Por quanto tempo você achou que ela ia ficar presa aqui? O dever chamou e ela foi. Relaxa. Ela vai ficar bem e em breve vai dar notícias, você vai ver.
Dean se acalmou e sentou à mesa antes de olhar a mensagem mais uma vez:
"Fui caçar. :-D"
Em seguida, afastou o celular e pensou um pouco. Mia estava certa. Natalie era uma caçadora, ela sabia o que estava fazendo. Mesmo assim ele estava preocupado. Só não entendia por que estava tão preocupado com a loira. Afastou esses pensamentos e olhou em volta de novo. Ao sentir falta de outra pessoa, perguntou:
– E o Sammy?
– Ele tinha um encontro com a Claire. — respondeu Mia.
– Um encontro? — repetiu ele confuso.
– É, você sabe... O cara fica meio sem graça, convida a garota pra sair, a garota fica vermelha, faz um pouco de mistério e aceita. Um encontro. — explicou Mia.
– Eu sei o que é um encontro, Mia. Mas como assim o Sammy e a Claire tinham um encontro? — quis entender Dean.
– Não é um encontro. O Sam só me disse que queria levar a Claire até um lugar para contar que ele e você conheceram o Bobby. — explicou Kevin.
– Chame do que quiser, mas pra mim continua sendo um encontro. — disse Mia.
Dean ficou em silêncio pensando no que tinha ouvido. Já estava na hora da Claire saber quem o pai foi e o quanto ele e Sam o conheciam. Mas em seguida, Dean voltou a pensar em Natalie e a ficar preocupado com ela.
– Fui caçar e uma carinha feliz... Nenhuma explicação, nenhuma coordenada, nenhuma dica, apenas isso. Fui caçar e uma carinha feliz... — resmungou ele mais uma vez.
Enquanto isso, há algumas horas dali, Sam parou o carro na frente da antiga casa do Bobby.
Pela janela do carro, Claire observou intrigada o ferro velho e a casa ao fundo. Sam abriu a porta, saiu, deu a volta no veículo e abriu a outra porta para Claire descer. Ela hesitou um pouco, ainda sem entender por que Sam tinha a levado até ali, mas por fim saiu do carro e perguntou:
– Que lugar é esse?
– Eu vou te mostrar. Vem comigo, Claire. — respondeu Sam e então a garota o seguiu.
Logo eles passaram pelo portão e pelo ferro velho enquanto a garota olhava tudo em volta. Na época em que investigou o pai, Claire nunca conseguiu descobrir se ele tinha um endereço fixo. Ela não sabia, mas assim como fez com Sam e Dean, Frank Devereaux tinha apagado alguns rastros do caçador para dificultar que os leviatãs encontrassem Bobby ou os Winchesters. Por isso, ela não tinha ideia de onde estava. E também não sabia se estava encantada, confusa, curiosa ou tudo junto. Enquanto Claire tentava entender o que estava sentindo e por que eles estavam ali, Sam colocou a chave na fechadura, girou a maçaneta, abriu a porta e pediu:
– Entre.
Claire encarou Sam por alguns instantes, em seguida olhou de relance para o interior da casa e voltou a olhar para o Winchester antes de dizer:
– Sam... Não me entenda mal, eu sei que você tem me ajudado muito nos últimos dias e que agora tem alguma coisa importante pra me contar, mas eu não estou gostando de todo esse mistério. Então se você quer mesmo que eu entre nessa casa, me dê pelo menos um bom motivo pra fazer isso.
Sam pensou um pouco e resolveu revelar de uma vez:
– Bem, Essa casa, Claire... Era do seu pai.
Por um instante, a garota ficou se perguntando se tinha entendido direito ou se Sam estava brincando. Mas logo ela se convenceu de que ele estava falando sério. Mesmo assim, sem conseguir evitar a surpresa, ela perguntou:
– Como assim do meu pai? E como você sabe? Como você tem a chave?
Sam sorriu levemente e com um meneio de cabeça indicou a entrada para Claire. Ela percebeu que estava fazendo muitas perguntas, que ali não era o lugar ideal para ele respondê-las e então resolveu entrar de uma vez. Sam a seguiu.
Claire examinou a enorme sala depois que Sam acendeu algumas luzes. Havia um jogo de sofás escuros, os móveis eram um tanto antigos e isso era realçado pela cor mogno da maioria deles. O papel de parede estava meio desgastado pelo tempo. Havia ao fundo uma mesa com uma cadeira e uma estante com vários livros logo atrás dela. À esquerda havia um pequeno corredor para uma cozinha e à frente da sala havia uma escada que levava ao andar de cima. A casa estava um pouco empoeirada como se ninguém tivesse estado ali há um bom tempo. O que Claire não sabia era que na verdade, Sam havia estado ali no dia anterior e separou algumas coisas do Bobby para ela ver.
Claire se aproximou da mesa onde Bobby costumava fazer as suas pesquisas e encontrou um porta-retrato. Ela o pegou e o trouxe para mais perto do seu rosto com receio de que não estivesse enxergando direito as pessoas que estavam na foto.
Enquanto investigava o pai, há alguns meses, Claire tinha conseguido algumas fotos dele. Então logo ela reconheceu o sujeito no centro da imagem. Ele usava um boné e uma jaqueta marrom por cima de uma camisa xadrez. Estava sorrindo. E em volta dele, estavam Sam e Dean.
Claire olhou para Sam finalmente entendendo por que ele ficou tão surpreso quando ela disse qual era nome do seu pai, depois de ter contado toda a sua história para ele no hospital em St. Louis. Antes que ela pudesse perguntar, Sam se antecipou:
– Sim, eu conheci o seu pai, Claire.
Ela colocou o porta-retrato de volta na mesa. Por mais que aquela revelação explicasse o comportamento de Sam e mesmo do Dean, Claire ficou visivelmente surpresa e perguntou:
– Por que você não me contou antes?
– Eu quis te contar, Claire, mas aconteceram tantas coisas desde que eu te conheci que eu não sabia como e quando contar. Além disso, eu fiquei em choque quando você disse que era filha do Bobby porque... Ele não era um simples conhecido pra mim e pro Dean. Quando o nosso pai ia pra alguma caçada mais perigosa ou seguir alguma pista sobre o demônio que matou a nossa mãe, era com o Bobby que ele nos deixava. O Bobby foi como um segundo pai pra mim e pro meu irmão. Foi um parceiro de caça, uma enciclopédia ambulante, um amigo de verdade, um pai, parte da família.
Ao ouvir aquilo, Claire sentiu uma emoção diferente. Era bom ouvir alguém que conheceu o seu pai falar sobre ele. Era como se ele estivesse presente de alguma forma. Mexida com o relato de Sam ela perguntou curiosa:
– Como ele era?
Sam sorriu e respondeu:
– Um pouco rabugento e teimoso, às vezes, mas gentil na maior parte do tempo. O Bobby era aquele tipo de pessoa que estava sempre ali, ao seu lado, pra te ajudar, te apoiar em tudo que você precisasse. Era um bom homem. Um ótimo caçador. Um ser humano especial. E eu tenho certeza que ele teria adorado conhecer você.
Um pouco insegura, Claire quis confirmar:
– Você acha mesmo? Eu não sei... Ele convivia com caçadores e eu sou meio... Patricinha, às vezes. Você acha mesmo que o meu pai ia gostar de mim?
– Não tem como não gostar de você, Claire. — deixou escapar Sam e depois de alguns instantes em silêncio, continuou um pouco sem graça — Eu quero dizer... Que sim, ele ia gostar de você. Com certeza. — após uma pausa, ele argumentou — E desde quando Patricinhas fazem o que você fez no hospital, Claire? Desde quando Patricinhas sabem rituais de exorcismo e espetam um demônio em uma porta? Você passou por muitas coisas ruins ultimamente e tem aprendido a lidar com todas elas de uma forma que uma Patricinha não saberia nem por onde começar. Você é uma mulher forte, determinada, de personalidade, Claire... Eu tenho certeza que o Bobby teria muito orgulho de você.
Claire franziu a testa um pouco sem graça e enquanto se aproximava de Sam perguntou:
– Você acha mesmo que eu sou tudo isso?
– Eu acho outras coisas também, Claire. E eu sei que eu não devia dizer isso porque vai parecer que estou te cantando, mas a verdade é que eu me sinto bem quando estou com você. — confessou Sam deixando-se levar pela emoção pela primeira vez.
Claire sorriu levemente e brincou:
– Você tem razão, Sam. Parece mesmo que você está me cantando.
– Eu só estou dizendo a verdade. E a verdade é que você é uma mulher muito especial, Claire. — ressaltou Sam.
– Você também, Sam Winchester. Um homem especial, não uma mulher, é claro. — brincou ela o fazendo rir. E em seguida mudou de assunto — Eu posso dar uma olhada no andar de cima?
– Claro. Eu vou pegar uma caixa com algumas coisas que eu quero te mostrar e te encontro daqui a pouco. — combinou Sam.
Então Claire se afastou e subiu as escadas enquanto Sam caminhou até um armário na sala e pegou uma caixa com alguns pertences do Bobby.
Enquanto isso, a garota chegou ao andar de cima e seguiu por um corredor. Parou diante da primeira porta e a empurrou um pouco hesitante revelando o quarto de Bobby. Mesmo sendo viúvo há muitos anos, Claire percebeu que ele nunca se livrou da cama de casal.
Em seguida ela entrou e examinou melhor o cômodo. Os móveis estavam um pouco empoeirados, mas o resto estava arrumado. Isso dava a impressão de que o seu pai ainda morava ali.
Claire sorriu levemente. Apesar de não ter conhecido o pai, estar ali, na casa dele, entre as coisas dele, fazia com que ela sentisse como se estivesse o conhecendo de verdade. Era uma sensação boa. De nostalgia. Nostalgia de algo que ela nunca teve. E saudade de uma pessoa que ela nunca conheceu. Mesmo assim era bom.
Sam parou na porta do quarto e viu a garota abrir o guarda-roupa depois de hesitar um pouco. As camisas do Bobby, suas calças, jaquetas, blusas... Sapatos... Tudo ainda estava lá. Mas o que mais chamou a atenção de Claire foram alguns bonés arrumados lado a lado. Ela pegou um deles. Era azul e cinza. Devia ser o favorito dele porque estava mais desgastado do que os outros. Segurando o boné, ela caminhou até a cama e sentou. Só então viu Sam na porta segurando uma caixa e sorriu para ele mostrando o boné.
– Você acha que... Ele ia se importar se eu ficasse com esse?
Sam sorriu e entrou no quarto. Aproximou-se e sentou de frente pra Claire depois de colocar a caixa sobre a cama. Então pegou o boné e o colocou na cabeça da garota. Sorriu de novo e o virou pra trás.
– Acredite, fica melhor em você do que nele. Com certeza, o Bobby não ia se importar se você ficasse com o boné favorito dele. — disse Sam depois de observá-la por alguns instantes.
Claire sorriu e mudou de assunto:
– O que tem na caixa?
– Algumas fotos, CDs com as músicas favoritas dele, alguns livros, objetos pessoais e um diário. — respondeu Sam.
Claire colocou a mão dentro da caixa e pegou o diário enquanto Sam continuou explicando:
– Eu pensei que só o meu pai gostava de diários, mas então eu descobri que o Bobby também tinha um. E... Eu pensei que talvez você fosse gostar de ler. Mas cuidado, não é um diário comum. Tem muitos relatos de casos que ele investigou como caçador. Pode ser meio... Chocante.
Claire folheou algumas páginas e passou os olhos por elas encantada com a possibilidade de conhecer melhor o seu pai, apesar daquilo ser basicamente um diário de caça. Além disso, desde que a mãe morreu, Claire começou a pensar no que faria com a sua vida dali pra frente. E depois que Mia a compeliu para superar um pouco a dor da perda, há algumas horas, e durante o caminho até ali, tudo foi ficando mais claro na cabeça de Claire. Ela foi se dando conta de que já sabia o que queria fazer há muito tempo, só não conseguiu enxergar antes porque estava muito abalada com a morte da mãe. Mas agora que ela estava mais calma, mais conformada e na casa do pai, vendo as coisas dele, descobrindo como ele era e como vivia, Claire podia afirmar que sabia muito bem o que queria fazer da sua vida dali pra frente.
Ela queria justiça. Ela precisava de justiça. E para isso ela precisava destruir Abaddon e Belial. Claro que ela não conseguiria isso sozinha, mas ela sabia que poderia contar com os Winchesters, com Natalie e com os outros. Além disso, Claire queria evitar que aquilo que aconteceu com ela e com a mãe, se repetisse com outras pessoas. Ela queria lutar para combater o mal, o sobrenatural, tudo aquilo de ruim que existia no mundo.
Pensando em tudo isso, ela fechou o diário e olhou para o Winchester antes de agradecer:
– Obrigada, Sam. Esse diário era exatamente o que eu precisava. É um bom começo.
– Como assim? — não entendeu ele.
Claire ficou em silêncio por alguns instantes. Não havia uma forma sutil de dizer aquilo, então ela resolveu apenas dizer:
– Eu quero ser caçadora.
Por alguns instantes, Sam pensou que tinha entendido errado. Foi como se o mundo em volta tivesse parado e só existe ele, Claire e aquela frase. Então, ele respirou fundo e indagou um pouco atordoado:
– Você o quê?
– Eu quero ser uma caçadora, Sam. E se não for pedir muito, eu gostaria muito que você me ensinasse como. Eu não sei... Que você fosse o meu mentor, talvez. Seria uma honra aprender mais sobre o sobrenatural com você. E claro, com o diário do meu pai.- explicou Claire.
Sam a olhou incrédulo e zonzo diante do que ela havia dito. Quis perguntar de novo pra ter certeza de que não estava ouvindo coisas. Pensou que talvez aquilo fosse um pesadelo. É, com certeza era um pesadelo. E tudo que ele precisava fazer era esperar, ficar calmo, que logo ele acordaria. Claire não podia estar falando sério. Aquilo não estava acontecendo. Não era real.
Logo Sam se convenceu de que sim, aquilo estava mesmo acontecendo. Como Ezekiel disse que aconteceria. Mas ele não conseguia aceitar. Não conseguia se acostumar. E não conseguia parar de olhar para Claire atordoado com o que tinha ouvido.
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