Recomeço
3 Capítulo 3 - Kate
Notas iniciais
Mais um grito agoniante vindo do quarto de Kate foi ouvido e Mia e Castiel pularam da cama imediatamente. A garota pegou a arma em cima da cômoda enquanto Castiel abria a porta no mesmo instante em que Sam e Dean também saíram do quarto em frente igualmente apreensivos com o que haviam ouvido. Eles seguravam duas armas. Uma com balas de prata e outra com balas de sal porque não sabiam exatamente o que estava acontecendo ali e o que enfrentariam.
– O que diabos está acontecendo? — indagou Dean ao ouvir mais um grito.
Então os quatro correram seguindo os gritos desesperados de Kate, mas logo Mia deixou todos eles para trás se movendo rapidamente graças ao poder que os vampiros tem em se mover daquela forma.
Logo ela alcançou os fundos do hotel e empurrou a porta do quarto de Kate bruscamente. Mas infelizmente já era tarde demais. Surpreso com a presença da garota, o Cão do Inferno olhou para trás e encarou Mia antes de pular pela janela e sumir no meio da noite deixando para trás o corpo de Kate ensanguentado no meio da bagunça do quarto revirado.
Mia ainda estava em choque por ter visto a criatura, mas em seguida resolveu se concentrar no que estava acontecendo ali. Ou melhor, no que já havia acontecido.
Ela sentiu-se culpada porque por mais que tivesse sido rápida, não conseguiu alcançar Kate a tempo. No entanto, mesmo que tivesse alcançado, como ela poderia ter salvo a dona do hotel daquela morte? Era praticamente impossível salvar alguém que tinha feito um pacto. E definitivamente, Kate devia ter feito um deles para ter sido morta daquela forma.
Em seguida, Mia se abaixou ao lado do corpo e ergueu a cabeça de Kate devagar. Mesmo sem vida, os olhos da falecida transmitiam um pavor enorme. E não era preciso ser muito inteligente para entender por que. Kate havia sido morta brutalmente por um Cão do Inferno e a essa altura já estava no andar de baixo. No Inferno. De onde só por um milagre sairia um dia.
Mia não entendia e nunca iria entender porque as pessoas faziam aquele tipo de pacto. Vender a alma? Aceitar o preço? Ir para o Inferno e ser torturado o tempo todo e para sempre? Fazer um pacto com um demônio e ser abatido por um animal demoníaco e cruel?
E assim foi inevitável não lembrar dos seus pais e do pacto que eles fizeram há quase treze anos para ter um filho. No caso, uma filha. Ela. Mas pelo menos, Mia sabia que agora eles estavam bem, pois antes de ser expulso do Céu, Castiel conseguiu resgatar as almas deles do Inferno. Mesmo assim, Mia ficou com os olhos úmidos ao lembrar de tudo que aconteceu com ela por causa daquele pacto que seus pais fizeram com o Rei do Inferno, do sangue de demônio que correria em suas veias pra sempre, de tudo que os seus pais devem ter passado no Inferno, do desgraçado do Crowley...
De repente, Mia parou de pensar nessas coisas porque sentiu-se um pouco enjoada por causa sangue daquela mulher morta e apoiou a cabeça de Kate no chão.
Todo mundo sabe que vampiros amam e vivem de sangue, mas sangue de morto não é nada agradável para eles. Tem o efeito contrário. Não os mata, mas deixa os vampiros meio grogues e enjoados.
Mia levantou e se afastou um pouco do corpo enquanto os Winchester e Castiel chegavam no quarto. E ao verem que não podiam fazer mais nada, Sam e Dean abaixaram as armas.
– O que aconteceu? — quis entender Sam — Um ghoul? Fantasma vingativo? Lobisomem?
– Tente de novo — propôs Mia.
– Então o que aconteceu? — indagou Castiel — Você viu quem atacou esta mulher?
– Não foi quem, foi o quê. — respondeu Mia atônita enquanto lembrava do que viu quando entrou naquele quarto.
Dean a olhou sem entender e deu alguns passos em sua direção antes de olhar nos seus olhos e perguntar:
– Mia, o que matou essa mulher?
– Um Cão do Inferno. — revelou a garota olhando para os três ainda atordoada pelas lembranças que aquilo lhe trazia.
– Como você sabe? — quis entender Sam.
– Porque eu vi. — contou Mia — Eu vi o desgraçado... — completou antes de sair do quarto.
XXX
Momentos depois, Mia vestiu um hobbie por cima da camisola e sentou na cama do seu quarto no hotel. Castiel sentou ao seu lado e a olhou um tanto preocupado. Sabia que aquele tipo de situação fazia a garota lembrar dos pais e de tudo que Crowley fez com ela.
Apoiados no guarda-roupas, Sam e Dean se entreolharam antes do mais velho perguntar:
– Você tem certeza?
– Sim, eu tenho. — afirmou Mia.
– Mas eu pensei que desde que você virou vampira, não conseguia mais enxergar os Cães. — lembrou Sam.
– Eu também. Mas parece que eu me enganei. — admitiu Mia — Parece que o meu lado demoníaco ainda está aqui.
– Você tem tido pesadelos ultimamente? — questionou Dean.
Mia olhou para ele e para Sam confusa e indagou:
– O que é isso? Outro interrogatório?
– Responda a pergunta. — pediu Dean.
Mia suspirou indignada e lembrou:
– Uma garota morreu esta noite e vocês estão preocupados comigo?
– Infelizmente nós não podemos fazer mais nada pela Kate, mas por você... Talvez a gente consiga te ajudar. — expôs o Winchester mais velho.
– Eu não preciso de ajuda, Dean. Eu estou bem. — afirmou Mia.
– Você tem tido a droga dos pesadelos ou não? — insistiu ele elevando um pouco a voz.
– Não! — respondeu Mia por fim e após um tempo em silêncio, acrescentou — Mas talvez se eu ainda tivesse aqueles pesadelos... Talvez eu tivesse previsto o que ia acontecer esta noite e... Conseguido impedir.
– Não foi sua culpa. — tranquilizou Castiel.
– Eu não fui muito legal com ela... — lembrou Mia sentindo-se culpada.
– Também não é sua culpa. Ela era meio chata mesmo. — tentou tranquilizar Dean.
– Eu pensei que a sua alma tinha gostado dela. — lembrou Mia.
– Não exatamente minha alma. — insinuou Dean dando um sorriso.
– Cara, um pouco de respeito seria ótimo. Kate está morta. — repreendeu Sam fazendo Dean parar de sorrir.
– Ela está morta porque escolheu assim. — disse Castiel de repente — Ninguém teve culpa do que aconteceu. E ninguém podia fazer nada para ajudá-la. Kate fez uma escolha e pagou o preço por isso. É lamentável, mas não foi um Cão do Inferno que matou aquela garota. Foi ela mesma no momento em que selou o pacto com um demônio.
Mia refletiu um pouco sobre aquilo e em seguida apoiou a cabeça no ombro de Castiel. Ele estava certo. Quando se faz um pacto da encruzilhada, você sabe que um dia o Inferno virá te cobrar. Geralmente em dez anos.
– Mas, eu estou curioso. O que será que a Kate pediu? — indagou Dean.
Ao ouvir isso, Sam saiu do quarto e voltou trazendo o notebook. Então se sentou ao lado de Mia e Castiel e começou a fazer uma pesquisa sobre a falecida dona do hotel.
Depois de alguns minutos, ele explicou:
– Parece que os pais da Kate morreram em um acidente de carro há exatos dez anos. E deixaram este hotel como herança.
– Então ela pediu para que os pais morressem? — surpreendeu-se Mia — Ok... Eu não me sinto mais culpada por não ter gostado dela.
– Bem, eu sei que isso não justifica, mas talvez ela sofresse maus tratos, ou os pais não fossem um modelo de pais perfeitos, sei lá. — cogitou Sam.
– Mesmo assim... Se fosse isso, ela podia ter fugido, pedido ajuda... — respondeu Mia e em seguida, questionou — Que tipo de pessoa faz um pacto para os pais morrerem?
– Kate Ford, Bela Talbot... — respondeu Sam.
– Bela Talbot? Quem é essa? — indagou Mia.
– Uma vadia que graças a Deus partiu dessa pra uma pior e foi dançar rumba com o capeta. — respondeu Dean e em seguida olhou para o irmão e brincou — Desculpe, Sammy. Eu sei que você tinha uma certa paixão platônica pela Belinha, mas você sabe que ela não prestava.
– Eu não tinha um paixão platônica por ela. — discordou Sam um tanto incomodado.
– Qual é! E aquele sonho erótico que você teve com ela? — relembrou Dean rindo.
– Ok! — interrompeu Mia se levantando e enquanto andava de um lado pro outro, mudou de assunto — Tem uma coisa que ainda não se encaixa nessa história. Kate gritou em alto e bom tom enquanto era atacada pelo Cão do Inferno. Então por que os outros hóspedes não acordaram?
Todos se olharam intrigados e resolveram checar o questionamento de Mia. Momentos depois, eles abriram a última porta dos vinte e cinco quartos que o hotel possuía. E constataram que todos eles estavam vazios.
– Parece que nós somos os únicos hóspedes. — deduziu Castiel.
– Talvez o hotel estivesse em reforma e Kate tenha reaberto hoje ou há pouco tempo, sei lá. — sugeriu Dean.
– Primeiros hóspedes, únicos hóspedes, Cão do Inferno, garota morta no meio da madrugada... Sinistro. Até pra gente. — refletiu Sam.
– Oh! Meu Deus! É o Hotel Califórnia parte 2! — exclamou Mia — Por favor, vamos dar o fora daqui. — implorou ela enquanto se afastava e caminhava em direção ao seu quarto.
XXX
Meia hora depois, todos já estavam prontos para deixar o hotel. Mas antes disso, Dean foi até o quarto de Kate, se abaixou ao lado do corpo e fechou os olhos da falecida.
– Sinto muito, Kate. Parece que você não era mesmo a minha alma gêmea. — disse Dean.
Em seguida, ele levantou, desligou a televisão que estava chiando até aquele momento, apagou a luz e fechou a porta.
Minutos depois, ele entrou no Impala e viu Sam com a cabeça encostada no vidro da janela enquanto cochilava.
– Tudo bem, eu dirijo. — resmungou Dean antes de dar partida.
Mia também se preparava para ligar o carro, mas ao olhar para o hotel, viu o gato de Kate sentado no chão, há poucos centímetros do Mustang.
– O que você está esperando? — estranhou Castiel ao seu lado e vendo o Impala se afastar — Dean vai chegar primeiro de novo.
– Eu não estou mais disputando com aquele idiota. — respondeu Mia antes de abrir a porta do carro.
Rapidamente o gato entrou e pulou no colo de Castiel.
– O que é isso? — surpreendeu-se ele enquanto Mia fechava a porta.
– Isso é um gato. — respondeu a garota.
– Eu sei que é um gato, Mia. Mas o que ele está fazendo dentro do carro?
– Eu acho que ele gostou de você. — respondeu ela vendo o gato se acomodar melhor no colo de Castiel e ronronar antes de fechar os olhos.
– Mia... O que significa isso?
– Olha, nós não podemos deixar o Vincent sozinho aqui. É cruel... Ele não tem ninguém. — argumentou Mia.
– Vincent? — repetiu Castiel e lendo o nome gravado na coleira, indagou — Como você sabia que esse é o nome dele?
Mia olhou para o gato um tanto intrigada e surpresa. Na verdade, ela não sabia que aquele era o nome do animal. Kate não teve tempo de lhe contar aquele detalhe.
De qualquer forma, aquela era uma coincidência no mínimo estranha. Dois gatos idênticos com o mesmo nome, mas de épocas diferentes. Não podiam ser o mesmo gato porque o seu já era relativamente velho quando fugiu. Mas, por alguma razão, os dois eram extremamente parecidos e não gostavam de Cães do Inferno. Talvez, eles pudessem enxergar aquelas criaturas medonhas também...
– Mia? — chamou Castiel fazendo ela voltar a si.
– Kate me contou. — respondeu ela e em seguida deu partida.
Castiel acariciou o gato e sorriu levemente.
– Até que ele é bonitinho. — admitiu ele — Mas o Dean não vai gostar nada disso.
– Por quê? Não me diga que ele se assustou com um deles e ficou traumatizado? — brincou Mia.
– Na verdade... — começou a dizer Castiel, mas desistiu, pois era meio complicado explicar.
– Sabe de uma coisa? — recomeçou Mia quando estava alguns metros adiante — Hoje, pouco antes do que aconteceu com Kate, eu e você... Estávamos tendo um momento interessante e...
– E? — interessou-se Castiel se acomodando melhor no banco e ficando um pouco de lado.
– Bem, eu sei que agora não é o momento, a hora e o lugar ideal e que não podemos ter tudo o que teríamos se não tivéssemos sido interrompidos antes, mas...
– Mas? — incentivou ele.
– Bem, pelo menos aquele beijo, anjo... Aquele beijo eu quero. Tipo... Agora. — disse Mia sorrindo para ele — Seria ótimo, não?
– É, seria. — concordou Castiel sorrindo de volta e em seguida colocou uma das mãos sobre o volante.
Mia observou aquele gesto e lembrou de quantas vezes, Castiel segurou o volante quando eles se beijavam e ela esquecia da estrada.
– Eu sou seu. — insinuou ele enquanto esperava por Mia.
E não demorou muito para que ela soltasse o volante de vez, se aproximasse e o beijasse apaixonadamente.
Instantes depois e com a outra mão, Castiel precisou segurar Vincent que havia se mexido de repente aparentemente enciumado com o que estava acontecendo.
– Mia... O gato... O volante... Eu preciso segurar... — tentou avisar ele entre um beijo e outro.
Mia sorriu e se afastou por fim. Suspirou feliz e colocou as mãos no volante voltando a se concentrar na estrada.
– Obrigada. — agradeceu ela.
– Disponha. — respondeu Castiel a olhando com carinho enquanto acariciava Vincent.
Enquanto isso, Dean havia parado o Impala no acostamento um pouco adiante e ligava para a polícia. Quando foi atendido, ele explicou:
– Boa noite. Eu quero fazer uma denúncia. Tem uma mulher morta no Hotel Red Rose, na interestadual 252. Meu nome? Ótima pergunta... Meu nome é...
Dean não se identificou e simplesmente desligou o celular. Em seguida, olhou para o irmão dormindo no banco ao lado e resmungou antes de seguir viagem:
– Ok, Bela Adormecida. Te vejo no próximo capítulo.
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