Recomeço
27 Capítulo 27 - Túmulo
Notas iniciais
Houve um longo momento de silêncio durante o qual Sam, Dean, Natalie e Abaddon se entreolharam até que de repente, um som agudo começou a ser ouvido por eles. Um som que ficava cada vez mais alto e forte até se tornar insuportável. Os vidros das janelinhas das portas, bem como as janelas que davam para os corredores e por onde os visitantes podiam ver os pacientes nos quartos, começaram a quebrar, uma a uma, espalhando cacos de vidro por todos os lados.
– O que diabos é isso? — indagou Natalie se ajoelhando no chão para se proteger dos estilhaços e tampando os ouvidos com as mãos.
Sam e Dean fizeram o mesmo. Mas ao contrário de Natalie, eles sabiam muito bem o que aquele som significava. Abaddon permaneceu em pé olhando tudo em volta com extremo ódio. Ela também sabia o que estava acontecendo.
O barulho ficou ensurdecedor até que Ezekiel surgiu no começo do corredor. Iluminado por um tipo de relâmpago, duas asas negras e enormes surgiram nas costas dele. Natalie ergueu um pouco a cabeça a tempo de vê-las desaparecer rapidamente. Então ele começou a caminhar na direção de Abaddon com passos firmes e urgentes. O som ficou ainda mais insuportável e as lâmpadas começaram a estourar à medida que ele se aproximava.
De repente, Abaddon olhou para os Winchesters e para Natalie e avisou:
– Esta é a minha deixa. Vejo vocês em breve.
Em seguida, ela abriu a boca e a fumaça negra saiu de dentro dela, passou rapidamente por eles e saiu por uma janela. O corpo inerte da ruiva caiu no chão, próximo aos pés de Ezekiel. O anjo passou por cima dele e parou diante dos caçadores. O barulho ensurdecedor desapareceu por completo e eles tiraram as mãos dos ouvidos.
– Zeke... Bem na hora. — murmurou Dean surpreso, mas feliz pelo anjo ter salvado o dia.
– Vocês estão bem?
– Fora o barulho de sinos na minha cabeça, sim. — respondeu Natalie enquanto o anjo a ajudava a levantar.
– Não me entenda mal, mas por que você voltou? — quis entender Sam já em pé.
– Eu estava indo embora quando eu ouvi as orações de alguns pacientes. Eles pareciam tão assustados... Então eu resolvi voltar. — explicou o anjo.
– Ótima escolha, Zeke. — elogiou Dean.
– E a Claire? — quis saber Ezekiel olhando em volta.
– Ela foi na frente. — respondeu Sam e após alguns instantes, prosseguiu — Ezekiel, Abaddon matou a Sra. Rachel. Será que você poderia... Você sabe...
O anjo entendeu o que o Winchester estava sugerindo e explicou prontamente:
– Desculpe, Sam, mas desta vez eu realmente não posso ajudar. Isso que aconteceu agora foi a consequência da qual eu falei antes. Se eu trouxer a Sra. Rachel de volta haverá consequências ainda mais desastrosas. Além disso, ela acabaria morrendo de novo. Como eu disse antes, a jornada dela chegou ao fim. E quantas vezes você acha que a Claire aguentaria ver a mãe morrendo? Desculpe... Eu não posso fazer isso... Claire sofreria ainda mais.
Sam ficou em silêncio. No fundo entendia o lado de Ezekiel. Ele tentou ajudar uma vez e Abaddon quase destruiu o hospital e quase tirou vidas inocentes, além de matar a Sra. Rachel na frente da filha. Talvez tivesse sido melhor se o anjo não tivesse interferido. Agora Sam sentia-se culpado por ter tentado ajudar Claire e por tudo ter dado errado. Não podia permitir que ela sofresse ainda mais. Tinha que ajudá-la a passar por aquela dor, mas não podia interferir novamente no destino. A Sra.Rachel estava morta e nada poderia mudar isso.
– Alguém pode me explicar por que Abaddon foi embora depois que viu o anjinho aí? Eu pensei que Cavaleiros do Inferno não tivessem medo de nada. — disse Natalie quebrando o silêncio que se instalou.
– Bem, como todos os demônios, eles tem medo de anjos. É uma das poucas fraquezas deles. — explicou Ezekiel.
– Vocês podem matá-los? — interessou-se Dean.
– Sim, mas também podemos ser mortos. É uma briga de igual para igual. Vence o mais forte. — respondeu Ezekiel.
– Então por que ela fugiu? — não entendeu Natalie — Sem ofensa, mas você é mais forte do que ela? Eu estou confusa...
Antes que Ezekiel respondesse, Sam pensou um pouco e deduziu:
– Ela estava em desvantagem. Um pouco fraca por causa do exorcismo, do sal e da água benta. Além disso, eram três caçadores e um anjo contra ela.
– Exatamente, Sam. — confirmou o anjo e em seguida, acrescentou — Mas não se enganem. Abaddon vai voltar. Vocês precisam ir. Eu vou ficar e fazer com que as pessoas esqueçam o que viram aqui antes que a polícia chegue. E tentarei proteger o hospital até ter certeza de que Abaddon não voltará pra cá. Mas vocês precisam ir. Agora.
– Sobre isso... Tem um problema. Nós precisamos da sua ajuda pra resolver uma última coisa. — disse Sam se referindo ao corpo da Sra. Rachel, mas sem saber como dizer aquilo direito.
Eles não podiam trazer Rachel de volta da morte, mas Claire merecia pelo menos sepultar o corpo da mãe. Era o mínimo que podiam fazer por ela naquele momento.
Entendendo onde Sam queria chegar, Ezekiel assentiu com um meneio de cabeça. Dean olhou para o irmão e disse:
– Leve a Claire para a cidade vizinha. Eu vou ficar e... Encontro vocês quando eu recuperar o corpo.
– Eu vou ficar também. — habilitou-se Natalie.
– Não, você já se arriscou demais por hoje. — discordou Dean — É melhor você ir com o Sammy.
– Eu vou ficar, Dean. Vocês vão precisar de ajuda. Eu posso... Pegar uma ambulância emprestada para levar o corpo. Você vai no Impala e então encontramos Sam e Claire mais tarde. — insistiu a loira que também queria fazer alguma coisa para amenizar o sofrimento da amiga.
Dean a observou por alguns instantes e por fim assentiu. Natalie era uma caçadora. Ela não iria sair dali enquanto eles não resolvessem tudo. Então Sam se afastou rapidamente e o irmão, Natalie e Ezekiel foram para o outro lado. Dean aproveitaria a confusão que ainda estava no lugar para pegar o corpo rapidamente e Natalie se encarregaria de conseguir o transporte. Enquanto isso, Ezekiel iria garantir a segurança deles e de todos no hospital. Precisavam ser rápidos. Abaddon poderia voltar a qualquer momento.
Enquanto isso, Claire chegou no estacionamento e correu até o seu carro. Mas ao tentar colocar a chave na porta, suas mãos tremeram e o moio de chaves caiu no chão. Atordoada, a garota abaixou-se para pegar, mas as chaves tinham caído embaixo do carro. Ela não conseguia raciocinar direito e demorou um pouco para finalmente conseguir alcançá-las. Segurou o moio. Mas ao levantar, novamente as chaves caíram no chão. Claire começou a lembrar da mãe e ficou ainda mais nervosa. O choro a venceu logo. E ela ainda tentava pegar as chaves quando Sam abaixou-se ao seu lado e colocou a mão direita sobre a dela. Claire ergueu um pouco a cabeça para olhá-lo. Sentiu-se mais calma, mas ainda assim a dor a consumia por dentro. Em seguida, Sam pegou as chaves, e segurando a mão da garota a ajudou a levantar.
– Ela matou a minha mãe, Sam... Ela matou a minha mãe... Abaddon a matou... Minha mãe está morta... — murmurou Claire entre soluços como se ele não soubesse de nada daquilo.
Sam a observou e sofreu com a dor dela. Puxou Claire e abraçou enquanto ela continuava chorando e repetindo:
– Ela matou a minha mãe... Minha mãe está morta...
Sam a abraçou mais forte e Claire fechou os olhos. Ela chorou no ombro dele enquanto Sam sofria por não poder ajudá-la. Vê-la sofrer e não poder fazer nada o torturava e o fazia sofrer também. Ele entendia a dor da garota. Também tinha perdido a mãe. Um demônio também tinha matado a sua mãe. Mas ele era um bebê quando tudo aconteceu e, portanto, tinha certa sorte por não lembrar de nada, embora Azazel tenha lhe mostrado como tudo aconteceu anos depois. Mas a situação de Claire era pior. Ela viu. Naquele momento. Enquanto acontecia. Ela presenciou. E ela se lembraria daquilo pra sempre.
Agora Sam entendia o que Ezekiel quis dizer quando falou que a morte de Rachel aproximaria os dois. Claire precisava de Sam naquele momento. E ele queria estar com ela. Queria ajudá-la a passar por aquele sofrimento, a sobreviver àquela dor. E era exatamente o que ele faria. Ficaria ao lado de Claire. E não porque o destino determinou assim, mas sim porque era o que Sam queria fazer. Era a sua escolha, o seu livre arbítrio.
No dia seguinte, pela manhã, Kevin recebeu uma ligação. Triste, ele caminhou até a cozinha e encontrou Castiel tomando café e conversando com Mia à mesa. Ao ver a expressão do profeta, os dois pararam de sorrir e ficaram preocupados. Antes que eles pudessem perguntar o que havia acontecido, Kevin antecipou-se:
– O Dean ligou. A mãe da Claire... Se foi.
Embora os três já esperassem que aquilo fosse acontecer mais cedo ou mais tarde, já que Ezekiel tinha deixado claro que aquele era o destino de Rachel, nenhum deles conseguiu evitar a tristeza que aquela notícia causou.
Automaticamente, Mia lembrou-se dos seus pais e da noite em que eles morreram. A garota tinha apenas dez anos e muitas coisas tinham acontecido desde aquela noite. Mesmo assim, aquela dor ainda a acompanhava. Aquela mesma dor que Claire teria que suportar agora. Com o tempo, as feridas param de sangrar, é verdade, mas as cicatrizes nunca deixam de existir. Perder a mãe, o pai, ou os dois, é a pior dor pela qual alguém pode passar. Claire precisaria ser forte e, agora mais do que nunca, precisaria deles.
Naquele dia, Sam e Dean cuidaram dos preparativos do enterro de Rachel. Escolheram um cemitério bem isolado em Kirkwood. Natalie ficou no hotel tentando consolar Claire, embora em alguns momentos a loira chorasse mais do que a amiga. Ela sabia muito bem como era aquela dor.
Além disso, Natalie sentia-se culpada pelo que aconteceu com a Sra. Rachel, já que foi depois do exorcismo feito por ela que a mãe de Claire foi parar no hospital.
Sam também sentia-se culpado já que foi ele que insistiu para que Ezekiel ajudasse a mãe da garota. Claro que ele sabia que a Sra. Rachel acabaria morrendo de uma forma ou de outra, mas talvez não tivesse sido daquela forma tão dolorosa e cruel pelas mãos de Abaddon. Talvez Claire não tivesse presenciado aquilo. Talvez não fosse Abaddon que teria matado Rachel. Talvez tivesse sido uma morte natural.
E Dean sentia-se culpado por não ter conseguido impedir que as coisas acontecessem daquela forma. Ele não se perdoava por não ter desconfiado de que Abaddon estava por perto, esperando a oportunidade certa para encontrar Claire e fazer o que fez. Ele devia ter sido mais cauteloso.
Para Claire, se existia um culpado naquela história toda era ela por ter decidido procurar o pai, em primeiro lugar. Foi enquanto investigava Bobby Singer que ela esbarrou com o sobrenatural. Foi assim que Belial descobriu a sua existência e foi assim que a sua mãe foi possuída pelo demônio. Portanto, ninguém tinha culpa, somente ela.
Sam, Dean e Natalie sabiam muito bem que Claire tinha esta ideia equivocada na cabeça. Mas não sabiam como tirá-la de lá porque Claire não queria conversar, não queria ouvir, não queria ser convencida de nada. Em dado momento, ela parou de chorar. No entanto, ao chegar ao cemitério, a dor veio à tona novamente e Sam a abraçou mais uma vez ao sentir que ela ia desmoronar.
Além dos dois e de Natalie e Dean, havia também um coveiro e um padre no local. E quando o padre terminou de ler o salmo 23 e disse algumas palavras reconfortantes, Claire se afastou de Sam e caminhou até a cova. Em seguida, abaixou-se e colocou uma rosa branca sobre o caixão. Ficou alguns instantes imóvel, olhando fixamente para aquela cena. O padre se aproximou e colocou a mão sobre o ombro da garota. Lhe disse alguma coisa gentil, mas ela não prestou atenção. Em seguida, ele começou a se afastar e deixou o cemitério.
Claire sentiu-se morta por alguns instantes. Não tinha vontade de sair dali, também não tinha vontade de ficar, só queria que tudo em volta desaparecesse e que nada daquilo tivesse acontecido. Mas, por mais que desejasse que tudo desaparecesse, a realidade continuava ali na sua frente, naquele túmulo e naquela dor que consumia Claire. Então, ela reuniu o pouco de força que lhe restava, enxugou o rosto, levantou e começou a se afastar sem dizer nada nem olhar para trás.
Logo, Sam, Dean e Natalie a seguiram enquanto o coveiro descia o caixão e jogava a primeira pá de terra sobre ele.
De repente, o celular de Dean começou a tocar e ele atendeu:
– Alô?
Do outro lado, em uma ala do hospital e ainda tentando se acostumar com um dos telefones públicos que havia em uma das paredes, Ezekiel contou:
– O corpo de Abaddon desapareceu.
– Como assim desapareceu? — indagou Dean parando de andar e um pouco confuso diante da forma nada sútil com que o anjo se expressava, sem nem ao menos se identificar ou cumprimentá-lo primeiro.
Sam ficou ao lado do irmão enquanto Natalie alcançou Claire e passou os braços envolta dela.
Acidentalmente, o anjo apertou algumas teclas antes de explicar:
– Eu não senti a presença dela, mas eu acho que Abaddon mandou algum demônio ou influenciou alguma pessoa para vir buscar o corpo por ela. Me desculpe, Dean. Eu só me afastei por alguns instantes... Eu sei que eu devia ter ficado por perto justamente para o caso dela voltar, mas...
– Tudo bem, Zeke. Pelo menos, nós vamos reconhecê-la quando ela resolver aparecer de novo. — tranquilizou Dean.
– Vocês devem ir embora antes disso. Antes que ela descubra onde vocês estão e, consequentemente, onde Claire está. — alertou Ezekiel e em seguida, perguntou — Vocês tem um lugar seguro para ficarem?
– Definitivamente... Temos sim. — respondeu Dean lembrando do bunker e então encerrou a conversa — Obrigado pela ajuda, Zeke. E qualquer coisa estranha que aconteça, é só ligar, ok?
– Tudo bem. Eu aviso. — encerrou Ezekiel e em seguida, colocou o telefone no gancho, deixou aquela ala e depois o hospital.
Enquanto isso, no bunker, Mia estava no quarto, vendo algumas fotos dos seus pais e acariciando Vincent em seu colo. A tragédia de Claire a fez lembrar da própria tragédia. Não só da morte dos seus pais, que foram retalhados por Cães do Inferno, dez anos depois do pacto que fizeram com Crowley, mas também a fez lembrar da sua atual condição. Atual e provavelmente permanente condição. Da sua condição imortal e monstruosa. Lhe fez lembrar que ela era uma vampira.
Mia achava estranho pensar que todo mundo um dia iria morrer e ela não. A não ser é claro que alguém enfiasse uma estaca de madeira em seu peito, a decaptasse ou arrancasse o anel especial que ela usava, feito por Jeremy Gilbert sob a orientação do fantasma de Bonnie Bennett, e a expusesse ao sol.
Ela sacudiu um pouco a cabeça afastando aquelas ideias mórbidas. Em seguida, pegou outras fotos dentro de uma caixa que estava sobre a cama e em uma delas, viu uma Mia de cinco anos sorrindo em um carrossel. Sorriu levemente. Também era estranho pensar que ela nunca poderia ter filhos. O que não era completamente ruim já que criar um filho e ser uma caçadora, acabaria expondo a criança a muitos perigos. Mesmo assim, Mia sentiu certa tristeza por não poder escolher aquilo. Por não poder escolher se teria um filho ou não. O destino, o acaso, a vida, o que fosse, já tinha escolhido por ela no momento em que aquele vampiro maldito a transformou em um monstro.
Era assim que ela se sentia. Um monstro. Ainda mais agora que ela estava se alimentando do homem que amava e arriscando a vida dele toda vez que não resistia e bebia o seu sangue.
Mia não pôde evitar. Começou a sentir falta da época em que tinha pesadelos horríveis e premonições. Era horrível prever as coisas, mas pelo menos ela era humana naquela época. Sobrenaturalmente especial, com sangue de demônio correndo em suas veias, mas ainda assim, humana.
Enquanto ela pensava nessas coisas e se dava conta de que se pudesse escolher, iria querer voltar a ser humana, Kevin e Castiel retomavam a pesquisa sobre a cura do vampirismo. Os dois estavam em uma das salas folheando alguns livros quando o profeta notou um curativo próximo ao pulso de Castiel e indagou:
– Eu devo perguntar se você tentou se suicidar?
Um pouco atrapalhado, Castiel olhou para o curativo e mentiu:
– Ah! Isso? Eu me cortei com a faca da cozinha. Acidentalmente, é claro.
Kevin franziu a testa um pouco desconfiado, mas em seguida lembrou que Castiel ainda estava se adaptando a sua nova realidade e do jeito que era atrapalhado, era bem provável que tivesse se cortado sem querer mesmo.
No entanto, em seguida ele notou que o ex-anjo tinha um curativo parecido no pescoço, que tentava disfarçar com a gola da camisa. Uma ideia passou pela cabeça do profeta, mas ele desejou estar delirando. Mia não podia estar se alimentando de Castiel. Mesmo assim, ele perguntou desconfiado:
– Pelo visto você se cortou fazendo a barba também, não é?
Castiel colocou a mão no pescoço e respondeu rapidamente antes de retomar a pesquisa:
– Eu ainda estou me acostumando com a fragilidade humana. E eu sou meio atrapalhado também. Uma coisa não combina com a outra.
– Cuidado, Cas. — aconselhou Kevin sem acreditar muito na versão dele.
Dois dias depois, os Winchesters, Natalie e Claire chegaram ao bunker. Eles haviam feito um caminho um pouco mais longo para voltar porque queriam se certificar de que não estavam sendo seguidos por algum demônio.
Ao entrar no lugar, Claire recebeu abraços e palavras reconfortantes de Kevin, Mia e Castiel. No entanto, ela não conseguiu dizer nenhuma palavra para eles em resposta ao apoio. A tristeza estava estampada no rosto da garota e ela sentia que se começasse a falar sobre a morte da mãe iria começar a chorar de novo. Por isso, preferiu se calar e subiu para o quarto onde passou o resto da semana, saindo apenas para tomar banho ou para comer alguma coisa quando algum deles insistia muito para que ela se alimentasse. Geralmente, essa pessoa era Sam.
Claire não tinha ânimo para nada, não conseguia pensar em nada. Apenas naquela dor. No fundo, só queria que aquela dor passasse em algum momento. De preferência, logo. Mas não sabia como. Não se aguentava mais e ficava se perguntando quando os outros perderiam a paciência com ela também. Claro que eles nunca perderiam a paciência, pois entendiam muito bem o drama pelo o qual a garota havia passado e respeitavam o seu luto. Mas sentiam-se frustrados por não conseguirem ajudá-la.
Enquanto pensavam numa forma de ajudá-la, eles resolveram continuar as pesquisas sobre os Cavaleiros do Inferno e também sobre a cura para o vampirismo. Eles se revezavam para que alguém sempre ficasse de olho em Mia, para que ela não desconfiasse que era um dos motivos de uma das pesquisas. Mas acabaram chegando à conclusão de que a melhor forma de mantê-la distraída era deixando ela ajudar com uma das pesquisas. No caso, sobre Abaddon e Belial. Então se dividiam em dois grupos e ficavam em salas diferentes, distantes uma da outra, para que a vampira não ouvisse nenhuma conversa do outro grupo e concluísse ele estava fazendo uma pesquisa diferente daquela do seu grupo.
De qualquer forma, Sam e Dean estavam mais tranquilos em relação à vampira já que quando eles voltaram ao bunker, Castiel contou que Mia estava bem melhor. Não havia tido mais alucinações ou qualquer mal estar. Claro que o ex-anjo não contou que ele mesmo estava alimentando a vampira com o seu próprio sangue. Não tinha certeza se os Winchesters achariam aquilo correto, embora o fato de Mia estar melhor já fosse o suficiente para Castiel continuar fazendo aquilo. Às vezes, ele sentia-se um pouco fraco, mas não comentava nada com a namorada para não preocupá-la.
Mia ainda não sentia-se à vontade com aquela situação. Parecia errado se alimentar de Castiel. E ela sempre ficava com medo de perder o controle e machucá-lo de alguma forma. Mesmo assim, não conseguia resistir e acabava cedendo diante da insistência dele em ajudá-la. Além disso, ele era uma delícia. E era ótimo não passar mais mal. No entanto, o que nenhum deles sabiam era que aquilo não estava resolvendo o problema, apenas amenizando a situação. Algo estava acontecendo dentro de Mia. A diferença é que os sintomas tinham desaparecido temporariamente.
No final daquele dia, Sam passava perto do quarto de Claire e ouviu a garota chorando discretamente. Ele estava cansado de vê-la sofrendo daquele jeito. Queria fazer ou dizer qualquer coisa para tirar aquela dor que ela sentia. Mas qualquer coisa que ele dissesse ou fizesse não surtia nenhum efeito. Claire estava muito triste. Quase deprimida, se já não estivesse, e apenas disfarçava para não preocupar ninguém. Então ele resolveu bater na porta.
Claire enxugou o rosto rapidamente e disse:
– Pode entrar.
Sam empurrou a porta e entrou. Claire estava sentada na cama com as costas apoiadas na cabeceira, olhando algumas fotos de sua mãe que estavam espalhadas pela cama. Sam se aproximou e sentou de frente para a garota.
– Desculpe. — lamentou ela.
– Pelo o quê? — não entendeu ele.
– Por não conseguir disfarçar a minha tristeza. Eu sei que vocês devem estar cansados disso. Afinal, todos vocês já passaram por algo assim, por uma tragédia, uma perda, em algum momento, e conseguiram superar. Mas eu... Eu sinto que não vou conseguir. — explicou ela.
Sam segurou uma das mãos da garota sobre os lençóis e olhando em seus olhos, disse:
– Ninguém está cansado de você, Claire. Nós entendemos a sua dor. Mas te ver sofrendo e não poder fazer nada pra te ajudar é... Sofrer junto com você. E isso é horrível. Olha, eu realmente sinto muito pela sua mãe, mas... Você precisa fazer um esforço, Claire. Eu sei que é difícil, mas tenta lembrar do que ela te pediu antes de morrer. Sobre deixá-la orgulhosa.
– Eu não consigo, Sam. Tudo que eu consigo é me sentir culpada pelo que aconteceu... — expôs a garota.
Sam pensou um pouco. Queria tirar aquela ideia da cabeça de Claire. Então, mesmo sendo difícil tocar naquele assunto, ele resolveu lhe contar uma coisa:
– Claire... Quando eu tinha seis meses, um demônio entrou no meu quarto. Eu estava no berço. Minha mãe apareceu e tentou impedir que ele fizesse... Uma coisa que eu prefiro não te contar neste momento. E então ele a matou, a prendendo no teto e... Fazendo o fogo a consumir. E depois que eu cresci, durante muito tempo eu me culpei pela morte dela. Mas quer saber? Não foi minha culpa. Um demônio matou a minha mãe, não eu. Assim como não foi sua culpa o que aconteceu com a sua mãe. Eu sei que é difícil ouvir isso, mas Ezekiel estava certo, de um jeito ou de outro ela iria morrer. Mas se mesmo assim você quiser culpar alguém, além do destino, culpe Abaddon. Foi ela e não você que matou a sua mãe. Assim como foi um demônio de olho amarelo que matou a minha.
Sam parou de falar ao notar que Claire estava com uma expressão um tanto confunsa. Com certeza, ela havia ficado impressionada com o que ele tinha contado. Então ele percebeu que agiu certo ao ocultar a parte sobre Azazel sangrar em sua boca. Se Claire ouvisse aquilo, certamente sairia correndo, não entenderia, o veria de um jeito diferente.
– O que foi? — indagou ele querendo entender o silêncio da garota.
Claire pensou mais um pouco e então respondeu intrigada:
– Sam, essa história... Sobre uma mulher que morreu em um incêndio. Presa no teto... Eu já ouvi antes. Eu tenho certeza que já ouvi isso antes. Mas tinha alguma coisa diferente na história.
Desta vez, foi Sam que ficou intrigado, mas logo encontrou uma explicação:
– Aconteceram outros casos assim em vários lugares do país. Nem todos seguiam o mesmo padrão. Talvez você tenha lido alguma coisa sobre um desses casos no jornal. — e enquanto a garota tentava lembrar onde tinha ouvido aquela história, ele retomou o assunto — Claire, você precisa ser forte, encontrar algo para se concentrar, parar de se culpar, recomeçar a sua vida, seguir em frente, como a sua mãe pediu que você fizesse. Eu não sei... Tente transformar essa dor em algo diferente. Eu sei que é difícil, mas você precisa tentar.
Claire que ainda pensava na história que Sam havia contado, voltou a si e confessou:
– Eu adoraria fazer isso, Sam. Mas eu não sei como. Eu não sei por onde começar. Eu só consigo pensar nesta dor. Sentir esta dor. Me consumindo. Se pelo menos, tivesse uma forma de... Eu não sei... De fazer isso passar... Só um pouco...
Ao ouvir isso, Sam teve uma ideia. Levantou da cama e disse antes de sair:
– Talvez tenha um jeito. Espere aqui.
Momentos depois, Mia estava sentada de frente para a garota e Sam estava em pé próximo da cama. A vampira olhou pra ele e lembrou:
– Sam, eu não sei se isso vai dar certo. Desde aquele dia na pensão, eu não tentei compelir mais ninguém. Por algum motivo, eu não consigo mais fazer aquilo.
– Mas você disse que está se sentindo melhor, não disse? O Cas também disse que você não teve mais alucinações nem passou mal ultimamente. Talvez o lance de não conseguir compelir as pessoas tenha sido temporário. Talvez tenha voltado a funcionar. — argumentou ele.
Claire olhou para os dois um pouco surpresa e disse:
– Espera um pouco. O que exatamente vocês vão fazer? Eu não quero esquecer a minha mãe, Sam...
– Não é isso que eu vou fazer. — tranquilizou Mia e em seguida, explicou — Na verdade, eu nem sei se vai funcionar, mas não se preocupe, eu não faria uma filha esquecer da mãe. Lembranças são as únicas coisas que nós, órfãs, temos. Olha, eu só quero te ajudar, Claire. Amenizar um pouco essa dor e essa culpa que você está sentindo. Mas eu só vou fazer isso, se você permitir que eu faça. E então? Eu posso tentar te ajudar?
Claire pensou um pouco enquanto olhava ora para Sam, ora para Mia. Percebeu que não havia outro jeito de sair daquela situação. Precisava de ajuda. Precisava ser convencida de que não era culpada pela morte da mãe porque ela mesma não conseguia se convencer disso. Então resolveu aceitar e olhando para Mia, permitiu:
– Faça.
Por um instante, Sam pensou que Claire não iria concordar com aquilo. Mas estava aliviado por ter se enganado. Só queria ajudar Claire. Não aguentava mais vê-la sofrendo daquele jeito e se culpando por algo que não estava sob o controle dela. Sobre algo que ela não podia ter evitado. Ninguém podia.
Então Mia segurou as mãos da garota e olhou fixamente em seus olhos antes de compelí-la:
– Claire, eu sei que você está sofrendo e sentindo falta da sua mãe. Ninguém está pedindo para você esquecê-la. A dor que você sente sempre estará aí. As lembranças, o amor que você sentia por ela, sempre estarão aí também. No seu coração. Mas... Eu quero que você se concentre no que ela te pediu antes de morrer. Eu quero que você siga em frente, Claire. Que encontre uma forma de recomeçar e de deixar a sua mãe orgulhosa. Aliás, não sou eu que quero isso. É você mesma, Claire. Eu sei que você quer deixar a sua mãe orgulhosa. Então se concentre nisso. Trabalhe nisso. E... Por favor, pare de se culpar pelo que aconteceu. Nada daquilo foi sua culpa. A sua mãe morreu. Não há nada que você possa fazer para mudar isso. Então, aceite que não estava sob o seu controle. Chame de destino, vida, fatalidade, linhas tortas de Deus, do que você quiser, mas entenda e se convença de uma vez por todas que você não é a culpada pela morte da sua mãe. Você não pode mudar o passado, mas você pode viver o seu presente. Planejar o seu futuro. Que tipo de pessoa você quer se tornar, Claire? Pergunte isso a si mesma e então recomece a sua vida. Enfrente os seus medos, busque a sua felicidade, seja feliz. Recomece a sua vida, Claire. Apenas... Recomece.
Quando Mia ficou em silêncio, Claire fechou e abriu os olhos rapidamente. Sam e a vampira se entreolharam esperando que a garota dissesse alguma coisa. Como Claire permaneceu em silêncio, Mia pediu:
– Por favor, me diga que funcionou. Eu não vou lembrar de todas aquelas palavras de novo.
Ansioso, Sam se aproximou um pouco mais da calma e perguntou:
– E então, Claire? Funcionou?
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