Rebel Blood
1 Prólogo: Luz e Sombras
Notas iniciais
"Destino é para os perdedores. É só uma desculpa idiota para esperar que as coisas aconteçam ao invés de fazê-las acontecer." — Blair Waldorf
*Nova Iorque, 1950.*
A venda dos “pisca-piscas” – como nomeou o público – fez muito sucesso naquela época. Quem diria que alguém conseguiria pôr uma pequenina luz dentro de uma lâmpada miúda e ainda fazer com que ela piscasse com todas as cores conhecidas e desconhecidas?
Como aqueles jovens que criaram essa decoração conseguiram inventar algo tãoadmirável? Deixar todos surpresos?
A podre e tão escondida verdade é que, claramente, nada se cria, até porque aqueles adolescentes não“criaram”, mas também não copiaram. Eles sequestraram, aprisionaram. Abusaram de coisas que não são do entendimento deles, e que o destino revidaria, com certeza.
* * *
Era noite. Sem chuva, sem barulho de automóveis, nem animais. Apenas a noite acompanhada com a lua, suas estrelas e nuvens escuras adornando o céu quando vários grupos de caçadores adolescentes saíam ao Central Park para torturar mais criaturas inocentes.
– Já consigo ouvir os sussurros delas. – sussurrou um dos caçadores.
Eles estavam caminhando sorrateiramente abaixo das arvores a procura de fadas para pôr nas suas invenções que resultava em lucro graças aqueles seres sobrenaturais.
– Ali tem uma! – exclamou uma garota, alto o suficiente para que todos de seu grupo ouvissem.
Se observasse de longe, sem prestar atenção, poderia jurar que era apenas um vagalume, mais caso o observador espreitasse os olhos e fitasse por bastante tempo notaria que havia um pequeno corpo fluorescente – como o de um humano – entre as asas brilhantes.
A garota engatinhou sorrateiramente por debaixo dos arbustos com seu pote de ferro para prender a fada que estava voando, olhando para o céu e assobiando.
Quando a garota já estava abaixo da fada, pulou e num instante prendeu a criatura dentro da sua prisão de ferro. Porém, ao invés da fada estar gritando como de costume, ela estava rindo.
– Porque essa coisa está rindo? – perguntou um garoto de outro grupo que viu a garota capturando a criatura.
– Eu também não sei. – respondeu a garota, confusa. – Será que isso não era uma armadilha?
– Armadilha? Essas coisinhas são burras demais pra fazer algo assim. – respondeu ele.
Então, eles ouviram passos se aproximando, quebrando galhos e afastando folhas, quando os passos pararam já na frente deles, os dois gritaram assustados.
Na frente dos dois havia uma fada do sexo masculino do tamanho de um humano adulto. Como sabiam que era uma fada? Atrás das suas roupas, na região das costas, jaziam um par de asas brilhantes cheias de detalhes e incolores.
A fada os fitou, a íris de seus olhos composta de um violeta penetrante, como se estivesse examinando a alma deles. Então agarrou os dois pelas vestes e saiu voando enquanto os gritos dos outros caçadores ecoavam abaixo.
Todos os grupos de caçadores -e eram muitos, cada grupo composto de 7 ou 8 adolescentes- que estavam no Central Park correram atrás do fada que capturou o garoto e a garota.
Enquanto eles corriam outras fadas de tamanho humano os agarraram e os levaram para o mesmo lugar onde estavam levando o casal.
Elas arremessaram os jovens em um buraco no centro de uma arvore enorme, como a casa de um passarinho.
Dentro dela, para a surpresa deles, todas as fadas estavam no tamanho humano. Havia um grande salão, uma cúpula, melhor dizendo, cheia de flores de todos os tipos e folhas espalhadas aos cantos, como se a um minuto atrás tivesse ocorrido uma festa celebrando a chegada da primavera.
Sentadas, aos cantos das paredes de madeira, com pernas cruzadas ao formato de borboleta havia fadas masculinas e femininas com galhos (como varinhas) nas mãos, observando a cena com atenção, esperando alguma ordem.
O salão estaria totalmente escuro se não fosse pela pequena fonte de luz que as asas das fadas transmitiam, o lugar cheirava a suco de pêssego.
No centro da cúpula estavam dois tronos compostos de madeira silvestre, e neles sentados olhando para o grande número de adolescentes assustados, havia uma fada do sexo feminino e outra do sexo masculino usando trajes feitos de folhas, madeira e outros recursos da natureza como as outras fadas.
A feminina tinha cabelos vermelhos lisos até os seios, pele negra como Cookies de chocolate, olhos violetas e penetrantes, lábios perfeitos e rosados. Ela carregava, sobre a cabeça, uma coroa de margaridas. A fada masculina era forte, tinha sardas abaixo dos olhos violetas como o da outra fada, no rosto bronzeado como um Cream Cracker estava cabelos negros e pontudos. Uma linha fina e rosa representavam a sua boca.
Podia-se jurar que era um ser humano se não fossem pelas asas, e os olhos, que não eram vistos diariamente, pelo menos não naqueles arredores.
– Eu me chamo Helena. E esse ao meu lado é o Christopher. – começou a fada feminina com a voz suave de acariciar os ouvidos. – Vocês estão aqui para pagarem pelos seus crimes contra os fae.
– Fae? – perguntou um garoto.
– Fada em francês. – Christopher revirou os olhos, irritado. A voz dele era grossa, mas não excessivamente, era como ouvir um cantor de jazz.
– O que você quer dizer com “crimes”? – perguntou o mesmo garoto. – E porque vocês estão do tamanho de um humano adulto?
– Bem, esse é o nosso tamanho normal. Só ficamos pequenos para não sermos notados, o que é à toa, já que vocês conseguem nos capturar mesmo assim. – respondeu Helena.
– E os seus crimes? Capturar nossa espécie para utilizar a nossa energia e fazer as suas invenções estúpidas funcionarem. Por acaso vocês sabiam que quando aquele tal de pisca-pisca para de funcionar é porque a fada dentro da lâmpada morreu de tanto tentar sair? De tanto se debater?!! – Christopher se levantou e olhou para os caçadores com ódio.
– Calma Chris. – Helena puxou ele para a cadeira. – Enfim, por causa do que vocês estão fazendo, criamos uma punição, porém, olhem pelo lado bom, não serão vocês que irão sofrer os danos.
– Serão seus futuros netos. – acrescentou Christopher com um sorriso maldoso.
– E se nós resolvermos não ter filhos para que eles não tenham filhos e assim por diante? – perguntou uma garota loira.
– Acreditem vocês terão. O destino vai fazer com que isso aconteça. Porque como todos nós sabemos, nenhum pecado será encoberto. Nenhum mal passará despercebido. Nenhum criminoso ficará à solta. – Christopher e Helena fizeram um sinal para as fadas encostadas na parede e então eles caminharam em direção aos jovens.
– Esperem! Que tipo de punição nossos netos irão sofrer? – perguntou um garoto de pele escura.
– Eles serão Lumminus: portadores do sangue azul iluminado. E infelizmente sangue azul é o tipo de sangue que os vampiros mais necessitam para mantê-los vivos e completamente fortes. Muito, mas muito mais importante que o vermelho comum. – Helena cruzou os braços e fitou o chão, não parecia nada feliz por estar fazendo aquilo com os caçadores.
– E a parte mais divertida, já que o sangue azul é tão importante para os vampiros, seus netos além de terem o azar de possuir esse sangue especial, correrão risco de ser mordidos por vampiros, e se transformarem em um deles ou ficarem presos para que cada vez que um vampiro sinta sede beba o seu sangue cada dia mais, até a sua morte. – Christopher riu. – Agora pessoal.
Todas as fadas, principalmente Helena e Christopher ficaram de pé. Assim, os faes apontaram os galhos nas mãos, nos quais as pontas começaram a faiscar.
– Hoje, 20 de março, nós amaldiçoamos a sua segunda geração pelos seus atos humanos gananciosos. – disseram eles, em voz alta e ao mesmo tempo, parecia que já tiveram treinado aquilo há meses.
As faíscas escaparam das varinhas e correram pelos ouvidos de cada caçador, como raios solares invadindo, sem permissão, as janelas dos lares.
Magicamente os jovens caçadores caíram um por um no chão de madeira até que todos os corpos ficaram jogados sobre o chão, dormindo.
* * *
No dia seguinte, todos os adolescentes caçadores — ou melhor, os “Caçafae” como chamavam as fadas — acordaram nas suas camas como se tudo ocorrido na noite anterior fosse um sonho, mas eles souberam que estavam errados quando viram os pisca-piscas espalhados pelas casas alheias, fazendo lembrarem-se da maldição que eles mesmos jogaram para os próprios netos.
Acabaram então com a venda dos pisca-piscas que eram fadas, mas sem contar a ninguém o segredo da invenção.
Os adultos, notando como a criação havia feito sucesso, renovaram o pisca-pisca. Inventaram um com pequenas lâmpadas dentro, o que fez as luzes durarem muito mais tempo e assim, a venda continua até os dias de hoje.
Os caçadores informaram aos amigos e parentes que iriam estudar no exterior, pois já tinham idade suficiente, eles possuíam entre 17 a 20 anos de idade. Mudaram-se todos para a Inglaterra, estudaram sim, se formaram em boas faculdades e conseguiram orgulhosos empregos, porém, na verdade, foram embora de Nova Iorque a fim de não ver mais aquelas fadas do Central Park, com medo de encontrá-las novamente.
A princípio, tentaram não terem filhos de jeito nenhum, decidiram não namorarem e não fazerem amor com ninguém, não importava se estivessem com proteção.
Mas o destino não deixaria ser evitado tão facilmente.
Alguns iam pra festas e ficavam bêbados, o que resultava em nove meses depois, quando descobriam que haviam feito um filho em alguém.
Outras atraídas demais pela paixão que as fazia esquecerem-se da maldição, acabavam dormindo com alguém, e ficaram grávidas. E por aí vai.
* * *
Enfim, todos os Caçafaes acabaram tendo filhos. E seus filhos também tiveram filhos, não no mesmo dia, nem mês, mas coincidentemente nasceram todos no ano 2000, sem terem a mínima ideia de que o sangue que corria pelo seu corpo era resultado de uma maldição recebida pelos crimes de seus avós.
Agora, são todos Lumminus.
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