Notas iniciais
Tudo começa agora. o~o

"Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz." — Platão

*Liverpool, dias atuais.*

– Vampiros não existem. – falei sentando-me na poltrona do meu quarto. – Eu não sei por que vocês estão a fim de assistirem esse besteirol de novo.

– Crepúsculo não é besteirol. É o melhor romance de hoje em dia. Cala a boca e dá play logo nesse filme. – Marine sentada sobre minha cama arremessou um pouco de pipoca atrás da minha cabeça.

– Se eu fosse você não começaria a reclamar antes de chegarmos a Amanhecer. – Theo se jogou na outra poltrona após jogar uma pipoca no ar e pegá-la com a boca.

Na semana passada Marine sugeriu que nós três assistíssemos um filme pra “fechar as férias com chave de ouro”. Eu disse que tudo bem, porém eu não sabia que iriamos assistir Crepúsculo, se ela tivesse me dito antes eu pediria pra ela enfiar uma estaca no meu coração –já que é uma das formas para matar aquelas coisas-, mas como ela não me avisou ali estávamos nós desperdiçando o domingo inteiro assistindo aquilo.

– Como assim? – Perguntei enquanto os trailers começavam.

– Pois é meu querido, vamos ficar aqui com você pelo resto do dia. – Marine riu alto. – Veja o lado bom da situação: você não vai passar esse último dia de férias conhecido como Domingo Tedioso sozinho.

– Assistir a saga do vampiro que brilha não vai animar meu domingo. – respondi olhando a rua pela persiana da janela ao meu lado.

Ainda estava de dia e não tinha sinais de chuva, o Sol estava brilhando no céu azul, porém de pé na calçada quente do outro lado da rua sob um guarda-chuva falando com alguém no celular havia um garoto pálido, por causa do guarda-chuva eu não conseguia ver seus olhos e seu cabelo, apenas seu nariz e boca que lambia os lábios sem parar enquanto falava. Ele trajava uma camisa marrom escura de mangas longas, um jeans preto rasgado nos joelhos e um Vans vermelho.

Ele parou de falar, guardou o aparelho no bolso da calça e virou de lado, olhando para o final da rua, parecia estar esperando alguém. Uma garota de cabelo castanho até os ombros e óculos Ray-Ban escuros apareceu caminhando, eu conseguia ver sua aparecia por que o seu guarda-chuva era pequeno e colorido. Ela parou na frente do garoto e eles começaram a conversar. Consegui ler os lábios do garoto, e entendi a última frase que ele disse: Um Lumminus mora aqui.

Então o garoto se virou e pude enxergar seus olhos, a íris deles eram de um vermelho vivo, brilhante, eles me lembraram de crianças desaparecidas, assassinatos sem pistas, monstros do armário e medo de escuro. Ele sorriu de boca fechada e apontou para minha janela, ou melhor, para mim.

Sai de perto da janela rapidamente, suor frio descia pela minha nuca e meu coração parecia que iria saltar pela boca.

– Vo-vocês viram aquilo... ? – perguntei gaguejando.

– Shhh... Essa é a parte que a Victória aparece. – falou Theo pondo um punhado de pipoca na boca.

Marine se levantou e olhou pela persiana, em seguida virou-se e me encarou.

– Eles são estranhos e estão olhando para aqui. Você os conhece?

– Não. – franzi o cenho.

– Então sei como resolver esse problema. – Ela levantou a persiana, abriu a janela e levantou o dedo do meio para os estranhos.

Quando viram o ato vulgar de Marine eles não a xingaram ou ficaram ofendidos, apenas assentiram com a cabeça, se separam e foram embora.

– Prontinho. – disse Marine fechando a janela e voltando para a cama.

Olhei para a tela da TV. A vampira que aparecia naquela cena era uma mulher ruiva, ela estava conversando com um vampiro que possuía dreadlocks, eu sei que os do filme eram “vampiros”, mas eles dois tinham algo idêntico ao do garoto do outro lado da rua: olhos vermelhos.

Minha cabeça começou a doer, provavelmente uma enxaqueca estava a caminho. Levantei do assento e corri até o banheiro do primeiro andar. Entrei e fechei a porta.

Abri a torneira e lavei o rosto, por um segundo as minhas veias do braço pareciam azuis sob a pele, pisquei os olhos com força e elas desapareceram. Enquanto olhava para o reflexo do meu rosto molhado de água, pensei naquelas duas pessoas que vi na rua.

Quem eram eles? Porque estavam me procurando? O que é um Lumminus? E porque os olhos daquele garoto eram tão vermelhos? Enquanto eu pensava em respostas, minha cabeça doeu mais ainda, parecia que tinha água quente no meu cérebro e no resto do meu corpo. O suor encharcava as minhas roupas e pingava no chão.

– Noah, tá tudo bem aí? – Era a voz de Theo.

– Sim... Estou bem. – menti.

Abri o armário embaixo da pia, e quando estiquei a mão para pegar um remédio, ao ver meu pulso, onde veias azuis brilhavam e circulavam o meu braço como linhas de costura, minha visão embaçou e a última coisa que vi foi porta se escancarando e Theo e Marine olhando pra mim espantados.

Depois disso, meus olhos encontraram a escuridão.

Notas finais
Até o próximo capítulo >.