Rebel Blood
3 Mentirosos
Notas iniciais
"Talvez a morte tenha mais segredos para nos revelar que a vida." — Gustave Flaubert
Abri os olhos lentamente, piscando várias vezes para afastar a visão embaçada. Pela escuridão do quarto, deduzi que já era noite. Alguém havia me colocado na cama depois que desmaiei, pois era nela em que eu estava deitado. Me fazendo companhia estavam o meu abajur iluminando fracamente o quarto, uma caixinha de remédio para dor e metade de um copo d’água. Em um canto escuro do quarto, notei algo se remexendo em uma das poltronas: era uma mulher, ela estava cobrindo o rosto com as mãos e fungando, parecia estar chorando.
– Mãe? Tá tudo bem? – Foi uma pergunta meio retardada. Se ela estava chorando é claro que não estava bem.
– Lembra quando eu disse que seu pai morreu em um incêndio na nossa antiga casa? – A iluminação não a alcançava completamente, as sombras escondiam a sua face.
– Lembro... Mas por que você está querendo falar disso agora? – Perguntei confuso.
– Eu menti.
– Como assim? Não foi um acidente? Alguém o matou, é isso? Por que você não me contou? Os policiais poderiam descobrir quem foi o culpado...
– Noah, ninguém assassinou ele. Ele se suicidou. – Minha mãe caiu em lágrimas novamente.
Fiquei sem palavras. Então meu pai se matou. Deixou-nos sozinhos nesse mundo horrível. Como ele poderia ser tão egoísta? O pior foi que esse tempo todo enquanto eu achei que foi um acidente, foi na verdade um suicídio. Mesmo pensando nisso, minha visão se embaçou com a quantidade de lágrimas nos meus olhos.
– Mas... Por quê? Ter um filho era tão ruim assim? – As minhas lágrimas fugiram dos meus olhos e navegaram para minha camiseta utilizando minhas bochechas como trilha.
– Não, é muito mais complicado do que isso. – Respondeu ela.
– Chega de mentiras, mãe! O que é tão complicado assim que você não pode me contar?! –Gritei dando um soco no travesseiro após sentar-me na cama.
– Quer saber? Eu vou contar, afinal não é a primeira vez que você encontra um deles mesmo.
– Um deles?
– Um vampiro. – Sua expressão ficou séria.
Lembrei-me dos olhos vermelhos do outro lado da rua. Meus olhos saltaram. Comecei a ficar assustado. Como era possível? Era só um mito, vampiros nãoexistem. Ou será que estive enganado todo esse tempo?
– Mas isso é só uma lenda urbana...
Ela continuou como se não tivesse me escutado.
– Nos tempos medievais, os primeiros vampiros possuíam o sangue azul, por serem portadores deste tipo de sangue, denominavam-se Lumminus, e por causa disso podiam sair ao sol sem se queimarem, eram velozes, fortes, podiam controlar as pessoas, entre outros poderes que vampiros têm. Porém, alguns deles se apaixonaram por humanos e obtiveram filhos.
“Os filhos nasceram vampiros também, é claro, mas não nasceram com o sangue azul, nas suas veias corriam o sangue do humano. Isso não impedia a imortalidade deles, mas os incapacitava de terem poderes.”
“Por causa disso, eles precisavam de sangue azul para serem invencíveis. E o que eles fizeram? Se uniram todos e sequestraram os Lumminus, incluindo os seus pais, com exceção dos que eram mortais. Os prenderam em locais fechados, porões por exemplo, cheios de cabeças de alhos, crucifixos, e outras coisas espalhadas no cômodo, além de colocar algemas deles presas à uma mesa de metal deixando-os deitados indefesos.”
“Assim eles podiam desfrutar do sangue dos vampiros Lumminus obtendo seus poderes, e quando percebiam que um Lumminus estava ficando tão fraco a ponto de seu sangue iluminado não oferecer mais os poderes, os outros vampiros os matavam.”
“Enfim, todos os Lumminus morreram, e com isso, os vampiros comuns perderam os poderes. Sem eles só podiam sair à noite, não eram mais controladores, nem tão fortes e etc. Mas infelizmente, tudo mudou em 1950quando vários jovens inventaram como passatempo caçar fadas e coloca-las em pequenas lâmpadas de plástico e assim criarem os pisca-piscas. As fadas não aceitaram isso e amaldiçoaram os netos dos caçadores, fazendo com que eles nascessem como Lumminus, e agora os vampiros estão à procura deles para possuírem seus poderes a tanto tempo perdidos.”
– Por que você está me contando isso? – Perguntei. – Como a morte do pai está relacionada a isso?
– O seu pai se matou a fim de impedir o seu nascimento. Ele morreu para não fazermos amor e eu engravidar. Ele se sacrificou por você. Mas nós não sabíamos que você já estava na minha barriga, pois seu avô só nos contou da maldição depois da primeira vez que dormirmos juntos. Ele usou a proteção, mas parece que não adiantou.
– Qual era o sobrenome do meu pai? – Será que meu nome também era uma mentira? Desconfiei.
– Blackburn. O seu nome é verdadeiro: “Noah Pierce Blackburn”. Realmente eu pensei em tirar o nome do seu pai e colocar um falso pois sempre que ouvia o sobrenome dele eu lembrava de sua morte, mas se eu fizesse isso estaria indo longe demais, como você nunca viu seu rosto pessoalmente, pelo menos deveria saber seu nome. – Ela se levantou e me abraçou.
– Entende por que quando você era menor nós nos mudávamos com frequência?Não queríamos que você nascesse para não ser alvo dos vampiros. Como não funcionou, você é um Lumminus filho, e tudo o que fiz foi para te proteger daqueles monstros de olhos vermelhos. Nós não nos mudamos daqui porque não há sinais deles aqui.
Não sei se deveria contar a ela que os vampiros já estão aqui e que me acharam, ela ficaria mais preocupada ainda e eu não queria isso. Simplesmente devolvi o abraço e juntos saímos do quarto.
Quando abri a porta me deparei com Holly (minha irmã parte de mãe) que estava com o ouvido nossa conversa.
– Até que enfim você contou, mãe. – Holly me deu um abraço. – E aí aberração, tudo bem?
Holly e eu rimos.
– Você não tem o que fazer, pirralha?
Descemos as escadas e voltamos para a nossa rotina.
***
Já eram 7h30 quando acordei. Faltava meia-hora apenas para a aula começar. Tomei um banho rápido, escovei os dentes e vesti uma camiseta do Death Note, pois foi a primeira que eu vi ao abrir o armário, calcei meu All Star que eu deveria ter limpado no dia anterior, agarrei a mochila e desci para a cozinha.
– Bom dia... – Holly bocejou enquanto digitava em seu laptop.
– Bom dia. Acho melhor você deixar pra terminar de escrever esse capítulo depois senão você vai se atrasar. – Falei enquanto preparava meu café da manhã.
– Eu preciso terminar este livro o mais rápido possível... – Ela cochilava ao terminar cada frase. – A editora precisa dele para oferecer a um diretor de cinema, ele leu alguns capítulos e está pensando em fazer uma adaptação se for realmente bom...
– Adaptação hein? Tá podendo. – Ri com pedaços de torrada na boca.
Holly fechou o laptop, tomou um gole do seu café e sacudiu a cabeça tentando ficar despertada.
Escovamos os dentes e entramos em seu carro.
– Agora eu entendi porque eu sempre sou o mais rápido na aula de Educação Física. – Pensei em voz alta. – E forte levantando um objeto pesado, o que era estranho porque eu pareço um palito de dentes.
– Pois é maninho, parece que ser uma aberração tem suas vantagens. – Zombou Holly. – Agora tome cuidado senão o Drácula vai chupar seu sangue especial.
– Rá-rá. Muito engraçado. – Revirei os olhos. – Se o Drácula foi um Lumminus também, aposto que já chuparam o sangue dele todo.
Holly já estava no último ano do ensino médio, e eu no primeiro, o que significa que quando chegamos na Abraham Lincoln High cada um seguiu para um corredor diferente.
Entrei na minha sala e escolhi o lugar que sento em todos os anos, no fundo da sala para que nenhum professor fique me encarando enquanto dá aula.
Enquanto olhava os novos alunos que entravam na sala, uma garota chamou a minha atenção. Seus cabelos eram tingidos de rosa, sua boca tinha um formato de coração, e seus olhos eram de um cinza incrível. Ela era linda, não que eu queria namorar com ela nem nada do tipo, apenas achei ela bonita. Não pude deixar de perceber que dentro da sua mochila semiaberta jazia um dos meus livros favoritos.
Ela caminhou até a mesa ao meu lado e sentou-se na cadeira. A garota percebeu que eu estava a encarando e eu desviei os olhos quando ela percebeu.
– Você tá lendo Fallen? – Perguntei.
– Sim. É bem legal né? – Ela sorriu olhando pra mim.
Os olhos dela eram tão lindos! E o seu sorrisofantástico.
– Tudo bem com você? – Ela arqueou as sobrancelhas. Eu estava a encarando por tempo demais.
– É um das minhas sagas favoritas, Fallen, quero dizer. Desculpe por estar te encarando. – Falei meio sem jeito.
– Sem problemas, todos nós fazemos isso quando vemos uma pessoa nova. Sou Raven Rosenfelt. – Ela ergueu a mão.
A mão dela parecia ser tão delicada que tive medo de apertar e acabar quebrando com minhas mãos de ogro, então só segure e disse o meu nome:
– Noah Pierce, ou Noah Blackburn se preferir. Acho o outro nome mais bonito. – Sorri de volta.
Então, infelizmente, o professor,um homem já de cabelos brancos até os ombros entrou na sala, acompanhado de um jovem de cabelo espetado e sardas e uma jovem alta com cabelos longos e pele escura, talvez os dois com uns vinte e oito a trinta anos de idade, que olharam para todos os alunos com olhos violetas quepareciam estar enxergando a nossa alma.
– Alguns de vocês já me conhecem e outros não. Dou aula neste colégio a mais de cinco anos. Sou James Rangel. Podem me chamar de Professor Rangel. Sou o professor de inglês. – O professor de gravata borboleta escreveu no quadro Sr. Rangel. – E esses são Christopher Eliott e Helena Newton.
A chamada Helena começou a falar, sorridente.
– É um prazer conhecer vocês. Eu serei a nova psicóloga do colégio. Vamos nos dar muito bem.
Ela cutucou o tal de Christopher com o cotovelo e ele começou a falar, sem entusiasmo:
– Não é prazer nenhum conhecer vocês, me desculpem, mas eu odeio ser professor de Educação Física. Mandaram-me mentir pra vocês dizendo que: “Vamos nos divertir muito esse ano”.
E então os dois se retiraram e a aula de inglês começou.
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