Rebel Blood
4 Emotivos
Notas iniciais
“Sou humano, mas gostaria de ser como uma máquina, que tivesse como desligar a função do sentimento e da decepção.” – Rodrigo Nunes de Andrade.
A aula de inglês terminou, acenei para Raven e saí da sala. Atravessei o tumulto de alunos nos corredores até conseguir alcançar a porta que dava para o campo. A explosão de luz solar atingiu os meus olhos e lentamente enxerguei Theo na arquibancada entediado, assoprando sua franja negra que caia nos seus olhos. Seu queixo repousava na palma da sua mão esquerda, como O Pensador.
– O tal do Christopher ainda não chegou. – Suspirou Theo, olhando para a quadra. – Você percebeu como eles são estranhos? Ele e a Helena, quero dizer.
– Não muito. Os olhos violetas podem ser lentes de contato, e as sardas... Muitas pessoas têm. – Falei sem saber aonde ele queria chegar com aquele assunto.
– E se não forem lentes de contato? Eu acho que eles são... – Ele começou a falar, seu cabelo onduladona altura do maxilar e sua franja que cobria seus olhos lhe davam uma aparência sombria. – Não, não podem ser. Essas coisas não existem.
– Taylor, diz logo no que você está pensando. – Insisti.
As nuvens haviam desaparecido dando lugar ao Sol que brilhava intensamente, deixando o gramado com um tom verde quase fluorescente. Mais alunos estavam estrando no campo, provavelmente o professor já estivesse chegando.
– Noah, você acredita em... Fadas? – Ele me encarou com um dos olhos que a franja não cobria, parecia mais que estava perguntando para si mesmo.
O professor soou o apito antes de eu tentar responder Theo. Descemos da arquibancada e nos aproximamos do centro do campo, onde todos estavam.
– Como hoje é o primeiro dia de aula, farei um teste físico com vocês. – Ele falava andando de um lado para o outro. –Coloquei estes obstáculos aos arredores do campo, e haverá dois minutos no cronometro para vocês, individualmente, fazerem a volta na quadra duas vezes.
Corrida, uma das poucas coisas em que sou bom. Pensei.
Olhei os arredores do campo e vi cones, pneus e caixotes de papelão. Meus olhos se voltaram para a arquibancada e percebi que Theo ainda estava ali com a mão no queixo, pensativo.
Você não vem? Gesticulei.
Ele então começou a descer e vir na minha direção.
Quando conheci Theo, estávamos no oitavo ano. Ele estava sozinho em uma mesa no refeitório, solitário. A primeira coisa que me chamou a atenção foi sua semelhança com o detetive “L” do anime Death Note, seu jeito quieto e misterioso, mas que sempre tinha uma resposta para algo. Sua pele era branca, seus cabelos negros ondulados e grandes, e sua franja emo, até porque ele era mesmo emo, o que eu não suportava até o conhecer. Como eu também era novato, eu resolvi sentar ao seu lado. E eu não sou de dizer “oi” quando não conheço a pessoa, então fui direto.
– Você parece com um personagem do Death Note. – Falei.
Ele ligou a tela do celular, e deu pause em uma música da Lana Del Rey cujo nome eu esqueci.
– Você falou “Death Note”? — Disse ele, tirando os fones do ouvido. Seus olhos solitários brilharam e um sorriso que parecia anos que não nascia surgiu na sua boca.
Ele me disse que se chamava Taylor, mas resolvi o chamar por um apelido. Como “Tay” ficaria muito feminino, resolvi chama-lo de Theo, sei que não combinava, mas ele não ligava e muito menos eu. E depois desse dia, nos tornamos melhores amigos. Foi o começo de amizade mais estranho que já presenciei.
– Blackburn! – O professor gritou, dando-me um susto. –É a sua vez de correr.
O campo de lacrosseera enorme, mas não seria dificuldade pra mim. Agachei e quando ouvi o som do apito eu simplesmente corri como sempre fiz. Enquanto corria, coloquei os pés velozmente dentro de vários pneus, desviei de cones e saltei em caixotes. Era como se o vento me puxasse para frente, fazendo-me acelerar tanto, quase tirando meus pés do chão. Isso acontecia sempre que eu queria chegar rápido a algum lugar. O espaço ao meu redor passava rápido como em um filme acelerado. Na segunda volta, quando enxerguei os outros de uma longa distância fui parando de mexer as pernas aos poucos, até que fiquei parado na frente de todos os alunos, que me observavam boquiabertos menos Theo, que já havia se acostumado com isso. Naquele momento eu entendi porque eu conseguia correr velozmente, enxergar de muito longe, entre outras coisas.
Eu sou mesmo um Lumminus. Infelizmente.
– Garoto, você não completou nem um minuto. O que você tomou no café da manhã? Cuidado com as drogas hein – O Sr. Eliott me observa com seus olhos dos pés a cabeça, mas não demonstrava surpresa. – Você correu em cinquenta segundos. Parabéns.
Ótimo! Agora vão pensar que uso drogas pra ganhar uma super... Velocidade. Agradeci e sentei-me na grama com os outros alunos. Suor pingava do meu queixo e umedecia o verde. Eu podia ter poderes graças ao sangue, mas ainda era um humano, suava como um. Outros garotos e garotas eram chamados para correr. O professor ainda me observava com o canto do olho enquanto falava com os outros. Isso me incomodou, mas fingi que não vi.
Será que ele sabia qual sangue corria nas minhas veias?
...
Achamos Marine colocando suas coisas dentro do seu armário enquanto Dylan, um garoto popular e ex-namorado de Marine, falava com ela:
– Por favor, Mar, me dê uma chance...
Marine bateu a porta do armário com força e o encarou.
– Outra chance, Dylan?! Você acha que sou idiota como as outras garotas que você namora? Eu vi com meus próprios olhos você beijando outra, então eu te perdoei e você fez de novo! Eu mereço coisa melhor.
– Não, Mar! Não vá embora! Me perdoa! – Dylan agarrava-se na perna de Marine, impedindo-a de andar.
– Será que algum de vocês dois pode me ajudar aqui? – Ela olhou para nós dois.
Ergui Dylan pela gola da sua camiseta e o encarei. Seu topete bem feito caiu quando o levantei, o que o fez choramingar mais ainda.
– Ela não te quer, cara. Aceita que dói menos.
– Me solta, seu perdedor. – Dylan se debatia no ar.
O soltei fazendo-o se esborrachar no chão, ele se levantou disfarçando a dor e gritou:
– Quando você lembrar o quanto precisa de mim, virá rastejando aos meus pés e eu vou ignorá-la! Irá se arrepender de ter me rejeitado. – Ele falou com raiva antes de sair do corredor.
Eu e Theo havíamos conhecido Marine no ano anterior. Ela era uma líder de torcida de outro colégio. Ela percebeu o quanto fazer parte do seu grupo de líderes era insignificante, as garotas eram egoístas, invejosas, falsas e achavam que uma boa reputação era tudo. Ela tentou explicar a elas que um dia o colegial iria acabar e que elas não seriam líderes de torcida e garotas populares para sempre. Por isso, as garotas ficaram com raiva dela e a expulsaram do grupo de líderes. Então em um dia em que os dois colégios se uniram em um passeio para um evento de animes, onde todos faziam cosplays, nós três éramos os únicos usando camisetas do Acampamento Meio-Sangue da saga do Percy Jackson. Começamos a conversar sobre mitologia grega e combinamos de sair mais vezes, assim ela resolveu mudar para o nosso colégio e se tornou nossa melhor amiga.
– Tenho que fazer uma coisa,vocês aí, não saiam daqui. – Disse Theo entrando na sala da nova psicóloga, Helena.
– O que ele está fazendo na sala da psicóloga?Será que ele andou se cortando de novo e precisa de ajuda? – Marine perguntou, soando triste.
– Espero que não, Marine. Espero que não. – respondi.
Depois de alguns minutos, antes de o alarme soar para a próxima aula, Theo saiu da sala nos olhando através da franja, parecia assustado como sempre ficava quando descobria algo e precisava imediatamente nos contar. Ele colocou um dos seus braços ao redor do meu pescoço e o outro ao redor do pescoço de Marine, e então choramingou:
– Acho que estou ficando louco.
– O que aconteceu, Taylor? Você está me assustando. – Foi Marine quem falou.
– Vocês podem me chamar de louco... Os professores novos, Christopher e Helena. Eles são realmente fadas. – Theo falava quase num sussurro.
As batidas do meu coração aceleraram, eu não desmaiei, pois Theo desmaiou primeiro, assustando-nos.
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