Reason
10 Um dia depois
Notas iniciais
O beijo estava tomado de desejo, Luiza não sabia ao certo como aquilo poderia estar acontecendo, mas ali estava ela, completamente entregue nos braços de Marcelo. Suas línguas dançavam de forma lenta e rápida ao mesmo tempo, as mãos de Marcelo passeavam nas costas da moça e as dela lhe bagunçavam o cabelo. Quando o ar se fez necessário, Marcelo se afastou de Luiza abrindo os olhos, os olhares se encontraram e mesmo com pouca luz Luiza constatou o medo que tanto ela temia.
Os olhos do homem a sua frente continham um misto de dor e desejo, esses dois sentimentos juntos não eram bons. Entretanto a dor que ele parecia sentir sufocava qualquer desejo que ele pudesse ter naquele momento.
_Me desculpe, não deveríamos ter ido tão longe... a culpa foi minha! –a voz de Luiza se apressou saindo baixa e um pouco hesitante, porém, ela continuava olhando em seus olhos.
_Não, a culpa foi minha, fui eu quem veio até aqui e te beijou. Eu sinto muito Luiza, isso não deveria ter acontecido. –Marcelo falava de forma suave, ele parecia estar realmente arrependido, sua mão direita afagou o rosto de Luiza docemente como se ele quisesse confortá-la e se despedir. _Eu ainda não estou pronto para isso e não quero te fazer sofrer, mas eu não sei ao certo o que está acontecendo...
_Não se preocupe. Eu prometo que isso não irá se repetir, você é apenas o meu patrão e continuará sendo assim. –falou visivelmente magoada com aquela situação, mas no fundo ela sabia que ele estava sendo sincero.
_Me desculpe. –disse apenas afastando-se de uma vez da moça caminhando a passos largos para o seu quarto.
Luiza entrou no quarto de Joaquim e fechou a porta. Ela caminhou até o berço do pequeno e se pôs a observá-lo. As lágrimas desceram sem sua permissão, tudo o que ela queria era ser mais forte e ter desviado o rosto, ou ter dito algo que o convencesse a voltar para o escritório, mas como fazer aquilo se tudo dentro dela chamava por ele?
_Se não fosse por você, eu iria embora agora mesmo! –disse com um leve sorriso olhando para cada detalhe do rosto de Joaquim.
Aquela seria mais uma noite em claro para os dois adultos daquela casa. Marcelo não sabia como perdera o controle de maneira tão inapropriada. Olhando para a foto do seu criado mudo ele socou o travesseiro que estava próximo a ele e passou as mãos exasperado por seus cabelos. Ele tentou analisar o que havia ocorrido a instantes mas não conseguiu. O homem pegou o porta-retratos nas mãos e acariciou o rosto de Veronica.
_Eu ainda amo você, como sempre amei e como sempre irei amar. Mas eu não sei o que está acontecendo de fato, ela é tão gentil, doce, amiga... Mas, mesmo sem te ter aqui, sinto que jamais ninguém conseguirá entrar no seu lugar. Perdão! –as palavras saíram entre algumas lágrimas, Marcelo era um homem forte, mas quando se tratava de Verônica e da sua família ele não tinha vergonha de chorar, simplesmente se deixava sentir.
Sem saber como seria na manhã seguinte, Marcelo e Luiza adormeceram após horas acordados. Marcelo com um sentimento de culpa que o consumia e Luiza com um ressentimento imenso dentro do peito.
Por fim o dia amanheceu, Luiza acordou antes de todos e arrumada adequadamente desceu para a cozinha afim de preparar alguma coisa para o café da manhã. Marcelo desceu uma hora depois com Joaquim nos braços, ele já estava arrumado para ir trabalhar, Luiza o olhou de relance e tudo nele parecia atraente e lindo. Ela não queria mas acabou por se desconsertar por alguns segundos que pareciam horas, os olhares se encontraram e permaneceram vidrados um no outro, se não fosse pelo choro manhoso de Joaquim, tudo poderia ficar ainda pior do que já estava.
A moça se aproximou e pegou o menino nos braços, rapidamente baixou o olhar e nada disse. Seu coração batia descompensadamente quando deu a mamadeira para o pequeno balançando-o um pouco. Marcelo não comeu nada, apenas deu um beijo na cabeça do filho e falou com Luiza pela primeira vez naquela manhã.
_Se você quiser, posso te levar para a faculdade... Estou preocupado! –ele falou com uma certa relutância.
_Não precisa, vou ligar para o Pedro daqui a pouco. Ele larga mais cedo que você e não tem o Joaquim para cuidar, então... –Ela sorriu por dentro com sua resposta,finalmente tinha conseguido dar uma resposta coerente e firme.
_Ah, entendi. Certo. Então, até amanhã! –disse apenas sem olhar para a loira a sua frente.
_Até.
Nada a incomodava mais do que seu atual relacionamento com Marcelo, é claro que ele era seu patrão e estava emocionalmente impossibilitado para ser algo mais, porém, o que aconteceu com toda essa impossibilidade na noite passada? Será que ele queria apenas saciar um desejo carnal? Ou talvez ele tenha despertado algum interesse a mais por ela? O coração de Luiza ficava com a segunda opção, mas sua razão agarrou com todas as forças a primeira. Ainda com Joaquim nos braços, já bem alimentado, ela pegou seu celular e ligou para Pedro.
_Hey, oi! Bom dia! Te acordei? –falou rapidamente assim que ouviu um “alô” rouco do outro lado da linha.
_Não, quer dizer, mais ou menos! Já estou atrasado para variar ... Mas, aconteceu alguma coisa? Você nunca me liga... –disse de forma sarcástica e brincalhona.
_Então, acho que isso irá mudar a partir de agora... Bom, preciso de um grande favor seu. –ela odiava ter que fazer aquilo mas, quais opções além daquela ela tinha? Júlia não tinha carro assim como ela, e não iria pedir para que algum amigo da morena que ela nem conhecia direito virasse seu motorista particular.
_Peça dois meu bem! –disse sorrindo.
_Preciso que você me dê uma carona para faculdade hoje, e que vá me buscar também, e que isso não aconteça só hoje, mas sim, todos os dias por um tempo... –falou quase sem respirar para que tudo saísse de uma só vez.
_Certo, por você qualquer coisa, mas está tudo bem? Isso não é muito do seu feitio queria Luiza... –constatou sem delongas.
_Eu sei, converso com você hoje a noite pode ser? –perguntou de uma vez, sabendo que não poderia lhe esconder a verdade.
_Okay, agora, deixa eu ir, porque se não vou acabar sem emprego e automaticamente terei que vender o carro para pagar as contas e daí vai sobrar para você que ficará sem chofer. –brincou levantando-se da cama num pulo.
_Certo, não queremos que isso aconteça de jeito nenhum. Até a noite! –disse apenas quase desligando, mas antes disso ela ouviu Pedro lhe chamar.
_Não está esquecendo de nada não mocinha? –sua voz soou irônica num tom que Luiza já conhecia bem.
_Ahhh, tá. Obrigada Pedrinho amorzinho da minha vida você é o carinha mais fofo que já conheci. –disse entre risos.
_Fofo, Luiza? –perguntou sem acreditar no quão cruel ela poderia ser.
_Tchau Pedro, tenha um bom dia! –disse ainda sorrindo.
A moça não esperou a resposta de Pedro, apenas desligou o telefone, surpreendendo-se com seu estranho bom humor. Logo após brincar um pouco com Joaquim, Luiza o colocou no quadrado lotado de brinquedos enquanto arrumava a cozinha falando ao mesmo tempo com Júlia.
_Você não poderia ter deixado que isso acontecesse... –falou a morena num tom claro e sincero.
_Eu sei Jú, eu tentei fazer com que não acontecesse, já tivemos várias oportunidades de nos beijarmos antes, mas eu sempre desviei ou fugi, só que ontem ele parecia ser outra pessoa. Juro que não tive escolhas, e droga! Ele mexe demais comigo...
_Eu entendo amiga, mas isso é apenas desejo repentino de homem, ele ama a falecida. Acho que no momento você se encontra bem encrencada.
_Ou não né!? O Pedro irá me levar e buscar na faculdade a partir de hoje, e quem sabe não aconteça alguma coisa entre nós... –falou quase como um pensamento em voz alta.
_Luiza, pelo o amor de Deus! Onde você está com a cabeça? Não tente maquiar a situação desse jeito, e como você pode achar que irá simplesmente esquecer o Marcelo por estar com outra pessoa? –perguntou Júlia num tom firme parecendo ser bem mais velha do que era.
_As pessoas dizem que isso funciona Maria Júlia, e outra, eu tenho que fazer alguma coisa, não posso ficar tão vulnerável a este homem como estou agora. –disse rapidamente um pouco exasperada.
_Que fique bem claro, que acho essa sua ideia uma grande merda Luiza. Isso ainda vai feder. –disse meio irritada.
_Relaxa Jú, eu sei me virar, não é o fim do mundo não é mesmo? Ou eu faço isso, ou vou acabar pirando... –disse apenas.
_Espera ai, porque o Pedro vai te levar e buscar na faculdade? –perguntou notando que Luiza não tinha mencionado o motivo para tal ato.
_O Thiago... –disse comprimindo os olhos para tentar tirar as imagens do rosto dele de sua mente.
_O que aquele idiota fez Luiza? –perguntou exasperada.
_Apareceu de repente no ponto de ônibus ontem quando eu estava vindo para casa e deu o showzinho dele... –falou sem querer entrar em detalhes pelo telefone.
_Ele te machucou? –perguntou rapidamente.
_Mais ou menos, só apertou o meu braço um pouco forte demais. Porém, te conto o resto em casa hoje à noite. Como o Marcelo está? Ele está irritado, triste, ou preocupado? -disparou sem pensar duas vezes.
_Luiza! Eu me recuso a responder! Até a noite, beijos. –disse apenas desligando a ligação.
Luiza colocou o celular no bolso e continuou o que estava fazendo. Logo deu a hora do almoço e Marcelo não voltou para casa. A moça deu a papinha de verduras para o pequeno Joaquim, o que havia virado um certo hábito bem gostoso para o pequeno, pois Luiza a fazia como ninguém mais. Despois do almoço quando o relógio marcava 15:00Hrs, Joaquim cedeu e dormiu nos braços da loira que já estava de cabelos em pé com a resistência e energia do menino. Depois que o colocou no berço, Luiza desceu as escadas e se sentou no sofá da sala. Estava distraída mexendo em seu celular quando lembrou que nunca havia visto nenhuma página do Marcelo nas redes sociais. Sem demora, a loira digitou o primeiro e o ultimo nome do patrão e encontrou seu perfil no instagram. Ela riu ao ver a foto do perfil, era ele e Joaquim. Ele dormindo aparentemente e Joaquim bem acordado. O pequeno deveria estar com no máximo uns oito meses.
Não haviam postagens recentes, todas eram referentes a datas que antecediam a morte de Veronica, que por sua vez estava em quase todas as fotos. Uma foto em especial lhe chamou a atenção, nela estava Verônica pousando para alguém que provavelmente seria Marcelo, um sorriso largo estampava seu rosto, sua barriga já estava crescida e tudo indicava que estavam num hotel em alguma praia muito bonita. Luiza ficou um pouco mais de tempo do que deveria lendo a imensa legenda que terminava com algumas palavras de Vinícius, “que seja infinito enquanto dure”. Os olhos da moça marejaram, o amor deles dois era quase que perfeito, digno de um filme romântico, entretanto, ela não estava mais ali para vive-lo, não veria seu filho crescer, e muito menos faria o marido feliz novamente.
A vida era incrivelmente perigosa, num dia você está bem e sorrindo, no outro, alguém pode estar lendo um discurso fúnebre em sua homenagem. Com vários pensamentos ela sentiu seu telefone vibrar em suas mãos lhe dando um pequeno susto. Era Marcelo.
_Oi Luiza, boa tarde! Está tudo bem por ai? –perguntou assim que a moça atendeu.
_Sim, o Joaquim brincou a manhã inteira, depois dei o almoço dele e ele dormiu. –disse apenas tentando manter o tom mais neutro que podia.
_Certo, e com você? Ele te ligou ou algo assim? –perguntou soando visivelmente preocupado.
_Não, ele não me ligou, creio que demorará um bom tempo até descobrir meu número assim espero. Eu estou bem Marcelo. –ela encostou-se no sofá, passando a mão livre por entre os fios soltos colocando-os atrás da orelha.
_Que bom. Você deveria denunciá-lo. Esse cara precisa responder de forma legal pelo o que fez com você. –a voz de Marcelo soava apenas preocupada e aquilo fez Luiza se contorcer por dentro, não de raiva mas sim de decepção.
_Eu vou. Logo logo! Algo mais? –perguntou de uma vez por todas.
_Não, bom, na verdade, há sim. Preciso conversar com você mais uma vez sobre o que aconteceu ontem à noite... –falou surpreendendo Luiza.
_Não há mais nada a ser dito Marcelo, tudo não passou de um grande erro. As pessoas cometem erros as vezes, e isso é normal. Não se preocupe. –falou tentando manter a calma e ser no mínimo coerente.
_Sinto que você está falando isso da boca para fora... Me perdoe por favor, eu gosto e me importo demais com você para te ver magoada e triste comigo. –falou sinceramente.
_Talvez, mas do que adianta ser ou não ser de boca para fora? –disse tentando ouvir mais alguma coisa de Marcelo, mas, nada ele disse. _Enfim, esqueça o que houve ontem, eu farei o mesmo. E por favor, não se preocupe comigo, eu sei me cuidar! –a moça já não sabia mais o que fazer, as lágrimas já dançavam no seu rosto, como assim “gosta e se importa demais”? Ele quer me enlouquecer? Perguntou para si mesma.
_Tudo bem, espero que um dia tudo volte ao normal entre nós dois... –foi tudo o que conseguiu pronunciar.
_Eu também! Até mais. –terminou a ligação e se largou ainda mais no sofá.
Sem vergonha alguma a moça bufou e começou a respirar fundo, ela estava se apaixonando e cada vez mais rápido por alguém que jamais a amaria, porque simplesmente não podia, porque simplesmente, ele não queria se deixar viver, se deixar convencer de que sua falecida esposa jamais voltaria e por fim amar novamente.
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