Reason
11 I do.
Notas iniciais
“Os sonhos nem sempre podem ser realizados da maneira que queremos.” Esse pensamento sempre rodeou a mente de Luiza, ela que sempre fora uma moça razoavelmente recatada, teve apenas dois namorados ao longo da vida, Luan aos 15 e Thiago o último, com quem ela imaginara casar-se e construir um lar como sempre quis, mas tudo mudou quando o comportamento dele passou a se tornar cada vez mais inconstante, agressivo e possessivo. E agora, Luiza se via completamente presa a um outro tipo de relacionamento complicado, um amor impossível, não reciproco.
Já passava das 17:00Hrs de uma sexta-feira, a moça não teria aula naquela noite e estava a espera de Pedro e Marcelo. Marcelo que já deveria ter chegado do trabalho e Pedro que havia marcado com ela as 17:40 para irem a um belo restaurante na orla de Ipanema. A loira estava decidida a dar uma chance de uma vez por todas a Pedro, desde que o fatídico beijo aconteceu entre ela e Marcelo muitas coisas haviam mudado, ela precisava fazer alguma coisa para, ao menos, fugir um pouco da situação tensa em que se encontrava.
Um vestido preto de alças finas e de corte acentuado cobrindo até um pouco mais do que a metade das coxas da moça fazia com que ela parecesse mais madura e sensual, seus cabelos estavam soltos em longos cachos como de costume, uma sombra esfumada nos olhos destacavam-os poderosamente e seus lábios ganhou um tom de rosa claro dando um aspecto provocante no rosto da bela jovem. Joaquim chorou no berço, sinalizando que havia acordado, o pequeno brincou a tarde inteira e cochilou por volta das 15:50, um pouco tarde, mas Luiza nada poderia fazer, o Marcelo teria que brincar um pouco mais com o filho durante a noite até ele voltar a sentir sono.
Com o pequeno nos braços Luiza desceu até a cozinha, e lhe deu a mamadeira, o que ela não poderia esperar era pelo baita susto que levou ao se virar e dar de cara com Marcelo que a observava a poucos centímetros de distância.
—Desculpe, não foi minha intenção lhe assustar! –Marcelo estava um pouco sem jeito, pois a beleza de Luiza o havia pego de surpresa também, ele já havia lhe visto arrumada, mas nunca tão deslumbrante.
—Tudo bem! Olha, esse rapazinho aqui acabou de acordar, acho que você vai ter que se virar em vários hoje até ele se cansar de você. –a moça sorria para o garoto enquanto falava, notando os olhos de quem acabou de acordar sorrindo para ela.
—Ele pegou no sono de que horas? –perguntou enquanto tirava o paletó.
—Por volta das três, infelizmente ele não quis dormir mais cedo, estava bem elétrico querendo correr por toda casa... –falou agora voltando o olhar para Marcelo que ao encontra-lo acabou se perdendo em meio ao azul destacado a sua frente.
—Certo, certo. Você vai sair? –ele mal pôde acreditar no que havia acabado de falar, “Que pergunta mais idiota foi essa?” pensou assim que as palavras saltaram de sua boca.
—Ãhhhh, vou sim. Daqui a pouco o Pedro vem me buscar. –disse rapidamente entregando o menino para o pai que desviou o olhar rapidamente.
—Vocês estão namorando? –ele não pode conter a curiosidade, tudo falava mais alto que ele.
—Ainda não. Mas acho que ele vai me pedir hoje. –falou gostando do interesse.
—E você obviamente vai aceitar... –os olhos de Marcelo estavam cravados em Luiza que o encarava diretamente.
—Vou. Por que não aceitaria? –disse sorrindo com o canto dos lábios.
—Pois é, não há motivos para não aceitar, não é mesmo? –falou sem desviar o olhar tentando manter seu tom o mais neutro possível.
—É. –Luiza sentiu o peso das palavras de Marcelo sobre ela. E aquilo doeu como ela jamais imaginara sentir. _Marcelo, qual o motivo desse interesse todo, se até hoje pela manhã você mal falava comigo? –perguntou chamando a atenção do homem que naquela altura já estava se preparando para deixar a cozinha.
— Só me preocupo com você, Luiza, eu já lhe disse que você é muito importante pra mim, apenas isso. Eu conheço o Pedro e sei quem ele é, mas isso eu já te falei, então... –disse voltando-se para a moça se aproximando um pouco mais.
—Eu também já lhe disse que sei me virar sozinha. Não precisa se preocupar. –falou apenas, sabendo o quanto havia sido grossa, mas não havia uma outra resposta além daquela, era obvio que ele sentia alguma coisa, o problema era o estado perpetuo de negação que Marcelo se encontrava.
—Tenha uma ótima noite! –falou e se retirou da cozinha deixando Luiza com os olhos marejados.
Segurando na bancada da cozinha, Luiza se apoiou contendo toda a vontade de chorar, gritar, esmurrar... tudo junto e de uma só vez. Logo, logo o Pedro estaria chegando, e ela não queria que ele lhe visse tão alterada daquele jeito. Estava decidido, ela iria aceitar namorar com ele e se ele não pedisse ela mesma faria o pedido, pois para Luiza não existia essas cordialidades machistas.
O jantar estava maravilhoso, e a noite tranquila soprava uma brisa leve que dançava por entre os cabelos de Luiza, ela observava Pedro como se quisesse achar algo que a tirasse o fôlego, algum detalhe, alguma atitude... Mas nada encontrava, ele era lindo, mas era uma beleza como aquelas que encontramos nos galãs de cinema, como se fosse algo superficial. A moça se perdia em alguns momentos olhando para o nada, seus olhos enxergavam mas sua mente não capturava nenhuma imagem durante aqueles momentos, pois tudo dentro dela estava a poucos minutos de distância dali.
—O que houve? O que é que esta te levando para tão longe? –perguntou Pedro olhando diretamente para os olhos dela.
—Oi? Não, nada! Só estava pensando num trabalho da faculdade que devo terminar até a próxima segunda. Só isso. –ela odiava mentir, mas como poderia dizer que estava pensando no melhor amigo dele, e que para variar estava completamente apaixonada por esse tal amigo?
—Certo. Essa expressão não reflete apenas preocupação. O que tanto está rondando essa cabecinha? –insistiu.
—Não é nada, Pedro. Não se preocupe. –falou rapidamente bebendo um gole do champanhe que estava na sua taça.
—Tudo bem, não vou insistir mais, você quer alguma sobremesa? Servem aqui doces maravilhosos. –sugeriu gentilmente.
—Que tal essa torta de morango? –perguntou com um sorriso bonito nos lábios.
—Torta de morango, Lu? –Pedro fez uma careta ao ouvir a pergunta da moça.
—Ué, eu gosto. É minha preferida, porque essa careta, Pedro? –disse sorrindo com o canto dos lábios.
—É tão... tão... comum, podemos comer uma fatia de torta de morango em qualquer lugar. Tem certeza que não quer experimentar nada mais sofisticado? –falou sabendo que a maioria das garotas passariam longe daquela torta calórica.
—Tenho, eu posso estar em Paris, e ainda assim vou escolher essa sobremesa. Portanto, trate logo de fazer os pedidos.
—Okay, eu não quero nada não. Estou bem assim. –disse sorrindo, totalmente surpreso com a escolha da moça, entretanto ele já deveria esperar aquela atitude, Luiza era muito simples, ela jamais optaria por uma pannacotta.
Após Luiza se deliciar com a sobremesa, Pedro a convidou para dar uma volta na orla da praia. Os dois caminhavam próximos um do outro, o vento frio castigava a pele da moça que já estava toda arrepiada, gentilmente Pedro lhe ofereceu sua jaqueta e passou o braço pelos ombros de Luiza, de modo que os dois passaram a caminhar como um jovem casal apaixonado. Ele estava calado, mas então começou a falar algo que chamou a atenção de Luiza de ímpeto.
—Lu, você já presenciou alguém que mal lhe conhece mudar sua vida completamente? Digo, de repente você está bem, mas então alguém chega e rouba todos os seus pensamentos, fazendo tudo que a antecedia se transformar num borrão? –perguntou olhando para o mar e para ela em seguida.
—Mais ou menos, você quer dizer, alguém chegar na sua vida de repente e te deixar em estado de inercia, completamente apaixonado? –perguntou diretamente sorrindo docemente.
—Isso! Já aconteceu com você? –perguntou olhando diretamente para os olhos da moça.
—Na verdade sim, mas faz algum tempo. –na verdade não fazia muito tempo, na verdade estava acontecendo, Marcelo havia entrado em sua vida e virado tudo de cabeça para baixo.
—E você ainda o ama? –perguntou firmemente segurando em sua mão para que sentassem no banco de concreto que ali havia.
—Por que você está me fazendo essa pergunta? –respondeu indagando-o afim de que ele saísse daquele assunto.
—Porque isso está acontecendo comigo, e acho que é a primeira vez, sinto como se nada fizesse sentido sem essa pessoa ao meu lado, entende? –disse enquanto fazia carinho nas mãos dela.
—Entendo, isso se chama estar apaixonado, perdidamente apaixonado. Mas quem é a moça? –perguntou de forma retórica.
—Não vou fazer rodeios, essa moça se chama Luiza, ela é linda, doce, inteligente, e está absurdamente sensual essa noite. –falou olhando-a com um meio sorriso.
—Absurdamente sensual é? –perguntou achando graça na sinceridade do rapaz.
—Eu acabei de me declarar para você, e tudo o que você ouviu foi o meu elogio? –perguntou sorrindo.
—É que não é sempre que escutamos um “absurdamente sensual” , entende? –falou de forma marota olhando-o nos olhos.
—Sei, e também não é todo dia que você escuta alguém dizendo que está apaixonado por você, não é? –falou tocando levemente o rosto da moça.
Luiza balançou a cabeça de forma negativa, fazendo Pedro sorrir largamente. Ele se aproximou e escorregou sua mão esquerda para o pescoço dela, poucos centímetros os separavam, então seus lábios se tocaram e ela fechou os olhos, Pedro fez o mesmo. O beijo começou lentamente, apenas com alguns selinhos leves como se estivessem buscando o encaixe perfeito, e então como se tivessem encontrado o que procuravam uma dança sincronizada começou, Pedro segurou a cintura da moça, afim de aprofundar o beijo. Quando tudo cessou, ele separou seus rostos a ponto de apenas conseguir olhar nos olhos azuis de Luiza. Como num sussurro ele lhe perguntou:
—Eu estou louco por você, Luiza, aceita namorar comigo? –sua voz soou rouca, seus olhos estavam escurecidos e um desejo lhe tomava o corpo.
—Sim, eu aceito, Pedro. –disse com a voz fraca, quase inaudível. Ela temia machucá-lo, mas quem sabe aquilo poderia funcionar realmente?
—Que bom. Por que se a resposta não fosse essa, eu iria insistir até você aceitar de uma vez por todas. –disse sorrindo lhe dando mais um beijo leve.
—Você não é nenhum tipo de louco possessivo, não é? –perguntou estreitando os olhos afim de lhe encarar brincalhona.
—Não, não. Mas acho que se você não aceitasse, viraria um louco ridículo, daqueles que fazem serenata e colam cartazes por toda cidade. –o jeito leve de Pedro a descontraia e Luiza conseguia até mesmo sorrir ao seu lado, e por enquanto aquilo era o suficiente.
O que Pedro queria mesmo era poder levar Luiza para sua casa, como fazia com as outras garotas, mas agora ele sabia que seria diferente, ela obviamente não iria para cama com ele no primeiro encontro. Então, sem reclamações ele a deixou em casa e foi embora.
Luiza entrou no pequeno apartamento que dividia com Júlia e o encontrou vazio, provavelmente a morena havia saído com seu ficante quase namorado como ela gostava de se referir ao pobre Ricardo que há um ano tentava firmar um relacionamento com a jovem e nada conseguira.
Rapidamente a moça já havia se intalado na sua cama com um pijama confortável de tecido. Ao colocar a cabeça no travesseiro, ela relembrou os pontos fortes daquela noite, e mal pode acreditar que agora era uma mulher comprometida novamente, mas que amava outro homem. Aquilo soava horrível para ela, e sabia que, muito possivelmente, o seu futuro não seria o dos melhores, pois dia menos dia o Pedro iria notar alguma coisa e então a largaria. Toda via, ela torcia para se apaixonar pelo Pedro, e não mediria esforços para que aquilo acontecesse.
No domingo à tarde, Pedro a buscou para passarem a tarde juntos. A moça foi para o apartamento do rapaz, que ficava próximo à casa de Marcelo e bem longe do seu apartamento. Lá eles conversaram, e logo estavam aos beijos no sofá, mas quando as coisas começaram a esquentar, Luiza sinalizou alertando Pedro de que eles deveriam ir mais devagar, ela não queria transar com ele tão rápido e tão sem sentimento. Para acalmar os ânimos, Pedro colocou um filme de comédia, e quando o mesmo terminou Luiza pediu para que a levasse para casa pois precisava estudar.
Já passava das 23:00Hrs e Luiza não conseguia dormir, tudo o que ela pensava era em como iria olhar no rosto de Marcelo, uma vez que Pedro já havia lhe dado a grande notícia.
Luiza dormiu apenas 3 horas naquela noite, logo já estava de pé pronta para mais um dia de trabalho. Quando chegou até a casa do seu patrão, ela respirou fundo antes de tocar a campainha, mas não havia outra alternativa, ela precisava daquele trabalho e como uma mulher forte e determinada que era deveria enfrentar tudo de cabeça erguida.
—Oi, bom dia! Tudo bem? –perguntou Marcelo assim que a viu, e de ímpeto Luiza se pegou presa nos olhos afetuosos e um pouco inchados por causa do horário do belo e jovem homem a sua frente.
—Bom dia! Cadê o Joaquim? –sua pergunta foi direta de modo que a fizesse fugir de qualquer constrangimento.
—Está lá em cima, ainda não acordou! Está tudo bem? –perguntou mais uma vez olhando diretamente em seus olhos.
—Sim, está. E com você? –perguntou automaticamente olhando para ele.
—Também. Parabéns pelo namoro, muitas felicidades para vocês. De coração! –falou Marcelo sentindo algo estranho travar sua garganta, no fundo ele sabia o que era aquilo que o incomodava, era apenas o velho ciúme e o sentimento de perda que só crescia.
—Obrigada! Estamos muito felizes! –falou se repreendendo pela última informação que soou mais do que estranha e infantil.
—Bom, eu vou indo, se não acabo me atrasando. Não sei se volto para almoçar, mas qualquer coisa aviso. Cuide bem do meu tesouro! –falou amigavelmente e se não fosse pelo último olhar que Marcelo lhe lançara, Luiza poderia dizer que ele estava completamente indiferente com seu relacionamento.
Luiza apenas acenou a cabeça e se pôs a observar Marcelo dar as costas e ir embora, ela o amava demais para conseguir disfarçar seus sentimentos como ele fazia. Rapidamente, ela soube que seu plano tinha 80% de chances para falhar, mas os 20% que ficaram ela iria agarrar com todas as forças. Tudo poderia acontecer, quem sabe seu coração não mandasse uma certa pessoa embora e aceitasse um novo rosto no lugar?
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