​O Rei Luís foi conduzido ao gabinete privado de Edward, um lugar onde poucos tinham permissão para entrar. O ambiente era austero, com mapas de guerra nas paredes e o cheiro de couro e cera de lacre. Edward não se sentou. Ele caminhou até a janela, de costas para o soberano francês, enquanto bebia um gole de vinho tinto, tão escuro quanto o sangue que parecia pulsar em suas têmporas.

​— O Duque de Alva é um aliado valioso, Luís — Edward começou, a voz sendo um murmúrio perigoso. — Mas a Espanha é um vizinho ganancioso. Colocar Selene lá é dar a eles uma espiã dentro da linhagem de Versalhes.

​Luís franziu o cenho, surpreso com o interesse súbito do Rei de Ferro nos assuntos matrimoniais de sua filha ilegítima.

— Ela precisa de um destino, Edward. Selene é... instável. E a proposta espanhola é financeiramente imbatível.

​Edward virou-se lentamente. O olhar dele estava tão afiado quanto a adaga que trazia no cinto.

— Eu tenho uma proposta melhor. Deixe Selene aqui. Ela será a dama de companhia principal de Alycia. Permanecerá sob a proteção da coroa inglesa, garantindo que o vínculo entre nossos reinos seja diário e inquebrável.

​Luís soltou uma risada seca. — E o que eu ganho com isso? Perderia o apoio de Alva e uma aliança estratégica. O que a Inglaterra me oferece em troca de deixar o meu "espinho" em solo britânico?

​Edward fez uma pausa deliberada. Ele sabia que o que estava prestes a dizer selaria o destino de outra pessoa, mas a imagem de Selene partindo para a Espanha era insuportável.

— Camilly. Seu primo Jonas parece encantado por ela. Eu darei a mão de Camilly a ele. Uma união de sangue Tudor legítimo com a nobreza francesa. Isso solidifica a aliança de Alycia com uma segunda camada de lealdade. Jonas terá as terras do Norte que pertenciam a Richmond, e você terá a garantia de que os Tudor e os franceses são uma única família.

​O Rei Luís parou. O valor de Camilly, uma Tudor de linhagem pura, era infinitamente superior ao de uma filha ilegítima como Selene. Era uma troca política absurda a favor da França.

— Você entregaria Camilly para manter Selene como uma serva de luxo da sua irmã? — Luís estreitou os olhos, percebendo que havia algo muito mais profundo sob a superfície. — Edward, você está pagando um preço alto demais por uma dama de companhia.

​— Eu estou pagando pela paz — Edward mentiu, sua expressão de mármore não revelando a tempestade interna. — Selene fica. Camilly se casa com Jonas. Temos um acordo?

​Luís, percebendo a vantagem monumental para seu reino, estendeu a mão. — Temos um acordo. Mas saiba, Edward... brincar com fogo em jardins de gelo costuma terminar em incêndio.

​Assim que Luís saiu, Edward sentiu o peso da própria decisão. Ele acabara de vender a estabilidade de Camilly para manter sua obsessão por perto. Ele caminhou até os corredores em busca de Selene, encontrando-a no final de uma galeria deserta, ainda com os olhos vermelhos da raiva que sentira à mesa.

​— Você não vai para a Espanha — ele disse, a voz ríspida, parando diante dela.

​Selene olhou para ele, confusa. — O quê? Meu pai foi irredutível...

​— Eu convenci o seu pai — Edward deu um passo à frente, invadindo o espaço dela. — Você fica em Whitehall. Será a dama de Alycia. Você me pertence agora, de uma forma ou de outra.

​Selene sentiu um arrepio. Ela viu a possessividade nos olhos dele, a mesma fúria que vira na cripta.

— E o que você deu a ele em troca? — ela sussurrou, desconfiada.

​— O futuro de Camilly — Edward respondeu, sem um pingo de remorso na voz, embora seu coração estivesse dilacerado. — Eu troquei a paz dela pela sua presença. Não me faça arrepender disso, Selene.

​Selene recuou um passo, chocada com a frieza do Rei de Ferro. Ele a queria tanto que estava disposto a sacrificar a própria família. Antes que ela pudesse responder, ele deu as costas e saiu, deixando-a com a percepção de que, embora tivesse escapado da Espanha, acabara de entrar em uma gaiola muito mais perigosa, feita de luxúria e poder.