​O jantar que deveria celebrar a união de Alycia e Edmund transformou-se no tribunal onde Edward Tudor executou a última gramática de sua humanidade. O tilintar dos talheres cessou abruptamente quando o Rei de Ferro se levantou, a taça de prata brilhando sob a luz das velas como um aviso de tempestade.

​— O tratado com a França foi expandido — anunciou Edward, sua voz cortante como uma lâmina de guilhotina. — Selene não partirá para a Espanha. Ela permanecerá em Whitehall sob minha proteção direta. Em troca, para selar definitivamente o sangue de nossos reinos, Camilly se casará com Jonas de França. O noivado será anunciado no Banquete de Primavera.

​O silêncio que se seguiu foi absoluto, até ser estilhaçado pelo grito de Sabrina. A Duquesa Mãe levantou-se com uma violência que derrubou seu cálice, o vinho tinto espalhando-se pela toalha branca como uma ferida aberta.

​— VOCÊ PERDEU O JUÍZO, EDWARD? — Sabrina gritou, a voz tremendo de indignação. — Você vende a sua própria família por um capricho? Por um rosto que o assombra? Você está sacrificando Camilly para manter esse... esse espinho no seu flanco! Eu não permitirei!

​Edward inclinou-se sobre a mesa, os olhos verdes fixos nos da mãe com uma intensidade tão aterradora que o ar pareceu fugir do salão. Pela primeira vez em dez anos, ele não olhou para ela como um filho, mas como um soberano absoluto.

​— Sente-se, Duquesa — Edward sibilou. A autoridade em sua voz foi tão pesada que Sabrina vacilou fisicamente. — Eu não sou mais o menino que você manipulou nos jardins de York. Eu sou o Rei. E neste reino, a minha vontade é a lei divina. Se você contestar minha ordem novamente, eu a farei escoltar para os seus aposentos por guardas que não respondem ao seu nome, mas à minha coroa.

​Sabrina estremeceu, caindo na cadeira, pálida como o mármore. Charles, vendo a esposa ser humilhada, levantou-se com o punho fechado, a face vermelha de fúria.

​— Você fala de autoridade, mas o que vejo é fraqueza, Edward! — Charles rugiu, a voz de guerreiro ecoando pelas vigas. — Você está agindo como Richmond! Usando mulheres como escudos para as suas obsessões! Você vai destruir esta família por causa de uma luxúria que nem sequer tem coragem de admitir!

​— EU SOU O REI! — Edward rebateu, sua voz sobrepondo-se à de Charles. — E se eu decidir que o preço da paz é o casamento de Camilly, assim será feito!

​— PAREM! — O grito veio de Camilly.

​A jovem, que passara o jantar inteiro como uma sombra silenciosa, estava de pé. Suas mãos estavam cruzadas sobre o peito, e lágrimas silenciosas rolavam por seu rosto, mas sua voz era firme, carregada de uma resignação dolorosa. Ela olhou para o irmão, vendo nele o homem que ela vira sofrer por uma década, o homem que morrera por dentro no dia em que Isabelle foi assassinada.

​— Parem com isso — Camilly sussurrou, a voz cortando a tensão. — Eu aceito. Eu me casarei com Jonas.

​— Camilly, não... — Alycia tentou intervir, mas a irmã a interrompeu com um gesto suave.

​— Se o meu casamento é o que trará a paz para este palácio... se é o que fará o meu Rei feliz, ou ao menos o impedirá de se destruir... eu o farei de bom grado — Camilly fixou os olhos nos de Edward. — Que o meu sacrifício seja a última moeda que você gaste com a dor do passado, Edward.

​Edward sentiu um nó na garganta que quase o impediu de respirar. Ele olhou para a irmã, vendo a pureza de seu gesto contra a escuridão de seus próprios motivos. Jonas, o primo francês, sorriu com uma satisfação predatória, enquanto Selene, sentada em silêncio, sentia o peso insuportável de saber que seu lugar na Inglaterra fora comprado com a liberdade de uma inocente.

​O jantar terminou em um silêncio fúnebre. Edward saiu sem olhar para ninguém, mas enquanto caminhava pelos corredores escuros, as palavras de Camilly ecoavam: para ver o rei feliz. Ele percebeu, com um horror gelado, que nunca esteve tão longe da felicidade, e que o Banquete de Primavera seria, na verdade, o início de um inverno eterno para os Tudor.

​O Banquete de Primavera se aproxima, trazendo novas sombras: