O campo de batalha era uma planície vasta e impiedosa, onde o verde da grama havia desaparecido sob o cinza da pólvora e o rubro do sangue. De um lado, Filipe da Espanha comandava uma legião que parecia infinita, um muro de aço determinado a esmagar a rebeldia do Norte. Do outro, a última linha de defesa da família: Edward e Arthur no centro, Edmund e Thomas liderando as alas, e Richard, o filho de Alexander, que trouxera consigo a fúria dos mercenários para honrar o nome do tio, Charles.

​A batalha final não foi uma dança de cavalaria; foi uma carnificina de fumaça e gritos. A cada centímetro conquistado, uma vida era perdida. Richard lutava com uma selvageria herdada, enquanto Thomas mantinha a formação com uma disciplina hercúlea. Mas o centro do furacão pertencia aos Tudor.

​Quando o sol começou a baixar, tingindo o céu de um laranja fúnebre, o confronto direto aconteceu. Filipe, em um ato de desespero e fúria, avançou contra Arthur. O Príncipe de Gales, exausto e ferido, tropeçou entre os corpos. Filipe desmontou, desembainhando uma adaga curva, pronto para degolar o herdeiro de York diante dos olhos de seu pai.

​— Arthur! — o grito de Edward foi abafado por uma explosão próxima.

​Mas não foi Edward quem alcançou o filho primeiro. Charles, com uma agilidade que desafiava seus anos, lançou-se entre eles. O velho Rei não hesitou. Ele bloqueou o golpe de Filipe com o próprio escudo e, num movimento preciso, cravou sua espada no peito do tirano espanhol. Filipe caiu, morto antes de tocar o chão.

​No entanto, o triunfo durou apenas um batimento cardíaco. No segundo seguinte, um guarda espanhol, surgindo da névoa de fuligem, desferiu um golpe covarde nas costas de Charles. A lâmina atravessou o metal e o coração do homem que fora o alicerce de toda aquela linhagem.

​O Silêncio após a Tempestade

​A guerra acabou com um suspiro coletivo. Com a morte de Filipe, o exército espanhol dispersou-se em pânico. O silêncio que se seguiu foi mais aterrorizante que o barulho dos canhões.

​As mulheres, que observavam a distância, correram para o campo assim que o último estandarte inimigo caiu. Selene abraçou Edward, soluçando de alívio; Alycia caiu nos braços de Edmund; Camilly encontrou Thomas, e Kristine, protegendo o ventre, foi amparada por um Arthur trêmulo e coberto de pó.

​Mas Sabrina caminhava devagar, seus olhos vasculhando a multidão de soldados exaustos. Ela procurava o rosto que amara por toda uma vida.

​— Onde ele está? — Sabrina perguntou, sua voz falhando pela primeira vez em décadas. — Edward, onde está seu pai?

​Edward aproximou-se da mãe, as lágrimas abrindo sulcos na fuligem de seu rosto. Ele segurou as mãos de Sabrina, as mãos que tremiam violentamente.

​— Mãe... eu sinto muito — Edward sussurrou, a voz quebrada pela dor. — Filipe tentou degolar o Arthur. Ele ia matar o meu filho, o seu neto... Mas o meu pai foi mais rápido. Ele matou Filipe, ele salvou o futuro de York.

​Sabrina fechou os olhos, as lágrimas finalmente transbordando.

​— Mas houve um guarda, mãe — continuou Edward, soluçando. — Um covarde por trás. Eu vi a espada, eu tentei correr, eu juro que tentei ser rápido o bastante... mas eu não consegui chegar a tempo. Ele se foi, mãe. Ele se foi como um Rei, protegendo o que ele mais amava.

​Sabrina não gritou. Ela apenas desabou nos braços do filho, olhando para o corpo de Charles que era trazido em um escudo por Richard e Thomas. O patriarca, o homem que errara, amara e finalmente redimira o nome Tudor, descansava com um semblante de paz. Ele morrera para que Arthur vivesse, para que o bebê de Kristine tivesse um mundo livre, e para que o ciclo de dor finalmente se encerrasse com um ato de amor supremo.

​A Inglaterra e a França haviam vencido a guerra, mas Whitehall nunca mais seria o mesmo sem a sombra protetora do seu velho lobo.