Razão ou Coração livro 2
7 O Altar de Gelo e o Peso da Coroa
O dia da coroação e do casamento real amanheceu sob um céu de chumbo, uma abóbada opressora que parecia esmagar as torres da Abadia de Westminster. Londres estava mergulhada em um silêncio expectante, interrompido apenas pelo repicar fúnebre dos sinos que ecoavam como marteladas em uma bigorna. Dentro de Whitehall, o clima era de uma eficiência gélida. Edward Tudor permanecia diante do espelho de cristal, enquanto os camareiros ajustavam os bordados de ouro de sua casaca de seda azul-profundo. Ele não dormira; seus olhos, outrora vibrantes, eram agora duas fendas de esmeralda sem brilho, emolduradas por olheiras que nem o pó de arroz mais fino conseguia esconder.
A porta do gabinete abriu-se com um rangido pesado. Charles Tudor entrou, o som de suas botas de couro firme no mármore. O velho Lobo observou o filho e sentiu uma pontada de remorso que raramente permitia transparecer.
— O povo já se aglomera nas ruas, Edward. Eles querem ver o novo Rei — disse Charles, a voz baixa, testando o terreno.
Edward não desviou o olhar do espelho. Sua mão subiu ao pescoço, apertando o colarinho de renda com uma força nervosa.
— Eles querem ver um espetáculo, pai. Eles querem ver a coroa, não o homem que a carrega. Diga-me, o senhor se sentia assim quando se casou com a minha mãe nas cinzas de Londres? Sentia que estava caminhando para o cadafalso?
Charles suspirou, aproximando-se para pousar a mão no ombro do filho. — Eu sentia que estava lutando para sobreviver. Mas você... você está lutando contra si mesmo. Edward, o que Isabelle fez... as palavras dela foram cruéis, eu sei. Mas ela o libertou para ser o que a Inglaterra precisa.
— Ela me destruiu para me salvar? — Edward soltou uma risada ríspida, virando-se finalmente para encarar o pai. — É uma lógica conveniente para quem quer o trono seguro, senhor. Katherine Petrovic espera por mim com uma frota russa nas costas e o gelo no sorriso. Vamos acabar com essa farsa.
Na Abadia, a atmosfera era de uma opulência sufocante. Milhares de velas de cera de abelha lutavam contra a penumbra das naves góticas. Katherine Petrovic surgiu como uma visão de marfim e diamantes, deslizando pelo corredor central. Ao chegar ao altar, ela inclinou a cabeça para Edward, um brilho vitorioso nos olhos azuis.
— Você está magnífico, meu Rei — sussurrou ela, apenas para os ouvidos dele, enquanto o coro entoava o Zadok the Priest.
— Guarde seus elogios para o Parlamento, Katherine — Edward respondeu sem mover um músculo da face. — Eles se importam com a aparência das coisas. Eu não.
O Arcebispo de Canterbury iniciou os ritos sagrados. O momento do juramento chegou como um golpe de misericórdia. Quando o clérigo perguntou se ele aceitava Katherine como sua legítima esposa e rainha, o silêncio que se seguiu foi tão absoluto que se podia ouvir a chuva começando a açoitar os vitrais coloridos. Edward olhou para a multidão e viu, nas primeiras fileiras, o rosto pálido de Sabrina e os olhos inchados de Alycia. Por um segundo, a imagem de Isabelle Pierce, com seus cabelos ruivos em chamas e seu olhar de desdém, sobrepôs-se a tudo.
— Eu aceito — a voz de Edward ecoou, oca e metálica, como se viesse do fundo de uma tumba.
Katherine sorriu, deslizando a aliança de ouro maciço no dedo dele. Quando a coroa de Santo Eduardo foi finalmente depositada sobre a cabeça de Edward, ele sentiu um peso físico que o fez vacilar por um breve instante. Ele era o Rei. Mas, ao ser ungido com os óleos, sentiu que a última centelha de sua humanidade havia sido lavada.
O banquete no palácio foi uma exibição de tirania mascarada de festa. Edward sentou-se ao centro da mesa de honra, bebendo vinho tinto com uma intensidade sombria. Quando o Duque de Norfolk, levemente embriagado, aproximou-se para parabenizá-lo e soltou um comentário infeliz, a atmosfera mudou instantaneamente.
— Um brinde ao Rei! E que a nova Rainha nos faça esquecer as distrações... ruivas... que quase mancharam a nossa linhagem — disse o Duque, rindo tolamente.
Edward baixou a taça de cristal com um estrondo que fez o vinho saltar sobre a toalha branca. O salão silenciou-se como se a própria morte tivesse entrado pela porta. O Rei levantou-se lentamente, sua figura imponente projetando uma sombra longa sob a luz dos candelabros.
— Duque de Norfolk — disse Edward, a voz baixa, mas carregada de um perigo letal. — Repita o que disse.
O nobre gaguejou, percebendo o erro. — Majestade, eu... eu apenas quis dizer...
— O que você quis dizer não me interessa — Edward o cortou, caminhando até ele com passos predadores. — Mas ouça-me bem, e que todos os presentes ouçam. O nome de Isabelle Pierce é agora uma sombra que não deve ser invocada nestas paredes. Qualquer um, seja barão ou servo, que proferir esse nome ou fizer qualquer alusão ao meu passado, será considerado inimigo da coroa. E eu não sou meu pai, senhores. Eu não busco redenção. Eu busco obediência.
Katherine, ao lado dele, empalideceu. Ela percebeu que o homem ao seu lado não era o noivo que ela pretendia manipular. Edward Tudor era agora um monarca de ferro, cujo coração havia sido trocado por uma pedra fria no altar de Westminster. Naquela noite, enquanto Londres explodia em fogos de artifício, o Rei de Gelo retirou-se para seus aposentos, deixando para trás uma corte apavorada e uma rainha que acabara de descobrir que sua vitória tinha o sabor amargo das cinzas.
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