Razão ou Coração livro 2
8 O Silêncio no Quarto de Ouro
O barulho das celebrações em Londres ainda podia ser ouvido através das pesadas paredes de Whitehall, um eco distante de fogos de artifício e gritos de alegria que pareciam insultar o silêncio mortal dentro dos aposentos reais. Katherine Petrovic estava sentada diante do espelho de cristal, enquanto suas damas de companhia russas retiravam as camadas de diamantes e o pesado véu de renda. Ela estava radiante. O reflexo no espelho mostrava a Rainha da Inglaterra, e o brilho em seus olhos azuis era de uma satisfação fria e calculada.
A porta se abriu com um estrondo. Edward entrou, ainda vestindo a casaca dourada da coroação, mas com o colarinho desabotoado e o manto de arminho arrastando-se pelo chão como uma pele morta. Ele dispensou as criadas com um olhar tão cortante que as mulheres saíram quase correndo, sem ousar fazer a vênia completa.
Katherine levantou-se lentamente, deixando o roupão de seda branca deslizar levemente pelos ombros. Ela caminhou até ele com um sorriso que pretendia ser sedutor, mas que carregava o peso de sua vitória.
— Finalmente, meu Rei — disse ela, a voz macia com o sotaque carregado. — O mundo inteiro nos viu hoje. Somos o casal mais poderoso da Europa. A aliança está selada, e o seu povo está aos seus pés.
Edward não se aproximou. Ele parou junto à lareira, observando as chamas com uma indiferença que fez o sorriso de Katherine vacilar.
— O império está garantido, Katherine. É para isso que você veio, não foi? — Edward falou sem olhá-la. Sua voz era um barítono seco, desprovido de qualquer vibração humana. — Você tem a coroa. Tem o título. Tem o acesso ao tesouro e o comando sobre as damas da corte. O contrato foi cumprido.
Katherine deu mais um passo, tentando tocar o braço dele. — Edward, não seja tão gélido. É a nossa noite de núpcias. Podemos transformar este dever em algo... prazeroso. Eu sou sua esposa diante de Deus.
Edward virou-se bruscamente, esquivando-se do toque dela como se fosse uma brasa quente. O rosto dele, iluminado pelo fogo, parecia esculpido em granito.
— Você é minha Rainha por conveniência política, Katherine. Nada mais. — Ele apontou para a enorme cama de dossel com um gesto de desprezo. — Você dormirá ali, cercada pelo ouro que tanto desejou. Mas entenda uma coisa, e entenda bem para que não tenhamos que repetir esta conversa: eu nunca tocarei em você. Este casamento termina na porta deste quarto.
Katherine recuou, o rosto empalidecendo de fúria e humilhação. — Você não pode fazer isso! O tratado exige um herdeiro! O meu pai espera que a linhagem russa se misture à sua. Você me deve isso por direito!
Edward soltou uma risada curta e amarga, que não chegou aos seus olhos.
— Direito? Você conspirou com a minha mãe para afastar a única coisa que me mantinha humano. Você usou a sua posição para cercar Isabelle Pierce até que ela não tivesse outra escolha a não ser me destruir para me salvar. Você queria o trono, Katherine. Pois bem, você o tem. Mas o preço desse trono é um marido que a despreza a cada respiração.
— Você prefere uma serva ruiva que o humilhou diante de todos? — Katherine gritou, a voz subindo de tom pela primeira vez. — Ela disse que não o queria! Ela disse que prefere o Conde de Richmond!
— Eu sei o que ela disse — Edward sibilou, aproximando-se tanto que Katherine sentiu o cheiro de vinho e dor que emanava dele. — E eu sei por que ela disse. Ela foi mais rainha do que você jamais será, porque ela foi capaz de se sacrificar. Já você... você só é capaz de possuir. Durma bem na sua cama de ouro, Majestade. O herdeiro que o seu pai tanto deseja terá que esperar por um milagre, pois eu prefiro que a linhagem Tudor morra comigo a permitir que o seu sangue corra nas veias de um filho meu.
Sem esperar resposta, Edward caminhou até o divã no canto oposto do quarto, jogando-se ali com as botas ainda calçadas. Ele fechou os olhos, ignorando os soluços de raiva de Katherine. Naquela noite, o Rei e a Rainha da Inglaterra estavam juntos no quarto mais luxuoso do mundo, mas nunca estiveram tão sozinhos.
Enquanto isso, a centenas de quilômetros ao norte, a carruagem de Isabelle Pierce atravessava os portões do castelo de York sob uma chuva torrencial. O Conde de Richmond a aguardava no topo da escadaria. Quando ela desceu, com o rosto pálido e o coração em cinzas, ele estendeu a mão.
— Bem-vinda ao seu novo lar, Lady Isabelle — disse Thomas de Richmond, observando-a com uma curiosidade cautelosa.
Isabelle olhou para a escuridão da floresta de York, sentindo que o frio de fora era apenas um reflexo do que agora habitava seu peito.
— Obrigada, Milorde — ela respondeu, a voz mecânica. — Espero que o senhor não espere de mim mais do que a minha presença, pois tudo o que eu era ficou para trás, nas pedras de Londres.
O destino estava traçado. O Rei era um tirano de gelo, e a mulher que ele amava era uma prisioneira de luxo no Norte. A saga dos Tudor entrava em seu capítulo mais sombrio.
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