R&I - Wish You Were Here
30 Capítulo 29 - Listen To Your Heart
Notas iniciais
O título é porque me inspirei em uma música de Roxette que eu amo.
Boa leitura!
- MAURA! — Jane gritou, perplexa, estática ali na porta onde estava.
Ian, supostamente, acordou no mesmo instante e se sentou, aparentemente assustado em vê-la ali, tudo um grande teatro. Maura acordou também, mas estava muito sonolenta, parecia tonta, e de fato estava. Não fazia ideia do que estava acontecendo e se viu totalmente assustada quando conseguiu abrir os olhos, com dificuldade e ver que estava nua em sua cama ao lado de Ian e Jane estava na porta com um olhar de ódio assustador. Nada daquilo parecia fazer sentido.
- O que está acontecendo? — Ela perguntou de um jeito estranho, como se nem estivesse tão preocupada assim com o flagrante, na visão de Jane, mas é que ela realmente estava tonta, ainda sob efeito do café batizado.
- Eu é que pergunto que diabos é isso, Maura?!
- Calma, Jane. Olha, eu sei que você não esperava por isso, nós também não... — Ian começou a dizer, fingindo todo um teatro, como se não esperasse mesmo que ela fosse flagrá-los, levantou da cama, só de cueca e deu alguns passos — Mas vamos tentar conversar civilizadamente. Eu vim ontem à noite me despedir de Maura, dizer que iria embora para Londres e ela me pediu para ficar e as coisas... bom, fugiram do controle...
Jane não conseguia acreditar no que estava ouvindo. Mesmo vendo Maura ali na cama, nua e tonta daquela maneira, parecendo que havia bebido à noite toda com aquele imbecil, ela não queria acreditar. Depois de tudo que haviam passado, de toda felicidade nítida nos olhos da loira ao falar sobre o casamento, ela teria coragem de trair Jane com aquele cara?
- Isso... Isso é mentira! — Maura disse um pouco alto, tentando levantar da cama mas lembrando que estava nua e se enrolando no lençol, pôs a mão direita na cabeça sentindo a mesma latejar — Jane, eu não sei o que aconteceu mas eu não fiz nada do que você está pensando...
- Qual é, Maura. Não vamos deixar as coisas mais difíceis do que já são. Não minta para ela. Sei que não quer magoá-la, que é difícil dizer que você
prefere a mim, mas você tem que fazê-lo, querida. Não pode continuar enganando Jane dizendo que a ama.
- Seu canalha... — Jane trincou os dentes, suas mãos fechadas em punho, ela continuava estática onde estava, tão nervosa que seu rosto estava corado — Você não tem vergonha de vir atrás de uma mulher quase casada?
- Eu amo Maura. Sempre amei e sempre vou amar. Eu não podia deixar que ela cometesse um erro se casando com você.
Aquela foi a gota d'água para Jane. Sem pensar duas vezes ela foi para cima de Ian, acertando um murro de esquerda no rosto dele, bem no supercilhos, cortando e fazendo o mesmo sangrar sem parar. Ele quase caiu, batendo na penteadeira da loira, e Jane não lhe deu tempo de pensar muito, acertou outro soco, dessa vez mais forte que o derrubou no chão e sentou em cima do abdômen dele, dando mais alguns murros, até deixar a cara perfeita do cavalheiro lindo e gentil bem diferente, quase desfigurada. Ofegante e com as mãos doendo, ela se levantou de cima dele.
- Reza pra eu nunca mais por os olhos em cima de você, ou então, pode se considerar um homem morto — Disse, apontando o indicador em sua direção e ele nem ousou se levantar do chão enquanto ela ainda estava ali. Jane olhou para Maura, despedaçada, e a loira estava assustada e ainda agindo de forma estranha, devia estar bêbada. — E você... você partiu meu coração. Se é com ele que sempre quis ficar, faça bom proveito. Você é médica, vai saber consertar a cara dele rapidinho.
Sem olhar para trás, Jane saiu como um furacão do quarto, deixando Maura atônita, desesperada, agora sua ficha caindo de tudo que estava acontecendo e um desespero tomando conta de si. Por mais que estivesse lenta por causa de alguma medicação que Ian havia lhe dado, ela sabia que não havia feito nada com ele, não por vontade própria, não com conciência e jamais teria dito nada do que ele disse. Ela precisava falar com Jane, precisava se explicar. Levantou e com dificuldade foi até seu closet e vestiu uma camisola, voltou para o quarto e começou a berrar ao ver Ian ainda ali.
- SAIA DAQUI AGORA! Eu quero você fora da minha casa ou eu juro que eu chamo Jane aqui e deixo ela matar você! Saia daqui! — Ela berrava, descontrolada e ele não fez sequer menção de dizer uma palavra. O estrago estava feito, mas ele sabia que não seria fácil fazer com que Maura gostasse dele novamente.
Pegou suas roupas e foi se vestir na sala, indo embora logo depois, com o rosto bem machucado. Mas o importante era que ele havia conseguido o que queria. Ou pelo menos achava que sim.
Maura ficou num estado lamentável. Ainda sob efeito dos remédios, ela não sabia o que fazer. Estava desesperada. A cabeça girava e ela mal conseguia caminhar, que dirá correr atrás de Jane, ainda mais porque não sabia para onde ela havia ido. E mesmo tendo certeza que não havia feito nada com Ian, se pôs a chorar inconsolavelmente, lembrando-se do olhar de dor e decepção da morena e das palavras que ela disse antes de ir "você partiu meu coração". Pensar que havia machucado Jane, mesmo sem ter feito nada, era devastador. Depois dos anos que ficou longe dela, Maura tinha trauma de fazer qualquer coisa por mínima que fosse e magoá-la, novamente. Como ela não sabia o que fazer naquele momento, ligou para Jonathan. Ele poderia ajudá-la.
Quando Jonathan atendeu ao celular, ainda sonolento, porque estava dormindo com seu namorado, Félix, e ouviu sua melhor amiga soluçando e falando rápido e de forma confusa coisas que ele não entendia, não pensou duas vezes em pular da cama, se desculpar ao bofe, tomar um banho e ir voando até a casa da loira, que se jogou nos braços dele, aos prantos, assim que o mesmo entrou.
- Mas meu Deus do céu... O que aconteceu, Maura? Porque está chorando desse jeito? Eu não entendi direito o que você disse no telefone, mas tem a ver com a Jane, certo?! — Ela assentiu e ele, segurando em suas mãos, guiou-a para sentar-se no sofá — Respire fundo, pare de chorar e me conte exatamente o que aconteceu...
Ela explicou para ele tudo que se lembrava, da chegada do Ian, da conversa, do café e depois ela simplesmente apagou, acordando nua, em sua cama, ao lado dele e sendo flagrada por Jane e então desabou em lágrimas, novamente. Jonathan ficou perplexo e a acolheu nos braços por um tempo até que ela se acalmasse, enquanto ele pensava no que ela havia contado e deduziu o óbvio.
- Esse bastardo, filho de uma mãe batizou seu café, Maura! — Ele disse o óbvio, exaltado e a loira, que já não estava mais tonta como antes, o olhou surpreendida.
- Batizou? — Perguntou confusa.
- Chamamos de batizar quando alguém coloca algum remédio na bebida para a pessoa apagar, como esse imbecil do Ian fez com você. Não acabou de me dizer que você desmaiou depois de tomar o café?
Ela olhou para as xícaras ainda em cima da mesinha, pensativa e sua ficha caiu, também.
- Como não pensei nisso antes? Ele me dopou, é claro. Ainda resta um pouquinho de café na minha xícara. Vou levar para o laboratório da Central para descobrir qual foi a substância usada.
- Faça isso. É prova suficiente para Jane saber que você não fez absolutamente nada, que esse bastardo armou toda essa situação para separá-las.
- Isso! Tem toda razão! Eu vou agora mesmo fazer isso. Eu não posso perder a Jane, não posso...
Ela não sabia o que pensar. Não sabia. Porque, por mais que dentro de si ela soubesse, desde sempre, que Maura a amava e que por conta desse amor elas se pertenciam, tanto que decidiram se casar, seus olhos haviam acabado de presenciar algo que era totalmente controverso à essa certeza. Ela havia acabado de ver Maura completamente nua e desacordada na cama com outra pessoa. Com uma pessoa que um dia, em algum momento de sua vida, havia sido seu namorado, e que de uma forma ou de outra, por causa disso, havia marcado-a de alguma maneira. E isso era o que mais doía dentro de Jane naquele momento.
Pegou o carro e dirigiu como louca, ultrapassando a velocidade no começo e logo se dando conta de que estava descontrolada e isso poderia lhe causar algum acidente. Decidiu parar no primeiro lugar mais calmo, que por um acaso foi perto do parque onde elas costumavam correr. Parou o carro e permaneceu dentro do mesmo, olhando pela janela aberta as pessoas que caminhavam, corriam e se exercitavam ali. As lágrimas transbordavam sem parar pelo seu rosto e ela não conseguia controlar as lembranças infinitas que vinham em sua mente...
Jane e Maura namoravam há meses. E por mais bonita, inteligente e delicada que Maura fosse, aponto de atrair vários rapazes interessantes e até mesmo outras garotas, Jane não se mostrava ciumenta. Não que ela não sentisse ciúme quando via engraçadinhos falando de sua namorada pelos corredores de forma pejorativa, ou quando os mesmos exageravam e só faltavam jogar-se em cima dela. Ela sentia, mas era um ciúme saudável e contido, porque ela sabia que Maura a amava, era sua namorada, apenas sua. Tão sua que se entregou totalmente a ela. Jane foi à primeira pessoa a beijá-la e o principal: a tocá-la. E essa noção de entrega, muito mais do que física e também, muito, espiritual, fazia Jane ficar tranquila e não se preocupar com aquele tipo de coisa.
Maura não ligava para cantada ou qualquer coisa que fosse que recebesse. Porque amava Jane. Ela só achava engraçado as bobagens que os rapazes diziam, cantadas sempre tão bobas e superficiais. E também achava interessante notar que mesmo ela sendo considerada uma nerd estranha conseguia atrair tantas pessoas. Mas mesmo assim não era importante, porque ela sabia que a maioria das pessoas que atraía era por puro interesse, fosse pela sua beleza física, ou porque seria interessante conquistar uma menina que nunca esteve com ninguém além de outra garota e coisas do tipo. Mas Maura se pegou realmente surpresa quando Sarah, uma garota com quem fez amizade, que era da mesma sala que ela e Jane, se confessou apaixonada por ela.
- Mas Sarah, eu nunca fiz nada para alimentar esse tipo de sentimento em você — Maura disse de forma suave, encarando os olhos verdes da garota — Eu namoro com a Jane e a amo. E não sou dessas garotas que gostam de fazer os outros se apaixonarem só para ter alguém em seus pés, caso percam o namorado. Não mesmo.
- Eu sei disso, Maura. Sei de tudo isso e não é sua culpa... você é fofa comigo, me trata bem, é carinhosa, me ajuda e eu sei que isso tudo é porque somos amigas, e também porque faz parte do seu jeito de ser e... é isso. O seu jeito de ser que fez com que eu me apaixonasse. Você me encanta, Maura — Os olhos verdes de Sarah brilhavam e eram acompanhados de um pequeno sorriso da garota. — Eu sei que você namora, que não é infiel e nem inconstante para ficar trocando de namorada, mas eu... eu realmente não pude evitar me sentir assim. Espero que não fique chateada.
Maura realmente estava surpresa, e também comovida. Ela gostava muito de Sarah. Era uma garota legal, inteligente e bem esperta, de um jeito meio malandro. Ela sabia se virar e tinha algo em comum com Maura: era órfã, também, o que fez com que elas confiassem uma na outra mais rapidamente.
Viu que a garota estava realmente triste, e pensar que ela sofria por sua causa, porque gostava de si, era comovente. Então, tocou-a nas mãos delicadamente e nesse momento Sarah voltou a encará-la.
- Eu não estou chateada com você, Sarah. Nós somos amigas e isso não vai mudar porque me contou esse segredo. Eu gosto muito de você e não quero te perder. É uma amiga especial. Uma pessoa especial...
Elas estavam sentadas bem próximas em um banco de uma praça que ficava no quarteirão do colégio. Algumas vezes Maura ficava ali com Jane, e à loira deveria ter imaginado que talvez sua namorada aparecesse ali, após a aula, na intenção de se encontrar com ela antes de ir para casa, já que não poderiam sair naquela tarde porque Jane tinha compromisso com os irmãos. Mas Maura não imaginou e nem sequer se deu conta de que Jane estava atrás de uma árvore, quase que colada ao banco e viu as duas de mãos dadas.
Seu coração batia ferozmente e uma sensação estranha tomou todo seu corpo. Estava gelada e estática. Não conseguia se mover, embora quisesse gritar para que as duas soubessem que ela estava ali.
- Você que é especial, Maur, você — Sarah disse com os olhos vidrados na loira, como se estivesse hipnotizada, ainda segurando suas mãos e logo soltando e levando-as para o rosto da loira — Sabe de uma coisa? Estranho seria se eu não me apaixonasse por você... e mesmo sabendo que eu nunca terei chances, que nós seremos apenas amigas, eu preciso sentir isso...
Inesperadamente, ainda tocando no rosto da loira, Sarah se aproximou de súbito e juntou seus lábios docemente nos lábios da pequena loira, que estava surpresa demais para ter qualquer reação. Ficou alguns instantes assim, enquanto Jane, perplexa e já com o coração despedaçado, por não entender ou não querer entender do que se tratava tudo aquilo, assistia à cena horrorizada.
- Então você saiu mais cedo sem me esperar pra isso? — Ela perguntou, séria, se aproximando do banco e fazendo as duas se afastaram rápidas e constrangidas.
Maura olhou para Jane com os olhos arregalados, assustada. Conhecia Jane suficientemente bem para saber que não seria fácil convencê-la de que não teve culpa.
- Jane, não é nada disso que você tá pensando, eu e a Maura nós somos apenas amigas — Sarah tratou de esclarecer, levantando-se rapidamente do banco, preocupada, realmente, porque não queria causar problemas à loira. — Fui eu quem a beijei, Maura não teve culpa...
Jane, que até então fitava seriamente apenas sua namorada, estava ficando irritada, mais ainda, ao ouvir cada palavra que saía da boca de Sarah e não hesitou em acertar um murro de esquerda em seu rosto quando a mesma se aproximou demais.
- Jane!!! O que você fez? — Maura gritou, assustada, levantando do banco e abaixando ao chão para ajudar Sarah, que havia caído — Você ficou louca? Sarah, ei... você está bem?
- Essa imbecil que ficou louca se acha que pode beijar minha namorada na rua, na frente de todos, inclusive da minha e ainda vir com esse papo furado! Eu estou te sacando faz tempo, Manning, você nunca me enganou com esse papo de ser melhor amiga da Maura e agora isso? — Jane gritava, furiosa, próxima das duas e apontava o indicador na direção de Sarah, ainda no chão, agora sentada. — Eu vou te arrebentar se você não se afastar da Maura.
A morena de olhos verdes colocou a ponta dos dedos no canto esquerdo de seus lábios e eles doíam, muito e havia um pouquinho de sangue. Maura a olhava com ternura e preocupação. Mas ao ouvir Jane dizer tantas bobagens, ela levantou brutalmente e peitou a namorada.
- Pare de fazer escandâ-los e de ameaçá-la. Você não irá bater nela e nem em mais ninguém, se quiser continuar sendo minha namorada — Disse em tom sério e autoritário, surpreendendo a Jane. Como Maura poderia estar com raiva se era Jane a vítima daquela situação? Havia pego as duas se beijando! — Eu não me apaixonei por uma troglodita que sai batendo em todo mundo, a todo momento, que não sabe resolver nada com diálogos saudáveis e em lugares reservados.
- Que? Troglodita? Maura, você tem ideia do que aconteceu aqui? — Jane havia ousava gritar, mesmo Maura estando irritada — Essa imbecil teve a cara de pau de se aproveitar da amizade de vocês e te beijar aqui, onde qualquer um da escola poderia ver na intenção de me ridicularizar, pra eu ficar com fama de corna e você acha que eu não tenho razão em estar brava? Eu vi vocês se beijando e aliás, porque diabos deixou ela te beijar?
A loira ficou pensativa naquele momento. Não sabia mentir, não poderia fazê-lo mas também o que ela responderia se nem mesmo Maura sabia exatamente porque deixou o beijo se prolongar? E ela já poderia desconfiar que Sarah fosse fazer isso, por tudo que lhe disse anteriormente ao beijo, mas mesmo assim ela deixou. Por quê? Não saberia dizer.
Olhou ao redor e notou que algumas pessoas a olhavam e Sarah ainda estava no chão e ferida. Prolongar aquela discussão só aumentaria o escândalo e em nada resolveria.
- Eu não vou conversar com você sobre isso. Não aqui e nem agora.
- Então vamos agora pro lugar que você quiser pra conversarmos, porque eu não vou esperar pra ter uma explicação disso tudo que acabou de acontecer!
- Agora não, Jane. Você tinha um compromisso com seus irmãos, não tinha? Pois bem. Vá e faça o que tem que fazer. Eu vou ajudar Sarah, é o mínimo que posso fazer, já que ela apanhou por minha causa.
Jane não podia acreditar no que ouvia. Maura realmente estava irritada com ela, sendo que Jane é que tinha motivos para estar irritada, e ainda por cima ela iria ficar ali e ajudar aquela imbecil que era culpada por toda aquela confusão?
- É sério isso? — A morena olhou profundamente nos olhos da namorada, de perto e em seguida olhou para Sarah, com raiva, por cima do ombro de Maura, que mantinha um semblante de seriedade. — Você vai mesmo ficar com ela e me mandar ir embora?
- Você entendeu muito bem o que eu falei, Jane. Agora vai. Mais tarde eu te ligo e nos encontramos.
Vendo que aquela batalha estava perdida, sentindo-se humilhada e com uma raiva inimaginável de Sarah e também de Maura por tomar aquela atitude, Jane se virou e foi embora. Durante o caminho, ela ousou olhar para trás uma única vez e isso não foi nada bom, pois a deixou ainda mais nervosa ao ver Maura ajudando Sarah a levantar-se, tão cheia de cuidados e carinho, enquanto que com ela, Maura havia sido dura, só porque ela tinha dado um soco, e diga-se de passagem merecido na imbecil que ousou beijar sua namorada.
Depois de ficar algumas horas na rua, vagando perdida, com o celular desligado porque sabia que com certeza Maura ficaria ligando, Jane ligou para Alex, a única pessoa que ela sabia que poderia contar. Não que Jonathan também não fosse seu amigo, ou que sua mãe e seus irmãos não fossem ajudá-la sempre que precisasse, mas esses todos, de qualquer forma, iriam defender Maura e contar-lhe de seu paradeiro. Alex respeitaria se Jane pedisse para ela não fazê-lo. A amizade das duas tomou uma proporção ainda mais íntima e forte no sequestro de Lauren e Maura.
Alex se surpreendeu com o pedido da amiga por telefone, mas prontamente se preparou para recebê-la em seu apartamento. Lauren não estava, havia viajado e ido ficar na casa dos pais por alguns dias. Desde todo o ocorrido com o sequestro que seus laços familiares ficaram mais fortalecidos e agora os pais não perdiam tempo em vê-la e telefoná-la sempre que sentiam vontade.
Assim que Alex atendeu a porta do apartamento e viu uma Jane pálida, com os olhos afundados repletos de tristeza e umidecidos, ela sabia que alguma coisa havia acontecido com Maura, e não era nada que se relacionasse a sequestros, acidentes, tiros e seus derivados.
- Eu peguei Maura na cama com Ian, o ex namorado de Londres — Disse à tira roupa, sem nem ao menos preparar Alex, que ficou estática, ainda na frente da porta. Ela ajeitou levemente o óculos com uma das mãos e depois de alguns instantes com uma expressão de susto, ela se fez agir.
- Oh porra! Mas que merda é essa? Vem, você deve estar arrasada... — Puxou Jane por uma das mãos para dentro do apartamento, bateu a porta e a conduziu até o sofá. Pensou em abraçá-la no momento que ouviu a revelação, mas sabia que Jane não gostava muito de ser abraçada, especialmente naquela circunstância.
Jane contou o que tinha acontecido, a reação de Maura e afins. Simplesmente isso. Disse o que viu e o que estava sentindo por causa disso. Mas em nenhum momento ficou se questionando como ou porquê Maura fez isso, nem ofendendo-a ou algo do tipo. Talvez porque tivesse esperança que tudo fosse um grande mal entendido, ou porque sua ficha não tivesse caído totalmente. Em todo caso, ela estava arrasada, mas não extravasou isso em palavras.
- Sabe o que eu acho? — Alex tirou os óculos, estavam sentadas no sofá e Jane prestava atenção na amiga — Eu sei que você me procurou porque por mais que eu seja amiga da Maura também eu não vou passar a mão na cabeça dela ou perdoá-la caso ela tenha feito essa putaria toda com você, e nem vou te dar lição de moral por agir igual criança e querer fugir de tudo e todos. Eu te entendo. Mas eu sinceramente não acredito que Maura tenha te traído...
- Como não? Eu vi ela nua na cama do lado do Ian... — Retrucou, mas em tom baixo. Estava tão mal que nem tinha fôlego para ser impaciente e irritadiça como em outras ocasiões.
- Eu sei que viu, acredito nos seus olhos, e sei que essa porra pode soar estranho, já que eu não estou aqui para defender ninguém, mas talvez haja uma explicação.
- Maura cansou de mim, desistiu de casar, sentiu falta do ex namorado... percebeu que ele é melhor do que eu, que ele não é tão grosseiro e irritante...
- Outra explicação além dessas, que seriam normalmente as mais comuns — Disse com um sorrisinho levemente sarcástico, recebendo um olhar de desaprovação total de Jane. — É sério, cara, qual é! Você não assiste séries de TV? Novelas? Já viu novelas brasileiras? Acontece muito do vilão, ou de alguma biscate mal amada que não aceita perder o cara, ou no caso um vagabundo mal amado, eles vão, armam toda uma situação como essa e pronto, separam o casal de mocinhos.
- Novelas? Novelas brasileiras? Really? — Jane a olhou entendiada e revirou os olhos com toda aquela hipótese — Ian não é um vilão, só é um grande filha da puta. E eu não sou uma mocinha. Maura talvez... mas... armação? Isso me parece como uma grande desculpa para justificar, quem sabe, uma noite que aconteceu sem querer por efeito de álcool, e que pra mim também não é justificável.
- Não, é sério isso. Eu não defenderia Maura se tivesse certeza que ela fosse do tipo de pessoa que em algum momento pudesse te trair ou te enganar, e eu a conheço. Eu tenho certeza que ela não faria isso. Ainda que você tenha visto os dois nus na cama dela, eu não acredito nisso. E você talvez também não esteja acreditando, porque se estivesse, eu sei que você estaria bem pior do que está agora.
- Minha ficha não caiu ainda...
- Vamos lá, Rizzoli. Você conhece a Maura melhor do que eu. Você sabe o que há dentro do coração dela. Sabe que ela te ama e que não faria isso.
- Já soube de muita gente que ama ou dizia amar, trair... — Soltou um suspiro resignado.
- Mas Maura não é igual as outras pessoas. E é por isso que você quer se casar com ela. Pense no que eu estou te falando, sério. Eu não estou falando isso pra defendê-la, já te disse. E não se preocupe, se quiser mesmo ficar escondida aqui sem ninguém saber, eu não vejo problemas. Não vou te dedurar. Mas pense bem e pondere antes de tomar atitudes. Converse com Maura assim que sua raiva imediata passar. Quando a poeira baixar, você conseguirá pensar melhor... Agora eu vou sair, comprar umas coisas que estão faltando, fique a vontade. E se for quebrar alguma coisa, que não seja minha LCD e nem meu xbox, por favor! — Jane esboçou um leve sorriso ao final do discurso de Alex que já foi se levantando.
- Obrigada pela compreensão.
[...]
Maura foi para a Central e discretamente explicou apenas para Susie, com quem tinha já uma certa intimidade o que havia ocorrido e então lhe entregou a xícara com o café para que ela levasse para fazer os exames e descobrirem se de fato Ian realmente tinha dopado Maura e com qual substância. Enquanto isso, a legista ficava andando de um lado para o outro, inquieta e ligando para o celular de Jane, que estava desligado e essa ausência de notícias já estava começando incomodá-la. Claro que a morena não iria querer falar com ela agora. Devia estar morrendo de raiva e com razão, mas Maura estava preocupada, precisava ter notícias dela, então ligou para Angela, perguntando de Jane.
- Eu não sei onde ela está, querida. Eu pensei que se tivesse alguém que pudesse saber isso, fosse você — Uma Angela risonha disse ao telefone — Jane anda impossível, mal vem aqui em casa, só vejo ela no trabalho mesmo... Mas aconteceu alguma coisa, Maura? Estou te achando estranha...
- Não, não aconteceu nada — Se apressou em dizer — É só que nós não passamos à noite juntas e estou tentando falar com ela e não consigo. O celular está desligado.
- Será que aconteceu alguma coisa com ela? — Agora Angela estava preocupada com a filha.
- Não! — Maura disse rápido demais — Quer dizer, não. Nada que deva se preocupar. Só acho que ela não está querendo falar comigo no momento.
- Maura, alguma coisa está acontecendo e você deveria me dizer. Porque não vem até minha casa e não conversamos? Eu estou sozinha aqui com TJ. Podemos conversar.
- Eu não sei se seria uma boa ideia, eu...
- Maura, eu sou sua sogra, você vai se casar com minha filha e eu te conheço há anos e te adoro e me preocupo como se você fosse minha filha também. Se algo está acontecendo, eu acho que tenho direito de saber.
- Ok, eu estou indo.
Quando Maura chegou, Angela havia preparado café para elas e estava sentada no sofá. TJ estava dentro do chiqueirinho posto na sala próximo ao sofá. Ele estava acordado, sentado e mexendo em seus brinquedinhos. Maura foi se encaminhar até Angela para cumprimentá-la e o garoto esticou as mãozinhas e ficou elétrico, soltando uns ruídos da pequena boca, mostrando felicidade ao vê-la.
- Parece que alguém está com saudades — Angela disse com um sorriso encorajador para que Maura fizesse o que queria: pegar o bebê no colo.
Cuidadosamente ela se aproximou do chiqueirinho com as mãos em direção ao pequeno, que ficou de pé sozinho e se mostrou ainda mais agitado com a ideia de ser pego por Maura.
Com o garoto nos braços, ela beijou suas bochechas e o apertou contra si levemente, mas depois colocou-o de volta para poder conversar com Angela.
- Então, querida, me diga o que está acontecendo. Você e Jane brigaram? Olha, seja lá o que for, não se preocupe. Nenhuma briguinha boba poderia atrapalhar o casamento de vocês. Já é daqui duas semanas. Quando casarem, tudo isso ficará para trás. O casamento traz uma felicidade inimaginável. A cerimônia emocionante, a festa, a dança dos noivos, a lua de mel... É tudo tão embriagante... — Dizia com empolgação sem se dar conta de que Maura não estava num bom estado para falar sobre o casamento e se surpreendeu ao ver a loira desabar em lágrimas. — Maura? Você está chorando?! Oh não...
Angela a abraçou de forma reconfortante e Maura se permitiu chorar como uma criança durante alguns minutos antes de contar a Angela o que havia acontecido e a mulher ficou transtornada, cheia de raiva do Ian e raiva também de sua Jane por não ficar e ouvir o que Maura tinha a dizer e simplesmente sumir, como se estivesse mesmo acreditando que à legista seria capaz de trai-la.
- Mas isso é um absurdo! Como esse rapaz tem coragem de fazer isso? E como Jane te diz essas coisas e vai embora assim? Eu vou dar uns cascudos nela quando aparecer! É claro que você jamais iria trai-la assim, de forma tão baixa. Ela te conhece há anos. Deveria ter ficado e ouvido o que você tinha a dizer. Só gostei dela ter dado uns tabefes nesse safado...
Maura deixou escapar uma risadinha. O jeitão italiano de Angela era algo maravilhoso.
- É, eu também achei muito digno ela acertá-lo, mas estava furiosa comigo também. Precisava ver como me olhou antes de ir embora. Eu estou devastada, Angela. Porque eu não posso culpá-la por estar pensando que eu a trai. Por mais que ela me conheça e saiba que eu a amo, ela me pegou nua, desacordada na cama com outra pessoa. Eu não sei como eu reageria se fosse o contrário...
Angela não soube o que responder. Não havia nada que pudesse dizer para consolar Maura. Ela precisaria esperar Jane resolver querer ouvi-la e lhe mostrar os resultados do teste para comprovar que havia sido dopada, só assim poderiam se resolver.
Jane decidiu que ficaria uns dias "escondida" no apartamento de Alex, que não fez objeção a isso. No fim do dia atendeu mais um dos infinitos telefonemas de sua mãe para dizer que estava viva e que ela não precisava se preocupar, mas se recusou em falar sobre Maura e em dizer onde estava, a italiana nada pôde fazer para convencer a filha.
Alex, que havia conversado com Maura rapidamente em uma de suas saídas, viu o quão mal a loira estava e ficou sabendo que tudo foi uma armação de Ian e que ela podia provar, pois já havia saído o resultado do teste toxicológico que Maura havia pedido na Central. E é claro que Alex repassou essa notícia para Jane, que nada disse.
- Você não vai fazer nada com essa informação que eu te dei? — Alex estava surpresa — Maura não te traiu, como nós bem sabemos. Ela estava pelada na cama com Ian porque estava desacordada, efeito de substâncias que o retardado usou.
- É a terceira vez que você diz isso — Jane murmurou impaciente, os olhos vidrados na televisão. Ela não saia do sofá de Alex há mais de vinte e quatro horas, desde que tinha chegado.
- É que você não parece estar me ouvindo — Retrucou a morena de olhos claros, percebendo a fixação de Jane na televisão — Que isso? Maratona dos Red Sox? Porque do que eu me lembre, desde ontem à noite você não para de assistir isso aí...
- Você devia assistir comigo, esses são os melhores jogos da última década.
- Cara, você tá bem? — Ela pôs a mão na testa de Jane, que recuou ao toque, fazendo careta. — Sério, você tá estranha. Eu te contei que encontrei Maura, que ela tá péssima, chorando sem parar, pálida, louca atrás de notícias suas, porque você nem sequer pra responder uma sms dizendo que está viva, e eu nem pude aliviá-la dizendo que você tá aqui, senão nós iríamos brigar, e você reage assim? Indiferente?
- Ela tava na cama com outra pessoa — Respondeu simplesmente, esticando o braço até a mesinha e pegando outra garrafaja de cerveja no meio das inúmeras que haviam ali, já vazias.
Alex a olhou abismada. Será que Jane estava ficando louca ou não havia lavado os ouvidos? Porque Alex já tinha explicado diversas vezes o que realmente tinha acontecido e a morena parecia não ouvir, ou não se importar com o que ouvia.
- Ela tava na cama com o Ian porque ele DOPOU ela!
- E daí?
- Como "e daí"? E daí que ela não te traiu!
Alex estava ao lado do sofá, falando em voz alta, meio alterada, desde a hora que chegou e Jane não estava mais conseguindo ignorar, estava ficando realmente muito irritada, até que não se aguentando, ela levantou quase que em um pulo e encarou Alex de perto.
- E daí que Maura é uma desgraçada! Uma estúpida desgraçada que se faz de gentil e boazinha e por causa disso esse desgraçado entrou na casa dela, a dopou, tirou sua roupa, colocou-a na cama com ele e sabe-se lá Deus mais o que ele fez enquanto ela estava desacordada e armou toda essa merda pra acabar com o nosso casamento! Eu arrebentei a cara dele, mas a minha vontade era de matá-lo com minhas próprias mãos, mas eu não fiz isso porque não quero passar o resto dos meus anos dentro de uma merda de um presídio... A questão é que por mais que esse maldito tenha armado tudo isso, a culpa é da Maura! Porque se ela não fosse uma cretina que gosta de ser gentil com todos, especialmente com as pessoas que se apaixonam por ela, nada disso teria acontecido! — Jane berrava, extravasando tanta raiva que assustou Alex — E vai por mim, eu sei o que eu tô dizendo. Você conheceu a Maura depois de mim. Eu sei o quão estúpido pode ser essa mania dela querer ser "gentil" com quem se apaixonada por ela. E eu odeio isso. E sinceramente eu não sei se devo me casar com uma mulher que ao invés de ser grossa e gritar com um ex namorado babaca que ofendeu a noiva dela, age de forma gentil e carinhosa, deixando ele entrar na casa dela e tomar café.
Dito tudo isso aos berros, Jane respirou fundo, virou de costas e se encaminhou para dentro do apartamento, indo para o banheiro, batendo a porta com força, deixando Alex boquiaberta na sala. Realmente as coisas estavam piores do que ela pensou. Não era nada simples.
[...]
Depois de passar o fim de semana todo incomunicável na casa de Alex, Jane teria que sair do apartamento, encarar a vida lá fora, as pessoas, o sol, o céu, sua mãe gritando em sua orelha, o pessoal do trabalho que já deveria estar sabendo toda a situação dela e Maura, já que a loira, pouco inteligente, fez os exames toxicológicos na Central, e o pior, teria que encarar essa loira muito inteligente, que às vezes agia como se fosse pouco inteligente.
Depois de um banho geladíssimo para acalmar os nervos, Jane passou em seu apartamento, cuidou de Jo e se trocou, indo direto para a Central. Assim que chegou, foi buscar café na cantina e é claro, sua mãe já estava a postos para vir falar em sua orelha. E antes mesmo que ela pudesse abrir a boca, Jane avisou.
- Não! Eu tenho trinta anos, sou adulta o suficiente para resolver minha vida sozinha. Você sempre se mete em tudo, mas eu juro por Deus que se abrir a boca para dizer algo sobre isso, eu vou desaparecer e só darei notícias daqui há um ano! — Seu olhar e seu tom sério assustaram Angela, que fazendo careta se virou e foi embora de volta ao balcão, deixando a filha sozinha para adoçar seu café.
Jonathan havia aconselhado Maura de que ela deveria esperar, deixar a poeira abaixar, mesmo só faltando mais duas semanas para o casamento. Segundo ele, em poucos dias sozinha, esfriando a cabeça, Jane se acalmaria e iria conversar com a loira e elas se acertariam, mas Maura estava nervosa e preocupada demais com a morena para esperar que a mesma fosse atrás dela.
- Jane, Jane — Maura chamou meio desesperada ao chegar na cantina e ver a morena, que congelou o rosto numa expressão séria ao ouvi-la — Graças a Deus... você sumiu. Eu te liguei, eu te procurei o fim de semana todo.
- Aposto que minha mãe te avisou sobre o telefonema que eu dei, dizendo que estava bem.
- Sim, mas você não disse onde estava e não quis me atender. Eu estava preocupada. Será que nós podemos conversar? — Os olhos de Maura eram uma súplica, e Jane parecia não se abalar com isso.
- Eu acabei de chegar, estou tomando café...
- Por favor. Vamos aproveitar que ainda é cedo e não temos nenhum caso.
- Ok, mas tem que ser rápido.
Elas desceram até o necrotério e foram para a sala privada de Maura.
Jane cruzou os braços e ficou olhando para loira, esperando que ela começasse, já que foi dela a ideia de conversarem, mas Maura parecia paralisada, só a encarava de volta com cara de boba.
- Não vai falar? Vai ficar olhando pra minha cara? — Perguntou com impaciência e então Maura percebeu que seria mais difícil do que ela imaginava conversar com Jane sobre aquilo, ainda mais depois de descobrir o que ela descobriu...
- Jane, eu sei que você está brava, que me viu na cama com o Ian mas eu não te trai com ele, mesmo... mesmo... — Se assustou ao se dar conta do jeito que estava falando e do que sairia de sua boca se não medisse as palavras e notou um olhar desconfiado da morena — Quero dizer... Jane, eu não te trai. Eu não sinto absolutamente nada pelo Ian e jamais iria para cama com ele se não estivesse dopada, como eu estava. Isso pode parecer desculpa esfarrada de pessoas que traem, mas você me conhece, sabe que eu não te trairia e também que não posso mentir por causa das urticárias e em todo caso... — Ela pegou em cima de sua mesa uma pasta — Aqui está o resultado dos exames que fiz com o que sobrou do café da minha xícara, e isso comprava que eu fui dopada. Pode olhar, caso prefira.
Jane não fez nem sequer menção de descruzar os braços. Olhou para a pasta estendida de Maura com ar de desprezo e depois a encarou, séria.
- Really? Acha mesmo que eu vou ler essa porcaria ou que isso me importa? Eu sei que você não me trairia, Maura. Eu sei que ele te dopou.
A loira piscou lentamente, colocou a pasta de volta em cima da mesa e parecia confusa.
- Se você sabe de tudo isso, então porque...
- Você é uma idiota — Ela interrompeu a fala da loira, que a olhou assustada — Você é uma completa idiota, Maura Isles. O que você tem de inteligente, você tem de idiota, também. Qual é a sua? Qual é o seu problema? Porque eu não consigo pensar em nada tão terrível ao ponto de afetar o seu cérebro e te fazer deixar aquele imbecil entrar na sua casa e convidá-lo para tomar café sabendo que ele ainda é apaixonado por você e depois dele ter deixado bem claro o que pensava a respeito de nós duas juntas! — Jane se controlava para não gritar, mas seu tom já estava suficientemente assustador para Maura, que havia acostumado com a Jane doce e cuidadosa na maior parte do tempo.
- Jane, eu sei que eu não deveria tê-lo deixado entrar, mas... ele foi gentil, pediu desculpas, disse que estava indo embora para Londres e...
- Não, Maura, não — Ela balançou a cabeça negativamente e soltou um suspiro — Não importa. Nada disso importa. Você sabe que não deveria ter sido gentil. As pessoas se aproveitam disso e sinceramente, eu não vou ficar do lado de alguém que se deixa ser aproveitada sempre porque quis ser gentil. Há doze anos atrás eu podia entender isso, porque você era uma adolescente. Agora eu não posso mais, Maura... — Seu tom era mais calmo e baixo, estava nitidamente chateada e isso deixava Maura sentindo-se ainda pior pela notícia que teria que dar — Eu te vi nua na cama com outra pessoa, e por mais que isso tenha sido armação, doeu. Me machucou. E saber que isso só aconteceu porque você foi ingênua o suficiente para deixar ele se aproveitar da situação, só piora tudo.
- Jane, me perdoa. Você tem razão, ok? Eu sei, eu admito que você tem. Não é uma questão de ser gentil, educada, seguir regras de etiqueta dessa vez. Eu fui uma completa imbecil. Agi como uma garotinha ingênua achando que Ian ia vir tão cedo na minha casa, eu estando sozinha e trajando camisola só para tomar um café e se despedir. Eu sei disso e admito meu erro, minha culpa. Dessa vez não tem justificativas e nem vou dizer que você está errada por ter acertado a cara dele, porque você não está... — Jane se surpreendeu ao ouvir aquilo. Por um instante pensou que Maura se defenderia agindo como agiu há anos atrás, no caso de Sarah. — Mas, por favor, me perdoa. Isso não é algo que acontecerá novamente, não é algo que você terá que aceitar e se adaptar, porque está errado. Eu terei que me corrigir para não mais errar assim, mas me perdoa, Jane. Me perdoa...
O coração da morena se contraiu no peito ao ver os olhos da loira transbordando em lágrimas.
- Eu te amo, Maura. Você errou, todo mundo erra. Por mais que você pareça perfeita por ser um google ambulante, você é como qualquer outro ser humano. Eu te amo — Ela disse com um meio sorriso, se aproximando e se rendendo, abraçando Maura com força.
- Eu também te amo, Jane.
Maura se apertou contra Jane, abraçando-a da forma mais desesperada possível, como se tivesse medo de perdê-la e a morena estranhou tal gesto. Tudo bem que haviam brigado, ficado o fim de semana todo sem se verem, mas o choro e o desespero de Maura parecia exagerado, se o motivo dos mesmos fosse somente aquilo...
- Ei, Maur, está tudo bem agora, meu amor. Não vamos mais brigar por causa disso, ok? Não precisa ficar assim, pare de chorar... — Jane segurou no rosto dela após soltá-la do abraço e secou suas lágrimas.
- Tem uma coisa, Jane. Tem algo que preciso te dizer.
- Então diga, pode dizer.
- Mas eu tenho medo que isso mude tudo...
- Está me deixando preocupada. Me diz logo o que houve, Maura.
- Eu... — A loira gaguejou, ficou hesitante mas agora era tarde demais. Os olhos negros de Jane fixaram o seu de uma maneira que não tinha para onde fugir — Eu fiquei desconfiada e fiz outros exames além dos tóxicos e... tinha sêmen em mim... — Disse baixo, nervosa, envergonhada — Ian se aproveitou de mim quando eu estava desacordada.
Maura esperou alguma reação de Jane. Esperou um grito, um soco enfurecido na mesa, esperou que ela jogasse algum dos seus vasos ou enfeites na parede, que dissesse que iria atrás dele socá-lo até a morte, mas a morena permaneceu parada onde estava, encarando-a fixamente, mas com uma expressão diferente, os olhos desesperançosos, o sorriso já havia desaparecido dos lábios e ela parecia não acreditar no que tinha acabado de ouvir. E sabendo que isso significa algo terrível, mais lágrimas rolaram pelo rosto vermelho de Maura.
- Eu sinto muito, eu sei que eu fui uma imbecil por tê-lo deixado entrar em casa, e tudo, eu sinto muito Jane, mas eu nunca imaginei que ele fosse fazer isso... não era algo que eu queria, não era algo que teria acontecido se eu não estivesse drogada, você sabe disso e...
Jane se moveu para ir até a porta, mas Maura estava em sua frente e forçou seu corpo para impedí-la.
- Por favor, Jane, converse comigo! Diga alguma coisa! Por favor...
- Sai da minha frente — Disse de forma ríspida e séria, sem encarar à loira.
- Por favor... — Maura insistiu em segurá-la, tocando seus braços e então Jane fechou os olhos, raivosa.
- Eu mandei você sair da droga da minha frente.
- Jane, eu te amo, nós vamos nos casar, converse comigo...
- Não, nós não vamos nos casar, agora tire suas mãos de mim e me deixe passar! — Ela disse, tentando se controlar, com as mãos fechadas em punhos e os dentes cerrados.
- O que? Como não vamos nos casar? Jane! — Maura disse mais alto, quase berrando, entre soluços — Nosso casamento é daqui duas semanas, eu já comprei o vestido, os convites já foram enviados... Nós compramos uma casa! Eu te amo, você me ama! Isso que aconteceu não muda nada... eu não te trai...
- ISSO MUDA TUDO, MAURA! TUDO! — Ela berrou e de repente avançou em cima da loira, jogando-a contra parede, segurando seus braços com força — Voluntária ou involuntariamente você transou com o Ian porque é uma imbecil que deixou ele entrar na sua casa e se aproveitar de você! E eu não posso me casar com você agora! Eu não posso!
- Jane... — Ela soluçava, chorando sem parar, a voz afogada — Por favor...
- Me deixa em paz!
Jane abriu a porta com uma das mãos e Maura, desesperada, parecendo aquelas mulheres sem amor próprio atrás dos maridos que as violentam, agarrou-se a morena para impedí-la de sair e brutalmente Jane a empurrou, fazendo Maura desequilibrar nos saltos e cair no chão, de bunda, chorando ainda mais. A morena bateu a porta com força.
Parecia que uma tempestade estava começando...
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