R&I - Wish You Were Here

28 Capítulo 27 - Darkness


Notas iniciais
Só queria dizer que eu não estou revoltada com nada, meninas. Eu simplesmente gosto de uma "emoção" na história, rs. E esse capítulo é só do desfecho do sequestro. Espero que gostem e não me xinguem ou se revoltem comigo (mais ainda).

Esse capítulo também é dedicado a Bruna.

As duas músicas que usei e me inspirei são No Light No Light e Cosmic Love de Florence + The Machine. Recomendo ouvirem enquanto leem.

"You are the hole in my head

You are the space in my bed

You are the silence in between

What I thought and what I said.

You are the night time fear

You are the morning when it's clear

When it's over, your start

You're my head and you're my heart."

A casa estava em chamas e o coração de Alex e Jane começou a bater ferozmente dentro do peito. Os movimentos das batidas frenéticas eram intensos, rápidos e dolorosos, como se alguma coisa estivesse errada, mas não estava, pelo menos não especificamente em seus corações. Era resultado de seus cérebros processando a informação da casa em chamas, que poderia significar um milhão de coisas, mas dentre todas elas, o pior: que Lauren e Maura estivessem lá dentro, que se machucassem, que morressem no fogo.

Os milésimos que perderam paradas, os olhares fixos nas chamas que estavam dominando toda a casa, que apareciam por todos os lados, durou quase uma eternidade. Elas estavam mais ainda desesperadas, porque elas não sabiam tudo que havia acontecido lá dentro. Não sabiam que o psicopata do Jason fez Maura e Lauren brigarem até a morte com Edward e depois com Peter. Elas não sabiam que suas mulheres haviam sido agredidas, torturadas e obrigadas a matarem. Elas não faziam ideia do tamanho do sadismo e loucura daquele homem de aparência de anjo, tampouco sabiam que ele estava venerando Lauren, considerando-a sua grande criação por ter matado Edward e que estava com raiva por Maura não ter se saído tão bem, e por isso decidiu deixá-la presa na casa, ateando fogo em seguida. Elas não sabiam que há poucos minutos Jason havia deixado a casa, arrastando Lauren consigo floresta adentro atrás de levá-la embora em seu gipe que estava escondido perto da estrada. Por não saberem nada disso, elas precisavam agir rápido e precisavam tentar adivinhar o que estava acontecendo. Tinham que usar algo muito importante e que todos nós temos: instinto.

– Tem certeza que é essa a casa? — Alex perguntou sem desviar os olhos da mesma.

– É essa, é aqui. Não há outra casa.

– E como vamos saber quem está lá dentro ou não? Eles podem ter ido embora, mudado de cativeiro porque desconfiaram que nós descobrimos seu paradeiro.

– Não, eles não podem, porque eu falei com Jason no telefone e ele me avisou sobre isso.

Alex virou e olhou para Jane, surpresa, que mantinha os olhos fixos na chama e o rosto todo tenso.

– Ele disse que iria queimá-las se elas não passassem num tipo de teste para serem suas criações.

– Então vamos invadir, o que estamos esperando? — Alex ia se mover mas Jane segurou o braço dela e ficou quieta, fez sinal com a outra mão para que ela ficasse em silêncio.

– Está ouvindo? Tem alguém gritando, mas não é de dentro da casa... eu acho que é a voz da Lauren! — Elas se entreolharam, não tinham tempo, precisavam chutar um palpite e ir atrás dele. — Eu tenho certeza que não é a voz da Maura, e parece com a da Lauren.

– Eu vou atrás ver quem é.

– Pega...

Jane tirou a arma da cintura e entregou para Alex. Elas trocaram um olhar de intensidade.

– Eu vou entrar na casa e caso seja Lauren lá dentro e não Maura, eu farei de tudo para salvá-la e espero que você faça o mesmo na floresta.

– Pode deixar — Alex segurou a arma com a mão esquerda e com a direita apertou a mão de Jane, trocaram um olhar antes de soltarem as mãos. — Boa sorte!

– Te encontro no final.

E sem pensar duas vezes, elas correram em direções opostas, para os seus destinos.

Jane correu em direção à casa em chamas. Mesmo com todo aquele frio e os flocos de neve caindo, a casa que era enorme pegava tanto fogo, eram tantas chamas, que só de se aproximar da mesma o calor em seu corpo aumentava. Jane subiu os poucos degraus e ficou parada em frente a porta, essa não pegava fogo, mas estava trancada. Com a perna esquerda, ela deu um chute, arrombando a porta. Ergueu o braço esquerdo, protegendo seu rosto com o ante braço para não respirar aquela fumaça negra que acabaria com seus pulmões. Ela entrou, deu poucos passos e seus olhos já giraram por toda a sala, alcançando a escada e duas portas dos dois lados. Por onde começaria?

– MAURA! MAURA! LAUREN! — Ela gritou, dando mais alguns passos, cuidadosa, pois vários pedaços do teto estavam caindo e o fogo se espalhava rápido por quase todos os cantos.

Começou a correr por todo o lado, em busca das duas, na verdade em busca de Maura, pois não só pelo grito que havia escutado, mas algo dentro de si dizia que Maura estava lá dentro. Apenas Maura. Com cuidado, Jane desviava de todas às chamas e das madeiras que caíam. Ela subiu às escadas correndo e enquanto procurava, ela gritava pelo nome de Maura, esperando por respostas.

A loira, que estava desacordada pelo golpe que havia levado na cabeça e estava com os braços e pernas amarrados, colocada dentro de uma banheira acordou lentamente e sentiu o cheiro forte do fogo, daquela fumaça. Sabia que não poderia respirá-la muito, e por sorte o banheiro não estava pegando fogo ainda, porque com as mãos amarradas, não havia como ela se proteger e nem sair dali. Começou a se desesperar e se debater, até que ouviu os gritos de Jane.

– Maura! Maura!

– Jane! — Ela gritou, com toda força que lhe restava — Jane! Eu estou aqui! — Seu coração disparado, por tudo que havia acontecido, pelo que estava acontecendo. Naquele momento Maura sentia tudo e nada ao mesmo tempo. Medo, desespero, pânico, e ao mesmo tempo alívio e felicidade por saber que Jane estava lá. Ela havia ido salvá-la. Ela sabia que Jane a salvaria.

"No light, no light in your bright blue eyes

I never knew daylight could be so violent

A revelation in the light of day

You can't choose what stays and what fades away

And I'll do anything to make you stay."

Alex saiu correndo pela floresta adentro seguindo pegadas que haviam na neve e que não eram as dela e nem de Jane. Jason arrastava Lauren, tampando-lhe à boca e a ameaçando com o revólver, e mesmo assim ela continuava se debatendo, tentanto se soltar, sem temê-lo. Depois de tudo que tinha passado, de ter até mesmo matado um homem, ela não poderia temer mais nada. Não se quisesse realmente sobreviver. Ela não tinha mais esperanças na polícia ou até mesmo em Alex para resgatá-la, pois já estava lá há tempo suficiente para enlouquecer e para ter ocorrido tudo aquilo, então ela sobreviveria por conta própria, ou morreria tentando.

– Me solta! Me deixa ir embora! — Ela berrou e deu uma mordida forte no antebraço de Jason, que berrou de dor e deu um tapa forte em seu rosto, derrubando-a.

– Meu Deus do céu, você está muito rebelde, Lauren. Será que terei que amarrá-la e amordaçá-la? Seja obediente até chegarmos no gipe ou eu terei que sacrificar minha primeira criação e não tenha dúvidas que eu sou capaz disso — O olhar dele era ameaçador, assim como o revólver mirado em sua direção. Ela queria matá-lo, queria ir embora, mas não adiantaria fazer nada agora, senão levaria um tiro e não sobreviveria como tanto queria para ver os olhos de Alex novamente. — Então? Vai colaborar ou não?

Ela nada disse, séria, seu rosto, ao contrário do que quando havia chegado no cativeiro, não tinha mais sinais de todo aquele medo, aquele pânico e fragilidade, pelo contrário, estava exalando uma seriedade que vinha da sua auto confiança, do fato de que por ter passado por toda aquela tortura, ela não tinha mais medo. Não medo de apanhar, de ser violentada, machucada por aquele doente. Seu único medo era de não ver mais Alex e as pessoas que amava, como sua irmã. Mas ela não transpareceria esse medo para Jason. Não mesmo.

Levantou do chão coberto de neve, que ficou marcado e seguiu caminhando na frente de Jason, que guiava seus passos com a arma mirada em suas costas. Alex estava seguindo os passos deles e depois de ouvir os gritos, ela teve certeza que era Lauren e seu coração se encheu de esperança. Começou a gritar pelo nome dela.

– Lauren! Lauren! Onde você está? Sou eu, Alex! Eu vim te salvar! Cadê você? — Gritava, enquanto caminhava usando a lanterna e segurando na outra mão o revólver, pois estava bastante escuro.

– Alex? — Lauren murmurou baixinho, assustada ao ouvir a voz da amada, e sem que percebesse um sorriso enorme, de esperança, surgiu em seu rosto — Meu Deus... Alex... ALEX! — Ela gritou, mas parou imediatamente ao ver a feição de Jason, que estava agora descontrolado, irritado, ao contrário de antes, quando se mostrava calmo e se divertindo com toda a situação.

– Se você gritar mais uma vez, eu vou explodir a sua cabeça. Cale a boca e ande mais rápido, estamos quase chegando ao gipe!

Alex, que havia ouvido o grito de Lauren e que também sorria, continuou gritando e começou a correr, fazendo barulho, o que obrigou a Jason e Lauren correrem também, e a ruiva era quase arrastada na neve por ele, pois estava com muitas dores nas costas, nas costelas, e tinha certeza que havia quebrado algumas, além de todas as outras dores, do cansaço, da fome e da sede.

– Mais rápido! Mais rápido! — Ele resmungava.

Após ouvir Maura chamar o seu nome, Jane sentiu seu coração pulsar ferozmente. Era um bom sinal ela ter gritado. Significava que ainda estava viva. E sabendo disso, a morena faria de tudo para que ela permanecesse assim.

"Through the crowd I was crying out

And in your place there were a thousand other faces

I was disappearing in plain sight

Heaven help me, I need to make it right."

Saiu correndo, seguindo em direção aos gritos até que alcançou uma porta que também estava trancada. Maura estava lá dentro. Usando novamente de um pontapé, Jane derrubou a porta e adentrou o banheiro, viu sua Maura totalmente diferente do que estava acostumada a ver. Além de estar amarrada, suas roupas estavam sujas, amarrotadas, os cabelos desgrenhados, o rosto cheio de hematomas, cortes, sujo de sangue, assim como suas roupas. Seus olhos verdes estavam amedrontados, distantes, mas assim que se cruzaram com os olhos escuros da morena, eles brilharam. Em meio ao caos, ao desespero, a dor, a angústia, eles brilharam em amor e esperança.

– Maura! Maura! Você está bem? Meu Deus... — Ela correu e se aproximou, erguendo Maura da banheira, deixando-a em pé. Soltou as cordas das pernas dela rapidamente, queria tocá-la, certificar-se de que ela estava bem, saber o que havia acontecido, mas não tinha tempo agora.

– Você veio me salvar... — Maura disse fraca e tonta, num sopro de voz, com um sorriso nos lábios enquanto olhava Jane desamarrar agora seus pulsos, que estavam machucados. — Eu... eu não... não consigo andar...

– Sh, eu vou te tirar daqui!

Mesmo sem saber de tudo que havia acontecido, e sem saber exatamente onde Maura estava machucada, só pelo seu rosto ficava claro que realmente ela não conseguiria andar, muito menos correr para sair daquela casa em chamas. Sem pensar em mais nada, tomada por toda a adrenalina da situação, pelo desespero da sobrevivência, Jane pegou Maura em seus braços, segurando-a como uma noiva, um braço abaixo das pernas e o outro das costas. Mesmo fraca, Maura conseguiu envolver os braços no pescoço de Jane e manter seu tronco mais erguido, seus rostos próximos, sua testa suja e machucada encostando na lateral do rosto da morena, que saiu imediatamente do banheiro com Maura nos braços e foi andando bem rápida e com cuidado porque a casa não parava de cair, pedaço por pedaço. Maura estava surpresa com a força de Jane, e até a própria morena. Não que ela não conseguisse erguer Maura do chão, mas segurá-la daquela maneira, por tanto tempo, e praticamente correndo, sendo que ela era tão magra, não era das tarefas mais fáceis.

Passaram instantes, segundos, minutos. Não havia como contar. Não dava tempo. Tudo aconteceu muito rápido. Havia a adrenalina, o medo, várias sensações misturadas e entrelaçadas com sentimentos profundos. Havia dor, havia angústia, havia remorso, havia medo, havia amor. Dizem que quando estamos próximos de morrer toda nossa vida passa como se fosse um filme diante de nossos olhos. E isso aconteceu com Alex e Lauren, mesmo que elas não estivessem morrendo. Porque era como se fosse. Não tinha como saber que não era.

"The stars, the moon

They have all been blown out

You left me in the dark

No dawn, no day

I'm always in this twilight

In the shadow of your heart."

Os passos foram rápidos, largos, as botas afundando na neve e deixando pegadas enormes. Alex correu, mesmo com a dificuldade por causa da neve, por causa da floresta, porque era noite. Tudo parecia mais difícil, tudo era obstáculo, mas mesmo assim ela o fez. Correu mas não atrás deles. Como se pegasse um atalho, se embrenhando do outro lado, ela conseguiu pular e cair bem em cima de Jason. As armas dos dois caíram no chão. Eles caíram na neve, um em cima do outro. Vários golpes foram desferidos. Socos, cotoveladass, empurrões feitos com dificuldade. Eles rolaram. Ambos muito fortes e movidos por uma vontade incontrolável. E no meio daquela confusão dos dois corpos rolando na neve, dos golpes, do sangue que jorrava do nariz de ambos, havia Lauren. Estava solta e as armas no chão. Ela poderia ter intervido, poderia ter pego qualquer uma das armas e ameaçado Jason ou até mesmo atirado. Ou nada de armas. Ela poderia ter jogado uma pedra, poderia ter feito qualquer coisa para ajudar a mulher que amava, mas ela não conseguiu. Quando foi se mover para pegar a arma no chão, ela olhou para suas mãos sujas de sangue grudado e sua ficha caiu. Ela havia matado alguém. E não importava o quão ruim Edward fosse, ele era um ser humano e ela não era uma assassina.

Eu matei alguém, eu matei alguém, pensava, em desespero. Deu passos para trás, até que se encostou em uma árvore, os olhos azuis tons de água arregalados, em espanto, em incredulidade, em inconformidade. As mãos erguidas e abertas, ela não parava de fitar o sangue grudado ali. As lágrimas começaram a rolar pelo seus olhos e então ela olhou para Jason e Alex. Não, ela não queria que ele matasse a mulher que ela amava. Não queria que Alex apanhasse. Ela queria ajudá-la, mas não conseguia se mover. Suas pernas de repente haviam parado. Lauren estava tão paralisada naquele momento que até suas dores tinham parado. Tudo havia parado, de repente.

Suas pálpebras fecharam por vontade própria, por vontade dela. Tudo se fez escuridão. Ela só enxergava a escuridão. Nada daquilo parecia real, nada fazia sentido. O sequestro, o lugar onde estava, a casa pegando fogo enquanto Maura estava lá dentro e ela não podia fazer nada, os golpes que recebeu, suas mãos sujas com o sangue de Edward. Ela havia matado alguém. De repente Lauren não era Lauren e tudo se fez escuridão. Ela estava na escuridão e isso era tão assustador.

O frio que fazia naquele momento mais do seu corpo estava quase congelando sua alma.

"And in the dark

I can hear your heartbeat

I tried to find the sound

But then it stopped

And I was in the darkness

So darkness I became."

Um tiro foi disparado, ecoando pela floresta, fazendo aves levantarem voo. Seu coração parou de bater por um instante — mesmo que isso fosse impossível — e voltou com força total. Ela não sabia quem havia disparado. Quando abriu os olhos, Jason estava no chão, imóvel, de olhos fechados, morto. Ela não viu seu último suspiro como viu de Edward. Alex estava em pé, o nariz sangrando sem parar, e o revólver na mão. E então ela olhou para Lauren e deixou a arma cair. Ela, que estava em sem óculos, porque o mesmo havia acabado de ser quebrado ao chão, estava com os olhos marejados. Mesmo sem saber ainda tudo que havia acontecido, ela também sentiu o desespero, o medo. Ela também fazia parte da escuridão. E podia enxergar nos olhos de Lauren o quão abalada ela estava, o quão perdida se sentia. Sem dizer uma palavra, sem se importar com o estado que ambas se encontravam, Alex avançou em sua direção e a abraçou da forma mais forte possível. Lauren correspondeu, mesmo sem ter forças para isso.

– Foi horrível, Alex... foi horrível... eu matei um homem... — Disse, aos prantos, chorando alto, enquanto se apertava contra ela. Lauren não pôde ver a expressão da amada porque estavam abraçadas, mas a morena além de surpreendida ficou muito penalizada em saber disso, porque ela sabia o quão Lauren sofreria por causa disso. Matar alguém era uma experiência única, que nos muda para sempre. Devastadora. — Eu matei... minhas mãos tem sangue... eu... eu... eu não sei o que aconteceu... eu estou na escuridão... — E era também literal, porque elas estavam na escuridão da floresta. Só o luar no céu estrelado iluminava-as.

– Sh, sh... — Alex disse ao pé de seu ouvido, continuavam abraçadas da mesma forma que antes, firmes, apertadas, seus braços envolvendo-a de uma forma nunca feita antes. A segurava como se quando soltasse fosse perdê-la para sempre, mas não ia. Alex não deixaria Lauren ir embora nunca mais. — Pode parecer horrível agora, mas vai ficar tudo bem. Eu estou aqui com você. Estamos na escuridão juntas.

"I took the stars from my eyes

And then I made a map

And knew that somehow

I could find my way back

Then I heard your heart beating

You were in the darkness too

So I stayed in the darkness with you."

A corrida que parecia ter sido interminável chegou ao fim quando Jane saiu da casa com Maura nos braços, que estava quase desacordada de tão fraca e por tanta fumaça que havia inalado, ela ainda deu mais uns dez passos até cair, literalmente, no gelo, de joelhos e colocar sua amada delicadamente ali, mas sem soltá-la de seus braços, com medo de que se o fizesse, fosse perdê-la. E Jane não poderia perdê-la de novo. Nesse momento um filme passou em sua cabeça de todos os momentos que viveu com Maura, e da partida dela. Ela partiu naquela época, na época do inverno, da neve, em dezembro. Depois de toda aquela tensão, de toda dificuldade em tirá-la com vida de dentro da casa, Jane havia conseguido e agora se permitiu transbordar em lágrimas.

– Jane... — Ela chamou baixinho e olhou para o rosto da detetive, e por mais que a situação toda fosse tensa, horrível, não havia visto imagem mais linda na vida do que aquela: o rosto da morena, os cabelos bagunçados, os olhos brilhando, com lágrimas, sendo refletidos junto do luar atrás dela, lá no lindo céu, que curiosamente estava cheio de estrelas. — Não chora... está tudo bem, eu estou bem, só devo estar com alguns ossos quebrados — Maura disse num humor que a fez soltar uma risadinha que Jane acompanhou, mesmo chorando. Aquela era sua Maura.

– Nunca mais me dê um susto desse, Maura, nunca mais! — Passou a mão esquerda bem de leve, com cuidado, mal encostando na pele, que estava dolorosa. O olho de Maura estava roxo, o esquerdo, e seu rosto estava inchado e cheio de hematomas meio roxos, o canto de seus lábios estavam vermelhos, a narina direita suja de sangue. Como doía ver Maura machucada assim. — Esses desgraçados te feriram...

– Eu estou bem, Jane. Porque estou com você. E eu sei que agora tudo vai ficar bem. Não se preocupe — Maura ergueu sua mão direita e tocou o rosto da morena, sentindo suas lágrimas e limpando-as. — Cadê a Lauren? Ela saiu arrastada por aquele louco do Jason... e você veio sozinha nos resgatar?

Aquela pergunta fez Jane voltar a toda realidade tensa da situação. Havia até se esquecido por um momento de que havia Lauren, de que Alex tinha ido atrás deles.

– Eu vim com a Alex e quando chegamos eu ouvi a voz da Lauren e de um homem. Alex foi atrás deles... — Maura fez uma expressão de preocupação — Alex estava armada. Nós víemos sozinhas, porque Alex tinha razão. O FBI estava fazendo pouco caso, eles só viriam amanhã. E eu não poderia esperar, nem ela. Resolvemos vir hoje, na mesma hora e ainda bem que fiz isso, senão eu teria perdido você... — Seus olhos ficaram cheios, novamente.

– Sh... Você nunca vai me perder, Jane. Nunca. Mesmo que eu morresse. Nem na morte eu não vou te deixar.

– Mas eu não quero que você morra tão cedo, Dra. Isles — Disse com um sorrisinho enquanto chorava — Eu quero, eu preciso de você viva, do meu lado, aqui, por muito tempo. Nós ainda temos que casar, temos que ter nossos filhos, esqueceu?

– Nem que eu quisesse, você não me deixaria esquecer... — Respondeu num tom brincalhão, abrindo um sorriso doce, mas fraco. Deixou escapar um gemido e Jane a olhou preocupada. — Eu acho mesmo que quebrei alguma coisa, inclusive acho que foram às costelas. Estou com muita dor.

– Vamos, eu vou te tirar daqui. Vou te levar para a estrada onde está o carro, lá o sinal do celular pega. Vou ligar para a polícia e para uma ambulância, até porque não sabemos o que aconteceu com Alex e Lauren. Jason pode estar solto por aí e não vou deixar que ele encoste um dedo em você novamente.

Naquele momento nada mais importava. Maura estava bem. E Jane faria de tudo para que ela continuasse assim. Só estava preocupada com Alex, mas sabia que a amiga era forte e esperta. Com certeza ela saberia se virar. E estava armada, além disso.

Quando se desvincilharam do abraço, ainda estavam bem perto, Alex segurava Lauren, que estava muito fraca, mal conseguia manter-se em pé e seu rosto estava horrível. Tinha um corte na testa, vários hematomas, manchas de sangue nos cantos dos lábios e nas narinas. Depois de um abraço que durou quase uma eternidade, depois de sentir a força das palavras de Alex "eu estou aqui com você, estamos na escuridão juntas" parecia que tudo havia ficado mais calmo, mais sereno, mais tranquilo. O peso em suas costas diminuiu o suficiente para que ela conseguisse respirar em paz e entender que havia acabado. Que ela estava bem, viva, e de que seus sonhos poderiam se realizar. E o mais importante: de que estava nos braços da mulher que amava. E esse pensamento fez os olhos de Lauren brilharem.

– Você veio me salvar, mesmo depois das nossas brigas, das coisas que te disse, mesmo depois de eu ter ido embora... — Estava visivelmente emocionada, assim como Alex, a voz embargada, os olhos transbordando em lágrimas — Você veio... está aqui comigo... no pior momento da minha vida... você me salvou, e está aqui...

– Porque eu te amo, Lauren — Disse, com o coração disparado, sem ter medo, sem ter receio, sem pensar em seus traumas, sem pensar em mais nada. Disse com vontade, com a voz carregada, cheia de sinceridade.

Lauren piscou demoradamente, mais lágrimas caindo. Estava desacreditada. Depois de tanto tempo, de tantas brigas, de tanta insistência para que Alex conseguisse dizer em palavras o que sentia... justo naquele momento ela estava fazendo-o.

– Eu te amo. Com todo o meu coração, com toda minha alma, com todas as minhas forças, com toda minha coragem, com toda minha esperança, com todos os meus medos e inseguranças, com todos os meus palavrões e falta de modos, eu te amo. E eu não deixaria que nada te tirasse de mim, porque eu não posso viver sem você. Não posso.

Mesmo com as mãos completamente vermelhas do sangue grudado, mesmo com suas roupas sujas e fedendo, com seu péssimo estado, com suas dores, com o frio que fazia, ela segurou o rosto de Alex e pressionou seus lábios contra os dela de forma desesperada, e aquilo durou uma eternidade.

Porque nem sempre ficar na escuridão é uma coisa ruim.

Notas finais
Espero que depois dessa os coraçõezinhos de vocês estejam em paz.