R&I - Wish You Were Here
3 Capítulo 2 - Destinos Cruzados
Notas iniciais
Depois de se formar em medicina em Oxford, Maura voltou para os Estados Unidos, mas não para Boston. Ela se instalou em Los Angeles, onde fez alguns cursos e especializações ao longo do tempo até se tornar o que era hoje: uma grande legista. Maura era tão boa naquilo que fazia que recebeu uma proposta praticamente irrecusável: Foi convidada para ser a legista-chefe do Estado de Massachusetts, e do Departamento de Homicídios de Boston.
Ela gelou ao ouvir a palavra "Boston" e se sentiu sem fôlego por alguns minutos. Fazia muito tempo que ela não pisava naquele lugar. Mais especificadamente 12 anos. Voltar para lá, depois de tudo, seria estranho, mas Maura não podia recusar aquela oportunidade que a vida estava lhe dando. Talvez mais do que uma oportunidade de ser uma grande médica, fazer o que gosta ajudando a trazer paz para famílias, uma oportunidade de consertar os erros do passado. Mas esse pensamento que lhe ocorreu logo desapareceu.
Mesmo estando em Boston, ela não fazia ideia do paradeiro de Jane. Seria difícil encontrá-la, não saberia nem onde procurar e melhor: não sabia se devia procurá-la depois de tanto tempo. Provavelmente Jane já deveria tê-la esquecido e senão o fez, devia ter muita mágoa dela.
Já em Boston, Maura estava aproveitando os dois meses que ainda tinha antes de se oficializar a nova legista-chefe e iniciar seu trabalho. Havia escolhido onde moraria, uma casa maravilhosa e grande, espaçosa, com uma área em volta privativa, além de uma pequena casa de hóspedes.
Para pessoas normais dois meses podiam ser pouco para decorar e mobiliar uma casa como aquela, mas para Maura Isles em dois meses ela conseguiu decorar e mobiliar até a casa de hóspedes.
– Você gosta daqui, não gosta, Bass? — Perguntou, sentada de pernas de índio no meio do espaço entre balcão e sala, olhando para o cágado em sua frente. — Eu também gosto. Não venho pra Boston desde os meus dezoito anos... Esse lugar me enche de lembranças, algumas lembranças que me sufocam, mas mesmo assim me sinto como se estivesse de volta ao meu lar. Não encontrei explicação na ciência para esse fenômeno ainda.
A única sorte de Maura é que ela não estava sozinha em Boston. Um grande amigo que ela conheceu na universidade havia recebido um convite para trabalhar em Boston também, Jonathan. Ele era gay e a única pessoa com que Maura havia aberto seu coração sobre seu passado.
– Gente, sua casa está um arraso! — Ele disse, boquiaberto ao entrar na casa de Maura pela primeira vez.
– Você gostou mesmo? Sua opinião conta muito pra mim, já que você é um grande arquiteto.
– Oh minha amada, assim você me lisonja. Mas sim, eu adorei! Dra. Maura Isles tem o gosto mais sofisticado que eu já vi. Já disse que adoro isso?
Ele soltou uma risadinha e foi se sentar no sofá, cruzando as pernas.
– Bass está se adaptando a casa nova?
Maura pegou um vinho do armário e despejou o líquido em duas taças, até a metade e foi se encaminhando até o sofá, sentando de lado, de frente para o amigo, estendendo a taça em sua direção.
– Está sim. Acho que ele gosta mais daqui do que da casa de Los Angeles.
Tomaram um gole do vinho ao mesmo tempo e Jonathan percebeu que apesar de estar feliz com a mudança, Maura estava estranha.
– Você não me parece tão animada quanto deveria estar com essa mudança de ares.
– Mas eu estou. Recebi uma proposta de trabalho maravilhosa, não tem como não estar animada — Deu um sorrisinho para o amigo, que a olhava desconfiada.
– Sim, você está, mas tem algo te incomodando. Me diga, minha deusa, o que é?
Maura ficou hesitante, desviou o olhar, fitando o nada. Engraçado que desde que chegou em Boston suas lembranças haviam ficado mais fortes. Mas era totalmente normal, já que tudo que se lembrava havia sido vivido naquela cidade.
– Acho que faço uma ideia do que seja. Tem a ver com aquela sua namorada da adolescência, Jane, não é?
Ela o olhou.
– Você me conhece tão bem... — Ambos sorriram — Sim. As minhas memórias estão sendo revividas quase que o tempo inteiro. Não sei como fazer isso parar. Já fiz algumas buscas na internet sobre isso, mas até agora nada que dê um resultado eficaz.
– Acho que a medicina só estará evoluída suficiente quando fizerem algum aparelho que apague memórias específicas que nós queiramos esquecer, como naquele filme "Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças".
Ela soltou uma risadinha e tomou mais um gole do vinho.
– Quem sabe um dia não chegamos lá. Mas eu não queria apagar essas memórias. Elas são incríveis. São ótimas. Eu não sei qual é o grande problema de tê-las, na verdade...
– Deixe-me supor, então, já que você não pode fazê-lo, eu posso! — Ele disse com um sorriso maldoso — Apesar de suas memórias serem incríveis, você se sente incomodada em ficar relembrando porque você se lembra da forma trágica como as coisas que viveu foram interrompidas, e você se arrepende da escolha que fez e queria a todo custo voltar ao passado e mudá-la.
Maura ficou séria, fitando-o, tombou a cabeça um pouco para o lado.
– Baseada nos meus próprios pensamentos durante esses doze anos, na minha vontade de voltar ao tempo e tudo mais, posso dizer com absoluta certeza que você tem razão. Mas infelizmente o tempo não é algo que volte. O tempo voa e tudo muda, temos que acompanhar as mudanças.
– Exatamente! E você é a mulher mais linda, sofisticada e inteligente que conheço, está morando numa casa espetacular e nós precisamos comemorar isso! — Ele largou a taça de vinho em cima da mesinha da sala e se levantou, estendeu a mão para Maura que segurou e foi puxando-a, fazendo se levantar também.
– Onde nós vamos, Jonathan?
– Vem comigo e não faz perguntas!
Há doze anos atrás...
Na segunda-feira foi muito difícil levantar da cama e ir por vontade própria ao colégio. Maura sentia-se completamente envergonhada pelo ocorrido sábado. Todos iriam rir da sua cara, incluindo o imbecil do Brian e seus amiguinhos. Mas ela não podia fugir do colégio e tinha um grande motivo para ir: Jane.
Assim que chegou, de cabeça baixa, correu até seu armário e ficou ali, arrumando mil vezes seus livros que já estavam em ordem, só para não ver ninguém que passava.
– Maura? — O coração da loira disparou e ela deixou cair o livro que estava em sua mão no chão ao ouvir aquela voz.
Se virou, assustada e abriu um sorriso enorme ao ver Jane, que sorrio também e elas se abaixaram ao mesmo tempo para pegar o livro, seguraram no mesmo e seus dedos se encostaram.
– Está tudo bem? Você parece nervosa. Alguém mexeu com você? Disseram alguma coisa?
– Não, está tudo bem, até agora — Dizia, olhando para Jane como se estivesse hipnotizada. Estava mais boba do que na noite de sábado. — E você? Está bem?
Elas se levantaram do chão e Maura guardou aquele livro no armário, fechando-o em seguida.
– Estou sim. Você melhorou em relação aquela coisa toda que rolou na festa? Fiquei preocupada com você... pensei em te ligar ontem, mas não tenho seu número e fiquei constrangida de ir até sua casa — Admitiu, com um sorrisinho tímido.
– Ficou preocupada comigo? — Maura sentiu-se feliz ao saber daquilo, elas caminhavam lado a lado até a sala — Devia ter ido lá em casa. Eu teria gostado. Ah, e vou te passar meu número, assim fica mais fácil.
– Da próxima eu irei, então.
– Mas, sim, eu estou melhor. Só me sinto desconfortável com os olhares que recebi até agora das pessoas.
– Não ligue, lembre-se do que eu te disse sábado, a maioria são babacas e você é especial demais para eles.
Maura sorria sem parar, e Jane se perdia naquele sorriso, e acabava sorrindo também quase que sem querer.
De repente um grupo de garotas que passava, todas elas estavam na festa sábado, uma delas esbarrou propositalmente em Maura, que segurava em mãos dois livros pesados por cima do seu fichário cor de rosa. Maura caiu no chão, junto dos mesmos e todos riram no corredor, inclusive as garotas.
Jane rapidamente ajudou Maura a se levantar, segurando-a pelas mãos, olhou-a de perto nos olhos quando ela já estava em pé, passou a mão direita no rosto dela.
– Você está bem? — Perguntou num tom baixo, íntimo.
Maura encarou os olhos dela de perto, ouviu aquela voz e sentiu um arrepio. O clima só não era romântico e mais convidativo do que todo aquele contato e proximidade, porque haviam aqueles imbecis ao redor atrapalhando tudo e Maura estava constrangida.
Jane se virou, revoltada, para as garotas que estavam um pouco mais a frente, do outro lado, nos armários. Tudo havia acontecido tão rápido que Jane não tinha visto qual delas esbarrou em Maura.
– Qual de vocês esbarrou na Maura? — Perguntou num tom alto e intimidador, aquela voz grossa.
As garotas se entreolharam com sorrisos maliciosos e olharam para ela.
– O que você quer, Rizzoli? Finalmente decidiu sair do armário e arrumou uma namoradinha? Justo a nerd zoada? — Uma delas disse, para confusão de Maura que não entendeu nada e para a fúria de Jane.
– Se você não calar essa boca eu vou fazer você entrar no armário sem abrir a porta dele. Vou afundar a sua cara ali, Sandy! — Disse num grito e fez menção de ir na direção delas, mas sentiu a mão de Maura em seu braço.
– Jane, por favor, não faça nada que possa te prejudicar.
– Eu só vou dizer uma coisa pra vocês, pra todas vocês, se alguém mexer com a Maura, se alguém fizer qualquer coisa pra ela, mínima que seja, esse alguém vai ter que se entender comigo! Estão ouvindo?
As meninas ficaram sérias. Embora não suportassem Jane por ela não fazer parte do perfil das garotas populares, femininas e fúteis, elas sabiam do que Jane era capaz. Já havia quebrado o nariz de dois garotos em brigas. Era melhor não se meter com ela.
– Vamos embora, vem — Maura disse perto do ouvido dela, ainda segurando em seu braço direito, escorregou a mão e segurou na mão dela.
Foram para a sala de aula e não conversaram sobre aquilo. Na verdade não conversaram praticamente sobre nada porque não tiveram tempo. As aulas eram corridas. Na hora do intervalo, sentaram juntas num banco mais isolado do pátio.
– Queria te agradecer por ter me defendido na hora da entrada — Maura começou a dizer, timidamente — Nunca ninguém fez algo parecido por mim antes.
– Eu tinha que fazer isso! Sandy e suas amigas são umas cadelas! Elas acham que mandam no colégio e que podem menosprezar as pessoas, humilhá-las. Eu detesto isso. E nossa, quando eu vi que você caída no chão... me deu uma raiva! — Jane não pensava bem antes de falar, ela era impulsiva, se deixava levar pelos sentimentos. Maura já havia "diagnosticado" isso nela, e achava adorável.
– Você precisa aprender controlar sua raiva e mais ainda suas ações impulsivas, Jane. Você sabia que agir por impulso quase sempre nos é prejudicial? Não conseguimos ter coerência naquilo que fazemos, porque não analisamos antes, não colocamos na balança, não nos certificamos de que aquilo é realmente a coisa certa a ser feita.
Jane começou a rir e Maura fez cara de incompreensão.
– Do que está rindo?
– Desculpa, mas eu acho engraçado.
– O quê?
– Você, falando sem parar, explicando as coisas.
Maura sentiu seu rosto ardendo, suas maçãs do rosto corando, abaixou um pouco a cabeça.
– Desculpa, é uma mania incontrolável que tenho. Já tentei também entender o que se passa, se tem forma de controlá-la, mas eu acho que não. É mais forte que eu. Desculpa.
– Não tem problema, e não precisa ficar com vergonha não. Se você vai ter que lidar com meu jeito impulsivo, eu acho que posso lidar com essa sua mania tranquilamente.
Jane olhava para ela de uma forma abobada.
De repente Maura mudou sua expressão, estava curiosa desde aquela hora, queria entender o que a tal da Sandy quis dizer com aquela frase.
– Jane, eu posso te fazer uma pergunta?
A morena olhou para ela, e assentiu com a cabeça.
– Claro.
– Aquela garota, a tal da Sandy, aquilo que ela disse sobre você... insinuou que nós... nós éramos... — Ficou ainda mais corada — namoradas...
– Não liga pra isso. Ela é uma imbecil. É que desde pequena eu sempre fui assim, nunca gostei muito de me arrumar, de roupas frescurentas, maquiagem, etc. Gosto das minhas roupas largas, dos meus tênis. E quase não tenho amizade com meninas, só com garotos. Acho que é até normal, já que meus irmãos são todos homens. Por causa disso todo mundo fica insinuando que eu sou lésbica.
Jane olhou com receio para Maura. Será que ela agiria diferente com ela se achasse que ela podia ser lésbica?
– Mas você é?
– Lésbica? — Perguntou meio assustada, Maura assentiu. — Eu... não, não, quer dizer... eu não sei. — A loira arqueou uma sobrancelha, notando o nervosismo de Jane — Não tem como eu saber, quer dizer, é que eu... eu nunca beijei ninguém, nem garotos e nem garotas — Falou baixinho o final.
– O que disse por último?
Jane revirou os olhos, fazendo uma careta. Detestava repetir aquele tipo de coisa. Se inclinou para mais perto de Maura, falando baixo.
– Eu nunca beijei ninguém.
Maura se surpreendeu com aquela revelação. Olhou com um sorriso para Jane.
– Sério? Eu não podia imaginar. Nunca pensei que você não tivesse beijado.
– E por que não?
– Ah, eu não sei. Talvez porque você seja muito bonita, eu achei que... — Maura parou de falar quando viu a forma que Jane a olhava, deixando-a completamente constrangida.
Jane abriu um sorriso e cutucou o braço de Maura com o ombro.
– Eu sou muito bonita, senhorita Isles? — Seu tom era de brincadeira, mas deixou Maura nervosa — Um elogio vindo de uma garota como você é pra fazer o ego da gente ir lá em cima.
Maura acabou rindo, e a morena acompanhou sua risada. Se virou mais para ela, apoiando o braço no banco.
– Como assim "vindo de uma garota como você"?
– Ah, qual é, Maura. Você é toda elegante, sofisticada, mas sem ser fútil ou vulgar como as meninas daqui. Fora que você é linda... — Ao dizer isso, quase sem querer, Jane fitava os olhos de Maura como se estivesse encantada e de repente seu olhar caiu para os lábios dela.
Maura percebeu o olhar de Jane em seus lábios e virou o rosto em outra direção, completamente constrangida. Um milhão de pensamentos se passavam em sua cabeça. Porque Jane a deixava tão nervosa e tímida? Porque Jane tinha um sorriso tão lindo? Porque estava fitando seus lábios?
– Desculpa, não queria te deixar sem graça — Jane falou baixinho.
– Está tudo bem, Jane. Eu fico feliz por saber que você me acha tudo isso. São grandes elogios, ainda mais porque eles vem de você — Virou o rosto novamente e se encararam.
Elas se perderam no olhar uma da outra. Não estavam sentadas tão longe. Na verdade estavam mais próximas do que era necessário. O olhar de ambas de repente foi para os lábios uma da outra, parecia até combinado pela precisão em que olharam ao mesmo tempo, mas não foi. Estavam próximas, cada vez mais próximas, os rostos, as respirações se misturando, podiam sentir o cheiro uma da outra até que o sinal bateu, despertando-as daquele transe e causando um desconforto nas duas, que sorriram sem graças antes de irem para a sala de aula.
Nos dias de hoje...
Jane ainda não acreditava que havia visto Maura na rua e não fez absolutamente para. Pensou em gritar, em descer do carro e ir atrás dela, mas isso era loucura, até porque não conseguiu ver o rosto dela, então poderia estar errada. Mas algo dentro de si dizia que era verdade. Que tinha visto Maura naquela manhã de terça-feira.
Passou o dia todo no trabalho pensando nisso. Mal conseguia se concentrar. Korsak e Frost perceberam, fizeram perguntas, mas ela se limitava a responder que nada havia acontecido.
Chegou em casa mais cedo, e continuava só pensando na mulher que havia visto quando a porta de seu apartamento começou a ser batida desesperadamente.
– Já vai, já vai! — Levantou do sofá, segurando sua garrafa de cerveja e Jo Friday latia, abriu a porta do apartamento e viu Lauren toda arrumada — Que isso? Vai onde assim?
– No mesmo lugar que você. Se troca que nós vamos sair! — Falou animada.
– Sair? Hoje? É terça-feira, Lauren. Amanhã eu acordo cedo... — Foi voltando em direção ao sofá e se jogando ali. Lauren foi atrás dela e arrancou a garrafa de cerveja de sua mão. — Ei, isso é meu.
– Vamos, Jane. Faz tempo que nós não saímos! Você precisa se divertir. Ficar só nesse apartamento ou no seu trabalho está te deixando mais rabugenta que o normal.
– Me sinto muito bem assim.
A garota revirou os olhos, colocou a garrafa de cerveja em cima da mesa e pôs as mãos na cintura.
– Vai, Jane! Levanta daí, troca de roupa e vamos sair.
– Onde é que nós vamos?
– Nos divertir um pouquinho.
Ela revirou os olhos e bufou. Sabia que se não fosse, acabaria arrumando briga com Lauren, pois a garota era difícil e realmente fazia muito tempo que não saíam juntas. Se levantou do sofá, rendida.
– Tudo bem, mas eu vou com a roupa que eu quiser, ok?
– Ok!
Em quinze minutos Jane já havia se aprontado. Usava uma espécie de terninho, só que sem gravata. Toda de preto e branco, enquanto Lauren usava um vestido tubinho, curto e colado, vermelho.
[...]
Maura dificilmente iria para lugares que não fossem museus, consertos, galerias de arte, teatro, festas beneficentes ou festas de pessoas da alta sociedade. Mas como Jonathan, seu melhor e único amigo era um baladeiro incorrigível, ela viu-se obrigada a frequentar outros tipos de lugares. E ela até que gostava, pois Jonathan só ia em boates modernas e sofisticadas, com pessoas de um nível superior.
– Dessa vez você se superou — Maura comentou, os dois já dentro de uma enorme boate, com uma decoração vintage.
– Eu sempre me supero, meu amor. Eu descobri essa boate numa viagem que fiz pra cá no ano passado e é um fervo! Não sabe quantos bofes incríveis passam por aqui...
Maura soltou uma risada enquanto eles caminhavam até o bar.
– Você é uma figura, Jonan. Só espero que você não arranje um bonitão tão rápido e me abandone aqui.
– Querida, do jeito que você é maravilhosa vai arranjar um bofe mais rápido que eu! — Eles riram novamente e Jonathan pediu ao garçom dois drinks.
– Vamos brindar, minha deusa... — Disse, virando-se para a amiga assim que o garçom entregou os drinks a eles.
– Brindar ao que, exatamente?
– A nossa nova vida em Boston, ao futuro! — Ele ergueu seu copo e Maura fez o mesmo, sorrindo, encostaram os copos.
– Ótima ideia. Ao futuro!
– Sério que me trouxe numa boate de rico? — Jane perguntou à Lauren, assim que entraram e começaram a atravessar várias pessoas que estavam ali, quase formando uma aglomeração.
– Achei melhor do que te levar numa daquelas GLS que já fomos. Da última vez uma retardada bêbada te tascou um beijão e eu fiquei morrendo de raiva!
Jane soltou uma risada e enquanto elas andavam no meio da multidão, ela olhava ao redor, haviam homens e mulheres de todos os tipos, mas a maioria podia-se notar que eram de outra classe social, bem vestidos. Não soube porquê, mas ao ver um casal dançando sensualmente, por alguns instantes veio em sua mente imagens da noite da festa no colégio, onde conheceu Maura. Balançou fortemente a cabeça, querendo afastar tais pensamentos. Porque não conseguia esquecê-la? Ou melhor, porque justo agora que estava com a vida estabilizada precisava pensar tanto nela? Maura nem devia lembrar da sua existência.
Começou a tocar o remix "Girl On Fire".
– Oh! Nós temos que dançar essa música, eu amo essa música! — Lauren disse toda empolgada, agarrando na mão de Jane e puxando ela para o que era uma espécie de "pista de dança", já que todos que dançavam, estavam ali.
– Sério que vamos direto ao clímax? Não vai me pagar nem uma bebida antes? — Jane disse em tom de brincadeira, rindo.
Lauren riu também e quando chegaram na pista, ficaram uma de frente para a outra. Ela lançou um sorriso malicioso para Jane e começou a dançar ao som das batidas altas da música.
Jane começou a ficar mais animada. Lauren tinha 22 anos. Era jovem e cheia de vigor. Gostava de sair, de farrear. E tinha algo nela super excitante. Era sexy sem ser vulgar. Atraía Jane de uma forma muito forte. Tinham química.
Lauren sorria para Jane enquanto dançava, e até então a morena só se mexia levemente, acompanhando a música. Lauren foi se aproximando de Jane, colocou as mãos sobre seus ombros e a morena segurou em sua cintura. A ruiva começou a dançar descendo até o chão e Jane a acompanhava, e logo foi encaixando sua perna direita entre as pernas dela, assim, quando Lauren se abaixava, ainda mais de vestido, ela se esfregava na coxa da morena.
– This girl is on fire... — Sussurrou no ouvido de Jane, sua mão se enfiando nos cabelos rebeldes e puxando daquele jeito que a deixava louca.
– Você me deixa pegando fogo... — Foi a resposta da morena, antes de juntá-la com força nos braços e beijá-la.
Do outro lado da boate, Maura e Jonathan dançavam juntos, de uma forma não tão sensual quanto Jane e Lauren, mas de uma forma divertida. Os dois eram soltos e tinham um rebolado de dar inveja.
– This girl is on fire...
– She's walking on fire!
Eles cantavam gritando e rindo enquanto dançavam.
Logo um rapaz bonito e barbado foi se aproximando dos dois, sorrindo e começou a dançar junto com eles, mas seu interesse era em Jonathan, Maura percebeu e então deu um "espacinho" para que eles pudessem dançar sensualmente juntos, até que os dois se beijaram e então Maura riu, sabia que isso aconteceria. Jonathan era muito bonito e era devorado pelos homens e as mulheres enlouqueciam ao saber que ele era gay.
A música acabou, trocando para outra e Jonathan e o rapaz não paravam de se beijar de uma forma "forte". Maura, então, decidiu ir dar uma voltinha pelo lugar e aproveitar e ir até o banheiro.
Depois de dançar daquela forma com Lauren, Jane já estava suando e mais descabelada que o comum.
– Eu vou no banheiro, já volto — Disse no ouvido de Lauren, que assentiu, de olhos fechados. Ela dançava sem parar e não se preocupava com mais nada.
Jane caminhava rapidamente, desviando das pessoas, em direção ao banheiro.
Maura andava tranquila, embora quisesse ir ao banheiro, não tinha pressa e seus olhos estavam focados na multidão de pessoas diferentes.
Quando estava próxima de chegar ao banheiro, esbarrou com alguém que parecia até mesmo correr de tão rápido que andava.
– Oh, me desculpe! — Mesmo com o barulho de todas aquelas pessoas e da música alta, Maura ouviu bem aquela voz. Sentiu um calafrio, seu coração disparou. Aquela voz rouca, grossa e sexy. Era ela.
– Jane?
A morena ergueu seu olhar e deu de cara com aqueles olhos verdes que não viam há tanto tempo. Agora tinha certeza que não estava louca. Ela realmente tinha visto Maura no trânsito mais cedo.
Ambas ficaram se encarando durante segundos, minutos. O coração das duas batia ferozmente e ninguém tinha coragem de dizer ou de fazer nada. Estavam simplesmente congeladas, perdidas no olhar uma da outra, naquele reencontro inusitado após tantos anos.
Jane sentia uma raiva enorme de Maura, porque a mesma havia a abandonado, desaparecido sem se despedir, sem dar uma razão, um motivo. Deixou Jane com o coração despedaçado, tentando entender porque ela havia feito aquilo, porque havia ido embora... e mesmo depois de doze anos se questionando isso, ela continuava sem entender. Além de raiva, tinha muita mágoa. E ao mesmo tempo, uma saudade quase que insuportável.
Maura não se perdoava por ter abandonado Jane. Ainda que na época ela não tivesse escolha, não conseguia se perdoar por isso. Elas se amavam tanto e eram tão felizes. Devia ao menos ter dito a verdade, ter dado uma explicação. Mas não. Optou por ir embora sem dizer uma palavra, achou que assim evitaria sofrimentos, mas é claro que estava enganada.
Maura piscou lentamente. Estava tonta. Sua cabeça girava e a música e as vozes das pessoas pareciam ser um eco distante. Seu mundo estava silencioso nesse momento. Só conseguia ouvir, como se estivesse sendo dito agora, a voz de Jane dizendo que a amava, que elas ficariam juntas para sempre, que Maura era o seu maior presente. Não conseguia parar de encará-la. Jane estava tão... linda. Quase não havia mudado. Só estava mais alta, com roupas diferentes, a voz mais aguda e o rosto com aparência mais velha lhe deixando ainda mais bonita.
– Maura... — Jane disse, desacreditada, a olhava agora como se estivesse vendo um fantasma, seus olhos estavam arregalados, a boca aberta, o coração ainda disparado, como se fosse pular para fora do peito.
– Jane...
Os corações batiam tão acelerados, elas estavam tão nervosas que ofegavam. Embora não soubesse porque Maura havia a deixado, e se ainda sentia algo depois de tantos anos, Jane pôde ver a loira ter as mesmas reações que ela.
Elas foram se aproximando cada vez mais. Seus corpos estavam quase colados, já não havia mais espaço pessoal de ninguém. Se encaravam. Maura com o rosto levemente erguido, já que a morena era mais alta. Os olhos das duas brilhavam.
Não conseguiam pensar em mais nada. Não conseguiam pensar no passado, o presente e muito menos o futuro. Estavam ali, frente a frente, mais uma vez, colocadas ali pelo destino e pelas reações de seus corpos, ainda havia alguma coisa para ser resolvida.
Jane segurou no rosto de Maura e a beijou desesperadamente. A loira enlaçou o pescoço dela na mesma hora e então Jane a envolveu pela cintura. Deixaram o beijo acontecer livremente e ele tinha gosto de saudade...
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