R&I - Wish You Were Here
4 Capítulo 3 - Conte-me Seus Sonhos
Notas iniciais
Espero que vocês não me matem, mas esse capítulo todo será só sobre o passado, então a continuação do reencontro ficará para o próximo.
Espero que gostem desse capítulo, foi muito gostoso escrevê-lo. Me inspirei em uma música que adoro e será trilha sonora desse episódio (vou colocar no capítulo pra vocês poderem ouvir enquanto leem).
Bom, é isso aí, garotas. Boa leitura!
(Everything Has Changed — Taylor Swift feat. Ed Sheeran)
Dois meses haviam se passado desde o sábado em que Jane e Maura se conheceram. E a partir daquela segunda-feira em que a morena defendeu Maura das garotas más, elas iniciaram, ainda que sem saber, um relacionamento que poderia levá-las a descobrir sentimentos e sensações nunca antes experimentados.
Todos os dias elas se encontravam ainda na porta do colégio. Nenhuma das duas entrava se a outra não tivesse chegado ainda. Estavam sempre juntas, na entrada, no intervalo, na saída. Na sala de aula sentavam uma do lado da outra e discutiam, discutiam muito. Quase todos os dias elas discutiam, mas não era nada demais. As discussões ocorriam porque elas eram muito diferentes. Enquanto Maura gostava de prestar atenção em todas as aulas, fazer suas atividades, participar e estudar, Jane preferia sempre fazer piadas em horas inapropriadas, guerrinhas de papel e todo o tipo de farra que costumamos fazer no colégio. Maura ficava indignada com o comportamento de Jane. Não entendia como alguém podia não dar tanta importância assim ao conhecimento. E Jane não suportava o fato de Maura não pensar em outra coisa além de estudar.
Acabou que mesmo que sem querer, sem se darem conta, ambas sediam. Jane estudava mais, fazia mais atividades do que antes de conhecer à loira. Suas notas aumentaram nas provas porque estudava com Maura. E a loira se permitia as vezes entrar nas brincadeiras e farras que Jane fazia, tanto que em uma aula de Física Jane extrapolou todos os limites, após fazer praticamente a sala toda dar muitas risadas e iniciar uma guerra de papel, ambas acabaram sendo mandadas para a direção.
Jane e Maura estavam sentadas no sofá do corredor da diretoria. A morena já estava acostumada. Desde pequena já havia levado várias advertências e seus pais viviam sendo convocados pela bagunça que fazia. Era normal. Já Maura nunca havia sequer entrado na direção do colégio se não fosse para ser elogiada ou para interagir em relação ao grêmio estudantil que organizava em seu antigo colégio. Estava em pânico. Seus pais com certeza a matariam se fossem chamados pela sua falta de disciplina.
– Ei, Maura, não fique nervosa — Jane sussurrou para ela, percebendo que ela não parava quieta no sofá — Só vamos levar uma bronca, no máximo uma advertência.
– Eu não posso levar uma advertência, Jane! — Disse em pânico, fazendo a morena rir. — Você não entende... não é nem por mim. Eu não me importaria até em levar, porque minhas notas são excelentes, eu sei do meu potencial independente disto, mas os meus pais. Se eles ficarem sabendo que levei uma advertência... Deus, eu não posso imaginar o que eles fariam! Poderiam até me mudar de colégio.
Jane sentiu um estalo ao ouvir aquilo, seu coração se comprimindo. Olhou para Maura cheia de receio.
– Eles não podem fazer isso, não podem te mudar de colégio.
– Se eles quiserem, eles podem. Meus pais por serem "Os Isles", podem tudo... — Disse com pesar, abaixando a cabeça.
Agora Jane entendia porque ela tinha tanto receio de fazer qualquer coisa do tipo no colégio. Seus pais eram realmente difíceis. Não que os pais de Jane achassem legal irem no colégio ouvirem reclamações da filha, mas eles não eram tão radicais. Davam broncas, conversavam, até castigavam quando era necessário, mas entendiam que aquilo era por conta da idade.
– Não se preocupe, Maura. Eu cuido disso, ok? Só confirme tudo o que eu disser — Tocou no ombro da garota, que a olhou e apenas assentiu.
Logo a porta da sala do diretor se abriu e elas entraram, sentando-se cada uma em uma cadeira de frente para o mesmo.
– Senhorita Rizzoli — O diretor de barba branca disse, olhando para Jane com a mesma expressão que fazia todas as vezes — De novo por aqui... estava até estranhando a demora, é a primeira vez esse ano — Deu um sorrisinho e se reclinou em sua poltrona espaçosa, olhou para Maura e estava surpreso. — Agora você, senhorita Isles, estou surpreendido. Pelo que vi nos seus arquivos você sempre foi uma excelente aluna em seu outro colégio. Notas excelentes, comportamento excelente, nenhuma reclamação. Estou realmente surpreso... O que tem para me dizer, Maura?
– Diretor, eu posso explicar — Jane logo tratou de assumir o comando da situação, vendo o quão Maura estava nervosa — A culpa foi toda minha. Eu que taquei a primeira bolinha de papel na sala e fiz toda a confusão. Você sabe como eu sou... Maura não tem culpa.
– Mas o professor reclamou das duas. Ele disse que Maura incentivava suas ações dando risada.
Jane abriu um sorrisinho, erguendo as sobrancelhas.
– Qual é, diretor. Se for assim então ele deveria ter mandado a sala toda pra diretoria porque todos riem das palhaçadas que eu faço. Maura riu porque achou engraçado, não porque queria me incentivar.
O diretor olhava para as duas, alternando, e coçava a barba, fazendo um barulho. Ele se moveu um pouco na poltrona e ficou pensativo.
– O que eu faço com você, ein, Rizzoli? Pelo amor de Deus, esse é o último ano, vocês vão se formar... Será que tem como você se manter fora de encrencas ou pelo menos tentar? — Jane sorrio ao ouvir isso. Embora o diretor tivesse obrigação de reprendê-la sempre que fizesse algo errado, ele gostava da garota. — Eu adoro sua mãe, dona Angela e seu pai também. São grandes pessoas. Pare de aprontar e dar trabalho para eles.
– Pode deixar, diretor. Vou tentar não colocar fogo na escola até a formatura... — O diretor começou a rir, então as duas riram também e trocaram um olhar de cumplicidade. Maura achava Jane incrível.
– E quanto a você, senhorita Isles, sugiro que não deixe se levar pelo sorriso encantador dessa garota aí, senão você vai ter sérios problemas — Embora ele dissesse aquilo brincando, e em relação às aulas, Maura sentiu-se corada. "Sorriso encantador". Realmente o sorriso de Jane era encantador.
– Estão liberadas, podem voltar para a sala.
Estavam próximas de completar três meses de amizade e ainda não se viam assim. Elas eram tão solitárias e diferentes desde a infância que não entendiam bem como funcionava uma amizade, mesmo agora estando tendo a oportunidade de viver uma. Então ser amigo era aquilo? Viver colado em alguém que faz seus dias mais felizes, que te faz rir, que te irrita, que te encanta e que nunca te deixa só? Ser amigo é saber que você tem alguém com quem pode contar sempre e não conseguir mais se imaginar sem essa pessoa, mesmo não a conhecendo há tanto tempo assim?
Como Maura era mais racional e amava ciência, ela tentava buscar nos livros algo que justificasse a necessidade enorme que ela tinha de ficar perto de Jane. Embora nunca tenha tido uma amiga antes, ela sabia, teoricamente, como funcionava uma amizade, quais itens e sentimentos eram necessários, mas ela sentia algo por Jane numa intensidade e proporção que ia além dos limites que se podia nomear por amizade. E isso era assustador. Maura detestava não entender o que sentia, não conseguir explicar aquilo cientificamente e o pior: não ter com quem falar sobre isso. Se Jane era sua única amiga, para quem ela iria falar sobre seus sentimentos?
Jane não era tão racional quanto Maura, mas também não sabia, ou tinha medo de lidar com suas emoções. Se ela era por vezes impulsiva, agia por seus instintos e emoções, em contra partida, as vezes, ela fugia completamente de tudo que sentia por medo. E ela gostava de Maura. Gostava muito, mesmo implicando com a loira todos os dias, fazendo piada do seu jeito e a tirando do sério. Era a forma que a morena encontrava de dizer "eu gosto de você", "eu preciso de você".
Elas finalmente assumiram e tiveram compreensão de que ambas se enxergavam como amigas, na primeira vez em que Jane levou Maura à sua casa, apresentando-a para sua família. Angela e Frankie a adoraram. Angela encheu a garota de perguntas, mas não a constrangiu em momento algum. Angela era brincalhona e deixou Maura a vontade, além de ter entupido-a com suas comidas deliciosas. Os irmãos de Jane também adoraram a loira, embora a achassem estranha, o que não era anormal, já que todo mundo achava.
– Sua família é tão legal, Jane — Os olhos de Maura brilhavam, estava realmente encantada. Havia adorado a família de Jane, a casa, e o quarto da morena. Tudo tão simples e ao mesmo tempo tão aconchegante. — Pessoas humildes, divertidas e tão sinceras.
– Really? Quer levar eles pra sua casa? Estou dando de graça, vou nem cobrar porque já é milagre achar alguém que queira essa família louca...
Maura riu da piada da morena.
– Eles podem ser "loucos" como diz, mas são maravilhosos e te amam demais.
– Eu sei disso. Também amo eles. Só que é meio chato... toda hora... "Jane, pegou seu lanche?", "Jane, pegou o casaco?" ,"Jane, você já fez isso, Jane, já fez aquilo?". Quero dizer, mais do que chato, é insuportável! — Fez uma careta.
– Bom, é melhor do que se sentir completamente sozinha, com pais que não se preocupam, não perguntam, não interagem e quase nunca estão em casa — Embora Maura sorrisse, ficava desanimada ao falar sobre aquilo. Jane sabia.
– Eu sei que você se sente mal por causa disso, não deve ser mesmo legal ter pais tão ausentes... mas... — Jane coçou a nuca, não se achava boa com palavras, muito menos palavras sentimentais.
Elas estavam sentadas na cama da morena, de frente uma para outra.
– Você não está mais sozinha — Fitava os olhos verdes — Eu sei que eu não sou lá grande coisa, que fico te implicando, enchendo seu saco e as vezes até te atrapalho na escola, como naquele dia que fomos parar na diretoria, mas Maura... eu... — Desviou o olhar, mordeu o lábio inferior, sinal de nervosismo, Maura sabia. Já conhecia bem todas as reações que a morena tinha quando estava nervosa.
– Pode dizer, Jane, eu estou te ouvindo.
– Eu nunca tive um amigo assim, de verdade antes. A Kate só andava e conversava comigo porque não tinha companhia melhor, já que o grupo das meninas más não a aceitavam. Você é diferente, Maura. Você fica comigo porque você gosta. Gosta da minha companhia, por mais que eu seja irritante, irônica, debochada e só faça palhaçada com você. Você é minha amiga de verdade, Maura. Eu sou sua amiga e estarei aqui sempre que precisar de mim...
Maura sentia a umidade em seus olhos e seu coração acelerado. Como Jane conseguia ser tão absurdamente linda? Mesmo sem jeito, não sabendo bem como e nem quando se expressar, quando ela resolvia falar algo daquele tipo, deixava Maura completamente sem palavras. Era tocante a forma como ela falava aquilo. Maura sentia sua sinceridade pela sua voz rouca e pelo o seu olhar.
– Eu também nunca tive uma amiga... mas agora eu sei que tenho... — Sorrio para Jane, que abriu um sorriso ainda maior de volta e então se abraçaram bem apertado, sentindo o coração uma da outra batendo juntos.
[...]
Pouco antes do verão, das tão esperadas férias de Julho, Maura e Jane chegaram num ponto tão intenso de amizade que já era inevitável a troca de olhares muito intensos, de um teor até erótico. Existia entre elas uma química muito forte, perceptível por qualquer um. Claro que elas eram amigas e se gostavam, isso também era notório, mas talvez a proximidade delas e a amizade fosse tão intensa que no meio do caminho sem que elas se dessem conta um amor muito aquém da expectativa de ambas começou a surgir, e ele crescia a cada encontro das duas, a cada conversa, a cada troca de olhar, de carinho, de cumplicidade.
Se antes era normal e comum Maura dormir na casa de Jane, em sua cama, com ela, agora era algo completamente constrangedor e difícil. Elas não conseguiam mais conversar deitadas na cama, viradas de frente uma para à outra, pois os olhares, sempre intensos, e assim tão de perto, entregavam o que elas sentiam mas tentavam desesperadamente esconder e era perigoso demais. Nenhuma das duas entendia bem o que estava acontecendo, elas só sabiam que estava acontecendo e era inevitável.
Duas semanas antes das férias chegarem, Jane começou a agir completamente fora de seu normal com Maura, afastando-se completamente e ao mesmo tempo que isso aconteceu, Rick, um garoto legal do outro terceiro, começou a se aproximar de Maura, e eles tinham muito em comum, pois o rapaz era nerd também e isso só fez com que Jane ficasse ainda mais nervosa do que já andava nos últimos tempos pela sua confusão interna.
– Jane... Porque você está agindo assim? — Maura perguntou, assim que a encontrou sozinha na biblioteca, na hora do intervalo — Porque está fugindo de mim? Você não me espera mais na entrada há três dias, ontem você ficou fazendo hora na sala, com a desculpa de terminar uma lição só pra não passar o intervalo comigo e hoje vem se "esconder" na biblioteca.
– Eu não estou me escondendo, Maura — Disse sem encará-la, estava olhando para o livro que tinha em cima da mesa aberto, mas não o lia realmente — Só estou estudando, querendo virar uma aluna melhor. Devia ficar feliz por eu estar seguindo seus passos — Maura revirou os olhos, ela estava sendo irônica.
– Será que você poderia fazer um favor de olhar para mim quando falo com você?
Jane permaneceu encarando o livro, até que Maura pegou o mesmo e o fechou.
– Ei, eu estava lendo! — Jane a olhou indignada — O que você quer, Maura?
– Quero que você fale comigo, que me dê atenção! Porque está agindo assim? Eu não estou entendendo, Jane.
– Vá falar com o seu novo amigo — Disse totalmente séria, se levantando e saindo andando pela biblioteca que era enorme, Maura foi atrás.
– Novo amigo? Está falando do Rick? Eu mal o conheço, Jane. Ele só é legal e compartilhamos conhecimento. Só isso.
– "Ele só é legal e compartilhamos conhecimento. Só isso" — Imitou com uma voz infantil, parando de andar e virando de repente — Really, Maura? Você acha mesmo que ele é legal com você porque quer só "compartilhar conhecimento"?
– Como assim? O que está querendo dizer? — Maura realmente não entendia. Ela não via maldade nas coisas como Jane.
A morena revirou os olhos.
– Maura! Rick é um babaca nerd que não tem sequer amizade com as garotas dessa escola... você é nerd também. Essa é a maneira que ele encontrou pra se aproximar, mas é óbvio que ele tem interesses muito mais além do que só sua amizade.
– Baseada em que você faz essa afirmação, Jane? Só porque ele é homem ou porque não tem nenhuma garota para se relacionar isso significa então que ele tem algum interesse em mim que não seja compartilhar conhecimento ou criar um laço afetivo chamado "amizade"? — Jane detestava quando Maura fazia aquilo. Sua boca de enciclopédia era insuportável.
– Baseada em que? Baseada que todo mundo na nossa idade, homem ou não, está com os hormônios a flor da pele, você sabe disso, afinal, você é a sabichona da ciência — Maura fez careta — e ele sendo homem e excluído como é, torna as coisas ainda piores. E você é a garota mais linda desse colégio... é óbvio que ele quer alguma coisa a mais com você! — Jane estava com tanta raiva que não media as palavras e nem percebia que estava quase gritando.
Maura até agora não entendia bem porque ela estava assim, mas começou a notar que aquilo era ciúmes. Mas porque tanto ciúme de Rick se ele não queria ser seu amigo e sim, talvez, namorado?
"Você é a garota mais linda desse colégio", Maura finalmente havia processado aquela frase. Olhou para Jane surpresa e em seguida abriu um sorriso enorme.
– Eu sou a garota mais linda desse colégio, Jane?
A morena ficou constrangida e torceu os lábios.
– Não mude de assunto, Maura. Vamos! Você sabe que ele está interessado em muito mais que só sua amizade.
– Talvez ele esteja. Mas e daí? O que tem demais nisso? — Era óbvio que Maura não tinha interesse algum no rapaz, mas resolveu provocar Jane, resolveu jogar com ela, mesmo sendo arriscado, Maura precisava descobrir porque aquele ciúme todo e aquela mudança de comportamento. — Mesmo que eu viesse a ter algo com o Rick, isso não mudaria minha amizade com você.
– Que??? Quer dizer que você cogita a hipótese de ter algo com ele? — Jane estava furiosa e decepcionada, sentiu seus olhos marejarem e o seu sangue ferver, fechou as mãos em punho. — Você realmente ficaria com ele?
Maura viu nos olhos da morena o quanto ela estava abalada e se surpreendeu com isso. Não pensou que Jane tivesse sentimentos tão intensos assim por ela. Começou a cogitar a hipótese de que talvez, apenas talvez, ela também pudesse estar apaixonada, assim como Maura estava por ela. Mesmo assim, não iria conseguir descobrir por meio daquele jogo. Não conseguiria mentir, senão teria crises de urticária.
– Claro que não, Jane. Só estou brincando com você. Não precisa ter ciúmes.
Mesmo sabendo que Jane estava falando a verdade, Jane permanecia tensa.
– Quem disse que estou com ciúme?
– Seu corpo está dizendo. Seus punhos estão fechados e você não para de apertá-los. A veia do seu pescoço está um pouco saltada, indicando sua irritação. Sua testa está franzida e...
– Chega! — Ela suspirou — Não quero ser diagnosticada, Doutora.
– Eu não sou médica.
– Mas vai ser, ah, se vai. Você é a sabe tudo apaixonada por biologia. Aliás, por que conhecimento você não é apaixonada?
Maura sorrio. Ela realmente queria ser médica.
– Eu realmente gosto de ser elogiada pela minha inteligência, mas acho que você está se esquivando do assunto.
– Que assunto? — Se fez de boba.
– Ciúmes, Jane. E aliás, também não me explicou até agora esse seu afastamento súbito de mim, esse seu comportamento estranho. Que está havendo? Eu fiz algo de errado? — Perguntou com aquela carinha de criança quando apronta, quase formando um bico em seus lábios, o que deixava Jane com o coração na mão.
– Eu... não Maura, você não fez nada de errado, eu que sou uma idiota que ando nervosa por umas coisas, mas você não tem culpa de nada... me desculpa.
– Mesmo? Tem certeza que não fiz nada de errado? Não está enjoada de mim ou do meu jeito insuportável? — Perguntava com receio, tinha um medo absurdo de perder Jane.
A morena sorrio, balançando a cabeça e se aproximando da loira.
– Seu jeito não é insuportável, vem cá...
Tocou-a na cintura e a puxou para junto de si, envolvendo os braços ao redor da loira, abraçando-a. Maura encostou o rosto no de Jane e a abraçou também, fortemente. Jane encostou seu queixo na cabeça de Maura e ambas fecharam os olhos, se perdendo naquele contato, naquele abraço gostoso. Era estranho, mas sempre que se abraçavam, fechavam os olhos e tinham a sensação de estarem no melhor lugar do mundo.
[...]
Quando as férias chegaram, Maura já estava ficando deprimida. Seus pais foram viajar uma semana antes e só voltariam depois do verão, ambos sempre ocupados em seus universos distantes do da garota. Ela já estava acostumada. O que mais a incomodava de fato é que sem o colégio, não veria Jane todos os dias.
Jane e sua família sempre viajavam no verão. Nesse, decidiram ficar duas semanas num hotel fazenda. A morena não pensou duas vezes em convidar Maura, já que seus pais adoravam a loira, não viram problema nenhum nisso.
O que incomodou Jane, é que no hotel fazenda, as pessoas ficavam em pequenos chalés. Seus pais ficaram em um, e colocaram Tommy e Frankie em outro, e Jane e Maura sozinhas em outro. Angela dizia que os garotos estavam crescendo, e que Jane e Maura por serem mais velhas e tão amigas precisavam de privacidade. E ela estava certo e seria normal dividirem um chalé sozinhas, se as coisas não andassem tão estranhas. O que mais preocupava Jane era à noite. Ficaram sozinhas, completamente sozinhas em uma "casa".
Logo no primeiro dia fizeram uma trilha, e depois todos foram brincar na piscina. Jane não conseguia tirar os olhos de cima do corpo da amiga assim tão exposto. E o mais engraçado era que Maura também não conseguia tirar os olhos do corpo de Jane.
– Jane? Jane? — Maura chamou não muito alto. Estavam no chalé, no quarto, cada uma deitada em sua cama, que não ficavam muito longe. Embora a morena estivesse de olhos fechados, estava acordada também. — Está acordada?
– Sim, Maura. Na verdade estava tentando dormir.
– Desculpa. Eu não estou conseguindo dormir.
– Por quê? — Jane abriu os olhos e olhou para o teto.
– Não sei. E estou ficando nervosa por girar de um lado para o outro na cama. É inquietante demais. Acho que estou sentindo falta da yoga...
Jane revirou os olhos e então se virou, deitando de lado, assim como Maura estava e a encarando.
– Yoga? Really? Até agora não entendo como você pode gostar de algo tão... parado.
– É relaxante. Você devia praticar, já que vive estressada.
– Eu não vivo estressada. Só não tenho paciência pra maioria das coisas... — Maura soltou um risinho. — Eu também não estou conseguindo dormir — Mas é por sua causa, pensou.
– É estranho dormir num chalé, só nós duas. Já pensou se alguém surge aqui de repente? — Ela disse meio em pânico.
– Ah, claro, o Freddy Krueger vai aparecer aqui para nos fazer uma visitinha na madrugada.
– Freddy Krueger não existe, Jane. Mas... — Estava em pânico de novo, aquele olhar preocupado — Será que há algum psicopata por aqui?
– Algum? Devem ter vários, Maura. E estão todos lá fora nos procurando.
– Sério? Você acha mesmo?
Jane começou a rir.
– É claro que não! Deixa de ser boba.
Maura acabou rindo também. Sempre acreditava nas ironias de Jane, quase nunca conseguia distinguir o que ela falava brincando ou não.
Ficaram em silêncio novamente, cada uma fitando um lugar diferente, ambas perdidas em pensamentos tão distantes.
Maura voltou a olhar para Jane.
– Você já sabe o que fazer quando tudo acabar?
– Tudo o que?
– O colégio.
Jane ficou ainda mais pensativa.
– Eu não sei. Acho que todo mundo vai pra uma grande universidade, cada um cursando o curso que sempre quis, que os pais apoiam e toda aquela coisa, mas eu não. Meus pais realmente não tem condições de bancar uma faculdade. E eu também não me vejo mais cinco anos sentada ouvindo professores dando explicações.
– Então o que quer fazer?
– Eu não sei ainda. Quando era pequena cheguei a pensar em ser bailarina, porque minha mãe me colocou no balé — Maura não sabia disso e sorrio com a revelação — Mas né... Eu quero fazer algo que faça diferença no mundo. Algo que faça diferença pras pessoas. Eu quero ajudar. E ao mesmo tempo quero fazer algo com adrenalina, algo que não me deixe parada, sentada o tempo todo, como se eu trabalhasse num escritório, por exemplo.
Definitivamente Jane não tinha o perfil de uma pessoa apropriada para ficar o dia todo parada, sentada em frente a uma máquina, só recebendo ordens. Sem contar que isso a deixaria mais estressada do que já era.
– É tão difícil pensar no futuro...
– Você me dizendo isso? Mas você não é a garota decidida que sabe o que quer e o que vai fazer? — Deu um sorrisinho para Maura, que retribuiu.
– Sim, eu sei, com toda certeza que quero e vou fazer Medicina, é a carreira, a profissão que sempre me vi exercendo, não me imagino fazendo outra coisa, mas quando digo que é difícil pensar no futuro eu não estou me limitando apenas ao futuro profissional, estou querendo dizer no geral, num todo.
– O que te preocupa? O que te deixa com medo do futuro?
Maura não entendeu, mas quando Jane fez aquela pergunta, sentiu um aperto esquisito no peito e um pensamento lhe ocorreu "Eu tenho medo que você não esteja no meu futuro", mas é óbvio que ela não responderia aquilo.
– O futuro me preocupa — Disse, e não era mentira, até porque não poderia mentir, só não estava dando a resposta completa. — Mas ele preocupa todo mundo. Tudo o que é desconhecido nos preocupa.
– É... mas além de estudar Medicina, o que mais você quer? Quer dizer, quais são seus sonhos?
De repente os olhos de Maura brilharam e ela se pegou imaginando um futuro muito distante e completamente fora da realidade que vivia. Conseguiu se enxergar uma médica de sucesso, morando numa casa grande e linda, ela tinha um cágado e estava cheirando as flores que ficavam espalhadas pela casa quando Jane entrou pela porta, chamando-a de amor e segurando na mão de duas crianças, que entraram correndo gritando "mamãe". Maura se assustou por ter visualizado aquela cena, naquele momento, pois tudo pareceu tão real, como se fosse até mesmo uma visão e ao mesmo tempo parecia loucura, pois ela e Jane eram só amigas.
Jane notou que a amiga estava em outro planeta, e chamou-a
– Maura?
– Oi?
– Vai, conte-me seus sonhos.
– Hum... deixe-me ver... — A loira sorria — Eu sonho em me casar no topo de um vulcão, usando um vestido de algum grande estilista famoso.
Jane soltou uma gargalhada.
– Em cima de um vulcão? Really? E se ele entrar em erupção?
Maura deu de ombros e não respondeu.
– Eu sonho em um dia conhecer meus pais biológicos... mas e você? Com o que você sonha?
"Com você", Jane pensou de súbito, e se sentiu envergonhada.
– Hum... já que fomos pro lado do casamento... caso um dia eu venha a me casar, queria casar no campo do Red Sox, usando o uniforme deles e queria que servissem cachorro quente ao invés daquelas frescuras todas!
Maura começou a rir, quase que sem parar, colocando as mãos na barriga.
– Eu quero ir no seu casamento. Com certeza vai ser engraçado.
– E quem disse que vou te convidar? — Olhou para Maura e fez uma careta, elas riram novamente e ficaram em silêncio.
Não demorou muito até que pegassem no sono e dormissem depois daquela conversa gostosa. Maura começou a ter um pesadelo no meio da madrugada. Era um sonho confuso. Não conseguia localizar o lugar que estava, nem se o conhecia ou não. Alguém, que ela também não podia ver, surgia e tirava Jane de perto dela, arrancando-a praticamente de seus braços e a levava embora. Maura ficava sozinha naquele lugar, desesperada. Enquanto sonhava, Maura se mexia toda na cama, sem parar e fazia barulhos, falava dormindo, chamava pelo nome de Jane que acordou e foi até sua cama, sentando ali na beirada.
– Maura? Maura? Acorda...
A loira se mexia sem parar e de repente acordou, num grito que assustou a morena. Maura estava descabelada, um pouco suada e completamente sem fôlego, os olhos arregalados, estava assustada, o sonho lhe pareceu tão real que não soube explicar o alívio e a felicidade que sentiu ao ver Jane ali, diante de si, ao alcance de suas mãos.
– O que aconteceu?
– Você tá aqui mesmo? — Maura perguntou ainda desacreditada, colocando as mãos no rosto de Jane, que a olhava confusa — Graças a Deus... você não vai embora? Não vai me deixar? — Lágrimas começaram a escorrer de seus olhos.
– Claro que não, Maura. Eu nunca vou te deixar... — Ela abraçou a loira, que se apertou fortemente no corpo de Jane — Que aconteceu? Você teve um pesadelo?
– Tive... era horrível, Jane... você ia embora... alguém te tirava da minha vida... — Disse, soluçando, permitindo-se chorar agora livremente, não só por causa do pesadelo. Aquelas lágrimas serviam como desabafo para tudo que estava sentindo durante todos aqueles meses, toda aquela angústia de não saber lidar com suas emoções. — Eu não posso te perder, Jane... não posso...
A morena abraçava Maura de maneira forte, querendo lhe mostrar que estava ali por ela, para ela e que não iria embora nunca. Que aquilo era apenas um sonho ruim. E quanto mais Maura se apertava contra ela, e dizia aquelas coisas, carregada de emoções, mais isso mexia com o coração da morena que também não se aguentava mais por segurar por tanto tempo seus sentimentos.
– Eu estou aqui com você... — Sussurrou no ouvido da loira.
Aos poucos o choro foi cessando, Maura foi se acalmando, enquanto elas permaneciam abraçadas de forma firme. Quando tiveram coragem de desfazer o contato, para poderem por fim se encararem, estavam muito próximas. Os olhos verdes de Maura avermelhados, transmitindo uma emoção inenarrável para Jane, que olhava para Maura com um brilho único no olhar.
Jane então ergueu suas mãos e tocou o rosto da loira. Seus polegares delicadamente secaram as lágrimas que ali ainda estavam e logo passaram a fazer uma carícia leve e gostosa nas bochechas de Maura, que fechou os olhos e deixou um pequeno sorriso transparecer em seus lábios. Era tão bom sentir o toque de Jane, por mínimo que fosse. Quando Jane a tocava parecia que simplesmente tudo ao redor desaparecia, que nada era tão insuportável assim.
Maura abriu os olhos novamente e voltou a encará-la, estavam ainda mais próximas. As respirações alteradas, ambas sentindo o hálito quente uma da outra. Seus narizes quase se encostavam. Maura ergueu suas mãos, trêmulas e tomou coragem de tocar o rosto de Jane também. O coração das duas batendo alto, como se quisesse gritar alguma mensagem para elas. Não sabiam bem o que estavam prestes a fazer, se aquilo era realmente o certo, se isso não iria ocasionar problemas depois, se isso podia ou não mudar tudo. Não pensaram em nada. Não mediram as consequências. Jane estava cada vez mais próxima, seus lábios e isso parecia tão certo para Maura... assim como parecia certo para Jane.
Seus lábios se encostaram lentamente. Jane nunca havia beijado ninguém antes e não sabia ao certo como era isso. Maura havia sentido os lábios de alguém encostando aos seus antes, os de Brian, mas foi algo totalmente diferente e sem emoção, e que não teve continuidade para se tornar um beijo. Se afastaram e elas se olharam, nos olhares era perceptível o medo, as incertezas e ao mesmo tempo o sentimento, o desejo. Encostaram os lábios novamente e então fecharam os olhos. Maura tomou a cabeça para o lado direito e Jane para o esquerdo, encaixaram seus lábios e lentamente a língua de Jane pediu espaço na boca de Maura, que lhe concedeu na mesma hora. O beijou aconteceu. O primeiro beijo das duas. Um beijo lento, calmo, tranquilo e ao mesmo tempo urgente. Um beijo de descoberta, um beijo de adolescente, um beijo de casal apaixonado, um beijo com gosto de primeiro amor. Primeiro e único amor.
"Tudo o que eu sabia esta manhã quando acordei
É que sei alguma coisa agora
Sei alguma coisa agora que eu não sabia antes
E tudo o que eu vi desde 18 horas atrás
São olhos verdes, sardas e o seu sorriso
Na minha mente fazendo com que eu me sinta bem."
O beijo ainda era "discreto", delicado. Ambas estavam descobrindo a arte de beijar, ou melhor, a arte de se apaixonar. Elas já estavam apaixonadas, mas só estavam se permitindo descobrir isso agora. E pela forma como o beijo seguia, era óbvio que ambas sentiam a mesma coisa e descobrirem essa arte juntas estava sendo maravilhoso.
Jane deslizou a mão direita para a nuca de Maura e a outra foi parar na cintura da garota. Maura envolveu o pescoço de Jane com seus braços e logo foi segurar nos cabelos rebeldes que tanto adorava e então o beijo se aprofundou. Suas línguas se entrelaçavam deliciosamente. Para quem nunca havia beijado antes, as duas beijavam muito bem.
Porque tudo o que eu sei é que dissemos "olá"
E os seus olhos têm jeito de quererem voltar para casa
Tudo o que eu sei é um simples nome, tudo mudou
Tudo o que eu sei é que seguramos a porta
Você será meu e eu serei sua
Tudo o que eu sei desde ontem é que tudo mudou.
Pararam de se beijar quando o fôlego faltou, mas continuaram próximas, naquele contato. Se olharam e ambas estavam assustadas, perdidas. Não sabiam o que haviam acabado de fazer.
– Maura, eu...
– Jane...
As duas não sabiam exatamente o que dizer ou fazer, estavam constrangidas, surpreendidas e ao mesmo tempo feliz. Acabaram sorrindo uma para outra. Um sorriso inédito, especialmente feito para aquele momento, para a intimidade do futuro casal.
– Faz tempo que eu queria te beijar — Jane começou confessando, soltando uma risadinha nervosa, seu coração batia tão alto que tinha medo que Maura pudesse ouvir. Agora suas duas mãos estavam na cintura da loira.
– E porque não beijou antes? — Maura sorrio e então encostou sua testa na dela — Eu também queria que isso acontecesse há muito mais tempo.
– Eu não beijei porque eu não sabia se você também sentia o mesmo em relação a mim... não sabia se você queria...
– Se você olhasse dentro dos meus olhos, saberia a resposta — Disse com aquele olhar penetrante e um sorriso doce nos lábios.
– Esse foi meu primeiro beijo...
– E o meu também, aquele selinho com o Brian definitivamente não contou — As duas soltaram uma risada.
Maura olhou para baixo, mais precisamente para o toráx da morena e viu o peito subindo e descendo, ela estava muito nervosa. Maura então levou a mão direita e colocou pouco a cima do seio esquerdo, sentindo as batidas fortes e rápidas do coração da morena.
– Seu coração, Jane... está disparado... — Sussurrou baixinho, afastando suas testas, mas mantendo seus rostos próximos.
– Por sua causa... — Sussurrou de volta, com um sorriso. Maura retribuiu com um sorriso ainda maior, segurou-a pelo rosto e a beijou novamente sem pensar em mais nada. Só queria que aquele momento durasse para sempre.
Notas finais
Que acharam? Até o próximo!
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