R&I - Wish You Were Here
18 Capítulo 17 - Feliz Aniversário.
Notas iniciais
Uma longa semana passou. Os dias eram tão lentos e melancólicos. Jane não queria perder as esperanças pois elas eram a única coisa que a mantinham em pé, mas ainda assim aquele vazio que havia conversado a respeito com Alex, antes de tudo aquilo acontecer, havia voltado. Era um vazio devastador, pior até do que o vazio que sentiu ao longo daqueles anos, porque mesmo na ausência de Maura e sem compreender porque ela havia ido embora, Jane sabia que fosse onde fosse e como fosse, Maura estava viva e enquanto ela estivesse viva, as chances estariam ao seu favor e elas poderiam se reencontrar, como aconteceu, e tudo voltaria a ser como era antes.
Agora, ali, naquela cama, desacordada e respirando com a ajuda de aparelhos, Jane tinha suas dúvidas e já sentia um vazio que só quem perdeu permanentemente alguém pode sentir. Um vazio doloroso, cheio de saudade, de angústia e de desespero que nunca mais poderá ser preenchido, pois a pessoa amada já não faz mais parte desse mundo. Mas Maura ainda fazia.
Cavanaugh deu dispensa para a morena. Ele sabia que ela não conseguiria trabalhar. Na verdade ela não estava conseguindo fazer mais nada que não fosse ficar no hospital esperando Maura acordar. Ela dormia todos os dias, desconfortavelmente, no sofá do quarto de Maura e só ia para sua casa tomar banho e cuidar de Jo e depois retornava ao hospital.
Mesmo tendo que trabalhar, sempre que podia, Alex passava no hospital para visitar Maura. Korsak e Frost foram duas vezes. Sua mãe passava por lá todos os dias e sempre levava algo gostoso para animar Jane a comer, mas ela quase sempre rejeitava e quando aceitava, comia bem pouquinho.
Jonathan também foi visitar Maura várias vezes, até levou flores e chocolate suíço. Alex e os outros levaram cartões. Estava tudo em cima de uma pequena mesinha que havia no quarto.
Naquela sexta-feira à noite, Jane mesmo estando completamente cansada, o corpo sobrecarregado por ter ficado a semana toda sem receber alimento direito e estando dormido tão desconfortavelmente, Jane mesmo estando tão abatida e fraca, mostrava-se forte e não conseguia dormir. Ela não conseguia dormir porque assim que o ponteiro do relógio indicasse meia noite, ela completaria 31 anos. Era seu aniversário. Seu segundo aniversário "ao lado" de Maura. E o primeiro depois que ela havia retornado para sua vida. O quão dolorosamente irônico aquilo poderia soar? Finalmente Maura estava ali do seu lado novamente, mas desacordada, como se estivesse sem vida.
Naquela madrugada de sábado, chovia. Não uma chuva torrencial mas sim uma chuva leve e fina. Ventava forte lá fora. Um vento gélido e quase congelante. Jane estava com um casaco, porque mesmo dentro do quarto com ar condicionado, ela sentia frio. Estava em pé, olhando pela janela, seus pensamentos tão longes dali... repletos de lembranças.
Há doze anos atrás.
Era aniversário de Jane. Ela simplesmente detestava fazer aniversário porque ele nunca acontecia da maneira como ela esperava. Quando ela estava completando cinco anos de idade, cheia de expectativa, ela esperava ganhar uma ferrovia de brinquedo. Era o que ela mais queria. Ver os trenzinhos andando de um lado para o outro sempre que ela quisesse, apenas por um comando. Mas como ela não ganhou esse presente e sua mãe ainda por cima fez uma festa cheia de coisas cor de rosas, Jane se traumatizou.
– É sério, Maura. Eu não quero presentes, não quero festa, não quero nada. Nem precisa tocar nesse assunto — Jane dizia à namorada uma semana antes.
– Por que isso, Jane? Vai ser seu aniversário! Todo mundo ganha festa, presentes e no mínimo um "parabéns". Não entendo.
– Eu já te expliquei uma vez porque não gosto de fazer aniversário. É traumatizante. Nada sai da forma como eu gostaria. Fora que eu detesto festas porque minha ma chama uns parentes insuportáveis que nem ao menos gostam de mim. Só sabem fazer perguntas estúpidas, me constrangerem e darem presentes ruins!
Maura soltou uma risada.
– Como você reclama, Jane. É impressionante sua mania de reclamar de tudo.
– Não, é sério! Aquelas festas eram horríveis... você precisava ter visto ano passado minhas tias italianas gritando de boca aberta enquanto mastigavam salgadinhos! — Dizia indignada e a namorada soltou outra gargalhada.
– Ok. Parando para imaginar a cena, deve ter sido bem desagradável. Mas qual é, Jane. Sábado é seu aniversário e eu não vou deixá-lo passar em branco. E duvido que sua mãe deixará. Você conhece bem dona Angela.
Jane deitou completamente na cama e encostou a cabeça no colo da namorada, que estava sentada, com às costas na cabeceira.
– Essa é a pior parte... minha mãe vai querer fazer alguma coisa, alguma festa, mas eu não quero!
– Jay, você disse que não gosta de fazer aniversário porque ele nunca sai da forma como você espera. Se ele pudesse ser do jeito que você quer, como você gostaria que ele fosse?
Como ela nem desconfiava das intenções de Maura, olhando para o teto, ela começou a dizer:
– Primeiro eu iria querer um bolo de chocolate com morango enorme só pra mim, sem ter que dividir com aquelas tias gordas e histéricas! — Maura riu, enquanto levava suas mãos para acariciar os cabelos de Jane — Eu não iria querer festa, nem mesmo com minha família, porque eles iriam querer ficar me abraçando e eu detesto isso. Eu iria querer passar só com você, num lugar onde ninguém nos encontrasse. Mas isso é meio impossível.
– É, como eu disse, sua mãe não deixaria passar em branco...
– Pois é — Disse meio desanimada.
Ao longo da semana, sem que Jane soubesse, Maura organizou todo seu plano para o aniversário dela. Primeiramente, comprou dois ingressos para um jogo do Red Sox que aconteceria no meio da tarde, provavelmente no horário em que Angela resolveria fazer à festa. Maura comprou um uniforme do tamanho de Jane e ficou horas rodando alguns shoppings até encontrar a ferrovia de brinquedo mais completa, linda e cara.
Na sexta-feira, no fim da tarde, Maura foi buscar na confeitaria um bolo enorme e muito bem feito de chocolate, com vários morangos suculentos em cima.
Angela avisou Maura da festa surpresa que faria, e prontamente à loira ficou encarregada de tirar Jane de casa logo cedo e só trazê-la de volta às 15:30h para a festa, mas ela não faria isso.
Jane mal acordou e Maura estava em sua casa, esperando-a. A morena ficou surpresa ao vê-la ali, então tomou banho e se trocou rapidamente. Estranhou ninguém lhe dar parabéns. A família talvez não tenha dado por causa da festa surpresa que Jane tinha certeza que estavam preparando, mas Maura não ter lhe dado parabéns, foi realmente estranho.
Maura, que estava usando um dos carros de seus pais, porque ela havia aprendido a dirigir assim que completou seus dezesseis anos, levou Jane para almoçar no Mc Donald's — depois de correrem no parque -, escolha da morena, é claro, e Maura não ofereceu resistência nenhuma e nem reclamou da gordura do lanche. Até comeu com ela, o que a surpreendeu. Depois Maura levou Jane para sua casa. Seus pais estavam viajando para variar.
– Agora você vai tomar um banho e vestir a roupa que eu vou deixar embrulhada em cima da cama.
– Roupa embrulhada? Eu não posso ficar com as roupas que eu estou? Eu sei que minha mãe preparou uma festa surpresa e que você só vai me levar pra lá na hora certa — Jane disse, sentindo-se esperta, pisando no primeiro degrau da escada da mansão.
– Espertinha demais você, dona Jay. Mas é sério. Sobe, toma um banho no meu quarto e quando sair a roupa vai estar em cima da cama. Me obedeça!
– Ok — Ela revirou os olhos e se virou para subir às escadas.
– Ei, espera.
Jane virou, emburrada.
– O que foi?
– Esqueceu disso — Maura subiu um degrau e na ponta dos pés ela conseguiu alcançar a boca de Jane, dando um leve beijo em seus lábios — Eu te amo.
Jane subiu e foi tomar banho. Era engraçado porque só o banheiro do quarto da Maura já era quase metade do seu quarto. Elas eram tão diferentes. Seus mundos eram tão diferentes e nada disso as impedia de se amarem, de viverem, de compartilharem suas vidas, seus medos, seus sonhos. Elas realmente eram feitas uma para a outra.
Assim que saiu do banho se espantou ao encontrar o uniforme do Red Sox na cama. Tentou chamar por Maura, mas ela não respondeu e nem apareceu. Não teve outro jeito a não ser vestir o uniforme. Jane desceu às escadas com cara de boba.
– Maura... porque você me fez vestir o uniforme do Red Sox? Aliás, esse uniforme é novo... é pra mim? — A loira assentiu com um sorriso enorme ao ver a namorada descendo às escadas.
– Eu quero te levar em um lugar, vem comigo! — Esticou a mão para ela e Jane segurou ao chegar no último degrau.
Jane olhou no relógio, já dentro do carro, enquanto Maura dirigiam e era quase 15:00h.
– Esse não é o caminho da minha casa, Maur.
– E quem disse que estamos indo para sua casa?
– Onde estamos indo?
– Adivinha!
– Não me diga que... — Sua ficha começou a cair e ela ficou histérica — VAMOS VER O JOGO DO RED SOX?
– Sim!
Assim que chegaram no estádio, Jane mal conseguia se aguentar de tanta felicidade e euforia. Nunca imaginou que Maura a levaria. A loira até assistia com ela as vezes os jogos na televisão, mas era à primeira vez que iam juntas ao estádio. Assistiram o jogo e Jane ficava explicando tudo para Maura, que continuava sem entender e apenas vibrava junto de Jane, que gritava feito louca. No final das contas, Red Sox ganhou e elas comemoraram comendo cachorro quente.
Depois daquela bela partida, o que para Jane já havia sido um presente de aniversário, ela pensou então que finalmente Maura fosse levá-la para casa e que ela teria que aguentar aquelas festas chatas mas se surpreendeu ao ver à loira fazer o caminho de volta para sua própria casa.
– Não é o horário da minha festa ainda? — Jane a olhou curiosa quando desceram do carro.
– Na verdade ela já começou há algumas horas — Maura confessou segurando o riso.
– Really? E você me raptou e me levou pro jogo do Red Sox? — Perguntou fingindo espanto.
– Por quê? Foi uma má ideia? Você não gostou?
– Eu amei, Maura! Qualquer coisa que não fosse ir naquelas festas me deixariam feliz. E ir no jogo do Red Sox com você, então, foi meu maior presente!
– É, mas esse não é o meu presente pra você.
– Ah, não? E o que é, então?
– Vem — Ela esticou a mão para Jane, que segurou e foram andando pelo enorme jardim.
Jane nunca havia visto, porque ficava na parte de trás da mansão e Maura não havia lhe contado, mas ela tinha uma casa na árvore. E não era qualquer casa na árvore porque ela era uma Isles e tinha sempre o melhor. Era uma casa da árvore maior do que às normais.
– Eu nunca pensei que você tivesse uma casa na árvore.
– Claro que sim. Acha que eu não tive infância? E mesmo agora, eu ainda gosto. Sabe que eu não sou muito sociável, que me acostumei a ser só, então é um ótimo refúgio.
– É, pensando por esse lado... Mas o que viemos fazer aqui?
– Eu quero te mostrar algo.
Maura subiu na frente pelas escadinhas até o andar onde estava a casa da árvore. Esperou Jane subir e a ajudou, segurando em sua mão e logo a soltou.
– Entra.
Jane olhou para Maura e ela sorria como se estivesse aprontando alguma coisa. A morena sentia-se ansiosa. Detestava surpresas mas aquela tinha cara de ser das boas. Abriu a porta da casa e entrou. Ela era realmente grande para uma casa da árvore. E estranhamente tinha uma decoração simples se comparada a tudo que pertencia ao mundo de Maura. Jane piscou lentamente e parecia não acreditar. Sua cara a mais boba possível. Viu o bolo, exatamente o bolo que havia dito que queria, em cima de uma mesinha e no chão, no centro da casinha, uma ferrovia enorme estava montada, completa, com casinhas e tudo, parecendo mais uma cidade. E já estava ligada, porque os trenzinhos se moviam sem parar, como se fossem de verdade. Jane sentiu seus olhos marejarem e logo às lágrimas rolavam livremente pelo seu rosto. Ficou sem palavras, até que se virou para Maura.
– Você fez isso pra mim?
– Fiz — Disse timidamente, com um pequeno sorriso. — Feliz aniversário, Jay.
Elas se abraçaram com força. Jane não sabia se ria ou se chorava, mas logo conteve suas lágrimas, pois era um dia feliz, um mês feliz, um ano feliz. Ao lado de Maura só conseguia ser feliz.
Na pequena mesinha, a empregada de Maura havia deixado tudo arrumado certinho. Dois pratos, dois garfos, a espátula para cortar o bolo. Quando Jane cortou o bolo de forma rápida, Maura indagou:
– Deu tempo de fazer seu pedido?
– Eu não preciso pedir nada. O que eu mais quero na vida, eu já tenho. Você!
Dias atuais.
Jane abriu um pequeno e sofrido sorriso ao se lembrar daquele aniversário. Foi um dos dias mais felizes de sua vida. Nunca se divertiu tanto e foi tão surpreendida, positivamente. E ela tinha razão naquilo que havia dito para Maura. Não precisava pedir nada de aniversário, porque ela já tinha seu maior presente.
De repente a chuva lá fora cessou. Já estava quase amanhecendo. Ela havia passado a madrugada toda acordada, perdida em pensamentos inquietantes e em memórias consoladoras. Se afastou da janela e então foi se sentar do lado da cama de Maura, numa poltrona que haviam colocado ali para ela. Ficou olhando para Maura. Mesmo num leito de hospital, ela continuava tão perfeitamente linda. Levou sua mão esquerda e tocou o rosto dela delicadamente. Por um instante levantou da poltrona e se inclinou sobre ela, beijando sua testa.
– Hoje é meu aniversário e se eu pudesse fazer um pedido e ele ser atendido, eu pediria que você acordasse, que voltasse pra mim — Sussurrou baixinho e em seguida voltou a se sentar.
Segurou na mão de Maura imóvel e então se debruçou levemente na coxa dela, deitando a cabeça ali. Estava tão cansada que já estava quase adormecendo quando sentiu a mão de Maura apertar a sua. Foi um aperto leve, mas conseguiu senti-lo. Tinha certeza que Maura havia apertado sua mão. Ficou completamente assustada. Ergueu a cabeça devagar e olhou para o rosto de Maura.
– Maura? Maura, você consegue me ouvir?
Ela apertou a mão de Jane com mais força e de repente suas pálpebras se abriram devagar e novamente Jane pôde ver aqueles olhos verdes, aqueles lindos olhos verdes que lhe davam paz.
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