R&I - Wish You Were Here

17 Capítulo 16 - Amizade Verdadeira


Notas iniciais
Um capítulo pequeno e sem tantas emoções para ninguém morrer do coração depois do último. Boa leitura.

A ambulância corria descontroladamente pelas ruas de Boston, a sirene fazendo alarde e sendo trilha sonora daquele acontecimento trágico. Cada instante era decisivo para Maura.

Assim que estacionou na frente do hospital, os enfermeiros desceram depressa a maca da ambulância e vários outros enfermeiros, assim como um médico, apareceram, vindos de dentro do hospital.

O médico fez algumas perguntas num tom alto para os enfermeiros, que respondiam, enquanto empurravam a maca hospital adentro e Jane apenas seguia, desesperada, sem ouvir direito nada do que eles falavam. Sua mente estava à milhão. Ela pensava em tudo e ao mesmo tempo em nada.

Olhava para Maura, desacordada, ferida, pálida e quase sem vida e sentia como se o mundo estivesse desmoronando em sua cabeça, como se o céu estivesse caindo. Ela mal conseguia respirar. Estava quase precisando de uma máscara igual da loira.

– Sinto muito senhora, mas você não pode passar daqui — Um dos médicos, moreno e alto, avisou, olhando-a nos olhos por um momento.

Estava acostumado a lidar com aquele tipo de cena praticamente todos os dias. Era sempre assim. Quando alguém era baleado ou muito ferido e levado para o hospital na ambulância com alguém próximo ou um parente, a pessoa não queria se separar da vítima, com medo que fosse a última vez que a veria.

Mas quando olhou nos olhos escuros, quase negros, cobertos de um desespero inimaginável, o médico sentiu que seja lá quem à loira baleada fosse, significava muito para aquela mulher.

– Por favor... eu não posso deixá-la sozinha... eu não... — Ela mal conseguia falar, a voz rouca saía falhada, Jane estava tão trêmula. — Me deixe assistir do lado de fora, eu prometo que não farei nada, que não contarei a ninguém... eu sou detetive do Departamento de Homicídios de Boston.

– Você é a Detetive Jane Rizzoli que falaram nas reportagens? — Ela assentiu — E essa mulher que foi levada para a sala de cirurgia é a Dra. Isles? — Outro assentimento. Todos a conheciam desde que o caso V se iniciara. Elas foram filmadas na cena do crime e mostradas nas televisões. — Tudo bem, eu vou deixá-la assistir. Venha comigo...

Ela não entendia absolutamente nada do que estava acontecendo lá dentro e nem poderia ouvir os murmuros dos médicos, um falando com o outro. Estavam todos com seus uniformes, suas luvas, tocas e óculos. Maura estava estendida na maca e todos eles a rodeavam, com suas ferramentas, tentando salvar sua vida, removendo sua bala.

Jane estava usando um jaleco verde, suas roupas além de estarem cheias sujeiras e bactérias ainda estavam manchadas de sangue. Ela era separada da sala onde Maura estava sendo operada apenas por um vidro que lhe dava toda a visão do que estava acontecendo.

A cirurgia de Maura era complicada. A bala atravessou o peito, numa região próxima do coração e por pouco não a matou imediatamente. Se eles conseguissem removê-la sem causar nenhum dano as suas artérias, talvez, ela pudesse sobreviver. Mas para isso eles precisavam fazer seu trabalho com calma e contarem com a sorte.

Não sabia dizer por quanto tempo ficou ali, em pé, agoniada, os olhos vidrados em Maura naquela mesa e por mais que os médicos não parassem suas atividades, Jane não via diferença do começo da cirurgia até aquele instante. Não podia ouvi-los e não entendia nada do que estava acontecendo. Mas parecia que a situação era bem delicada.

Não, ela não queria pensar no que seria de sua vida se Maura morresse. Ela se recusava sequer pensar nessa hipótese. Ela só se concentrava na pequena esperança de que Maura estava sendo operada, e que assim que removessem a bala, ela ficaria bem e tudo voltaria ao normal.

Jane viu um dos médicos com alguma coisa que ela não fazia ideia do que era, conseguir retirar a bala de Maura e soltou um suspiro de alívio, ficando mais fácil de respirar naquele momento, mas ainda apreensiva, com um nó na garganta.

De repente ouve uma alteração na máquina interligada à legista e os barulhos que saiam da mesma eram mais altos e contínuos, os médicos ficaram em alerta e começaram a se mover rapidamente. Jane não entendia nada do que estava acontecendo, mas entrou em desespero, pois agora conseguia ouvi-los, pois falavam alto.

– Nós estamos perdendo a paciente...

– Os batimentos estão diminuindo.

– Desfibrilador...

Jane estava começando a ser tomada por um pânico ainda maior, esfregava suas mãos sem parar e sua vontade era de invadir a sala, de socar aquele vidro, mas o que ela poderia fazer?

De repente um enfermeiro surgiu ao seu lado, tocando-a no braço.

– A senhora não pode mais ficar aqui, venha comigo, por favor — Ele disse delicadamente, após ver que o estado de Maura estava se agravando. Jane não poderia assistir.

– Não, eu não posso ir, não posso deixar Maura sozinha — Lágrimas começaram a rolar pelo seu rosto e ela encostou as mãos no vidro, o enfermeiro tocou-a nos dois braços e a puxou.

– Por favor, senhora, são ordens. Eu estou apenas cumprindo-as. Você não pode fazer nada por ela agora. Deixe os médicos fazerem.

Jane não teve tempo de dizer nada, e nem o enfermeiro de tomar nenhuma medida drástica para tirá-la dali, diante o que viram a seguir: O coração de Maura parou de bater, indicou o aparelho, no momento que sua linha inquientante, que sempre subia e descia, tornou-se reta e aquele barulho — aquele maldito barulho — ecoou e parecia tão alto que quase explodiu os ouvidos de Jane, que não acreditava no que estava vendo.

– NÃO! MAURA, NÃO! NÃO! — Ela gritou, tomada pelo desespero, seu coração doendo de uma forma que era como se ela tivesse tomado um tiro e não Maura.

– Senhora... — O enfermeiro não tinha reação diante do estado dela, sua sorte foram que mais dois enfermeiros apareceram e com cuidado e gentileza, seguraram-na e levaram-na para fora, sem muita dificuldade, pois Jane caiu num pranto tão alto e doloroso que não conseguiria lutar com quem quer que fosse. Não havia mais luta. O coração de Maura havia parado, e parecia que o seu estava prestes a parar também.

Ela foi retirada dali e levada para uma sala vazia, pois não estava em condições de ficar numa sala de espera normal, na presença de outras pessoas. Os enfermeiros ofereceram remédios, foram carinhosos e solidários, ofereceram água, café, mas ela não queria nada além de Maura naquele momento. Não conseguia sequer dizer "não, obrigada", apenas movia a cabeça.

Assim que Jane saiu, os médicos começaram um processo de reanimação em Maura com um desfibrilador. Tentaram duas vezes, e nada. A esperança estava esvaindo nos olhos dos próprios médicos e enfermeiros presentes, sentindo que estavam perdendo uma das mulheres mais inteligentes e especiais, a legista-chefe do estado, quando na terceira tentativa, ela voltou a respirar, seu coração voltou a bater fortemente, fazendo aquela linha subir e descer, como se formasse montanhas na tela do aparelho. Os médicos sorriram, aliviados. Ela estava viva.

O mesmo médico que recepcionou Maura em sua chegada e que permitiu o acesso de Jane para assistir a cirurgia foi até a sala conversar com a morena, que estava muito abatida, o rosto inchado de chorar, mas agora sem lágrimas.

– Com licença, Detetive Rizzoli. Terminamos a cirurgia agora. Como você pôde acompanhar antes de vir para cá, Maura teve uma parada cardiorrespitatória num ritmo cardíaco que chamamos de assistolia, que é quando há uma ausência de ritmo cardíaco, ocorrendo uma interrupção da atividade elétrica do músculo cardíaco. O coração parou de bater mas nós conseguimos reanimá-la.

Se não estivesse sentada, com certeza ela teria caído. Suas pernas estavam trêmulas, mas não apenas elas. Todo o seu corpo. Foi como se naquele momento todas suas esperanças ressurgissem, toda aquela dor insuportável de minutos atrás indo embora.

Ela mal podia acreditar.

Piscou devagar, algumas vezes, encarando o médico simpático e de semblante tranquilo, trazendo calmaria para quem quer que fosse conversar com ele.

– E como ela está, Doutor? Ela está bem? Ela... quando ela vai poder ir para casa?

Ele realmente não queria ver o entusiasmo e esperança nos olhos da morena morrendo, mas não poderia deixá-la alimentar esperanças falsas.

– Embora nós tenhamos conseguido reanimá-la, e retirar a bala, seu caso ainda é grave. Maura perdeu bastante sangue. Eu sinto dizer isso, mas ela está em coma e as possibilidades dela acordar são tão grandes quanto as dela não sobreviver, Jane — O médico estava realmente triste em dar aquela notícia, vendo novamente o rosto da morena tornar-se uma fusão de angústia e medo.

Naquele momento não havia mais nada que ela poderia fazer além de rezar.

Quando Jane chegou na sala de esperas convencional, sua mãe, Jonathan e Alex estavam ali. Todos preocupados, desolados. O médico havia dado a notícia para eles também. Assim que viram a figura da morena com suas roupas naquele estado, os cabelos mais desgrenhados, o sangue grudado nas mãos, o rosto inchado, os olhos sem brilho e avermelhados, ficaram ainda mais comovidos. Não sabiam como consolá-la.

Em silêncio Angela se aproximou, parando na frente dela, tentou abraçá-la mas Jane recuou, olhou-a e apenas balançou a cabeça negativamente.

Jonathan, que chorava, mas de maneira bem mais discreta do que Jane anteriormente, se aproximou. Não era tão íntimo da morena como era de Maura, mas já tinha um carinho muito especial por ela e pelo bem que a mesma fazia para sua melhor amiga.

– Mesmo delicada, elegante e graciosa, Maura é uma mulher forte. Você sabe disso, Jane. Ela vai ficar bem. Vai acordar, vai... — Ele sentia mais lágrimas tomarem seu rosto e não conseguiu continuar. Jane apenas o encarou e então ele se afastou, não poderia dizer nada que fosse consolar Jane e nem a si próprio. Estava morrendo de medo que a amiga morresse.

– Jane, minha filha, agora que já tive a notícia de Maura, eu preciso ir para casa, seu irmão Tommy está sozinho cuidando do TJ e você sabe como ele é desastroso. Você não quer dormir lá conosco essa noite? Posso preparar uma comida gostosa e...

– Não, ma, obrigada. Eu vou ficar aqui essa noite.

– Mas Jane, você está toda suja, abatida e Maura está desacordada. Não fará diferença.

– Eu não quero deixá-la sozinha!

– Não se preocupa senhora Rizzoli — Alex se aproximou, pondo a mão no ombro da senhora — Eu vou ficar aqui e cuidarei da Jane. Pode ir tranquila — Olhou-a de uma forma que passou segurança para Angela.

– Tudo bem. Eu pedi para o hospital me manter informada de qualquer mudança no quadro clínico da Maura, mas se algo acontecer, eu prefiro que vocês me liguem dando notícias.

– Pode deixar.

Angela olhou novamente para a filha, sentindo um aperto no coração ao vê-la daquela maneira, antes de sair. Jonathan foi embora logo em seguida. Ele detestava hospitais e estava realmente abalado com o ocorrido. Ele era tão delicado quanto uma mulher, senão mais, e Maura bem o sabia. Não estava acostumado a perder ninguém e não queria que Maura fosse à primeira naquela lista.

– Você precisa pelo menos tomar um banho, porque ficar suja e fedendo desse jeito não dá. Vamos pro seu apartamento.

– Eu já disse que quero ficar aqui com a Maura!

– E quem disse que você não vai ficar? — Alex a olhava séria — Só estou te dizendo pra irmos pro seu apartamento pra você tomar um banho e trocar de roupa. Depois voltamos pra cá.

– Porque você vai comigo?

– Você prefere ir sozinha, dirigindo?

– Não. Não tenho cabeça pra isso.

– Foi o que eu pensei. Eu te levo. Vamos.

Alex levou Jane para seu apartamento. Respeitou o silêncio dela no caminho. O clima não era dos melhores mesmo. Enquanto Jane tomava banho e se trocava, Alex recebeu uma ligação de Frost, que estava com Korsak e Frankie na delegacia.

Dentro do carro, na volta ao hospital, Alex disse:

– Frost me ligou. O revólver do crime já foi encaminhado para confirmação das digitais. Matthew está preso e parece que ele surtou depois do que aconteceu, não diz mais coisa com coisa e age como se fosse louco. Ele terá que passar por umas avaliações médicas para saberem se ele tem algum problema psicológico, se não tiver, será levado para um presídio de segurança máxima.

Jane não disse nada. Ela olhava as ruas pelo vidro fechado. Via alguns carros, pessoas e nada do que via fazia muito sentido em sua mente. Ela prestou atenção no que Alex disse, mas não importava. Qualquer coisa que fizessem com aquele assassino doente era pouco e não mudaria a situação de Maura. Nada mudaria.

De volta ao hospital, como Jane ainda não poderia ver Maura, que estava na UTI, ficaram sentadas em uma sala vazia. As horas se arrastavam sem que nenhuma das duas se desse conta. Jane estava devastada. A única coisa naquele momento que a mantinha ali, firme, era o fio de esperança que Maura fosse acordar e que tudo fosse voltar ao normal.

Ali, sentada, fitando o nada, suas lembranças iam voltando...

Há doze anos atrás.

Depois que todos no colégio souberam que Maura e Jane estava namorando, mesmo que alguns desconfiassem pela proximidade delas, ficaram bastante surpresos e isso as deixou ainda mais em foque.

Maura era excessivamente inteligente e muito bonita, duas coisas que só pareciam ficarem ainda mais em evidência com os meses passando. E ela não era do tipo de pessoa que ficava remoendo nada e nem guardando rancor dos outros.

Certo dia, Brian procurou-a para se desculpar. Ele a encontrou sozinha perto da biblioteca numa troca de aula e com toda sua sinceridade, ele pediu desculpas. Maura aceitou cordialmente. Não haveria motivos para ser diferente. Mas isso jamais significaria que ela daria outra chance a ele. Essa hipótese nem estava sob questão.

Mas Jane era ciumenta demais para entender isso.

– Porque eu te vi conversando com o babaca do Brian, Maura? — Foi a primeira coisa que ela perguntou ao se aproximar da loira que estava, para variar, na biblioteca.

– Porque ele veio falar comigo — Respondeu ela, simplesmente, olhando para os livros na estante, nem sequer desconfiando que Jane estivesse brava por causa disso.

– Ele foi falar contigo e você deu bola? — Sua voz demonstrava indignação — Estou falando com você!

Maura virou e a encarou, suavemente.

– Jane, foi uma conversa de cinco minutos. Ele veio me pedir um conselho em relação à uma garota.

A morena colocou as mãos na cintura e riu, ainda mais indignada.

– Te pedir conselhos em relação à uma garota? Aquele imbecil te humilhou na frente de todos naquela festa e agora você está dando conselhos a ele? E desde quando Brian quer conselhos? Ele sempre conseguiu a garota que queria.

– Já superei isso. Devemos esquecer o passado. Ele veio me pedir desculpas recentemente, como eu te disse, e eu desculpei. Você não parecia ter ficado tão incomodada.

– Porque ele só foi te pedir desculpas e pronto. Agora ele quer virar seu amiguinho? Isso é inaceitável.

– Acho que você está irritada demais sem motivo algum. Foi só um conselho!

– Primeiro ele te pediu desculpas e agora vem com esse papo de conselhos pra uma garota. Eu acho que ele está arrependido é de ter perdido uma garota como você e agora quer correr atrás do prejuízo — Ela estava bastante irritada e falava alto. Sorte que aquele horário a biblioteca estava sempre vazia.

– Jane, isso não tem lógica nenhuma!

– Pra mim tem, Maura! Ele pode ter brincado com você da primeira vez porque era um babaca e não te conhecia, mas agora que ele sabe que além de linda você é uma garota especial, ele pode estar querendo te conquistar de verdade! E o que me deixa mais puta da vida é que você está dando espaço pra ele fazer isso.

– Eu estou o que? — Maura a olhou séria — Você só pode estar brincando. Eu não sei se as intenções dele são inocentes como eu pensava ou se são essas que você está dizendo, mas seja o que for, eu não estou dando espaço para ele fazer nada! Eu só fui gentil em respondê-lo. Apenas isso.

– "Só fui gentil em respondê-lo" — Imitou, revirando os olhos e dando às costas a Maura, saindo andando pelo vasto corredor dos livros científicos.

Maura não sabia se estava mais indignada com as acusações sem fundamento da namorada ou se com o fato dela ter acabado de imitá-la e dado às costas — coisa que ela detestava. Jane era muito impulsiva e cabeça quente. Quase nunca pensava antes de falar ou fazer as coisas quando estava irritada e isso era um problema, porque Maura sempre pensava mil vezes antes de falar e mesmo irritada ela tentava sempre ponderar suas palavras para não machucar Jane, o que não era recíproco.

– Você é muito mal educada. Sabe que detesto que me deem às costas enquanto eu falo!

Jane parou de caminhar no espaço entre o segundo corredor e se virou para Maura.

– E eu detesto essa sua mania de gentileza com todo mundo, especialmente com babacas que só querem te comer!

Maura apertou os olhos, irritada.

– Eu detesto esse linguajar! Porque você acha que todos os rapazes que se aproximam de mim só querem "me comer"? Sou tão pouco interessante assim que as pessoas só podem ter interesse sexual em mim? É isso? — Naquele momento Jane já estava arrependida de suas palavras.

Definitivamente Maura era muito mais do que apenas atraente fisicamente. Ela era incrível. Qualquer pessoa, independente do sexo, se apaixonaria por alguém como Maura. Jane sabia disso e era por isso que tinha tanto ciúme.

– Claro que não, Maura. Não interprete errado o que eu te falo.

– Você pode interpretar errado todas as minhas ações e eu tenho que interpretar certo suas palavras, Jane Rizzoli?

– Eu não estou interpretando nada errado! Só fico com receio... esse cara... esse babaca. Se você aceitou sair com ele uma vez, é porque alguma coisa você deve ter sentido. Eu te conheço e sei que não sairia com alguém à toa, menos ainda deixaria ser beijada se não sentisse nada. E eu fico morrendo de medo que ele queira mesmo te reconquistar, que ele tenha mudado. Porque ele é bonito, rico, do mesmo nível que você e ainda por cima homem. Não teriam que enfrentar nenhuma dificuldade e facilmente seus pais aprovariam o namoro de vocês. Já comigo as coisas...

– Então você acha que só porque ele é rico, "do mesmo nível" que eu e porque as coisas com ele seriam "mais fáceis", eu deixaria você por ele? — O olhar de Maura pesou sobre Jane. — É isso o que você pensa de mim? Que sou fútil e covarde o suficiente para ter uma atitude imbecil dessas?

– Não foi isso que eu quis dizer... — Jane estava ficando angustiada, mordeu o lábio inferior. Sabia que Maura se magoava fácil com suas palavras e que quando isso acontecia, ela ficava fria por longos dias.

– Mas foi exatamente o que você disse.

O clima ficou ainda mais tenso e pesado. Elas se encaravam e Maura não conseguia acreditar que depois de tudo que já haviam vivido ainda pudesse restar qualquer sombra de dúvidas na mente de Jane em relação ao que ela sentia por ela.

– Desculpa.

– Não. Você só disse o que pensava.

– Não é isso o que eu penso, Maura.

– Se você disse, é porque você pensou nisso, ainda que por um instante, você pensou. E se você pensa isso ao meu respeito, é porque você definitivamente não me conhece, tão pouco conhece o amor que eu tenho por você — Os olhos verdes piscaram e duas lágrimas rolaram pelo rosto de Maura, causando um pânico em Jane. — É melhor você arranjar outra namorada, já que você não acredita em mim.

Maura se virou para ir embora, já com seus olhos querendo transbordar em mais lágrimas e sentiu a mão de Jane segurar em seu braço e puxá-la.

– Maura, não fala isso nem de brincadeira... eu não quero outra namorada. Ei, olha pra mim — Virou-a para si e com a outra mão ergueu o rosto dela pelo queixo — Eu sou uma babaca que não mede as palavras e vive te magoando com elas, mas eu sei do seu amor, eu sinto ele. E eu também te amo. Me desculpa...

Maura não respondeu nada, apenas ficou a encarando com aquela carinha, até que Jane a abraçou com força e ela correspondeu, encostando a cabeça no ombro da morena.

Dias atuais.

Passaram à noite toda ali, sentadas, sem dizerem uma palavra, sem se moverem, sem irem para outro lugar. Cada uma concentrada em seus próprios pensamentos, em suas próprias angústias. Jane estava curiosa em saber porque Alex passou todo aquele tempo ali na sala de espera com ela, já que todos sabiam que Maura estava em coma e ninguém fazia ideia de quando ela acordaria, se acordaria. Claro que Jane sabia que Alex era amiga de Maura. Haviam se conhecido muito tempo antes de Alex virar detetive e se aproximar de Jane, mas pelo que ela havia entendido depois do episódio do hospício, elas só se reencontraram agora, então não possuiam um laço tão forte quanto de Jonathan e Maura, que por sua vez, havia ido para casa. Mas Alex estava ali.

– Eu sou mais parecida com a Maura do que eu pensava — Alex disse de repente, olhando para o chão.

Jane a olhou, ela estava em outro sofá, distante do seu.

– Somos bem diferentes em personalidade e fisicamente, claro, mas temos algo em comum: Maura sempre foi muito sozinha e eu também. Mesmo com esse meu jeito todo descolado, sempre fazendo amizades, saindo pra festas e curtições, eu sempre fui sozinha. Nunca tive ninguém do meu lado que se importasse realmente comigo, nem mesmo os meus pais...

Jane ouvia cada palavra com curiosidade e atenção, mas não interrompia.

– Mas Maura teve sorte, porque mesmo órfã e adotada por pais egoístas e imbecis, e sendo rodeada por pessoas idiotas que a julgavam só pela inteligência, ela teve sorte. Porque encontrou um amigo de verdade, que se importa com ela, que está presente na vida dela e teve mais sorte ainda por ter encontrado você — Finalmente ela virou e encarou os olhos da morena.

– Por causa da Maura, essa mulher maravilhosa e tão boa, eu estou tendo a sorte de descobrir o que é ter amigos de verdade. Além dela, nesse tempo todo, estou conhecendo melhor e aprendendo a gostar do Jonathan e de você, mesmo nós três parecendo grandes opostos. Somos todos idênticos. Percebe isso? Nós três somos idênticos porque temos algo em comum maior do que nossas diferenças de temperamento e de qualquer outra coisa: Nós amamos a Maura. Nós nos importamos com ela!

A voz de Alex era emocionada assim como seus olhos claros. Se Jane não estivesse tão triste como estava, ela teria sorrido. Ao invés disso, olhou daquela forma que Alex bem conhecia e assentiu com a cabeça.

– Eu gosto de você e do Jonathan. E temos isso em comum. Mas em especial, eu te admiro pra caralho. Admiro você e a Maura. A relação de vocês. Eu admiro o amor que vocês possuem. Que é o amor que eu e acredito que todo mundo queira. O amor de vocês é um exemplo pra mim. E se eu pudesse, eu queria fazer o que você faz pela Maura, pra uma garota que um dia eu possa vir a amar. Se eu pudesse, eu queria ser igual a você.

Pela primeira vez na vida Jane viu Alex Vause, a mulher ousada, sexy e que dá em cima de todas as mulheres, emocionada de verdade. Duas lágrimas rolaram pelo rosto dela e Jane sentiu o impacto daquelas palavras, o sentimento, a sinceridade. Ela também havia aprendido a gostar de Jonathan e de Alex. Gostava muito deles. Não só porque Maura gostava, mas porque a convivência fez com que ela os conhecesse melhor e aprendesse a gostar deles mesmo com as diferenças. Indiretamente Maura ensinou isso para os três, porque Maura mais do que ninguém era a pessoa mais diferente do planeta, e os três a amavam.

Tomada também por toda a emoção daquela noite, Jane sentiu os olhos molharem e num pulo levantou do sofá e Alex também, correram na direção uma da outra e se abraçaram com força, como duas irmãs.

Notas finais
Será que Maura vai acordar? E Alex toda fofa declarando seu amor por Jane e cia? Adoro essas duas.