R&I - Wish You Were Here

5 Capítulo 4 - Mudanças e Desentendimentos


Notas iniciais
Não consegui esperar uns dias antes de vir escrever esse capítulo, eu realmente PRECISAVA. Adoro um drama e as coisas foram fofinhas até agora, então... Aí está :3

Não pensei em música melhor para representar esse começo de capítulo do que The Scientist - Coldplay, que aliás é uma das músicas que me inspirou a escrever a história da fic.

Jane beijou Maura porque faziam doze anos que não a via. Doze anos que não a beijava, que não a sentia, que não tinha notícias sobre ela, que não sabia por onde ela andava, se estava viva ou morta, se estava bem, se estava feliz. Faziam doze anos que Maura simplesmente parecia não existir mais em sua vida, embora a presença dela permanecesse como a de um fantasma lhe assombrando por todos os seus dias e noites.


Enquanto se beijavam, as duas sentiam as lágrimas rolarem pelo seus rostos. A emoção que as dominava era sem explicação. Uma emoção que só quem passasse pelo mesmo que elas entenderia. Há doze anos atrás elas se amaram pela primeira vez, ainda adolescentes, ainda tão jovens, cheias de medos, incertezas e sonhos. Se amaram de uma forma tão profunda que marcaram a alma da outra de forma permanente. Uma cicatriz delicada e ao mesmo tempo dolorosa que só o amor poderia deixar e que o tempo não conseguiria apagar.

Jane, que tomou a iniciativa do beijo foi quem também tomou a iniciativa de pará-lo, soltando Maura de repente. Elas se olharam nos olhos, haviam tantas coisas por de trás do olhar de cada uma. Maura queria falar tanta coisa para Jane mas não sabia se deveria, não sabia se faria diferença, não sabia nem ao menos se Jane iria querer ouvi-la, afinal, ela havia magoado muito à morena com o seu sumiço. Esperou então que ela tomasse a iniciativa de dizer algo, mas Jane apenas a encarava, séria, e então balançou a cabeça negativamente, se virou e saiu correndo no meio das pessoas até a saída da boate.



– Eu não acredito nisso, não pode ser verdade — Falava atordoada para si mesma enquanto empurrava quem atravessasse seu caminho, querendo sair o mais rápido possível daquele lugar, sem pensar em Lauren, sem pensar em mais nada.



Quando finalmente alcançou a saída, só então viu que estava chovendo muito em Boston. Com o barulho excessivo das músicas, não dava para ouvir lá de dentro. Caía uma chuva torrencial, mas isso não seria empecilho para a morena, que se pôs em baixo d'água, sentindo a chuva molhar-lhe por inteira, como se lavasse sua alma e começou a caminhar lentamente pela calçada. Inevitavelmente um filme inteiro começou a passar em sua mente, tão rápido que a fazia ficar tonta e sem fôlego. Passou as mãos pelo rosto até os cabelos, já encharcados e além das gotas da chuva, as lágrimas não paravam de molhar seu rosto.


– Jane — Parou de andar, congelada, ao ouvir novamente aquela voz chamando seu nome. Maura havia ido atrás dela, estava também em baixo da chuva, sem se importar com mais nada. — Jane, eu nunca pensei que fosse te encontrar aqui, eu...

– Não — Ela respondeu alto, estavam sozinhas na rua, já era tarde e por conta da chuva as pessoas estavam todas recolhidas — Você não vai falar.

Maura a olhou um pouco surpresa, mesmo estando de costas, ela imaginava como seria a expressão da morena. Sabia o quanto havia machucado-a, o quanto ela devia estar ainda magoada. Entendia isso e entenderia também o que quer que fosse que ela lhe dissesse. Nada seria pior do que Maura havia feito com ela.

Mesmo assim, ela não conseguia controlar seu impulso de falar.

– Eu sei o quanto você deve ter sofrido, sei que você deve estar ainda muito magoada comigo, irritada, furiosa, qualquer adjetivo do gênero que possa explicar sua frustração e dor — Começou a dizer, dando um passo a frente e então Jane se virou, o que a fez parar.

– Não! Magoada? Irritada? — Ela riu — Isso é... isso é muito pouco. Isso não é nada perto do que eu senti. Magoada eu estaria se nós tivéssemos tido uma briga feia por crises de ciúmes como nós costumávamos ter. Magoada eu estaria se você não atendesse meu telefonema quando eu tentasse me desculpar por ter sido tão grossa com você. Irritada eu estaria se você levasse pro nosso piquenique uma cesta cheia daquelas porcarias verdes que você comia ao invés dos sanduíches de pasta de amendoim que eu gostava. Irritada eu estaria se você mudasse o canal da televisão na hora do jogo do Red Sox. Eu ficaria magoada, Maura, se você sumisse por um dia depois de uma briga. Mas não... — Ela deu um pequeno sorriso em meio as lágrimas que corriam pelo seu rosto, e encarava Maura, que também chorava — Você não sumiu por um dia depois de uma briga. Você simplesmente desapareceu para sempre sem nenhuma briga, sem nenhuma razão, sem nenhuma porra de um motivo! — Gritou, sentindo a raiva tomar conta de si. — Tem ideia do que é isso, Maura? Você tem ideia do que você me fez?

Maura não ousava interrompê-la para dizer nada. Cada palavra de Jane era como um soco em seu estômago, uma facada no peito. Podia sentir a dor dela, e pior, a sua própria dor retomando com forças ainda maiores que na época. Mesmo ela não tendo sido a abandonada como a Jane, ela também havia sofrido muito. Ir simplesmente embora da vida de Jane foi a coisa mais dolorosa que fez em toda sua vida. Ainda se lembrava de quando entrou no avião, sentou em sua poltrona ao lado da janela e as lágrimas caíam de seu rosto de uma forma incontrolável. Maura sabia naquele momento que seu coração estava partido e que ninguém além de Jane poderia juntar os pedaços e reconstruí-lo.

A loira passou as mãos pelo rosto, tentando secar as lágrimas, mas era inútil. Elas não parariam de cair, assim como a chuva, que parecia ficar cada vez mais forte, como se o céu estivesse chorando por tudo. Por tudo que aconteceu, por tudo que perderam naqueles anos, por tudo que poderiam ter sido e não foram, por tudo que poderiam ter feito e não fizeram.

– Eu não sei o que você pensa sobre isso, não sei porque diabos você fez aquilo, mas eu te amava! Eu te amava de verdade! Eu podia ser nova, praticamente uma criança, mas aquilo não era uma brincadeira, não era uma diversão e eu sei que você sabe disso! Eu te amava e teria dado minha vida por você, eu teria feito qualquer coisa pra ter te segurado nos braços por mais um minuto naquela maldita sexta-feira em que você desapareceu... — Jane mal conseguia falar, sua voz rouca ia ficando falhada pelas lágrimas, seu choro agora era ainda mais sofrido, soluçava. Virou de lado, fechou a mão em punho e pôs na testa por alguns instantes.

– Me perdoa... me perdoa... — Maura começou a dizer sem parar, soluçando também, chorava como uma verdadeira criança. Não havia dor maior do que ver Jane daquela maneira e saber que ela havia causado toda essa dor. Ela sabia com certeza que a morena sofreria quando ela foi embora, porque eram namoradas, porque se amavam, mas nunca imaginou que ela sofreria tanto e que duraria todos aqueles anos. Achou que Jane já havia superado, mas pelo visto estava enganada. — Por favor... não fica assim, Jane...

Ela se aproximou e tocou o braço da morena, que se esquivou de forma bruta, olhando-a com um ódio nos olhos que assustou Maura.

– Eu sei que você está mais do que magoada, que está arrasada, que tem motivos de sobra para me odiar, mas Jane... nós nos reencontramos... você me beijou, eu te beijei, estamos aqui e isso significa que ainda sentimos alguma coisa e nós poderíamos...

– NÃO! Nós não poderíamos! — Berrou. — Doze anos, Maura. Doze anos não são doze meses, não são doze dias. Doze anos é muita coisa. É muito tempo. Você quebrou todas as promessas. Você não me viu me tornar uma policial, você não saiu da casa dos seus pais pra morar comigo como havíamos planejado, você não estava lá em casa, no final do dia, quando eu chegava exausta do trabalho pra me contar como havia sido o seu dia na faculdade. Você não estava lá quando eu fui atacada por um psicopata que atravessou minhas mãos com um bisturi. Eu não estive na sua formatura da faculdade, não estive ao seu lado nos momentos mais importantes da sua vida, mas não porque eu não queria, mas sim porque você quebrou todas as promessas! Você foi embora. Então não venha me dizer que nós poderíamos fazer qualquer coisa agora, porque nós não podemos!

As duas estavam descontroladas. Nenhuma delas esperava por esse reencontro. Nenhuma delas estava preparada. Maura não conseguia agir pela sua cabeça naquele momento. Toda sua razão havia ido embora. Só existia ela e Jane naquele momento, e ela não conseguia se enxergar como era agora. Ela se enxergava como a Maura de doze anos atrás, uma adolescente boba, descobrindo a vida e completamente dependente de outro ser humano.

– Jane, eu te amo! — Disse sem pensar, mas com toda a sinceridade do seu coração — Eu ainda te amo... eu acho que eu não consegui deixar de te amar nem por um minuto sequer durante todos esses anos. Eu te amo tanto quanto naquela época, senão ainda mais! E o pior é que não faço ideia de como isso é possível...

Jane fechou os olhos, apertando-os e sentiu uma dor ainda maior ao ouvir Maura dizer que a amava. Estranho porque durante todos aqueles anos o que ela mais queria era que Maura surgisse de repente em sua frente e dissesse que a amava e agora que isso acontecia, ela sentia uma dor tão profunda.

Abriu um sorriso irônico, assim como os olhos e a encarou novamente.

– Não, você não me ama. Você não sabe o significado da palavra "amor". Não sabe o que é amar alguém.

Foi a última coisa que disse, antes de virar de costas e sair andando em baixo da chuva, sem rumo, sem direção. Maura continuava chorando sem parar, desesperada, seu rosto ficando todo vermelho.

– Jane! Jane! — Ela berrava, e a morena continuou seguindo, não sabia para onde estava indo, só sabia que estava indo e cada grito que ouvia Maura dar chamando seu nome, era uma pontada em seu peito. — Jane...

Maura caiu de joelhos na calçada, estava tonta, desnorteada, seu chão havia sumido. Ela nunca pensou que reencontrar Jane fosse resultar em tudo isso. Seu corpo todo tremia. Ficou olhando Jane desaparecer numa esquina qualquer e então se pôs chorar ainda mais.

Jonathan que já havia dado por falta da amiga, saiu da boate com um guarda-chuva preto e assim que avistou Maura saiu correndo.

– Maura, meu Deus, o que você está fazendo aqui jogada no chão? Meu amor, o que você tem? — Ele ficou assustado ao ver o estado dela, cobriu-a com o guarda chuva, segurando-o com uma mão e a outra tirou rapidamente o casaco que estava usando e jogou sobre os ombros dela. — Você está bem? — Ela balançou a cabeça negativamente, não conseguia responder nada. — Eu vou te levar para casa, vamos embora daqui.

[...]

Maura não conseguiu dizer uma palavra o caminho inteiro. Mesmo em casa, ela não abriu a boca. Tomou um banho quente e demorado para tirar toda a friagem que havia pego em seu corpo. Jonathan lhe preparou um chá de camomila.

– Isso vai te fazer se sentir um pouco melhor — Ele disse, carinhoso, entregando a xícara a ela, que estava sentada no sofá agora com uma manta em seu colo.

– Obrigada, Jonan. — Ela abriu um pequeno sorriso que logo se desfez, tomou um gole do chá. Ele sentou ao lado dela.

– Se não quiser me dizer hoje o que aconteceu, eu não vou insistir. Só quero que saiba que estarei aqui minha diva para o que você precisar.

– Eu encontrei com ela — Ele a olhou surpreso e ainda não havia entendido, então Maura virou o rosto e o encarou — Eu encontrei com a Jane.

– O quê? Como assim?

– Ela estava na balada. Na hora que eu fui no banheiro esbarrei com ela e então nós nos beijamos.

– Oh meu Deus! Eu não acredito! Sério? — Ela assentiu — E depois?

– Ela saiu em silêncio da boate e eu fui atrás dela na rua e eu tentei falar, tentei explicar, mas ela não me deixou dizer nada. Ela desabafou tudo que devia ter guardado todos esses anos. Me disse coisas que eu preferia nunca ter escutado... — Disse com uma carinha triste e já sentia os olhos marejarem novamente — Doeu muito ter ouvido tudo aquilo, mas eu sei que ela tem razão. Eu mereci ouvir. Eu a machuquei muito.

– Mas você não teve culpa, Maura! — Ele viu duas lágrimas rolarem pelo rosto da amiga e então pegou suas duas mãos, virando-se mais para ela ali no sofá — Você não teve culpa, minha querida. O que você poderia fazer? Você era menor de idade, seus pais te obrigaram a ir para a Inglaterra, o que você podia fazer? Não tinha como você ficar de qualquer forma, sabe disso.

– Eu sei, mas eu poderia ter contado a ela...

– E que diferença você faria se tivesse contado? Ela sofreria do mesmo jeito, você iria embora do mesmo jeito. Não haviam escolhas. Você preferiu ir embora sem dizer nada porque não queria magoá-la tanto e não queria magoar a si mesma, porque sabia que não conseguiria se despedir de Jane. Você fez o melhor.

Maura abaixou o rosto e mais lágrimas rolaram. Jonathan tinha razão. Era exatamente isso. Ela não conseguiria se despedir de Jane. Então, fez a escolha que achou mais fácil para ambas.

– Jane não pensa assim.

– Ela não pensa assim agora porque está com raiva, mas quem sabe nas próximas conversas ela não te ouça...

Maura soltou uma risada e o olhou.

– Próximas conversas? Eu nem sei se vou vê-la de novo. Acha que depois da discussão ela me passou seu número de celular ou o endereço da sua casa?

Ele ficou em silêncio e fez uma cara de pesar. Definitivamente se soubesse que tudo aquilo aconteceria naquela noite, jamais teria levado Maura naquela boate.

[...]

Jane chegou em casa de madrugada e nem ao menos sabia que horas eram. Não se importava. O tempo era irrelevante naquele momento. Estava toda encharcada. Foi recebida por uma Jo inquieta, que latia e lambia sua calça, como se quisesse falar com ela, como se soubesse que não estava bem. Mas Jane a ignorou, assim como estava ignorando todas as ligações que Lauren fazia em seu celular. Ela só queria ficar sozinha por algum tempo, se desligar do mundo e esquecer de tudo. Só queria que todos a deixassem em paz.

Acabou adormecendo no sofá, com a mesma roupa úmida da noite anterior que já havia secado. Acordou morrendo de dor de cabeça ao som dos latidos de sua cadela.

– Deus do céu... que dor de cabeça, parece que estou de ressaca... — Resmungou ao abrir os olhos, olhou para o chão e Jo estava do lado do sofá, latindo. — O que você quer? Estou atrasada? — Olhou no relógio pendurado na parede e se assustou, dando um pulo do sofá. — Mas que merda!

Correu tomar um banho rápido e trocar de roupa, não podia ir para a central com aquela cara toda amassada. Era quase 12h. Jane estava mais do que atrasada.

Pegou seu celular e viu além de mais chamadas de Lauren, duas chamadas de sua mãe e uma mensagem de Korsak, dizendo que ela havia perdido a apresentação da nova médica-legista do departamento. Melhor do que se tivesse ocorrido um assassinato naquele meio tempo.

Saiu de casa apressadamente e foi direto para a central.

– Onde você estava Jane Clementine Rizzoli? — Oh, não. Jane fez uma careta ao ouvir a voz da mãe, estava de costas para ela, havia entrado sorrateiramente na cantina para pegar um café na garrafa térmica — Porque não chegou no horário de sempre para tomar o seu café da manhã? Eu havia deixado preparado suas panquecas felizes.

– Thanks ma, mas eu não preciso de panquecas felizes hoje — Respondeu com um sorrisinho irônico ao se virar.

– Porque você chegou atrasada no trabalho?

– Como sabe se eu cheguei atrasada ou não?

– Você sempre vem pegar o café logo que chega.

Ela revirou os olhos.

– Compre café no caminho hoje.

– Não minta pra mim, Jane. Não sabe que é pecado mentir para os pais?

– Bom, então eu irei pro inferno...

Definitivamente Jane estava com um humor ácido naquela manhã de quarta-feira. E não era para menos. Saiu da cantina e subiu direto para o escritório. Assim que entrou recebeu olhares estranhos de Frost e Korsak.

– O que foi? Que há de errado comigo? — Ela olhou para suas próprias roupas, que havia trocado após o banho. Estava preocupada que alguém pudesse enxergar algum vestígio nela do que ocorreu na noite anterior.

– Nada, só não é normal você se atrasar para o trabalho — Korsak comentou, num tom casual.

– Sempre tem a primeira vez pra tudo, não é? — Disse com um sorrisinho, sentando em sua mesa.

Korsak e Frost se entreolharam e decidiram não falar mais nada. Jane estava visivelmente estranha. Mais mal humorada do que o normal e ninguém se arriscaria a fazer pergunta nenhuma.

Cavanaugh entrou na sala de repente.

– Detetive Rizzoli, aí está você...

Jane trincou os dentes. Só o que faltava ela levar uma bronca por chegar atrasada.

– Senhor, me desculpe pelo atraso, eu...

– Não se preocupe, Rizzoli. Não quero falar exatamente do seu atraso, embora ele tenha a ver com o que quero te dizer. É só que você perdeu a apresentação da nossa nova legista-chefe, como ela irá trabalhar especialmente com vocês, acho que você deveria ir até o necrotério lhe dar às boas vindas.

– Claro senhor, irei agora mesmo! — Disse, se levantando.

De repente o telefone tocou, Frost atendeu e desligou rapidamente.

– Temos um assassinato.

As apresentações ficariam para outra hora.


Quando Maura chegou na homicídios e foi apresentada aos detetives, eles disseram que faltava uma colega deles que estava atrasada, mas não mencionaram seu nome. E ainda que na noite anterior Jane tivesse falado no meio de todo o seu desabafo que havia se tornado detetive, definitivamente Maura era lerda demais para ligar uma coisa com a outra. Ela não imaginava que Jane fosse uma das detetives do departamento.


Quando Jane chegou a cena do crime com Korsak e Frost, que por um acaso era em um parque, já havia uma multidão de fotógrafos e jornalistas curiosos atrás da linha amarela, além dos peritos que já faziam busca por todo o tipo de evidência.

Quando se aproximaram do cadáver, que era de uma mulher bonita, com os braços decepados e marcas pelo pescoço e pelo resto do corpo.

– Meu Deus, que horror — Jane disse, fazendo careta, até o cheiro que estava ali era horrível — Quem faria uma coisa dessas?

Frost olhou para o cadáver e quase vomitou, virou de costas e disse:


– Será que eu poderia...


– Sim, Frost, vá fazer perguntas as pessoas que passaram pelo parque e viram o corpo aqui.

Korsak e Jane soltaram uma risadinha, mas nesse caso era compreensível a reação de Frost. Definitivamente aquele era um assassinato muito nojento.

– Bom, e cadê a nossa legista-chefe nova? Espero que ela não demore anos na autópsia igual o Dr. Parker.

– Estou aqui — Maura tentou dizer com firmeza, após chegar e avistar de longe Jane ali e ter a certeza de que aquela coincidência toda de se reencontrarem e ainda por cima de terem que trabalhar juntas nada mais era que uma conspiração de mal gosto do destino.

Jane se virou ao ouvir aquela voz e avistou Maura, usando uma saia preta e um sobretudo vermelho que escondia sua blusa. Sentiu novamente o choque da surpresa, mas não tão forte quanto o de ontem. Sério que Maura era a nova legista-chefe do departamento onde ela trabalhava? Isso era um pesadelo ou uma brincadeira de mal gosto?

Korsak percebeu que elas trocaram um olhar estranho durante muitos segundos e nenhuma das duas se apresentou para à outra.

Maura cortou o contato visual, se abaixando perto do cadáver, abrindo sua bolsa preta e colocando rapidamente suas luvas para começar suas primeiras análises.

Jane esfregou suas cicatrizes, sentindo-se extremamente nervosa, olhou para os lados, para o céu, mordeu o lábio inferior e se perguntou mentalmente se Deus não estava fazendo uma sacanagem com ela, mas resolveu se conter. Do jeito que as surpresas naquelas últimas 24 horas estavam sendo, era melhor não desafiar qualquer entidade que fosse. Já havia aprendido que sempre dava para piorar.

– Hum... — Jane se aproximou mais do corpo e olhou de canto de olho para Maura ali abaixada — Ela provavelmente morreu de hemorragia já que teve os braços arrancados.

– Decepados — Corrigiu Maura, num tom robótico e então olhou para Jane, tentando não transparecer nenhuma emoção — E não posso afirmar isso.

– Como não? Qualquer pessoa que tiver os dois braços decepados morreria.

– Sim, mas ela tem várias marcas pelo corpo, inclusive essa no pescoço que não posso identificar aqui se é de estrangulamento ou enforcamento. Ela foi decepada, mas isso não significa que essa seja a causa da morte.

Jane revirou os olhos, impaciente. Já havia até se esquecido do quão irritante Maura era. Não fazia suposições, precisava sempre ter certeza de tudo, com base na ciência.

Korsak observava as duas e achava tudo ainda mais estranho. Elas pareciam ter intimidade, como se conhecessem há anos, embora não tenham falado nada demais. E havia uma tensão nítida ali.

Frost voltou, usando luvas, segurando uma carteira, que era da vítima e na outra mão seu tablet.

– Sarah Porter, 32 anos. Solteira e advogada. Os cartões de créditos estão todos aqui, além de alguns dólares.

– Então não temos um latrocínio — Jane esfregou as mãos novamente — Se bem que isso era óbvio. Se alguém fosse roubá-la e no meio do caminho precisasse matá-la, pra que decepar os braços e fazer e espancá-la?

– Isso me parece um crime de ódio.

Maura continuava abaixada, examinando o cadáver minunciosamente. Assim era bom também porque não precisava encarar Jane e o fato de serem agora colegas de trabalho. Deixaria isso para mais tarde.

– Vejam — Ela apontou o indicador para às coxas da vítima que estava de saia, haviam machas evidentes de sangue.

– Ela foi estuprada — Jane disse.

– Há manchas castanhas-avermelhadas na parte interna das coxas e na genitália externa — Maura respondeu, erguendo o rosto e a encarando.

– Repito: Ela foi estuprada.

– Não posso fazer essa afirmação antes de fazer a autópsia.

– Deus, me dê paciência — Jane olhou para o céu, e Frost e Korsak se entreolharam.

– Já te disse que paciência é uma virtude — Maura deixou escapar a frase que entregava que elas se conheciam. Jane a olhou como uma expressão de "wtf?" e os dois detetives encarara-nas.

– Vocês já se conhecem?

– Não!

– Sim.

Jane encarou Emma, lançando-lhe um olhar furioso e Maura fez uma cara de incompreensão. Ela não podia mentir e também não via necessidade.

– De onde se conhecem? — Frost perguntou.

– Estudamos juntas no último ano do ensino médio — Jane disse sem entrar em muito detalhe.

– Eram amigas? — Korsak sugeriu, fazendo as duas se entreolharem tensamente.

– Não — Jane respondeu ainda mais séria, e Maura abaixou a cabeça e se levantou.

– O corpo já pode ser removido. Estou indo fazer a autópsia. Detetive Frost, quando eu obter alguma informação, te aviso — Passou pelos três mas não encarou Jane.

A morena tinha todo o direito de ainda estar magoada com Maura, mas a loira já estava ficando irritada com aquilo. Será que não podiam ser profissionais e fingir que nada havia acontecido pelo menos no trabalho? E não, não havia gostado nem um pouco de ouvir Jane dizer que elas não foram amigas, como se simplesmente tivessem sido apenas conhecidas quando na verdade haviam sido namoradas. Mas porque diabos estava se importando com aquilo? Foi há doze anos atrás.

[...]

– Que coincidência você e a Dra. Isles terem estudado juntas no colegial e agora trabalharem no mesmo lugar — Korsak disse assim que voltaram para o escritório.

– Nunca gostei de coincidências.

Jane estava em seu computador fazendo buscas em relação à vítima, enquanto Frost telefonava para os parentes. Ela só tinha mãe e irmã morando em Boston.

– É impressão minha ou senti um clima estranho entre vocês duas, Jane? Aconteceu alguma coisa? Vocês eram inimigas na época do colégio?

A morena ergueu o rosto na direção de Korsak, desacreditada.

– Você já foi menos curioso, sabia disso? Não aconteceu nada, ok? Nós apenas estudamos juntas. Esqueça isso e vamos resolver esse caso. Temos uma mulher com os braços decepados lá em baixo e você bem sabe como a mídia adora esse tipo de caso.

Ele apenas assentiu. Era melhor não tocar mais naquele assunto. Se deixou Jane tão irritada, definitivamente é porque tinha alguma coisa ali.

– Jane? Parece que a Dra. Isles descobriu alguma coisa, você poderia descer para ver o que é? A mãe e irmã da vítima acabaram de chegar, vou colher os depoimentos.

Jane respirou fundo, soltando o ar lentamente. Ela precisava se acalmar e focar naquele caso, esquecendo que Maura era sua ex namorada da adolescência que desapareceu sem se despedir e partiu seu coração. Precisava ser como sempre foi: uma profissional séria.

– Tudo bem, vou falar com ela.

[...]

Antes mesmo de entrar na sala, ainda pelo vidro, Jane pôde ver Maura de jaleco, luvas e os cabelos loiros presos num rabo de cavalo, quase debruçada sobre o cadáver, com uma expressão de concentração. Ela sempre foi inegavelmente linda, e agora, aos trinta anos, estava ainda mais. Mesmo com raiva, Jane não podia negar isso, pelo menos não para si mesma. Sem querer sorrio, mas logo desfez o sorriso ao abrir a porta e entrar na sala da autópsia.

– Novidades?

Maura se assustou ao ouvir aquela voz e encarou Jane, se recompondo rapidamente.

– Pensei ter chamado o Detetive Frost.

– Ele está ocupado recolhendo depoimentos. De novo: Novidades?

Maura deu de ombros. Se Jane queria agir assim, então ela agiria da mesma maneira.

– Ela morreu há três horas e não foi por ter sido decepada — Disse com uma expressão vitoriosa — Há espumas no nariz dela além de manchas de hipóstase se apresentando na metade inferior do corpo com maior intensidade nas extremidades dos membros, o que indica que foi asfixiada.

– Então ela foi asfixiada?

– Não.

Jane soltou um suspiro.

– Ela foi o que, então?

– Definitivamente ela foi enforcada.

– Ok — Jane se virou e ia sair da sala, mas Maura continuou falando.

– E ela foi estuprada. O exame ginecológico indicou isso.

Mesmo estando de costas, Maura sabia que Jane estava dando um sorrisinho, como se dissesse "eu não disse".

– Mas ela foi estuprada e decepada após ser morta.

Jane virou, com uma expressão de nojo.

– Porque fazer isso com ela depois de já estar morta?

A loira balançou a cabeça, ela não entendia isso também.

– Quando eu tiver mais alguma informação, te aviso.

Jane assentiu e saiu da sala rapidamente. Não queria ficar na presença de Maura sem que realmente fosse necessário. O clima estava muito tenso.

Quando Jane voltou lá para cima, Frost disse que a mãe e a irmã da vítima disseram que Sarah era lésbica e tinha uma noiva, o que tornou a situação mais interessante. Em quase todos os casos, o primeiro suspeito era sempre namorado(a)/marido(a).

Foram até o apartamento da noiva, mas não a encontraram. Na volta, Jane foi até a cantina tomar um café e sua cara estava péssima.

– Que aconteceu, Jane? — Frankie perguntou, se aproximando da irmã que estava sentada tomando um café. — Fiquei sabendo que o novo caso é meio punk.

– Se você chama de "meio punk" uma mulher decepada e estuprada depois de ser enforcada...

– Decepada e estuprada? Uou — Ele puxou a cadeira e sentou de frente para a irmã. — Tem algum suspeito?

– Bom, motivos concretos para suspeitar de alguém, não temos ainda. A mãe e a irmã disseram que ela tinha poucos amigos mas se dava bem com todos. A vítima, Sarah, tinha uma noiva. Acabamos de voltar do apartamento dela mas não a encontramos lá.

Angela se aproximou da mesa ao ver os filhos.

– Você está abatida, Jane. Já comeu alguma coisa hoje?

Frankie soltou uma risadinha ao ver a cara de Jane.

– Estou só umas horas sem comer, como posso já estar abatida?

– Você precisa se alimentar direito. Os dois, aliás. São policiais, vivem correndo de um lado para o outro atrás de bandidos e assassinos, precisam estar fortes e saudáveis.

– Não começa com esse discurso, ma... — Fez careta.

– Sua mãe tem toda razão, Jane — Maura disse, surgindo do nada na cantina, fazendo Frankie olhar para ela espantado, ele não sabia ainda que ela estava lá.

"Essa não", Jane pensou, abaixando a cabeça e fazendo outra careta.

– Maura? Você... por aqui... — Frankie se levantou, ainda espantado e ela sorrio para ele.

– Eu sou a nova legista-chefe.

Ele olhou para Jane, que revirava os olhos e olhava para outro lado. Agora ele estava entendendo porque ela estava tão nervosa.

– Parabéns, Maura! Quanto tempo... — Ele a abraçou, cumprimentando-a e Jane o olhou séria. Como ele podia estar recepcionando-a assim depois do que ela fez para Jane? Que traidor!

– Eu sabia que ela ia se tornar uma grande médica, e eu tinha razão. Agora é legista-chefe do Estado de Massachusetts! — Angela disse com um sorriso doce para Maura, que retribuiu e então Jane ficou ainda mais chocada. — Quer comer alguma coisa, querida? Eu preparo para você.

– Que parte da história eu perdi?

– Você chegou atrasada hoje, mas eu não. Eu me reencontrei com a Maura depois que ela foi apresentada a todos... — Explicou Angela.

– Ah, sei. E você preparou panquecas felizes para comemorar a volta da Maura pras nossas vidas! — Jane estava muito irritada. Será que só ela se lembrava que Maura havia abandonado ela e ido embora? Angela e seus irmãos só conheceram Maura porque ela era namorada de Jane. Deviam ficar do seu lado e não do lado da loira.

Maura ficou cabisbaixa. Não queria criar conflitos entre Jane e sua mãe.

– Vou trabalhar, as chamadas 190 me esperam! — Frankie disse, dando no pé em seguida. Ele que não ficaria no meio do fogo cruzado.

– Jane, não seja assim hostil. Maura vai trabalhar aqui, conosco, temos que tratá-la bem — Angela disse séria, repreendendo a filha.

– Tratar bem é uma coisa, agora essa sua recepção toda pra chegada dela me parece muito exagerada levando em conta a forma como ela desapareceu das nossas vidas — Disse, olhando para Maura, um olhar sério e penetrante.

– Angela, eu agradeço pela suas gentilezas, mas não se preocupe. Eu estou bem. Não quero criar problemas entre você e Jane. Só desci para tomar um suco, não imaginava que encontraria vocês reunidas. Não quero atrapalhar.

Ela se virou e saiu andando. Angela olhou séria para Jane.

– Que foi?

– Precisava falar assim? Viu a carinha dela quando saiu daqui?

– Really? Está realmente preocupada com a "carinha dela"? Ma, você se esqueceu do que ela me fez? Ela me abandonou há doze anos atrás!

Angela soltou um suspiro.

– É claro que não esqueci. Como eu poderia? Você passou meses trancada dentro de casa chorando, estava tão mal que não comia nem cachorro quente.

– Pois é, e agora você quer que eu fique feliz com o fato de ela ter aparecido do nada pra trabalhar aqui na homicídios?

– Ela me contou que vocês se reencontraram antes.

– O que? — Jane estava ainda mais irritada. Como Maura era boca grande! — Ela não podia ter feito isso.

– Já que você não me conta nada, pelo menos ela conta. Ela me disse tudo que aconteceu e eu acho que vocês deviam conversar.

– Eu não tenho nada pra conversar com Maura. Tudo que tinha pra dizer eu disse ontem! — Falou irritada e se levantou — E agora eu preciso trabalhar, porque tenho um homicídio pra resolver.

Angela balançou a cabeça negativamente e voltou ao seu trabalho. A verdade é que ela sempre adorou Maura. Era uma menina de ouro. Inteligente, sincera, gentil e carinhosa. E ela sabia que Jane e Maura se amavam verdadeiramente na época em que namoravam, e agora desconfiava que elas ainda se amavam e mesmo quando Maura foi embora daquele jeito, Angela não ficou com raiva dela. Só chateada, porque ela causou muito sofrimento em sua filha, mas Angela acreditava que existia algum motivo para que Maura tenha ido embora daquele jeito. E não sossegaria enquanto não descobrisse.

[...]

Quando Jane subiu como um furacão, mais estressada do que antes e se sentou de forma bruta e ficou bufando, enquanto pesquisava algo no computador, Korsak disse, tentando ser o mais delicado possível:

– Aconteceu alguma coisa, Jane?

– Aconteceu que hoje não é meu dia!

– Isso tem alguma coisa a ver com a Dra. Isles? — Frost se intrometeu na conversa.

– Como assim?

– Quero dizer, por vocês já se conhecerem e tudo mais...

Frost não era nem um pouco sútil como Korsak, e Jane o olhou desconfiada.

– Ainda não entendo como você pode deduzir que eu esteja estressada por já conhecer a nossa nova legista.

– Bom, é que...

Jane trincou os dentes.

– Foi o Frankie, não foi?

Não precisava responder. Pela cara de Frost já dava para saber. Mas que boca aberta! Em vinte minutos que Jane ficou lá em baixo tendo aquela discussão com a mãe e com Maura ele já havia corrido fofocar sobre sua vida particular. Ele não tinha esse direito.

– O que ele te disse?

– Só que vocês foram namoradas e a Maura desapareceu depois da formatura e nunca mais se virão.

Korsak arregalou os olhos, em espanto total e Jane então cobriu o rosto com as duas mãos. Ela iria matar Frankie. E depois iria se matar.

No final daquele dia que parecia não ter fim, Jane só queria chegar em seu apartamento e descansar. Lá não teria que lidar com sua mãe apoiando Maura, seu irmão fofoqueiro, seus colegas intrometidos e muito menos com Maura. Lá era o único lugar onde poderia se "esconder" da sua nova realidade que havia mudado drasticamente em menos de 48 horas.

O que ela não esperava era encontrar com Lauren na porta de seu prédio assim que chegou. Ela estava sentada nas escadarias e levantou com cara de poucos amigos ao ver Jane chegar.

– Eu acho que você me deve uma explicação depois de simplesmente desaparecer da boate, me deixando sozinha e não atender ou retornar nenhuma das minhas ligações.

Definitivamente aquele não era seu dia.

Notas finais
Eis a continuação do reencontro delas, meninas. O início do capítulo é só uma palhinha do drama que ainda rolará ao decorrer da história.